Crônico

A ilha

5 Novembro , 2009 · Deixe um comentário

Não lembro de qual faculdade de engenharia era e talvez seja melhor não saber mesmo. Já faz mais de um ano que vi o anúncio no jornal mostrando a foto de uma ilha e alguma frases, de sugestões para utilização do local. Isso daria um ótimo estacionamento! Não, acho que um shopping seria o ideal! Vocês não sabem de nada… essa ilha é ideal para construirmos um resort ecológico, sem destruir [muito] a vegetação local e explorarmos esse empreendimento.

Quem me conhece, sabe que sou lento para processar as coisas. Li o anúncio e fiquei pensando que diabos aquela faculdade queria ‘vender’? Para mim, é simples. Construir um resort ecológico é tão ruim quanto construir um shopping ou um mega-estacionamento. Se você já foi à Ilha do Mel ou Ilha Grande, sabe que o grande atrativo desses lugares é justamente a distância da civilização e de todos os aparatos da modernidade. O lugar não é chamado de ‘paradisíaco’ à toa.

De cara, fiquei meio revoltado com um anúncio para potenciais alunos de engenharia que olhem para lugares assim e pensem em empreendimentos. Mas, como diria meu pai, é a lógica do mercado. É assim que as construtoras pensam, logo a Academia oferece aos alunos um pouco do que o mercado exige deles.

Depois da revolta vem a tristeza, ao constatar que nossas ilhas, futuramente, poderão ser todas grandes resorts ecológicos e mega-empreendimentos de gigantescas construtoras. Mas podia ser pior, né? Esses engenheiros poderiam se formar em uma faculdade que não a oferecida no anúncio e construírem um estacionamento ali. Deixar a ilha como está, que é bom, ninguém cogita…

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Texto publicado originalmente na coluna Miudezas, da Revista Paradoxo.

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Wilson Polanski [ou Roman Simonal]

31 Outubro , 2009 · 1 Comentário

A idéia do texto é comparar o caso do Polanski com o do Wilson Simonal.

Veja bem. O diretor renomado Roman Polanski não pode entrar nos EUA pois é acusado de pedofilia. Um caso que ocorreu há uns 30 anos. Mas tem gente dizendo que deveriam pegar leve com o cara, já que ele é um renomado diretor de cinema e que isso foi há muito tempo. A guria, que tinha 13 anos na época, já está com seus 40 e tantos. Houve quem usasse como argumento o fato dela, na época, não ser mais virgem, já ter usado os mesmos entorpecentes que na noite em que teve sexo vaginal [e anal] com o Polanski e que mãe da menina sabia para onde levava a filha. Esse tipo de argumento, para mim, é igual decidir quem vai namorar uma garota só porque disse: “Eu vi primeiro”. Quer dizer que se eu levar meu filho na bocada, pra comprar cocaína e ele já tiver usado, então tudo bem? Pelamor… mas enfim, prossigamos.

Não acho que deva existir dois pesos, duas medidas. Só porque o cara é influente e renomado diretor [e velhinho], então deixa pra lá. Mas já que a sociedade quer agir assim, vamos pegar o caso do Wilson Simonal, por exemplo. Há uma corrente que acusa o cantor ter delatado colegas na Ditadura Militar. Mas há outra corrente que o defende, inclusive o próprio Simonal, que quando morreu, em 2000, ainda tentava provar sua inocência.

Mas não vejo ninguém dizendo: “Poxa, deixa pra lá. O caso foi há tanto tempo… nem vale mais a pena. O cara já tá velhinho e, quer dizer, já morreu e nem vale mais a pena tocar nesse assunto”.

Sinceramente, não sei o motivo. Vai ter gente dizendo que é porque o Simonal é brasileiro e como o Polanski é gringo, passa a ser cool defendê-lo. Não duvido se alguns se levantarem afirmando que isso é puro racismo, já que um é diretor franco-polonês e o outro é a cara do Brasil.

