Crônico

Travesseiro

27 julho , 2010 · Deixe um comentário

Eu estava acostumado a acordar com apenas seu travesseiro ao meu lado. Minhas manhãs eram sem você, mas o fato dele estar ali me dizia que você iria voltar. Não se deixa um travesseiro em cima da cama se, em pouco tempo, alguém não for utilizá-lo. Eu acordava sem você mas sabia (e lembrava) que de noite você sempre estaria ali.

Hoje não. Quando acordei e percebi que você não estava, procurei por seu travesseiro, em vão. Não tê-la todas as amanhãs pareceu muito menor do que não ter seu travesseiro.

A ausência dele era a ausência da certeza que você voltaria. O travesseiro é a nossa âncora. Onde ele repousa, é ali que confiamos repousar. Sem ele, não há você.

Ao acordar sem seu travesseiro, acordei sem onde repousar.

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O beijo de Casillas

14 julho , 2010 · 2 comentários

Às favas o profissionalismo. Às favas as regras frias, e até desumanas, do jornalismo. Às favas o bom comportamento esperado e os protocolos. Sou campeão do mundo, salvei minha seleção e essa mulher linda não para de me olhar e de sorrir para mim. Não faz sentido tê-la ao meu alcance e me obrigar a manter distância. Não faz sentido falar nada, como se fosse uma desconhecida. Vem cá, minha nega:

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Paralelepípedo

1 julho , 2010 · 2 comentários

Já é clichê falar sobre desacelerar, diminuir o ritmo, ir com mais calma e tudo o mais que você sabe, se não, não seria clichê. Mas os clichês existem porque são verdadeiros, então é verdade. Tenho buscado desacelerar quando posso, ir com mais calma quando a sensação é de descer uma ladeira correndo e parecer que suas pernas não vão parar sozinhas, fazendo-o estatelar de cara ao final da descida.

A gente não se machuca mais, né? Estamos sempre com tanto medo da ferida que não nos arriscamos. Lembro de joelhos ralados, onde nem dava tempo de tirar a casquinha, já que o asfalto fazia isso por mim. Pensei nisso pois não foram poucas as vezes que caí de skate ou bicicleta e as palmas das minhas mãos ficaram no mínimo raladas para salvar alguns dentes e o nariz. É sadismo sentir saudade de ter as mãos avermelhadas e latejando (você ainda lembra da sensação?) pelo impacto no paralelepípedo? Ou é nostalgia de ter tempo para se machucar, ficar sarado e se machucar de novo?

Existe aquela velha piada de dois caras adultos que vão brigar e um diz para o outro “Só não bate no rosto, que amanhã eu trabalho”. Não podemos ficar doentes, nos machucar ou sofrer. O trabalho não deixa. Mesmo que você não vá para um escritório, trabalhe de casa ou seja freela, você tem coisas a fazer e não pode se dar ao luxo de ficar machucado. Acabamos diminuindo nossas feridas e, quando vemos, estamos deixando de lado as feridas dos próximos também.

Descendo a ladeira, a sensação de que as pernas não vão mais parar é uma delícia, ainda mais com o vento no rosto e a loucura de fechar os olhos. A queda ao final dela talvez seja iminente, mas mesmo assim nos entregamos. O problema é que não podemos mais nos dar ao luxo de subitamente pararmos ou arriscarmos uma queda. Simplesmente continuamos correndo porque, agora, não temos tempo para cair. E, pela primeira vez, essa brincadeira dá medo.

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Dunga, CBF e Globo

23 junho , 2010 · 25 comentários

A maioria dos jornalistas sempre mantém um certo cuidado quando vai falar de grandes corporações. Quando essas são Rede Globo e CBF, o cuidado é redobrado. Não acho que seja medo ou “rabo preso”, mas simplesmente é difícil saber o que são fofocas, teorias da conspiração e o que de fato acontece em reuniões fechadas dessas cúpulas.

