Crônico

Ah, o doce som do progresso

8 Julho , 2008 · 2 Comentários

O barulho nas ruas é ensurdecedor. Os motores dos ônibus ficam na altura de nossos ouvidos, barracas de camelôs colocam suas músicas no volume máximo e, para completar, há os inconvenientes que apenas por diversão [própria] grudam suas mãos nas buzinas.

Chegar em casa traz aquela sensação de paz e tranqüilidade não apenas por ser o nosso lar. O barulho diminui consideravelmente. Como é que a Engenharia consegue levar seres-humanos à Lua, trazê-los vivos de volta, mas não constrói furadeiras silenciosas, freios que não gritem e motores que não agridam nossa sanidade?

Desconfio que no imaginário coletivo dos construtores de automóveis, máquinas e afins, a doce música do progresso seja justamente o barulhinho do maquinário funcionando.

Os passáros cantam? Façam esses pistões movimentarem mais barulho! As pessoas conversam? Coloquem essa britadeira para funcionar! As crianças cantam? Buzinem, buzinem!

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As pernas estão no automóvel

30 Junho , 2008 · 1 Comentário

“P’ra ver
Os olhos vão de bicicleta até enxergar
P’ra ouvir
As orelhas dão os talheres de escutar
P’ra dizer
Os lábios são duas almofadas de falar
P’ra sentir
As narinas não viram chaminés sem respirar
P’ra ir
As pernas estão no automóvel sem andar”


O Caroço da Cabeça - Marcelo Fromer, Herbert Vianna e Nando Reis

Já disse que tenho paúra de ficar dentro do ônibus parado, não? Cheguei a ficar encharcado, com a mochila molhada [colocando em risco a vida do meu iPod, celular etc], porque bateu desespero e desci do ônibus, no meio do caminho e aquele toró. Há dias em que a Faria Lima está completamente travada e o fluxo nas calçadas aumenta consideravelmente. No trajeto do trabalho até em casa, já cheguei a levar 2h - 2h30. O normal é 1h, ou seja, com trânsito leve. Opção “sem trânsito” não existe mais, nem de madrugada.

Ir a pé é garantido que chegue em uma hora, cravado. Pode ter explodido um ônibus no cruzamento da Faria Lima com a Rebouças, que eu vou chegar em 60 minutos. Vejo as pessoas com cara de angústia no carro e vou caminhando. Vejo-as se desesperarem, gritarem com o carro do lado, mostrarem o dedo pro motoboy, quase perderem o braço [além da sanidade] e xingarem o motorista do ônibus, mas eu continuo andando. Tem gente fazendo crochê, lendo um livro ou uma revista, chorando, ouvindo rádio, estudando as fitas de inglês e até cochilando. Mas os meus passos vou dando.

No ônibus, quase se estapeiam pelo direito a um assento ou a uma janela aberta, que ventile e circule o ar dos gripados e doentes. Com uma simples baforada, podem contaminar quase 100 pessoas em menos de cinco minutos. Devido ao trânsito, muitos se juntam a mim.Descem fora do ponto, depois de brigarem com o motorista e implorarem ao mediador, o cobrador. E vou caminhando.

Dependo apenas de minhas pernas, meus músculos, meus olhos, meus pés e meu equilíbrio. Um pouco de disposição e determinação e nada pode me impedir. Os motoboys me dão passagem, as calçadas me são livres, os outros pedestres apenas pequenos desvios no percurso. Não há cano da Sabesp que me impeça, greve de ônibus que me aflija ou manifestação que me bloqueie. Sou senhor de mim e vou caminhando.

Peraí. Está chovendo forte lá fora? Estou sem guarda-chuva.
E agora?

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Panela velha

26 Junho , 2008 · 2 Comentários

Eis que baixei CDs novos de artistas velhos. Velhos sim, pois se hoje em dia The Strokes é coisa antiga, que dirá Alanis, Coldplay e Weezer.

Eu não sou crítico de música. Não tenho base teórica, nunca escrevi sobre isso, mas tem gente que é mais doido que eu e gosta de saber minha opinião quanto a uma determinada banda/artista. Se você não é uma dessas pessoas, está dispensado para ir ler outra  coisa. Caso queira saber, vamos por ordem alfabética:

Flavors of Entanglement
Alanis Morissette

Parece que a Alanis entrou agora no ano 2000. Lembra quando em 1999 – 2000 alguns artistas começaram a ficar mais, digamos, eletrônicos? Pois é. É o que a Alanis está fazendo. Na metade de 2008. Ou seja, a 1 ano e meio de 2010! Pense numa Madonna mais pop rock, mantendo as batidinhas eletrônicas e sendo menos Madonna. Pois é. A Alanis demorou quase uma década para ter sua fase ‘adolescente’ do eletrônico e sampler. E quando teve, desandou o caldo. Um CD totalmente dispensável no meu iPod. Acho que vou deixar a título de curiosidade. Tenho medo do que virá depois desse. [Quando alguém lança um CD e depois de ouvi-lo uma vez pensa: "Quando sai o próximo?" é porque a coisa não vai bem mesmo].

Preciso registrar que sempre gostei muito de Alanis, acho que ela faz boa música, um rock agradável e, por vezes, coisas diferentes. Nos CDs anteriores, as mais calminhas eram as renegadas, embora boas. Nesse a mais calminha, Madness, é a única que se salva. E olhe lá.

