Crônico

Invictus

4 fevereiro , 2010 · 2 Comentários

O novo filme de Clint Eastwood conta a história de Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul, tentando unir um país quebrado pelo apartheid. Mandela atuou de diversas formas para isso acontecer e a frente escolhida pelo diretor de “Menina de Ouro” e “Gran Torino” foi a seleção do time de rugby daquele país. Os Springboks, juntamente com o hino nacional, eram os principais símbolos da ala branca e separatista sul-africana. Quando todos os que apoiaram e votaram em Mandela esperavam que esses fossem eliminados, ele decidiu mantê-los, caso contrário, perderia a única oportunidade de trazer essa ala para seu lado. A Copa Mundial de Rugby de 1995 aconteceria na própria África do Sul e Mandela, um visionário, não deixaria essa oportunidade passar.

O enredo é esse e o que mais chama a atenção é a determinação [ou teimosia] do líder sul-africano em não abrir mão disso. No final das contas, ele estava certo, como nos conta a História, inspirando Clint Eastwood. Essa liderança de Mandela influenciou o capitão dos Springboks, interpretado por Matt Damon. Os conflitos e obstáculos são os esperados, como em qualquer filme que trate de questões e conflitos raciais. Nada de novo. O que então Clint Eastwood oferece?

Essa é a pergunta que fiquei fazendo por alguns dias, depois de ter visto o filme. Acostumado com temas tão complicados e intensos como em “Menina de Ouro” e “Sobre Meninos e Lobos”, “Invictus” acabou me parecendo fraco e raso. Um pouco deve-se a atuação de Matt Damon, já comentada em veículos estrangeiros. Dizem que ele ficou devendo. O problema é avaliar a atuação de alguém que representa uma pessoa que, de fato, existe. Não conhecemos [eu, pelo menos, não conheço] o ex-capitão do Springboks e não posso dizer que Matt Damon estava ruim. Se François Piennar, esse é o nome dele, era um homem recatado, tímido, de poucas palavras e que, mesmo assim, inspirava mais de 20 homens a batalharem em campo, fica difícil avaliar Damon, que parece ficar devendo, de fato.

Outra dificuldade é em aceitar Morgan Freeman como Nelson Mandela. A representação dele está absolutamente convincente, utilizando o sotaque do sul-africano e reproduzindo detalhes de trejeitos. Quem não convence é o próprio Morgan Freeman.

Entenda, como ator, é excelente. Mas já foi associado a tantos personagens que demora um pouco até acostumar-se com a ideia de que ele é Nelson Mandela. Fiquei intrigado com isso. Quantos personagens um ator precisa interpretar para não ser mais possível olhar para ele e não lembrar de todos os outros? Dez? Vinte? Talvez um. Há atores que fazem um personagem e nunca mais serão esquecidos por ele. O caso do Morgan Freeman é que ele interpretou muitos personagens fortes e expressivos, vários deles. Talvez a escolha dele para mais um desses seja questionável. Porém, é justamente isso que o faz ser escolhido: ele é considerado um dos melhores. Ser o melhor justamente faz com que demoremos a aceitá-lo naquele papel. Complicado, não?

Interessante que foi isso que ficou na minha cabeça após o filme. Mas vamos resumir: o filme é bem feito, retrata muito bem aquele momento histórico e é interessante ver mais um jeito de Nelson Mandela lutar pelo seu país. Por isso, vale a pena. Não vá esperando um filme de Clint Eastwood, como está acostumado. Se fizer isso, não se arrependerá.

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Sonhei de novo com você

30 janeiro , 2010 · 1 Comentário

No primeiro sonho, estava se despedindo, lembra? Nesse, você havia voltado. Não sei como, mas o porque era claro. Uma pena que esqueci quando acordei. Talvez fossem conselhos, observações ou só pra papear mesmo. Talvez tenha sido só pra gente te ver. No caso, eu, no meu sonho. Foi mais real do que a outra vez. Da primeira, sabia que havia sonhado contigo e, ao acordar, ‘esquecido’ da sua partida.

Dessa vez, tive que ficar alguns segundos deitado na cama, me convencendo de que tinha sido um sono. Foi uma das coisas mais difíceis que fiz na vida: ter que convencer meus sentidos que você partiu, pra valer. Pra sempre. Eu queria me entregar a eles. Deixar que tomassem conta da razão, me recusar a acreditar no que aconteceu, de fato.