Querem deixar o caso do Polanski pra lá? OK, façam isso. Acharei um absurdo e não concordo. Mas que pelo menos a classe média pseudo-intelectual, defensora do diretor de cinema renomado, seja coerente e pare de encher também o saco da família Simonal.
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UPDATE: nunca fui a favor dos delatores da Ditadura. Quando estudava o período no colégio, passava raiva só de pensar que alguém era capaz de caguetar os colegas. Não defendo o Simonal, assim como não defendo o Polanski. O caso do Simonal é mais complicado, visto que não há um consenso sobre o ato praticado pelo cantor. No entanto, fico mais revoltado ainda em ver uma sociedade incoerente em seus princípios.

o texto da Gabi traduz tudo o que penso.

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A firma

29 Outubro , 2009 · 2 Comentários

Primeiro dia de trabalho é algo sempre complicado. Você não conhece direito as pessoas e o que conversar. Conta sua vida? Mas o quanto se abre? Pior é que nem o básico para sobreviver está ao alcance de suas mãos. “Onde é mesmo que disseram que ficava o café? E água? Não vi ninguém com garrafinha em cima da mesa. Será que vou escandalizar com essa minha, de 1,5L?”

Esses dias fiquei imaginando o primeiro dia do presidente, por exemplo. Digamos o Lula, vai, que é o atual e nunca havia exercido nenhum cargo assim quando chegou ao Planalto Central. Será que ele conseguiu jogar paciência no computador dele? O pessoal do TI chegou a bloquear o Twitter, blog e Youtube [tão essenciais para a sobrevivência quanto o café e a água]?

Acho que o mandato de presidente e afins duram quatro anos pois até conhecer todo o pessoal ‘da firma’, pelo menos um ano se passa. Inicia-se sempre pelos que estarão mais próximos, no dia a dia, até o pessoal que escreve para o presidente e acha que ele sorteia cartas como a Xuxa fazia, em uma pequena montanha de envelopes, jogando tudo para o alto e pegando uma no ar.

Secretários pessoais, assistentes, assessores, vice-presidente, presidente da Câmara e o pessoal que trabalha de verdade na Esplanada.”Senhor, esse é o responsável pela limpeza da sua sala. Esse é o responsável pela limpeza do corredor. Esse é o chefe-adjunto da limpeza do andar. Esse é o secretário-executivo do cafezinho depois do almoço”. Aleluia!, deve ter exclamado vossa excelência em suas primeiras horas como presidente, já desesperado por um pouco de cafeína.

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Te quiero

29 Outubro , 2009 · Deixe um comentário

A medida exata de água a ser esquentada e colocada dentro da bolsa de borracha, em dias de cólica. Pegar a toalha antes mesmo de você pedi-la, lá de dentro do box, toda molhada. A distância de seu cabelo do meu braço, quando esticado na cama. O perfume de seu travesseiro, ao sol. Abaixar o volume da TV sem que você peça e já queira. Pedir de janta exatamente aquilo que está desejando há dias. Te abraçar sem saber o porque, mas sabendo ser necessário.

Tantas medidas e movimentos já decorados e tanto ainda a aprender. Uma vida inteira já conhecida e uma vida inteira pela frente, de descobertas e surpresas. Que venha mais. Sempre mais. Toda você.

foto: Oscar Segovia


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21 Outubro , 2009 · 3 Comentários

Já reparou que quando você compra aquele tênis vermelho, começa a reparar o quanto de gente usa tênis vermelho? Ou quando você viaja para algum lugar e depois percebe o quanto se fala nele? Quando a gente casa não é diferente. Você começa a prestar atenção nas conversas ao seu lado e se dá conta do quanto as pessoas falam sobre seus casamentos.

Estava comendo em uma praça de alimentação e as duas amigas ao meu lado conversavam. Uma delas reclamava alguma coisa de seu companheiro / namorado / noivo / marido. Era um detalhe, mas não deixa de ser algo muito comum de acontecer.