Conclusão: volta Alanis!

Viva la Vida or Death and All His Friends
Coldplay

Pois é… eu ouvi esse CD. Sabe quando você vê a Thati do Big Brother comemorando festa de aniversário no buffet infantil da Andrea Sorvertão e se sente mal pela pessoa? [Pelas duas, nesse caso?]. Então é um pouco pior. É como quando você descobre que a Sorvetão está casada com o Conrado e vê fotos dos dois juntos, abraçados à Thati. Nem uma barra de Hershey’s Cookie n’ Cream resolve essa vergonha alheia.

O CD do Coldplay chega perto disso. Odeio resenhas muito grandes, por isso vou tentar ser breve no que puder, ao analisar faixa a faixa:

1 – Life In Technicolor
Música de abertura, literalmente. Não é só a primeira, mas serve como um “Respeitável público”. Inteira instrumental. Quando você acha que vai ficar boa, acaba.

2 – Cemeteries of London
Logo de cara, não dá pra entender muito bem a batida [de leve] que rola ao fundo da voz de Chris Martin. De repente entra a bateria, baixo e violão. Aí você pensa “Conheço essa levada de algum lugar… tão anos 90″. E um pop-up do Pato Banton cantando “Go Pato” aparece na sua mente, enquanto rola a música. A partir daí, fica impossível não dar risada toda vez que voltar a ouvir essa faixa.

3 – Lost
No primeiro segundo de música você pensa “O cara está mesmo se perdendo”, sem nem ter visto o título da faixa. Isso porque ele faz um ‘tum-tum-tá’, bem We Will Rock You, do Queen. Eu até fiz junto para ver se sincronizava e nem preciso dizer o resultado, não? Aí ele canta: “Just because I’m losing / Doesn’t mean I’m lost / Doesn’t mean I’ll stop”. Decepciona saber que isso continuará até o final do CD e você pensa “Quando é que sai mesmo o próximo CD deles?”.

4 – 42
Começa bem Coldplay-jeito-de-ser. E quando você se vê agradecendo por isso, fica preocupado. “Não era um CD em que iriam inovar? Ah é, eles inovaram. Fizeram referências ao Pato Banton e a We Will Rock You do Queen e no meio disso tudo, estava o Conrado, a Andrea Sorvetão e a Thati”. De repente a música muda completamente e você fica triste porque se lembra de Amsterdam, música do álbum A Rush of Blood to the Head [último álbum bom, que é possível ouvir mais de 5 faixas] e percebe que ela tem a mesma ‘temática’, só que pior.

Ainda está aí?

5 – Lovers in Japan / Reign of Love
São duas músicas. A primeira rola no mesmo clima de “Vai demorar muito pra acabar?”. Começa a segunda e depois do que aconteceu na primeira, até Pato Banton seria bem vindo. O Coldplay faz um pouco melhor e nos dá esperança em continuar ouvindo o CD. Mas você se sente enganado. Teve que ouvir a primeira para chegar nessa parte. Se você tiver um editor de MP3, vale a pena cortar a Lovers in Japan e ficar apenas com Reign of Love.

6 – Viva la Vida
Hein? Não era Chris Martin? Em que momento entrou o Ricky no CD, que ninguém me avisou?

Nessa faixa parece que o Coldplay trocou uma idéia com a Alanis e perguntou “E aí, como vai ser seu novo CD? Anos 2000? Boa!”. Nem perguntaram se já não tinham perdido o timing, mas quem precisa disso, né? Só colocar uma orquestra e uma batidinha clássica e fica tudo certo…

7 – Violet Hill
Bom, pelo menos tem nome de música do Coldplay. A levada ainda é do Pato Banton [Go Pato], mas em um ritmo mais devagar, com mais guitarras e no finalzinho, um momento Coldplay-de-ser, que você chega a cruzar os dedos e promete nunca mais falar mal da Gwyneth Paltrow se a música terminar depois disso.

8 – Strawberry Sing
Passa desapercebida. E isso é um mérito em um CD como esse. Chego a arriscar que pode ser um dos singles do álbum, já que da metade pra frente tem um violãozinho bem Coldplay, o que é uma coisa boa em um CD como esse [Acho que já falei isso, né?].

9 – Death and All His Friends
Início com pianinho Coldplay, Ricky Martin, quer dizer, Chris Martin sussurrando e riffs de guitarra característicos da banda. Mas o sussurro avisa: “(…) just be patient, and don’t worry”, pois o crescente virá e a música se transformará. Mais uma vez. Será que ele não tem pena da gente não? A resposta é: não. E uma happy music entra em cena. Com marcação marcante [foi proposital] do baixo e da bateria, à la Pet Shop Boys, mas numa versão piorada, lógico.

10 [finalmente] – The Escapist
O clima Pet Shop Boys continua. A essa altura, você só torce para que o Martin, seja ele qual for, nunca tenha ouvido RPM para não tentar nada progressivo, enquanto ele sussurra uma meia dúzia de palavras e um sampler de teclado, ou seja lá o que isso for, encerra o álbum.