Mas não. Não poderia ser diferente. Minha razão e meu compromisso com a ‘verdade’ não me permitiriam fazer isso. Odeio ser enganado pelos outros, inaceitável que fosse enganado por mim mesmo. Mas, a real, é que eu quase, QUASE, me entreguei.

A sensação é de ter chegado à beira de me tornar alguém que enlouquece. Não estou brincando. Ao perceber que quase acreditei que tudo isso [a sua partida, a falta que faz, a dor que sinto] fosse apenas um sonho e que meu sonho estava se tornando a minha realidade, fiquei assustado. Pois cheguei perto, pra valer. Sempre tive essa dúvida: qual a linha que separa a loucura da sanidade?

Acho que cheguei na linha e olhei pra ela, admirado pelas possibilidades que se abririam à minha mente. Mas foi assustador, pois tive a certeza de que seria um caminho sem volta. Um porre sem ressaca, mas um eterno porre, sem conseguir distinguir bem a realidade. Pior, viver com meu sonho se tornando realidade, mas me desconectar do resto da humanidade.

Então, o que sobra? A dor de ter experimentado sua presença novamente, sentido o gosto de te ter por perto de novo e tudo virar fumaça, em uma baforada suja e amarga da vida. Deus tenha misericórdia da minha alma, pois não confio mais na minha mente.

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A arte de ficar calado

20 janeiro , 2010 · 3 Comentários

Admiro quem consegue ficar calado. Principalmente, ficar calado nas horas certas. Quem me conhece sabe que sou apenas um admirador, pois se falo muito, acabo falando ainda mais nas horas em que não deveria.

Veja bem, não é só ficar calado e pronto. Sou um ser, por natureza, que gosta de socializar, conhecer pessoas novas e, claro, falar. Mas essa arte, não, VIRTUDE, de ficar quieto quando convém, ainda não adquiri/desenvolvi.

Suspeito que seja algo patológico, pois não é aquela ‘implicância’ apenas [apesar d’eu ser implicante, não precisa me lembrar]. Mas se ouço algo muito absurdo, algo que simplesmente não faça sentido algum, ou algo que discordo veementemente, preciso dizer alguma coisa. É mais forte do que a minha força de vontade, que devia mudar de nome, para “vontade” só, porque de força não tem nada.

Nessas férias estive com um amigo que diz o que pensa, declara o que acredita, mesmo que polêmico, mas na hora certa e, principalmente, para as pessoas certas. Comigo, por exemplo, ele se abriu. Mas nas horas em que a discussão pegava fogo, comigo jogando lenha, claro, mesmo que involuntariamente, olhava para ele, que mantinha aquela cara serena, pacífica e, principalmente, de pau! Foi o que achei, já que sabia que ele concordava comigo em alguns assuntos, sem se manifestar.

Entendi, porém, que não era omissão. Se você perguntar a ele qualquer coisa que queira saber, ele vai falar. Não vai te enrolar e ludibriar, mas será sincero na resposta. Porém, quando alguém solta alguma coisa que soa absurda, ele simplesmente fica na dele. Nem a sobrancelha se mexe! Fica impassível, como se nada tivesse acontecido.

Não sei, mas desconfio que deva existir algum monge dando um curso desses por aí. “Saiba ficar calado em 30 dias”. Mesmo que seja no Tibet, acho que valeria a pena. Porque eu tenho noção de quando é que devo ficar calado. O problema é que isso só acontece antes e depois do momento. Agora, por exemplo, consigo elencar alguns momentos futuros em que devo deixar de falar o que penso. Acontece que quando chegar o momento, esquecerei de tudo. Incrivelmente [?], cinco minutos após ter feito um discurso sobre o que penso, sinto aquela pontada no cérebro que diz “Você devia ter ficado calado”. Eu sei! Eu sei! Mas porque você não me impediu?, digo ao meu cérebro. “Eu tentei, mas quem disse que você me ouve?”. Ele tem razão. Sempre.

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Minhas férias

15 janeiro , 2010 · 2 Comentários

A professora Márcia que há dentro de mim, desde a 5ª série, não deixa de me pedir uma redação “Conte suas férias”. Primeiro que, inacreditavelmente, consegui 20 dias de descanso. Não me pergunte como. Eu até sei, mas não vou sair por aí contando meus segredos, né?