(Para um resumo do que aconteceu entre Dunga, CBF e Globo, sugiro a leitura desse resumo, do Blog do Tão Gomes e uma atualização do caso pelo UOL Esporte.)

Minhas considerações:

1) A Globo tem preferência em apurações de casos sobre as outras emissoras e veículos, isso é fato. Assessorias de imprensa geralmente não negam pedidos de entrevistas do Jornal Nacional e/ou Fantástico justamente por saberem a quantidade de pessoas que assiste aos programas. Goste você ou não, é assim que tem sido nos últimos 40 anos.

2) O Dunga tem todo o direito de negar entrevistas, seja quem estiver pedindo. É como um professor em sala de aula. Há as regras do colégio, da diretoria, mas dentro da sala de aula, ele é quem diz como as coisas serão.

3) Sabendo que negar entrevistas (exclusivas ou não) para qualquer programa da Globo não é uma prática comum, espera-se, no mínimo, um incômodo por parte do repórter, do editor, do editor-chefe, do editor-executivo, do diretor de jornalismo etc que não estão acostumados com isso.

Agora, a parte onde as coisas começam a ficar complicadas:

a) Como veículo (ou profissional de um) você tem que estar preparado para que coisas assim aconteçam. Professores de jornalismo adoram dar exemplos de políticos que se recusaram a falar e, justamente toda a recusa, foi a matéria do jornalista. Ficar ofendido, achar um absurdo e querer queimar a imagem de quem fez isso com você é antiético.

b) Eu disse que o Dunga tem todo o direito de negar uma entrevista (dele ou dos jogadores), mas há jeitos e jeitos para se fazer isso. A postura de ataque e ofensa do técnico da seleção brasileira também é antiética e antiprofissional. Se ele tem um problema ou se incomoda com a Rede Globo (ou qualquer um de seus funcionários), perde toda a razão ao atacá-los de forma grosseira e xingando. Se ele tivesse dito apenas “Desculpem, mas os jogadores nem eu estamos dando entrevistas coletivas” – Mas o Ricardo Teixeira nos autorizou. “OK, mas mesmo assim, não vamos dar as entrevistas” e fim, não faria sentido o editorial lido por Tadeu Schmidt no Fantástico. Não teria acontecido grosseria nem nada. Do que Dunga poderia ser acusado? “Ele não falou conosco como fizeram todos os técnicos anteriores”? A Globo não faria isso, por saber que um veículo só é preferencial ao outro quando decidem agir assim com eles, mas que nenhum veículo de imprensa pode exigir isso, de quem quer que seja.

c) Assim como o professor na sala de aula, o diretor pode decidir tirá-lo do corpo docente do colégio e simplesmente acabar com esse problema pra ele. Porém, se o professor é competente, dá resultados, os alunos gostam dele, as outras classes também etc, e o professor chega pra conversar e não simplesmente sacar a espada, o diretor também não tomará uma atitude radical, já que também não quer se queimar.

No fim das contas, todos se queimaram. Dunga com a CBF, com a Globo e com os jornalistas que defendem a classe. A Globo com a população, que já tem uma visão conspiratória da emissora, além de se queimar com os jogadores e o (ainda) técnico da seleção, que sempre estiveram presentes nas câmeras do canal 5, dando audiência e trazendo a simpatia do povo. E a CBF, que precisa esperar o término da Copa para decidir o que fazer.

Agora, o que realmente me “diverte” é ver que em quatro anos o circo estará armado na nossa casa, onde também moram todos esses personagens. Vai ser uma história legal de ser acompanhada (e contada). Afinal, estamos aí para isso, né, pelas histórias.

(esse texto do PVC, da ESPN, complementa um pouco o meu pensamento)

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Lost, um conceito

28 maio , 2010 · 2 comentários

(texto com spoilers)

Depois de ter escrito meu texto de fã, no momento da emoção, vai mais um. Continua sendo de um fã, por isso é também uma explicação do porque considerar Lost tão bom e uma das melhores séries já feitas.