Conclusão 1: ao final dessa análise uma coisa para mim ficou clara: o Coldplay é melhor fazendo clichês e sempre a mesma coisa.
Conclusão 2: não perca seu tempo ouvindo esse CD.

The Red Album
Weezer

Eu quase estava desistindo de ouvir novos CDs, me fechar no iPod com os anos 90 em Nirvana, Pearl Jam e Red Hot Chili Peppers, quando ouço o novo do Weezer. Só pelo fato dos caras não ficarem se preocupando com um nome pro álbum, simplesmente pintarem de uma cor primária e deixarem ser chamado do nome que for, já é grande coisa. O primeiro deles era um fundo azul, eles posando em fila pra câmera e o nome “Weezer”. Começaram até vir o 3º, o CD ainda era conhecida como “Weezer”, banda e disco. Mas no 3º, fizeram a mesma coisa, mas trocaram o fundo, que passou a ser verde. Ou seja: o primeiro tornou-se o Blue Album, o terceiro ficou Green Album. No quinto, e mais recente, o fundo é vermelho. Não precisa conhecer a escala RGB para adivinhar o nome dele.

Aqui vou me dar a liberdade de falar só das faixas que mais gostei. No entanto, diferentemente dos outros CDs, vale a pena ouvir todas as faixas, mesmo que aqui não mencionadas.

1 – Troublemaker
A banda é da Califórnia. Por que digo isso? Simplesmente porque a música que abre o álbum pode parecer alguma coisa que você já ouviu por aí, principalmente em bandas da Costa Oeste dos EUA. “Acho que já ouvi isso no O.C.” é algo bem válido. No entanto, estamos falando de Weezer, uma banda ‘velha’. Você ouve mais um pouco e pensa “Hum, aqui tem um algo mais do que as outras bandas californianas”.

3 – Pork and Beans
Muito se falou já desse primeiro single, simplesmente pela idéia genial do clipe em juntar os The Hypests Hypes [já falei que gosto de neologismos?] da internet dos últimos anos em um vídeo só. Ou seja: os maiores hits do Youtube são parte de seu clipe. Quem não vai querer ver tudo isso junto, num vídeo só?!

Mas e a música? Só pelo clipe, poderia ser o Chris Martin cantando seu último álbum [OK, exagerei], mas ela se garante. Se você tiver a possibilidade apenas de ouvi-la, isso já é algo válido. Uma levada tranqüila para os padrões-Weezer-de-ser. Até quando entram as guitarras, baixos e batera com o chimbal totalmente aberto, ela vai agradar até os ouvidos mais delicados, justamente por montar uma melodia que se torna agradável nas estrofes iniciais.

4 – Heartsongs
Só na 3ª vez fui perceber a batida do coração no início da música. Enfim, me lembrou muito Pinback, o que, para mim, é uma boa referência. Tive a sorte de comprar meu primeiro iPod de um amigo, ou seja, com 3 mil músicas recheando-o. Mesmo tendo apagado algo entre mil e 1.500 músicas, muita coisa que ouço hoje em dia descobri nessa época. A coincidência: esse amigo é da Califórnia. Tem uma hora que essa música chega a lembrar o Linkin Park, que eu simplesmente abomino, mas não chega a ser pé no saco e cansativo como a banda do cara que parece aquele de CSI. Quando você começa a pensar “Pior que o som está parecendo mesmo”, a música termina e fica tudo bem. =)

6 – Dreamin’
Música sem violãozinho ou percussão. Mas uma música ‘feliz’. Acho que o que resume bem o Weezer é isso. Eles fazem um Nerd Punk Rock pra se curtir, sabe? Aquilo do ‘De amargo já chega a vida’, então o que rola são coisas felizes.

7 – Thought I Knew
A música começa e acho que mais uma banda sucumbiu ao revival do ano 2000 ou só percebeu que entrou nessa década quase uma década depois, mas dou o benefício da dúvida ao Weezer, já que as 4 músicas acima por si já valem mais do que o CD inteiro da Alanis + o álbum inteiro do Richris Martin. Enquanto estou escrevendo, vou ouvindo as músicas… tempo real. Para o texto sair exatamente no clima dela. Acontece que na metade dela, já esqueci das paradinhas eletrônicas do começo e estou feliz pelo Weezer ter feito esse CD.

10 – The Angel and the One
A música tem um ‘quê’ de Death Cab for Cutie e o vocal de vez em quando lembra o Dashboard Confessional, que não é da Califórnia, mas é da Costa Leste, Boca Raton – Flórida.

11 – Miss Sweeney
Uma baladinha bem feita, com pausas em lugares previstos, mas bem feitos. Letra em forma de historinha, o que é agradável. Melodia bem agradável também. Superior às outras que não foram citadas

14 – King
Algo meio folk, meio rock, meio Weezer, bem agradável também. Música que você ouve no dia-a-dia e agrada. O vocal e a levada lembram um pouco Everlast, mas em um sentido bom da coisa.

Conclusão: o Weezer tem um som que você poderia pensar ser alguma outra banda. Não é nada que chegue a “Nossa, só podia ser mesmo o Weezer pra fazer um negócio assim”, como é o caso do John Frusciante, por exemplo, guitarrista do Red Hot Chili Peppers. Mas é algo ‘comum’ bem produzido, bem dirigido, enfim, bem feito.