Aquela coisa de jornalista que usa internet praticamente o dia todo, além de tê-la no celular, foi a melhor coisa de não ter. Acessei emails algumas vezes e esqueci que existiam algumas coisas na web. Rede mesmo, só a dos pescadores. Pescadores esses que, filosofei por esse período, têm uma vida absolutamente alheia à nossa. E digo isso de forma positiva. Sabe tudo isso que inunda nossa [minha] mente? Internet, MSN, Bankline pra pagar conta, trânsito, supermercado, notícia ruim no Jornal Nacional etc? Para ele, é o mar, o tempo [aberto ou nublado], a rede e o barco. Tudo o que ele depende está ali, na frente dele. Olhar as condições do mar, dar uma checada no vento, nuvens e pronto. Jogar a rede e esperar. Uma coisa bem “O Velho e o Mar”, do Hemingway. Que, aliás, se você não o leu, leia. Se leu e não gostou, leia de novo. Talvez você não tivesse a idade [ou experiência de vida] suficiente para gostar dele.

Falando nisso, indico um dos melhores livros da década: “O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu”, do Oliver Sacks. Li na faculdade [jornalismo] , mas serve também para quem é músico, psicólogo ou ser humano. Sim, para qualquer ser humano, é um excelente livro. Sacks é um neurocientista, contando histórias de pacientes que sofrem de alguma ‘deficiência’ neurológica.

A propósito, ponderei nessas férias também que contar histórias é o que nos faz mais humanos, mais próximos uns dos outros. Ouvir relatos de algo que poderia ter acontecido conosco, ou que, justamente, também aconteceu em nossas vidas. As histórias trazem o incrível para o terreno e elevam o simples a herói. Tenho um colega que sempre diz: “O que sempre fazemos, jornalistas, é contar histórias. Não importa qual seja sua pauta; se você fala de Economia, Comércio Exterior ou Esportes. Você vai contar como é que a vida da Profª Márcia mudou depois que a taxa de câmbio subiu”.

Por isso crônicas me fascinam tanto. Essa é a razão que me faz lê-las e me fez querer escrevê-las também. Não tenho uma mente capaz de inventar histórias. Gostaria, mas descobri que gosto de ouvir histórias e recontá-las. Conhecer as particularidades de cada pessoa e lê-las como um documentário romanceado.

Foram assim minhas férias, à beira da praia, claro. Ouvindo e conhecendo histórias. Contando algumas outras. Com pessoas que não participam, necessariamente, desse meu cotidiano de jornalista, mas fazem parte quando lêem meus textos e se emocionam. Fazem mais parte ainda quando se transformam naquilo me emociona. Dessa forma, decido escrever, como uma simples forma de agradecimento por dividirem suas vidas comigo.

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Papai Noel

24 dezembro , 2009 · Deixe um comentário

Não sei até quantos anos acreditei em Papai Noel, mas lembro da última vez em que achei fosse possível que ele existisse. Eu já não acreditava nele, mas um tio de meu pai, psicólogo, quis brincar com a gente. Passaríamos aquele Natal na casa deles e, semanas antes, ele começou a jogar no ar esse assunto. Perguntava se eu ainda acreditava em Papai Noel e quando disse categoricamente que não, que besteira, ele perguntou “Por que?”. Aí deu um nó, claro. E foi assim por algumas semanas.

No dia 24 de dezembro, fomos para a casa de meus tios e tudo correu como o planejado. Jantar, conversas, risadas etc. Pouco antes da meia-noite, meu tio voltou ao assunto “Papai Noel” e começou a dizer que ele existia sim. De repente, ele parou de falar. Ficou olhando para o nada, como um caçador tentando ouvir os passos de sua presa. “Acho que tem alguém lá fora”. Dei risada, já imaginando o que ele estava tentando fazer. Ele continuou sério, não dando bola para mim. “Sério, ouçam” e ficamos todos em silêncio. Ouvimos alguns passos e corremos para o andar debaixo da casa. Havia presentes no quintal e me assustei, pois tinha ido lá pouco tempo antes e não vi nada. Meu tio continuava sério e ficamos em silêncio novamente. Ouvimos o som de guizos na varanda de cima e subimos correndo a escada que ligava o quintal àquela varanda. O som dos sininhos foi ficando distante e eu fiquei olhando para todos os lados, para cima, procurando alguma coisa, sem saber o que exatamente.