Nessa entrevista do Jimmy Kimmel, o apresentador diz acreditar que a história de Lost não é sobre a ilha, é sobre as pessoas. Mais especificamente sobre Jack Shephard. “Eles não responderam todas as perguntas”, algumas pessoas dizem. 1) Se você considerar que o tema da série eram os personagens e não a ilha, eles responderam todas as perguntas. 2) É clichê, mas o que é mais importante: conhecer novas perguntas ou saber todas as respostas?
“Cada pergunta respondida leva a outra”, diz a mãe de Jacob e do irmão. Se assim fosse, o seriado seria eterno, do tamanho de uma vida. Porque a vida é assim. Quantas perguntas suas já foram respondidas, desde “Posso ir jogar bola lá fora?” pra sua mãe, até hoje? E quantas você ainda tem? A nossa vida vai acabar e ainda não teremos todas as respostas. Se com a gente é assim, porque em Lost não seria?

Sim, eles não responderam por que Jacob e o irmão eram daquele jeito. É verdade, não responderam uma porrada de coisa. Mas a ideia não era essa. “Lost” não é porque estavam perdidos e precisavam de uma bússola. É porque estavam perdidos em si e precisavam de novas perguntas, as perguntas certas. Lost foi “Queremos contar uma história. Conheçam essas pessoas, da onde partiram e onde chegaram.”

Contaram uma história que todos sonhamos, de sermos especiais, de termos um propósito nessa vida. Uma história que nos conduza a isso. Porém, as circunstâncias nos perguntam, como a ilha fez com Jack, Sawyer, Kate, e Locke, e cabe a nós darmos as respostas. Nem todos são especiais, mas todos escolhem não apenas desempenhar, mas escrever seus próprios papéis.

Se JJ Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse conseguiram passar coisas assim por um seriado de TV norte-americano, não tem como dizer que devido a um último episódio sem todas as respostas o seriado perdeu valor. Pelo contrário. O último episódio foi que comprovou todo o valor que Lost teve ao longo desses anos. “Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?” Cabe a você fazer as perguntas. Se elas serão respondidas, é outra história.

Namaste.

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Texto publicado originalmente no Judão.

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The End

28 maio , 2010 · 2 comentários

Para ler ouvindo: Michael Giacchino, com o tema de Lost

(sem spoilers)

Texto de fã não é e nunca será imparcial. Dito isso, afirmo: fui e sou fã de Lost. Então serei exagerado na medida que me é possível, como fã, e na proporção que é esperada de alguém assim.

Lembro quando meu irmão chegou um dia e disse “Gá, você precisa ver esse seriado, sério. Muito bom!” Comecei a assistir do 3º episódio da 1ª temporada. Foi assim que conheci a AXN. A hora de Lost era sagrada em casa. Ninguém atendia telefone e se meu pai, coitado, chegasse em casa no meio do episódio, só ia receber um abraço quando aparecesse o robozinho vermelho do JJ Abrams.

No Twitter, comparei Lost ao Show de Truman, não o filme, mas o programa mesmo, dentro do filme. Velhinhas e suas almofadas estampadas com o rosto do Truman, o gordinho na banheira e as pessoas chorando e torcendo pelo Truman como se fosse um conhecido, um grande amigo. Minha comparação foi mais ingênua, dizendo que ao fim de Lost, viraríamos uns para os outros e diríamos: “Hum… o que mais está passando na TV?”

Ledo engano. Lost acabou de terminar pra mim e não quero ver, nunca mais, TV. Claro, é um exagero, mas eu disse que ele viria. A sensação, no momento, é de desamparo, como se eu fosse um órfão. E somos, eu e você, que era e é doente por Lost. É o fim de uma era. Quando comecei a assistir o seriado, morava com meus pais e cursava a faculdade. Hoje estou formado, saí de casa, casei e ontem estava tão ansioso para assistir ao último episódio como se tivesse começado a assistir à série na semana passada. Lost fez parte da minha vida.