Mais um ponto para o Weezer: eles fizeram uma música colaborativa. Rivers Cuomo, vocalista e *líder da banda, colocou em seu canal do Youtube uma série de vídeos de como se escrever uma canção. Pediu sugestão de letra, acordes e título. Ele mesmo compôs e colocou o resultado no mesmo canal. [Detalhe para os gols de Sócrates e Carlos Alberto, clássicos].

* Acho essa questão de ‘líder’ da banda muito discutível. Se você já tocou em alguma sabe que a pessoa que está no microfone nem sempre a lidera. Muitas vezes, quem dá a dinâmica da banda, na hora em que se está tocando, pode ser qualquer um. Alguém que conduza a banda a fazer algo que fique sincronizado, que soe bem. Por isso evito, hoje em dia, falar em “líder da banda”. Utilizei muito esse termo quando trabalhei na rádio Brasil 2000 e precisava escrever as notas do dia inteiro. Hoje em dia, não curto mais, porém, as pessoas entendem dessa forma e é necessário fazer a informação chegar ao interlocutor, não importa como, diriam alguns professores. Segundo eles, si aLgUen ixkrevi axim, e a outra pessoa entende, tá valendo.

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Pode beijar a noiva

25 Junho , 2008 · 1 Comentário

Uma matéria de três semanas atrás, do G1, chamou a minha atenção: uma mulher que decidiu se casar com a Torre Eiffel. Durante a matéria, o G1 ainda dá exemplo de uma outra que se casou com o Muro de Berlim. Inclusive, o marido da segunda, foi literalmente objeto de analogia, para a esposa do Sr. Eiffel: “Sou como o Muro de Berlim. Deteste-me, tente me destruir, mas estarei sempre lá, de pé”. Gostei. [Da frase, lógico. O Muro não é/foi uma coisa legal].

O que me incomodou foi a seguinte afirmação: “Em todo o mundo, há cerca de 40 pessoas que sofrem desse mesmo problema, todas mulheres”. No jornalismo a gente não pode dizer as coisas pelo que considera, ou utilizar adjetivos. Perceba que os meios de comunicação mais ’sérios’ fazem isso. Se alguém diz “sofrem desse mesmo problema”, tem que vir algo em seguida [ou antes] mostrando que aquilo é, de fato, um problema.

A questão é que a declaração do psiquiatra, dizendo que essa é uma forma das pessoas quererem controlar seus relacionamentos, não diz, necessariamente, que isso é um problema.

Essa é uma mania do ser humano querer dizer como as coisas devem ser. Tudo bem que se alguém decidir casar com a Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira não será considerada normal, mas o que é normal? Não vou entrar no mérito do “De perto, ninguém é normal”, mas na questão do “O que é normal?”.

Poxa, a mulher tem uma queda pela Torre Eiffel. E daí? Quem sabe, de verdade, as situações pela qual ela já passou, as decepções que teve, os sofrimentos infligidos, o amor desiludido que talvez tenha tido? Ela decidiu ter um relacionamento em que pode controlar a situação, do jeito que bem entender. E daí?! Quem pode afirmar que nunca quis controlar a relação, da forma que melhor entendesse? Quem pode afirmar que nunca pelo menos tentou fazer isso, mesmo que se arrependendo depois e percebendo que as coisas não são bem assim?

Não sei se alguma dia ela vai perceber que um relacionamento entre seres humanos pode machucar muito e pode ser frustrante por não ter o controle absoluto da situação, mas que justamente por isso, é algo genial e arrebatador. Pode ser que não perceba, ou pode ser que ela discorde disso.

Mas quem é são, de mente e coração, e digno o suficiente, para julgá-la e dizer “Você tem um problema”?

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Contato humano é o sovaco na sua cara

16 Junho , 2008 · 5 Comentários

Eu procuro sempre dar bom-dia ao motorista do ônibus. Quando pego táxi, o mínimo é falar “Boa tarde”, comentar algo sobre o trânsito e o tempo. No metrô, sem chance. A não ser que você entre nele em estações finais e veja alguém de cinza entrar correndo na cabine do primeiro vagão, não dá pra saber nem se é homem ou mulher que está no controle. Até a voz que diz “Próxima estação: Vila Mariana” já é gravada.

Deve ser muito triste conduzir o metrô ou o trem. Sem ninguém para perguntar se ele passa perto do Largo da Batata [nem precisaria, já que o trajeto é pré-determinado], sem ninguém para agradecer a gentileza de sorrir e nenhum cobrador para bater papo na hora do congestionamento [que também, não há].

A invenção do Metrô, para mim, é uma analogia perfeita da modernidade. Asséptico, sem muito contato humano [com quem pilota], sem rodeios e enrolação [uma linha reta com pequenas curvas] e praticamente automatizado. Se tirassem os condutores e colocassem aqueles bonecos “Ricardão”, ninguém perceberia a diferença.

Você fica atrás da linha amarela, chega um ‘gavetão’ com vários compartimentos, entra-se nele, desce-se na plataforma desejada e pronto. O máximo de contato humano é o sovaco que ficou na sua cara. E o transporte da modernidade não tem ar-condicionado.