Fiquei um tempo olhando para o céu, estrelado. Estava admirado por algo tão mágico ter acontecido naquela noite e eu estar presente. Ainda não sei como meu tio fez aquilo, já que em nenhum momento ’sumiu’ alguém da família. Na verdade, prefiro não saber. Nunca perguntei e pretendo que continue assim.

Vivi aquela experiência como a última vez em que acreditei no senhorzinho de barba branca e roupa vermelha. Mesmo sabendo que ele não existia, acreditei pra valer e, de certa forma, ele acabou existindo, para mim. Pela última vez, é verdade, mas com a lembrança de um tempo em que eu acreditei no Papai Noel.

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foto: Oscar Segovia

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Vida longa aos miguxos

18 dezembro , 2009 · 4 Comentários

Felizes são os miguxos, aKeLi peXXoaU ki ixkrevi aXXim, sabe? Então. Pra mim é praticamente impossível escrever desse jeito. Preciso pensar em quais letras usar e o trabalho que dá é três vezes maior do que o natural. Aliás, o que está escrito ali em cima é “aquele pessoal que escreve assim”.

Mas isso é comigo. A molecada que escreve aXXim nem precisa pensar. Sai automático. E nós, velhos, dizemos que esse mundo está perdido e onde é que vai parar com essa juventude escrevendo tão errado? Me intriga, pois os mesmos que reclamam dos miguxos abraçam, sem pensar duas vezes, o modo de escrever Cersibon e Katylene. Ficou chyque e raipe. No Twitter principalmente, onde o povo se solta.

Veja bem, eu acho mesmo é que tem que flexibilizar a língua e tal. Gosto dessas brincadeiras e neologismos. A crítica não é ao modo como se escreve, mas a quem reclama dos miguxos e mesmo assim se permite escrever errado também, só que de um jeito que é considerado cool.

Deixem os miguxos em paz. Não consigo ler o que eles escrevem e nem gosto que escrevam assim, justamente porque não consigo entender. Mas eles se entendem. Eles é que são felizes. Escrevem sem amarras e criam sua própria cultura. Por ser diferente da nossa – a tradicional e cheia de regras – achamos um absurdo e o fim do mundo. Deixem que sejam felizes, que troquem as letras, que pontuem onde quiserem, quando quiserem, não pontuem, usem maiúsculas e minúsculas de forma absurda e se livrem do gesso da ortografia e gramática.

Exijam uma escrita correta e coerente apenas em redações e provas [ou quando se formarem jornalistas. Se bem que isso mudou e o cara pode ter um blog e escrever mais livremente, néam?]. Felizes são os miguxos, que não precisam provar que sabem escrever, se comunicam, se integram e, principalmente, não estão nem aí pra gente. ViDa lOngA aoS MiGuXoss.

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Tristão e Isolda

9 dezembro , 2009 · 1 Comentário

(…) o livro constitui parte prévia da nossa memória. É um livro tão vasto e tão importante que nem é preciso lê-lo
Jorge Luis Borges

Essa declaração de Borges diz respeito ao livro “As Mil e Uma Noites”. Se você parar pra pensar, faz sentido. Mesmo com vontade de lê-lo, é possível entender toda a sua importância, todo o seu mundo, mitologia e conceito sem mesmo nunca ter aberto uma página sequer, de qualquer exemplar desse livro. Não há uma autoria definida dessas histórias, que foram compiladas e replicadas de manuscrito em manuscrito.

Há certas coisas na vida semelhantes à não-necessidade de ler as histórias de Sherazade. Uma delas é o amor; a outra, o medo. Quando juntos então, fazem coisas inimagináveis. Para o bem ou para o mal. E para o nada também. Além disso, são capazes de nos fazer sonhar e temer o que, principalmente, nunca experimentamos.

Outra história que ouso dar uma de Borges e dizer que, de tão importante, não é necessário lê-la, é a de Romeu e Julieta. A miséria, desgraça e tragédia humana, cercadas por um amor tão intenso que beira à loucura, não precisa de texto. Faz parte da nossa memória prévia de vida, se não, da memória futura. Mesmo que não tenhamos vivido aquilo, sentimos algo parecido em nossas almas. E, contra os sentimentos da alma, que razão consegue valer-se da razão?