A música tema, quase clássica, dessa temporada ainda está na cabeça e preciso me segurar para não chorar. Exagero? Dane-se. Decidi assistir sozinho ao The End, diferente do que foi o seriado inteiro, porque ninguém mais entenderia. Se eu choro com reportagem do Globo Esporte sobre a despedida do Juninho Paulista, que dirá no último episódio do meu seriado favorito.

É uma tristeza que tenha acabado, mas sei que não daria pra ser eterno e prolongar demais seria perigoso. Mas eu sou fã e não quero nem saber. Quero episódios especiais, extras, filme e o que mais for possível fazer. Aí eu lembro do final e os caras colocaram um ponto final. “Era isso que a gente tinha pra contar”.

Sei que nunca lerão isso, mas obrigado JJ Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse, por terem feito uma das melhores coisas do início desse século. Toda a ‘indústria’ Lost foi algo nunca visto antes, com os ARGs, pistas espalhadas e tal. O que o seriado movimentou foi incrível, reconheço. Mas é o menos importante, para mim. Não escrevo como jornalista cultural, analisando um fenômeno.

O ‘universo’ Lost criado, os personagens e as histórias contadas são o que de mais rico ficam. Tiram sarro de mim pois choro em tudo, mas dessa vez foi diferente. No final, era como se eu estivesse vivendo aquilo com eles, sofrendo junto, rindo junto e, principalmente, chorando junto.

Lost e seu último episódio foram meu Show de Truman e eu sofri como o gordinho da banheira, entregue a um produto cultural televisionado para milhões de pessoas, mas achando que aquela história estava sendo contada só pra mim, sentados um de frente pro outro.

No final das contas, vocês nos fizeram acreditar que somos, cada um, John Locke, especial em si, sem motivo aparente, mas que só é assim porque também acredita ser assim. E, por isso, são uns desgraçados geniais, já que isso é só um seriado e a gente não consegue, nem pode, admitir isso.

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Texto publicado originalmente no Judão.

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A vida é nada

27 maio , 2010 · 5 comentários

A vida é boa. As crianças sorriem de graça para mim. Não preciso fazer careta, nem me esconder e aparecer de repente. Parece que sou um daqueles personagens de “Onde Vivem os Monstros”, que parecem assustadores para as pessoas grandes, mas que são apenas um bicho de pelúcia gigante para as pessoinhas. Elas sorriem e retribuo não por educação, mas por ser inevitável. O sorriso delas me faz sorrir.

No instante seguinte lembro que ainda quero ter filhos, mas que, assim como muitos netos, eles não vão conhecer um dos avôs. A vida é uma merda. Dói tanto que meus olhos deixam a criança triste, em contato com uma profundidade de tristeza que espero que elas nunca venham a conhecer, mesmo sabendo ser impossível. Dói tanto que chega a doer, de verdade. No peito, principalmente, doutor. É a dor do vácuo, da ausência, a dor do nada no lugar de algo que era grande e bonito. Agora não é feio ou pequeno, só é nada.

A vida é nada.

Olho para o sol de outono, final de tarde e minha alma fica em paz. Que paz maluca é essa, de onde vem, não sei. Mas ela vem. Como uma criança, apenas recebo, mesmo sem saber sua origem. A paz ainda está misturada à tristeza, mas a dor não é mais angustiante. É uma dor de cicatriz, que vai ficar ali pra sempre. Ou como uma fratura mal curada, que é sempre sentida quando chega o inverno dessa vida. E eu me preparo para os invernos, para os dias cinzentos e os de chuva. Quando não dá vontade de viver.

A vida é boa e é uma merda, às vezes até ao mesmo tempo. É tudo e no instante seguinte é nada. Não sai disso, mas eu ainda me surpreendo. Preocupo-me em chegar o dia que não me surpreenderei mais.

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foto: Marina Sobral

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Ladeiras

24 maio , 2010 · 4 comentários

Acho incrível a quantidade de publicações que há em uma banca. Às vezes desconfio que chega a ser demais. Uma para cada interesse: esportes, moda, carros etc. As de saúde, dizem, são vendidas na sua maioria para pessoas que não se exercitam. Assim como alguém que gostaria de ter uma vida na montanha, de trilhas e escaladas, compra uma pick up para subir as ladeiras da Vila Madalena.