O que reparei é o costume que há em se reclamar do seu cônjuge. Seja um casal hetero ou homossexual. Parece que a aliança na mão esquerda não é o suficiente para mostrar que a pessoa está em um relacionamento de casamento, ou nos moldes dele.

Muito já foi dito sobre a crise da família, como instituição e tudo mais. Não há uma causa. Não há um motivo único a ser acusado. Mas tenho visto [e aprendido] que algumas coisas contribuem para enfraquecer esses relacionamentos.

Um deles é a falta de cumplicidade que há entre os casais. Alguém certa vez me disse que a cumplicidade era algo a ser buscado por aqueles que queriam ter um relacionamento completo, com todas as suas vantagens e desvantagens. Uma mistura de Bonnie & Clyde com Lois & Clark. Assumi isso como uma coisa a ser exercitada constantemente.

Claro que, justamente por isso, não é algo fácil. A cultura de ‘homens x mulheres’ é muito forte. Quantas vezes você não viu uma guria dizer “Bah, eles não prestam… estou do seu lado, amiga”? Parece que as mulheres são eternas inimigas dos homens e que nós somos um vírus a ser combatido. Eu, por exemplo, me proibi de participar de jogos do tipo Imagem & Ação, com times de ‘homens x mulheres’. Perco o controle.

Acredito ser necessária a consciência de que a pessoa que mora comigo não é minha inimiga. É minha cúmplice. Se estamos na lama, estamos na lama juntos. Se estamos no caos, estamos no caos juntos. Se estamos vencendo, vencemos juntos. A pessoa que vive comigo é a que mais preciso ao meu lado, me apoiando e me lembrando das coisas que valhem a pena. Proponho que baixemos a guarda, assumamos a decisão de partilharmos nossa vida ao lado de alguém e sejamos cúmplices, um do outro.

O jogo ‘homens x mulheres’ é uma enganação, uma ilusão. Quando se decide viver com alguém, só existe “Nós x O Resto do Mundo”.
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texto publicado originalmente na coluna Miudezas.

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Menino de barba

15 Outubro , 2009 · Deixe um comentário

Escrevi sobre o sorriso das crianças, mas em dois dias descobri o sorriso dos idosos.

idoso_osegovia_menorSexta-feira passada, de manhã, foi ao ajudar uma senhora saindo do ônibus. Ela descia os degraus com dificuldade e o último deles parecia muito distante da calçada. Estiquei minha mão, ela se apoiou, viu que era um ‘menino’ ajudando e sorriu. Valeu meu dia.

No dia anterior garoava com vento. No ponto de ônibus, mesmo embaixo da parte coberta, molhávamo-nos, eu e as três senhoras. Abri meu guarda-chuva e deixei-o de lado, para me proteger do vento. De forma sutil, aproximei-me das senhoras, até que meu guarda-chuva [perdeu o hífen?] as protegesse também, embora não completamente. Passados alguns segundos, uma delas percebeu e veio bem embaixo do guarda-chuva, ficando quase colada em mim. Ela tinha a voz da Nair Belo: “Meninas, venham pra cá também! Tá quentinho!”, falou Dª Terezinha. “Olha que coisa mais fofa esse menino” [eu, no caso, o mesmo da barba que assusta criancinhas do outro texto]. As duas outras senhoras se achegaram e ficaram pertinho de mim. A mais linda de todas, que infelizmente não lembro o nome, foi em um ônibus antes do meu e a Dª Terezinha ficou para pegar o próximo, com a que tinha um guarda-chuva no braço, mas não negou o meu abrigo.

foto: Oscar Segovia

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Homem de barba

9 Outubro , 2009 · 3 Comentários

O sorriso de uma criança vale ouro, já percebeu? Nós, adultos, fazemos de tudo para que nos dêem um sorriso. Para que riam de nós. Eu mesmo, quando encontro com alguma criança na rua que fique olhando mais de três segundos para minha cara de Hagrid, sorrio de forma que ela entenda que sou um deles. Que ela é um de nós. Que entendo [ou lembro] o que passam e que sinto por ouvir mães e babás se relacionarem com elas na base do medo.