Tristão e Isolda, por exemplo, nunca li. Mas sei que a história lembra um pouco a de Romeu e Julieta. No entanto, é mais uma que retrata um dos maiores medos do Homem: morrer sozinho e sem ninguém que corresponda seu amor. Nossa alma se desespera e angustia, ignorando todos os argumentos da razão, por mais provas e fatos que ela utilize para provar que se as coisas correrem do jeito que estão, poderemos partir com a certeza de que somos amados. Porém, mesmo não tendo lido Tristão e Isolda [ou Romeu e Julieta], nossos corações temem o que nossa razão desconhece: os medos da alma, que não aceitam conversa. Não têm olhos, ouvidos, tampouco bom-senso. Só nos resta tentar conviver com eles.
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foto: Oscar Segovia

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A fantástica vida breve de Oscar Wao

4 dezembro , 2009 · Deixe um comentário

O trajeto no Metrô era: [subir] Belém > Sé > Paraíso > Vila Madalena [descer]. Sempre que faço a baldeação na Sé tenho que pensar por alguns segundos no mapa de São Paulo e quase adivinhar se para a V. Madalena/Paraíso é preciso ir no sentido do Jabaquara ou do Tucuruvi. Ele, o cérebro, mandou ir pro Jabaquara. Entrei no vagão e, depois de sentar, abri o que estava lendo, “A fantástica vida breve de Oscar Wao”. Sim, é bom. O autor, Junot Díaz, ganhou um Pulitzer, “o Oscar dos livros”, diria o jornalista cultural. Mas a garantia dele ser bom não é essa, claro.

Já disseram ['disseram' quem? / eles, oras... / 'eles' quem? / você sabe] que são os livros que nos escolhem. Concordo, mas sou eu que compro, então os dois se escolheram. Quando li um tweet do @jpcuenca elogiando “…Oscar Wao”, tive a impressão de já ter ouvido falar no livro antes. Mas a primeira referência linkável no meu cérebro é essa do Twitter, então prossigamos.

Depois disso, dando uma checada da Livraria Cultura, vi o livro na parte de Mais Vendidos / Lançamentos / Destaques [escolha um] e li a contra-capa, com aspas do New York Times: “Tão original e fantástico que somente pode ser descrito como um encontro entre Mario Varga Llosa, Jornada nas Estrelas e Kanye West”. Se você não me conhece, então saiba que uma descrição dessa garante que eu vá diretamente ao caixa comprar o produto, não importando minha situação financeira. A pegadinha é que estou aprendendo a controlar meus impulsos [quando acho necessário, claro] e não comprei o livro. Pedi à minha esposa para comprá-lo de aniversário para mim [o fato de não comprá-lo não quer dizer que eu abriria mão de tê-lo ;-]

Depois de ler, posso afirmar: tem muito mais de Star Wars do que de Kanye West. E de Vargas Llosa, tem a narrativa, claro. Oscar é um guri fissurado em tudo que já fomos e somos fissurados. E é um loser, óbvio. Caso você não saiba, ser nerd nos anos 90 não era legal. Ficava longe de ser bacana como Sheldon/Leonard, o pessoal de CSI, Peter Parker ou Clark Kent [OK, Clark Kent é um mala] o Dr. Manhattan. Ou o Batman que, de certa forma, é um nerd também. Falando nisso, Junot Díaz considera nerd até Che Guevara e cia. O cara mandou bem na construção dos personagens e da ambientação. Merece o Pulitzer que recebeu.

Eis que tinha o livro em mãos e quando a moça do falante do vagão anunciou, “Estação Liberdade”, pensei, Estou no sentido contrário, e todo o resto aconteceu em questão de 8 segundos, no máximo. Levantei, saí do vagão, meu cérebro processou que a possibilidade d’eu ter errado em achar que estava no sentido errado era grande, fui andando lado a lado ao trem, bati o olho no mapinha que fica em cima das portas dos vagões e vi que estava certo em achar que tinha errado em achar que estava no sentido errado. Entrei no vagão seguinte e pude continuar minha leitura, dessa vez me preocupando apenas em não perder a estação Paraíso.

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Texto publicado originalmente no Judão.

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Me joguei lá dentro, claro

3 dezembro , 2009 · 1 Comentário

Sabia que eu sei nadar?, Sabe nada!, Claro que sei… você é que não sabe, Sei sim!, Sabe nada, Sei!, e vou te mostrar assim que chegarmos no hotel. Eu tinha três anos. Chegamos e a primeira coisa que fiz quando vi a piscina? Me joguei lá dentro, claro. Não, eu não sabia nadar. E o irmão mais velho de meu pai, que tomava conta de todos nós, também não. Fui salvo por um cara que estava por perto. Contam até hoje do desespero de me ver lá no fundo, só com os cabelinhos em pé, morrendo afogado.