Em um almoço, é possível ouvir: “Gostaria de ter essa vida e ser assim”, mas poucas são as pessoas que buscam, de fato. A maioria de nós, e me percebo muitas vezes assim, espera a condição existir para depois vivê-la. Exemplo simples: eu queria voltar a fotografar mais, sem ninguém precisar ver, mas esperava voltar a ter tempo para isso. Precisei decidir sair com a câmera mais vezes e o tempo foi criado, não veio, como gostaríamos que fosse (e é como fazemos) o contrário.

O sol vai nascer para a humanidade, para todos, sem depender de mim. Esperar mais do que isso é perigoso. Não há garantias. De todos que passaram por aqui, falaram e ensinaram, não há um dizendo isso. Não dá para fiar-se nisso.

Se eu achar que ao ter uma Kombi serei mais hippie, surfista ou aventureiro do que realmente sou, estarei comprando uma farsa. A van já era útil para quem vivia assim e ela cumpre seu papel, mas ela não me dá um. Esse sou eu que preciso ir atrás e não só descobri-lo, mas eu mesmo escrevê-lo.

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Manias

15 maio , 2010 · 5 comentários

O Inagaki compartilhou um post do jornalista Michel Laub, de uma série com 100 escritores brasileiros que ele fez, contando suas manias para escrever. Já tinha batido o olho, mas não tinha dado muita bola. Nos seis meses de mestrado que fiz em Letras, descobri que há uma linha de pensamento que acredita na não necessidade de se conhecer a vida do autor para avaliar sua obra. Às vezes acho isso, às vezes não. Com a leitura de feeds quase zerada, dei o braço a torcer fui dar uma olhada no que o João Paulo Cuenca tinha dito (todos os trechos estão na íntegra, tirados do blog do Michel Laub):

João Paulo Cuenca, autor de O único final feliz para a história de amor é um acidente – “Adoraria listar minhas anedóticas manias de escritor, mas não creio que existam. Eu simplesmente escrevo com o que (es)tiver à mão, normalmente computadores – ou canetas de bico fino e tinta preta sobre caderninhos franceses com papel pólen bold, que sempre levo no bolso. Costumo ouvir música, e posso ouvir os mesmos cinco minutos por horas de maníaca repetição, conforme o estado mental ou ritmo que desejar imprimir ao texto – Mahler ou Radiohead, Keith Jarrett ou Sufjan Stevens etc.  Não esquecer do Philip Glass, que também é ótimo para escrever.  Quando retomo um capítulo num romance, costumo ler o texto desde o início. No final, já li o livro umas 3 mil vezes – não que termine completamente satisfeito. No mais, acho que escrevo a maior parte do tempo longe do papel e dentro da minha cabeça, enquanto durmo, caminho, viajo, vou ao cinema, ao museu etc. – e isso faz de qualquer ritual ligado ao ato de escrever algo inteiramente acessório e pouco relevante. Até porque não há nada menos lúdico do que o ato de escrever prosa – acordo todos os dias querendo ser um pintor ou um músico de jazz.”

* Acabei identificando-me um pouco com ele, pela questão de que música ouvir, sempre ter algo à mão para poder anotar alguma ideia e de acordar todos os dias querendo ser um pintor, músico, fotógrafo ou alguma outra coisa. Como estava sem sono, fui vendo as manias dos outros escritores e separei abaixo alguns que achei mais interessantes:

Moacyr Scliar, autor de Manual da paixão solitária – “Em termos de escrever, o meu método, ou mania, ou superstição consiste em não ter método, ou mania, ou superstição. Desenvolvi minha atividade literária paralelamente a uma intensa carreira médica (primeiro clínica, depois em saúde pública), escrevia quando podia, quando dava tempo. E isso podia acontecer em qualquer lugar: numa lanchonete, esperando a comida, num hotel, no aeroporto (o laptop ajudou muito). Não preciso de silencio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais – só preciso de um teclado. E ah, sim, de ideias (mas diante do teclado as ideias surgem).”