Como quando fui usado em uma situação dessas, em Embu das Artes. Estava sentado no banco da praça e passou uma mãe arrastando seu filho pelo braço, que fazia birra por alguma coisa. Ao se aproximarem de mim, ela me olhou, se voltou para o menio e mandou: “Filho, se você não parar com essa choradeira, vou te deixar com esse homem de barba aqui. É isso o que você quer?” Claro que não, você adivinhou. Não sou considerado boa companhia para adultos, quanto mais para crianças.

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Meu smartphone tem marcas de chocolate na tela

2 Outubro , 2009 · 3 Comentários

Logo eu, que tenho medo de altura. Eu que, tantas vezes, dei bronca nas pessoas por ficaram próximas às janelas e seus parapeitos. Parece que meu coração vai pular do meu peito. Por que é mesmo que estou aqui? Ah sim, aquela dívida. Não vão me deixar em paz. Mas não tenho dinheiro. A fatura do meu cartão de crédito vem com R$ 3 mil e eu recebo R$ 2,5 mil. Quer dizer, recebia. Demitido não recebe. Pense numa matemática. Recebo o salário e, ao contrário das outras pessoas que pagam suas contas e vêem quanto sobrou para passar o mês, já fico com uma dívida de R$ 500. É o quanto ficou pra pagar o mês que vem. Mais os juros em cima desses R$ 500. Ou seja, minha dívida só aumenta. Pergunta se meu salário aumenta na mesma proporção que os juros comem meu cheque especial?

Cheque especial… nem existe mais. Estou velha mesmo. Ganhando pouco já não conseguia sair do monstro que o cartão de crédito criou, imagina agora, desempregada? É por isso que estou aqui. Como forma de protesto. Para mostrar como os bancos, o mercado e a sociedade estão pouco se lixando para mim. É só ligar pro 190 e dizer “Estou no 23º andar e vou pular” que aparece um monte de gente ‘preocupada’ comigo, dizendo pra eu não pular. OK, e depois que me ‘salvarem’? Quem paga as contas? E ainda esse bando de adolescente babaca lá embaixo, gritando “Pula! Pula! Pula!”. Maldito horário que fui escolher, bem na hora da saída desse colégio… Mas vou aproveitar o protesto e me vingar também. Tá vendo aquele gordinho ali, de tênis importado e com os dedos sujos de chocolate, escrevendo alguma coisa no celular? Pois é. Estou mirando nele.

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Vai chover

28 Setembro , 2009 · 1 Comentário

É inevitável. As nuvens escuras virão, trazendo uma enxurrada d’água. Vai molhar as plantas, as ruas e as pessoas. Vai te molhar. Seus cadernos, livros, canetas, contas, celular, óculos e iPod. Não tem jeito, rapaz. Vai chover. É inevitável.

Mas você tem escolha. Só parece que não. Você pode correr e se refugiar, embaixo de uma marquise qualquer. Pode assistir a chuva cair, pode se desesperar com o trânsito, com a água que corre. Pode colocar a mão pra fora e sentir a chuva. Pode cair na água e deixar seu corpo ser inteiramente lavado. Pode ser levado pela correnteza ou pode apenas aguardar passar. Pode observar as pessoas e aprender algo. Ou apenas observar e curtir aquele momento. Ou se irritar. Ou só assistir.

Mas é inevitável que a chuva venha. Ela sempre virá, como sempre veio.
O que você vai fazer?

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Não dá pra ter tudo

28 Setembro , 2009 · Deixe um comentário

Queria aquela casa. Aquele emprego, aquele carro, aquele celular, aquele tênis, aquele relógio, aquele óculos. Queria aquele Mac, aquele iPod, aquele restaurante. Queria ter aquele cabelo, aquela cintura, aquela barriga, aquela barba, aquela pele.

Em busca do perfeito [conceito que nosso desejo cria] vivemos eternamente insatisfeitos com as coisas boas que conquistamos. Isso é doentio.

Trate-se.

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