Você sabe dirigir?, Sei, claro!, Mas sabe mesmo?, Sei! Já peguei o carro do meu pai umas duas vezes. Eu não sabia dirigir, mas só sei disso hoje. A vontade de dirigir era tanta que ter chegado na segunda marcha com o carro do meu pai em uma rua deserta de um condomínio fechado me fez dizer “Sei, claro!”. O fato é que peguei um carro em plena Zona Norte, sem nem saber mudar de marcha, quanto mais parar o carro na subida e sair com ele. Como chegamos ao destino sem bater [uns 5km depois], não sei. Assim como não sabia dirigir.

Que mania é essa da gente querer saber tudo, querer dizer que conhece tudo? Quantas vezes você já não mentiu para alguém que te perguntou: “Sabe aquela cena em O Poderoso Chefão, da cabeça do cavalo? Então, foi igualzinho!” Sei! e dá uma risada junto, sem nem fazer ideia de que O Poderoso Chefão tratava de cavalos.

A gente já tem que saber muita coisa nessa vida. Desencane. Pode assumir que não conhece, pois não será a única pessoa. Além do mais, o ser humano só conhece alguma coisa à partir do momento que conheceu. Óbvio? Não, pois tem gente que diz “Você não conhecia essa banda?! Todo mundo conhece!”. Meu velho, até alguém te mostrar, ou você ouvir em algum lugar, você também não conhecia!

No caso de um jornalista, então, é indesculpável. “Como você não sabe que três espanhóis foram sequestrados na Mauritânia?! Você é jornalista!”. Obrigado por avisar. Tinha esquecido.

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Texto publicado originalmente na coluna Miudezas, da Revista Paradoxo.

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Doce lembrança

30 novembro , 2009 · 6 Comentários

Quem acompanha esse espaço sabe que leio um blog chamado PostSecret. A ideia: pessoas mandarem cartões postais com algum segredo pessoal. Simples e bonito. Já faz um bom tempo que acompanho e sempre achei legal como ele, de fato, conseguia ajudar as pessoas. Até que aconteceu comigo.

Perdi meu sogro no dia 8 de novembro. Era como um pai para mim. Claro que, infelizmente, só fui descobrir isso depois de perdê-lo. De sentir uma dor e uma ausência que nunca imaginei ser possível. Perdi meu avô quando tinha 12 anos, mas dessa vez foi diferente. Está sendo diferente. Um pouco desse sentimento escrevi aqui, mas o que mais dói é aquilo que a gente não consegue explicar, só sentir.

Então estava lendo o PostSecret de ontem e me deparei com isso [a tradução é minha]:

—–Email Message and picture—–

Frank,

My father, who I was very close to, passed away when I was 21 very suddenly and unexpectedly. 2 years later I met the man of my dreams and could not imagine getting married without my dad there.

[meu pai, de quem eu era muito próxima, faleceu quando eu tinha 21 anos, de forma inesperada e muito rápida. 2 anos depois conheci o homem dos meus sonhos e não pude me imaginar casando sem que meu pai estivesse lá]

To this day, whenever anyone asks me who walked me down the aisle the true and honest answer is: “My dad did”.

[desde então, toda vez que alguém me pergunta quem entrou na igreja comigo, a resposta verdadeira e mais honesta é: "Meu pai entrou"]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maybe someone else out there will find this to be a small comfort during the sadness of not having their dad.

[talvez alguém por aí encontre nisso um pequeno conforto, durante a tristeza de não ter seu pai]

—–End Message—–

Não sei o nome dela. Gostaria de saber, para escrever agradecendo-a. Não sei explicar como um pequeno texto desse e a foto trazem conforto a alguém. Não dá pra explicaro como, só dizer que é possível. O fato é que, ao ler isso, chorei junto com ela. Acho que é uma coisa humana, da gente se ‘encontrar’ na miséria e ter compaixão, um do outro, não sei. Também não sei o que é perder um pai, apesar de hoje, infelizmente, conseguir imaginar isso.

Porém, se ela conseguiu ir em frente, compartilhar isso em um blog, de forma tão bonita e singela, acredito que eu consiga, um dia também, olhar para trás e ver que a dor virou uma doce lembrança. Assim espero.

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