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A arte de jogar a vida

11 Junho , 2008 · 2 Comentários

Nunca fui um grande jogador de futebol, apesar de sempre ter sido grande. Talvez isso atrapalhasse o desenvolvimento da técnica de controle da bola, velocidade, entre tantos outros fundamentos necessários para que um garoto seja considerado “bom”. Por ser muito grande [em altura e largura], não é difícil imaginar que durante anos joguei como goleiro. Segundo meu irmão, único e mais novo, sou “o gordinho mais ágil que ele já conheceu”. Em competições de atletismo, sempre me classificava em corrida.

Lembro-me nitidamente de minha timidez e insegurança durante minha infância. Quando ia a lugares onde havia muitos desconhecidos, grudava nas pernas de meu pai e dentro de mim era medo que sentia. Imagine então a minha adolescência como foi. Época de questionamentos, revoltas, turbulência, hormônios à flor da pele e garotas. Elas não fazem sentido e mesmo assim, às vezes achamos que só fazemos sentido ao lado delas. A minha timidez e insegurança foram controladas, de certa forma, quando descobri que conseguia fazê-las rir. Tenho para mim a teoria de que quando você consegue fazer uma moça sorrir e/ou rir, meio caminho está andado para conquistá-la.

O que é que isso tem a ver com o futebol? No geral, não muito, mas com o meu futebol sim. Quando aprendi, durante a adolescência, a relaxar e descontrair, de certo modo, meu futebol melhorou. Continuo sendo “o gordinho mais ágil” que meu irmão já conheceu. Além disso, minha ginga [se é que é possível chamar esse sacolejar de massa de um lado para o outro de "ginga"] foi aprimorada. Não dou dribles sensacionais, mas também já não sou apenas o jogador de 1,90m que apenas pela altura e agilidade é escalado para o gol. Quando aprendi a viver a vida de um jeito menos tenso, a relevar mais e a curtir mais a vida, meu futebol melhorou. Para que esse esporte único e com tantas idiossincrasias seja jogado, é necessário que a tensão e a dureza da vida sejam lapidadas e as pontas que ferem, arredondadas. Talvez seja por isso que, em um país com tanta decepção, tanta fome, tanta tristeza e com tanta gente desiludida, o futebol seja mais expressivo e amado do que em qualquer outro lugar do mundo. Ele é a expressão de uma vida leve e como a maioria das pessoas não têm a oportunidade de levar uma vida assim, nos contentamos pelos que conseguiram e esses tornam-se heróis.

Meu irmão ensinou-me não apenas a fazer bola de chiclete, mas também a gostar e conhecer mais o único esporte que joga bola com os pés. Me incentivou a discutir táticas, estratégias, saber o nome dos jogadores e a apreciar uma partida entre Barueri x Bragantino, times menos conhecidos, mas não menos respeitados. Ensinamento de um irmão mais novo: não importa seu tamanho, todos têm seu valor.

Obrigado, Gui.
Com seu jeito de jogar a vida, aprendi melhor a viver o futebol.

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Traído pela própria nerdice

9 Junho , 2008 · 1 Comentário

Sempre fui um tanto quanto nerd. Daqueles que lêem todos os livros que a professora manda. Quando não os comprava, ia à biblioteca do colégio pegá-los. Quando percebemos que ela era incompleta, minha mãe abriu um cadastro, para mim e meu irmão, em uma biblioteca municipal. Como na época ela fazia Pedagogia, muitos estágios aconteciam em lugares assim.

Hoje ela é professora, inclusive de uma matéria de pós-graduação. Assim como meu pai, grande incentivador da carreira acadêmica lá em casa. Mas para eles darem aula no Ensino Superior, a faculdade os obriga a terem, no mínimo, o mestrado. Lembra quando no colégio você tinha que negociar certas coisas com o professor? A moeda de troca sempre foi: notas e faltas. Pois se, aos 50 anos, você encarar um mestrado, não será diferente. Não importa a idade, não importa a graduação: alunos sempre agem como alunos.

Ter pais professores é uma dádiva e uma maldição. Quando mais novos, passamos vergonha por eles estarem à frente da nossa sala de aula, e principalmente porque sabemos como nossos amigos, do fundão, tratam os professores. Inclusive nós. Só melhora quando crescemos, aprendemos a lidar com essas questões e percebemos que, no fundo, é uma boa carta na manga eles serem professores. Eles nos ensinam que nem tudo o que dizem, de fato vão fazer. Eles sabem que a matéria deles não é a única e que outros professores cobram na mesma intensidade.

O mais divertido é vê-los no papel de alunos. Quando o professor passa trabalho e eles não fazem, na hora de apresentá-lo, não se manifestam. Ficam sentados em um ponto cego, para o professor não percebê-los, como se isso fosse possível. Se não poderão ir a aula, pedem para não terem falta e dizem que entregam um ‘trabalhinho’, para compensar. Sem contar o acordo tácito entre todos: faltando 30 minutos para a aula terminar, ninguém mais faz perguntas. E isso em uma classe em que a média de idade gira em torno dos 35 anos. Se revoltam com a carga de exigências e vociferam: “Pô, o professor acha que a matéria dele é a única do mestrado? Também temos uma vida!”.