Ronaldo Bressane, autor de Céu de lúcifer – “Para escrever o meu novo romance, comprei uma cortina: percebi que a luminosidade e a vista do nono andar me dispersavam. Outra coisa que me atrapalha demais é a internet, então corto a conexão. Pela primeira vez na vida, tenho preferido as manhãs às madrugadas. Alterno café e coca-cola com gelo. E a cada dia uso um dos chapéus da minha coleção. Me dá a impressão de ser outra pessoa. É meio bobo, mas tem funcionado.”

André Sant’Anna, autor de O paraíso é bem bacana – “O meu problema na hora de escrever é arrumar uma desculpa para adiar a hora de começar a escrever. Antes, eu fumava uns cigarros – ‘só um cigarrinho antes de começar’ –, aí as idéias iam fluindo. Ou: ‘Vou tomar uma lá na padaria pra botar as idéias em ordem’. Felizmente, parei de fumar. Infelizmente, fui obrigado a parar de beber. Então, tenho assistir às piores porcarias na televisão, antes de ir para o computador.”

Cintia Moscovich, autora de Por que sou gorda, mamãe? – “Basicamente, não consigo escrever com nenhuma peça de roupa me apertando. Nem com barulho, uma creche se mudou para a casa ao lado da minha e tenho vivido o inferno. Mas, no mais, eu tenho alguns hábitos, sim, que aplico depois das cinco e meia da tarde, quando o raio da creche fecha. Pode parecer engraçado, e de fato é, mas o ambiente em  que estou tem que estar agradável, nem frio nem calor, nada que me tire o foco de concentração. Sempre tenho um copo de água à mão. Quando sinto os olhos cansados, paro de escrever e tomo café. Quando a coisa fica preta, que nada me sai, faço uma dobradinha poderosa, café e chocolate. O café tem de ser recém-passado e o chocolate pode ser substituído por algum doce, importa é o açúcar. Fico na boa, beleza de doping engordativo, até me ocorrem idéias. O melhor de tudo é quando consigo andar de bicicleta ou fazer ginástica antes de escrever. Banho de endorfina e outros hormônios ajudam a relaxar e a pensar. Quando estou no desespero, coloco perto de mim um óculos que pertenceu a meu pai. Uma muleta afetiva das boas. Recomendo.”

EDIÇÃO

* Outra coisa que me identifiquei. Sou novo, na tentativa de escrever mais ainda, mas descobri uma das coisas que mais gosto de fazer: editar textos. Os preferidos são os meus, claro, pois os conheço e conduzo-os para onde quiser. Gosto de editar textos variados, quando bem escritos e interessantes. Nada que eu precise reconstruir. Imagine um carro que foi lavado e só precisa de uma cera aqui, uma polida ali e passar um pano para tirar a umidade. Gosto de refinar textos já elaborados. Os meus, gosto pois sei o que estava pensando quando os concebi e posso sempre acrescentar algo. Sou escravo do deadline, já que, assim como a Ivana, poderia editá-los para sempre, sem nunca finalizá-los.

Ivana Arruda Leite, autora de Alameda Santos – “Pra falar a verdade, eu detesto escrever. O meu barato é reescrever, mexer no que já está escrito. O começo de um livro é sempre um sacrifício sem fim. Até porque eu sou do tipo que já tem a história pronta na cabeça antes de escrevê-la. Daí a preguiça. Pra eu me obrigar a ficar umas horinhas na frente do computador é só na base do prêmio e castigo. Eu fico me prometendo coisas. Se eu escrever mais uma hora, eu posso ficar duas no twitter. Ou jogando no computador. Se eu não escrever um capítulo hoje, eu não vou poder sair pra beber. Nesta fase, eu só escrevo de manhã e no meu trabalho. Trabalho de prisioneiro mesmo. Eu só relaxo depois da primeira versão concluída. Aí sim o prazer da escrita aparece e eu escrevo freneticamente de dia, de noite, em qualquer lugar. Se o editor não arranca o livro da minha mão eu mexo nele pro resto da vida.”