Um amigo que está na pós, recentemente contou sobre o professor dele. O mestre disse: “Pessoal, nós pedimos para vocês lerem artigos e apostilas, mas sabemos que vocês não vão dar conta. Por exemplo, um artigo. Você nunca vai ler inteiro! Leia a introdução, onde há a apresentação dos principais pontos abordados, dê uma folheada no desenvolvimento, só para não ficar por fora e leia a conclusão. Você acha que a gente dá conta como?”

Ou seja, quando meus amigos liam os famosos resumos prontos, ou apenas página sim, página não e tiravam uma nota levemente inferior à minha, de fato funcionava! Fiquei me sentindo ‘traído’ pela minha própria nerdice. Porém, lembrei também do quanto gostava daqueles livros e de descobrir tanta coisa, apenas pelas palavras. Não me arrependo em nada e o quanto puder, continuarei incentivando outras pessoas a lerem os livros por inteiro. No caso de artigos e teses, depois da confissão do professor de meu amigo, a gente faz o que for possível, sem estressar ou sofrer. Afinal, nossa vida não se resume a isso, embora a maioria dos professores nos force a pensar que sim.

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Como?

7 Junho , 2008 · Não Há Comentários

Um homem é encontrado no porta-malas de um carro, na Zona Leste de São Paulo. Os moradores da região de Cidade Tiradentes vêem sangue escorrendo do Monza, chamam a polícia, que o encontra com as mãos e os pés amarrados. É levado ao hospital, com seis tiros nas costas e internado na UTI. Ludmar Aparecido de Andrade sobrevive.

Isso foi no sábado, durante à madrugada. Na segunda-feira, por volta das 3h, um grupo de homens entrou no hospital, rendeu os funcionários, incluindo os seguranças, e matou o homem que já havia sido alvejado por seis tiros: levou mais alguns, além de facadas. Uma equipe tentou socorrê-lo, em vão. A família alega ter solicitado escolta policial, mas não foram atendidos. A Secretaria de Segurança Pública afirmou que não delegou escolta, pois o homem era considerado vítima, não tinha antecedentes criminais e não havia informações de possíveis ameaças. Andrade era professor de capoeira, casado há cinco anos e tinha uma filha de três anos, além de três enteados.

Talvez você tenha lido sobre o caso, talvez não. Considero uma história cheia de absurdos. A violência e brutalidade do crime, o descaso em deixá-lo sem proteção após uma clara tentativa de executá-lo, entre outras coisas. [Levantamentos do jornal Agora, apontam que o ato foi vingança, pois Andrade teria agredido e atirado no rosto de um aluno de 15 anos. Alguém pode pensar: "Mereceu, né?". Aí você vê que o aluno teria asseadiado a enteada de Andrade, de 11 anos. Como disse ali em cima, história cheia de absurdos, mas que hoje em dia, são comuns.]

O fato de ele ter sobrevivido aos seis tiros pelas costas foi o que mais me impressionou. Nunca fui baleado, mas acredito que não seja tarefa fácil conseguir tal feito. 50 Cent, cantor de rap, sobreviveu a nove tiros. Andrade sobreviveu a seis. Mas, infelizmente, a máxima do raio não cair no mesmo lugar duas vezes não funcionou. Pelo menos, para o ‘milagre’. Alguém armou o pára-raio e deu um jeito de encontrar Andrade para terminar o trabalho.

Como perceber os [bons] detalhes na cidade? Como reparar no valor das aparentes insignificâncias paulistanas? Como não perder a esperança que ainda há coisas boas a serem feitas, ditas e vividas, para depois serem escritas? Como não reparar apenas nos que choram? Como escrever algo descontraído, leve, do cotidiano se em grande parte ele é denso, pesado, obscuro e trevas?

Às vezes, a vida mata a poesia.

_______________________________

ps. Para ler mais notícias sobre o caso acima, é só dar uma olhada aqui.
ps2. Um caso que me fez desacreditar um pouco mais no ser humano e me deu náuseas é o da menina de 16 anos, violentada por 5 colegas da escola. Filmaram tudo e colocaram na internet. Um deles era ex-namorado da guria.

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Like a Rolling Stone

30 Maio , 2008 · 4 Comentários

Sempre quis ter uma banda, mas nunca tive tempo [talento] para tal.
Mas é sempre bom sonhar. E no século 21, a internet além de te dar as ferramentas, facilita o seu trabalho:

1) acesse http://en.wikipedia.org/wiki/Special:Random - o título da primeira página aleatória que aparecer será o nome da sua banda.

2) vá pra http://www.quotationspage.com/random.php3 - as últimas quatro palavras da última frase da página formarão o título do seu disco.

3) acesse http://www.flickr.com/explore/interesting/7days/ - a terceira foto, não importa qual seja, será a capa do seu disco.

Vou ser sincero. O primeiro nome que veio pra minha banda foi “Beauty Queen”. Não achei que fosse um nome que combinasse comigo [e o som da banda, lógico] e tentei outro.
A primeira foto também não me agradou. Foi dessa criança. Achei que só uma foto muito boa com criança é válida. Exemplo disso: Nevermind, do Nirvana e Boy, do U2.
Como eu não sou o Bono, muito menos o Kurt Cobain, decidi mudar a foto também.
Alguns podem me chamar de estraga-prazer, mas me dou a liberdade, assim como o Calvin, de inventar as regras. Ele tem um jogo chamado Calvinbol. Se tiver interesse, há explicações no blog Depósito do Calvin [inclusive com um set de quadrinhos com esse tema], na Wikipedia [em inglês e português].
Mas eu tenho minhas regras: por exemplo, peguei a terceira foto que apareceu, mesmo tendo gostado de outras! ;-)

Enfim, apresento-lhes o primeiro álbum da banda Vingtenier, “It lasted forty-three years”.



ps. Está curioso para saber o que é Vengtenier?
ps2. Vi essa idéia do álbum no blog da Frufru.
ps3. Imitei a Vivs, colocando título com frase de música. Like a Rolling Stone - Bob Dylan
ps4. Eu realmente gostei tanto do nome da banda, como do nome do álbum.
ps5.
Peguei a foto e apenas coloquei as palavras. Esse CD [ainda] não existe.

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A arte da guerra

29 Maio , 2008 · 3 Comentários

Sempre fui preconceituoso com relação a quem tem preconceitos. Pode até ser um contra-senso, mas sempre me incomodou muito esse tipo de pessoa. A definição do termo “preconceito”, segundo o dicionário Michaelis, é: “Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados”. Ou seja: é falar, achando que sabe, quando na verdade, não se sabe nada.

Há figuras míticas, alvos de preconceitos e todo tipo de piada possível. Estão inseridos no imaginário coletivo. Advogados e sogras são preferência nacional. No entanto, descobri recentemente uma outra figura: o corretor de imóveis. Um amigo, que também está para casar, ao procurar apartamentos pela cidade de São Paulo, constantemente desligava o telefone xingando: “Odeio corretores de imóveis! Bando de [coisas impublicáveis]!”. Eu sempre me assustava, mas sempre considerei exagero dele, por conhecê-lo e saber de sua tendência a sempre reclamar das coisas, apenas para manter o hábito.

Acontece que eu comecei a procurar imóveis. Talvez por não possuir uma estratégia bem definida, tenha ficado vendido. Deveria ter seguido os conselhos de meu pai e ter lido A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Atualmente, é um livro utilizado por pessoas que precisam gerir empresas, se relacionar com outras pessoas, ir ao cinema e, ocasionalmente, alugar um apartamento. Enfim, um livro de estratégia militar virou auto-ajuda, mas no país do Paulo Coelho, quem sou eu para questionar? Eu deveria ter lido. Sair correndo descontroladamente em direção ao mercado de imóveis de uma cidade como São Paulo é algo que nem o personagem de Mel Gibson, em Coração Valente, indicaria.

De boa vontade, comecei a dar uma olhada nos classificados de domingo, tanto da Folha, como do Estadão. Muitos imóveis saiam nos dois, mas os que mais pareciam vingar eram os encontrados apenas em apenas algum dos dois jornais. Algo igualmente fundamental é percorrer os bairros desejados e anotar números de placas. Ao iniciar as conversas com corretores, comecei a vislumbrar o que me esperava. Raiva e xingamentos, características de meu amigo. Primeiro problema: o corretor entender suas limitações.

- Oi, eu vi um anúncio de imóvel em uma placa e gostaria de informações - disse eu.
- Ah sim, é uma bela cobertura, e está saindo por 800 - me respondeu.
- MIL?!? É para vender então, né?
- Isso, mas é uma bela cobertura.
- Entendi. Mas foge um pouco do valor que estou procurando. [Eu exagerei ao dizer "um pouco". A verdade é que eu teria que ganhar na Mega Sena para comprar algo assim!].
- OK, mas se quiser, temos belas coberturas em torno de R$ 400 mil também! [Para essa, eu teria que vender um rim, um olho e algum conhecido].
- Saquei, mas a bem da verdade, estou procurando algo para alugar.
- Poxa, temos para alugar também!
- Ah é?! Você tem apartamentos para alugar, por até R$ 200, com condomínio incluso?! [Pretendia desencorajá-lo a continuar oferecendo-me apartamentos de valores absurdos].
- Não.
Tutututu. [Desligou na minha cara. Consegui].

Sabe quando você entra numa loja de roupas e a pessoa fica tentando te empurrar um produto, mas você sabe que não vai te servir, ou que está fora das suas condições de comprá-lo? Pois é. Alguns corretores são assim. [Continuo tentando não generalizar. Acredito que há corretores do bem. Apenas não encontrei nenhum]. Já corretores do mal…