Sérgio Rodrigues, autor de Elza, a garota – “Sou avesso a superstições e rituais. Escrevo sempre no computador, Word, Times New Roman, corpo 12, mas isso não tem nada de mais. O que tento fazer é criar uma atmosfera confortável, tipo bermuda-e-camiseta ou bermuda só, e de distração mínima – o que significa basicamente deixar o telefone na secretária eletrônica e resistir à tentação de conferir emails e navegar na internet. Já tive fases de escrever só noite adentro, depois que a casa inteira dormia, e em nome de um certo espírito dionisíaco ficar bebendo uísque ou, nas raras ocasiões em que o inverno carioca merecia este nome, conhaque (ainda acho o conhaque uma bebida profundamente literária, não me pergunte por quê). Mas ultimamente tenho virado cada vez mais um trabalhador diurno e sóbrio. Seja como for, escrever é quase sempre um trabalho meio doloroso. Gosto mesmo é do que vem depois: editar o material bruto, cortar, montar os pedaços em outra ordem, preencher lacunas. Isso é tão prazeroso e envolvente que nessa hora nem faz diferença se o telefone toca ou os emails pipocam.”

MANHÃ

* Sempre fui um pouco cético para dicas sobre como escrever. Não digo sobre prática, treino ou técnicas, mas não acho que exista fórmula ou segredo. Porém, gostei de uma coisa que vi em mais de um depoimento: o fato de escrever pela manhã pode ajudar. Por estar com a cabeça ainda “vazia” das coisas cotidianas, porém”cheia” e fresca dos sonhos e do mundo onírico, talvez seja uma boa dica para quando se precisa alguma coisa de ficção, ou de elementos um pouco mais lúdicos. Vale a pena o teste.

João Gilberto Noll, autor de Acenos e afagos – “Gosto de escrever de manhã cedo. Me parece que é  meu melhor impulso venha desse horário. É a cabeça mais vazia,  muito mais propícia para um arranque em direção a um certo inconsciente.”

Fabrício Corsaletti, autor de Esquimó – “Só consigo escrever prosa de ficção de manhã. Das seis às oito e meia, no máximo. É nesse horário que minha cabeça funciona melhor, que eu consigo me concentrar mais. Ou me defender menos. Porque tenho a impressão de que às seis horas — isto é, mal-saído do sono —, sentado de frente pro laptop, já tendo tomado uma caneca de café sem açúcar e comido uma ou duas fatias de pão com manteiga, há pouca resistência entre o meu cérebro, minhas mãos e o teclado. É quando as frases saem mais facilmente. Não que não me dê trabalho; dá, claro. Às vezes muito, às vezes pouco. Mas acho que o maior esforço que eu faço é o de me disciplinar pra criar essas manhãs quase perfeitas — sem sono, sem ressaca e sem culpa. Por isso, quando estou escrevendo um conto (também escrevi um romance seguindo essa mesma regra), na noite anterior organizo minha mesa, deixando sobre ela apenas o laptop e alguma eventual anotação sobre o texto a ser escrito, ponho a água pro café na leiteira, o pó dentro do coador e durmo cedo, em geral antes das dez. No dia seguinte perco o mínimo de tempo preparando meu café da manhã. Dez minutos depois de acordar já estou escrevendo. Consigo dois ou três parágrafos por dia. Com poesia é outra história. O poema se impõe independentemente do lugar ou da hora. O negócio é estar sempre atento pra perceber quando ele está ali, querendo se transformar em palavras.”