- Oi, meu nome é Gabriel. Vi um apartamento para alugar nesse bairro e estou interessado. Gostaria de saber informações dele.
- Ah sim, na verdade são três. Dois já foram alugados e o terceiro, o inquilino vai sair na segunda-feira da semana que vem. [Era uma terça-feira, e naquela semana haveria um feriado prolongado, na quinta e sexta-feira].
- Entendi. Mas eu tenho muito interesse e gostaria de ver antes, se possível.
- Olha, eu sei que está bacana, mas não tem mesmo como ver antes. O inquilino só sai na segunda.
- Entendi, mas não podemos tentar conversar com ele e tentarmos marcar algo antes disso? Só para eu saber como está, dar uma olhada, etc. Estou realmente interessado. [É preciso ser enfático nesse ponto. Muitos corretores acham que estamos querendo comprar um picolé].
- Desculpe Sr. Gabriel, mas não é possível mesmo. Mas fique tranqüilo, o seu telefone está super-anotado e eu vou… Qual é o seu telefone mesmo?
- É, eu achei mesmo que não tivesse te passado. Anota aí, por favor: 234-5678.
- Pronto, como disse, está super-anotado. E na segunda-feira, às 9h, eu te ligo para a gente agendar de ir lá.
- OK, mas tem certeza mesmo que não posso ir antes?
- Não, eu saberia disso.
- OK, obrigado.
[Passei a semana pensando no apartamento, vendo fotos da região no Google Maps, fotos de outros apartamentos do mesmo prédio, etc. Eu estava interessado no picolé. Digo, apartamento].

Segunda-feira, dia no qual o inquilino sairia, ligo às 10h para a corretora:
- Bom dia, é o Gabriel. Lembra-se de mim? Você ficou de me ligar às 9h, já são 10h e como estou realmente interessado no apartamento, gostaria de marcar de visitá-lo hoje.
- Ih Sr. Gabriel… Esse apartamento já foi alugado.
- HEIN???
- É, uma pessoa também estava muito interessada e eu acabei fechando com ela durante o feriado. Inclusive, já pagou o 1º aluguel.
- Como assim?! A pessoa fechou e deu um sinal sem nem ver o imóvel?
- Pois é.
- Pois é?! Você está realmente afirmando que a pessoa te deu o primeiro aluguel sem nem ver se o apartamento de fato existe?!
- Então, é que ele sugeriu de falarmos com o inquilino e conseguimos agendar uma visita antes.
- Sei.
- Pois é, mas seu telefone está super-anotado!
Tutututu. [Dessa vez, eu que desliguei na cara. Xingando, lógico].

E por último, há os proprietários dos imóveis. Eu havia visto, na Internet, em um site desses qualquer de anúncios, um apartamento de bom tamanho, ótima localização e um valor que parecia mentira. Liguei e descobri que havia uma pendência referente ao pagamento do condomínio, estimada em mais de R$ 3 mil. Mesmo o valor sendo repassado por inteiro, ainda saia em conta. Diversas vezes tentei agendar um horário com a proprietária, que sempre me pareceu um pouco confusa e estranha, mas segui tentando, pois parecia valer a pena. Ela disse que precisava resolver algumas coisas e sempre marcava para conversamos mais para frente. Foi assim durante três semanas, e ao percerber que não daria em nada, desisti. Passados quase dois meses, sugeriram que eu voltasse a ligar para ela. “Vai que ela não vendeu”. Era melhor já ter vendido.

- Oi moça, aqui é o Gabriel, lembra-se de mim? Liguei há algum tempinho para você, interessado no seu apartamento. Já vendeu?
- Não - disse, seca.
- Bom, ainda está interessada em vender, moça?
- Olha, eu não atendo ligações com número “não-identificado”.
Tutututu. [Já estava ficando acostumado a isso].

Ligo novamente, dessa vez, do meu celular. Explico tudo de novo, de ter falado com ela há dois meses e ainda estar interessado no imóvel. Ela começa a se descontrolar e desliga o telefone na minha cara. De novo. Eu, persistente [também conhecido como "pentelho"] que sou, tentei mais uma vez, falando manso, quase pedindo desculpas por querer comprar o apartamento dela.

- Oi, desculpe, é o Gabriel de novo… Aliás, não sei seu nome, não sei como te chamar, moça.
- Olha, eu sei o que você está fazendo! Isso é perseguição! Toda vez que eu digo que tenho algumas coisas pra resolver, alguém coloca uma pessoa pra me vigiar, mas eu não vou cair nessa!!!
- Como assim?! Eu só quero informações. Eu já falei com você antes, mas você nunca podia marcar pra ver o apartamento, lembra-se?
- É, eu lembro, mas ninguém liga depois de dois meses de anúncio… Ninguém faz isso!
- Moça, eu não estou te ligando? Então, as pessoas ligam. Eu realmente fiquei interessado no apartamento. Mas não estou entendendo, você ainda quer vender o seu imóvel?
- Quero.
- Então qual o problema se estou te ligando dois meses depois? Você quer vender, eu quero comprar. É simples. Você tem certeza que quer vender?
- Tenho, se você tiver o valor dele à vista, eu vendo.
- Moça, eu tenho mais de R$ 5 milhões na minha conta! Mas preciso ver o apartamento. Você por acaso compra um carro sem nem saber que carro é, a cor, o modelo, etc?
- Não.
- Então, eu queria ver o apartamento.
- Não! Pare de me ligar! Isso é armação e chantagem, eu sei! Não me ligue mais!
- HEIN?! Você não disse que quer vender o apartamento?!
- Para você, não.
Tutututu. [Ah, o som inconfundível de desligarem o telefone na sua cara].

Pensei em ligar novamente, dessa vez com intenção de botar terror pra valer na moça e entrar no jogo da conspiração. Mas percebi que estava sendo contaminado pela raiva do mercado imobiliário e a moça ainda tinha que lidar com todos aqueles corretores interessados no apartamento, tadinha.

Texto publicado originalment na Revista Paradoxo

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