Marcelo Moutinho, autor de Somos todos iguais nesta noite – “Até pelo ofício de jornalista, que nos obriga a redigir em ambentes movimentados e não raro barulhentos, em geral não preciso de muita preparação quando vou escrever ficção. O fundamental é que haja café em profusão e – ainda mais relevante – que não ninguém fite a tela enquanto digito. Prefiro escrever pela manhã, quando a mente ainda está vazia. E na maior parte das vezes, quando me sento para trabalhar, já tenho algumas anotações sobre o conto a ser criado: observações sobre enredo ou personagem, frases soltas, em alguns casos o final da história.”

Miguel Sanches Neto, autor de Chá das cinco com o vampiro – “Escrevo apenas em momentos de intensidade. Um romance vai tomando corpo a partir do acúmulo de observações, frases e memórias, que num instante de choque se unem e se reproduzem ficcionalmente, afastando-se de suas origens. Assim, só consigo escrever tendo à disposição muitas horas de trabalho e durante semanas seguidas, sem interrupções da vida familiar ou social. Quando abandono um relato, ele perde a temperatura e não consigo retomá-lo. Para não parar, tenho que começar a escrever sempre pela madrugada, dia após dia, e seguir até o final da tarde. Acordo perto das 4 da manhã, aproveitando o despovoamento da cidade e me sentindo a única pessoa na face da terra. Na hora em que estamos escrevendo somos sempre a única pessoa na face da terra.”

Ana Paula Maia, autora de Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos – “Escrever na parte da manhã é sempre melhor pois minha cabeça está bem fresca e ainda não tomei contato com a realidade. Sendo assim, entrar na realidade dos mundos que proponho fica mais fácil. Preciso estar limpa. Não gosto de escrever fedendo, suja ou suada. Não me importo com o som de uma britadeira trabalhando ao longe ou o toque da campainha do vizinho. O mais difícil é sair da realidade do mundo ficcional e encarar a fila no supermercado.”

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Varal

13 maio , 2010 · 6 comentários

Daqui da janela dá pra ver a cobertura de um prédio entre a Vila Madalena e Pinheiros. Na verdade, é menos cobertura do que um apartamento no último andar, pois não tem nada de chique. Um lençol azul e algumas roupas, balançando com o vento frio do início do fim da tarde em São Paulo, e o sol ainda batendo nelas.

Quando questionado sobre o que espero (e busco) da minha vida, se pudesse mostrar a cena, era isso que responderia. Não é necessariamente uma resposta concreta, que deixará a pessoa satisfeita com sua dúvida resolvida, mas também não tenho procurado respostas concretas. Repare no sol por volta das 17h30, amigos tomando um café, o gari varrendo a rua e, talvez, isso traduza um pouco: simplicidade.

Quero uma vida mais simples. Talvez quisesse ser aquela roupa estendida no varal, apenas com a função de ficar seca durante o dia e, se não fosse possível, ficar mais um pouco ali no dia seguinte. A questão não é a falta de percalços e tribulações. A roupa vai pra rua, é surrada, suada, rasgada, amassada e suja. Quando chega em casa, fica com outras roupas na mesma situação, quase desprezadas, escondidas em um cesto e só saem dali para serem afogadas e batidas em um tanque ou máquina de lavar. São torcidas até darem tudo que têm de si, até a última gota de seu respiro ser extraída e, só então, vão para o varal, onde conseguem se esticar, tomar um sol e serem felizes com o vento das tardes frias de São Paulo.

Uma vida sem dificuldades não é vida que vale a pena ser vivida. Seria um passeio, um playground, uma bolha e uma mentira, seria qualquer coisa, mas não seria vida. Porém, mesmo assim, com tantos agouros, acredito na existência de uma vida mais simples, menos frenética e neurótica, menos estressante e massacrante. É possível minimizar algumas das angústias e dores da alma. Ou não, só é possível trocar algumas dores da alma por outras, mas ainda assim quero escolher quais serão. “Basta a cada dia o seu próprio mal”. A única certeza é que o mal virá, então só me resta diminuir os que conseguir evitar e ser um pouco mais roupa ao varal.

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foto: Daigo Oliva

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