Não ultrapasse, propriedade privada

No carro, (ela dirigindo, eu de carona), minha mãe me conta que naquele local ali não havia nada disso. Apenas uma pequena rua que saía da Santo Amaro e desembocava perto do leito do rio. Mas isso faz 4 anos apenas, não 40. E é a Gomes de Carvalho, uma das principas vias, hoje, da Vila Olímpia. Não acreditei.

No dia seguinte, esperando o ônibus, reparei em dois prédios ali, que pareciam idênticos, embora fossem claramente diferentes. O concreto parecia o mesmo, o acabamento, a cor, sem contar as tradicionais janelas espelhadas da Vila Olímpia. De repente, eram três os prédios diferentes, mas iguais. Quatro, cinco e meia dúzia, um ao lado do outro, nenhum fazendo parte do mesmo conjunto ou condomínio, mas iguais, como se fossem rapazes de calça social escura, camisa clara, sapato e cabelo penteado, como 90% dos que passam pelas calçadas desses e outros prédios naquela rua e bairro.

Fiquei a fitá-los, os prédios. O motivo era o sol que se punha no horizonte; horizonte que não mais consigo ver direito enquanto em São Paulo. Ainda assim, as cores do sol nesse horário chamam minha atenção tanto quanto um pernilongo em meu ouvido nas noites de calor que têm feito. Um zumbido ensurdecedor são as cores do sol que se põe. O amarelo-laranja-avermelhado deixava os prédios menos tristes e imaginei a falta que o sol sente disso.

Sempre pensamos na necessidade vital que temos — a natureza — do sol. Sentimos a falta dele em nossas peles, nossos ossos se fortalecem com ele, colocamos as plantas para serem regadas por ele, nossos gatos e cachorros causam inveja em nós ao se deitarem e simplesmente se esparramarem por ele. Lembrando que há menos de 5 anos aquilo ali não tinha prédio algum, imagino quantas árvores deixaram de sentir isso, para agora termos apenas algumas mudas mirradas na ilha da avenida que separa as duas mãos da via. Mas e o sol?

Consigo ver a beleza que há no momento, mas não há resposta de quem o recebe (nenhum ser humano, já que estamos cercados; falo mesmo dos edifícios). Já que humanizamos plantas, tomo a liberdade de imaginar que o sol também sente falta, de alguma maneira, que aquele raio que demorou 8 minutos para atravessar o espaço seja simplesmente repelido. Claro, o sentimento é meu. Eu que sinto falta do sol, eu que sinto falta de sentir a pele processando os raios (devidamente protegida, use filtro solar) e transformando em vitamina K, da cenoura ingerida no café da manhã fazendo mágica em minha melanina. Sol. Só.

Diferente do que faria minha fotossíntese torpe, o concreto padrão dos prédios repele a luz do fim do dia. O melhor concreto de todos, inclusive, é o que não retém calor, para não danificar o poderoso sistema de ar condicionado de cada um dos edifícios. As janelas espelhadas não são uma tendência arquitetônica. São avisos de que aquela luz não é bem-vinda, que ela atrapalha, que seria melhor a vida na Vila Olímpia sem ela. “Não ultrapasse, propriedade privada”.

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foto: Daigo Oliva 

Casar é bom e a gente gosta

O convite que a Apple enviou para a imprensa, chamando-a para o lançamento do novo iPhone, era um primor. Apenas uma imagem com quatro dos principais ícones do celular mais desejado dos últimos anos: o app do iCalendar possuía o número 4 (de outubro, data do lançamento); o ícone do relógio apontava 10h (horário da coletiva); o símbolo do GoogleMaps, a localização da sede da Apple e o ícone do telefone com o número 1, indicando que havia algo novo ali. Mesmo com a saída de Steve Jobs, parece que a máxima da empresa continua sendo: “Se é pra fazer, que faça direito”.

Acredito nisso: se a gente for fazer algo, que seja bem feito. Que a gente, ao menos, tente. Casar (ou ficar casado) é uma dessas. Na maioria das vezes, vejo amigos que simplesmente ficaram de saco cheio de ouvir a namorada dizer que estava cansada de ser enrolada e “Não teve jeito, né?”. Meu velho, sempre tem.

Já li alguns artigos sobre não sabermos lidar direito com a pós-modernidade. Tudo etéreo demais, sabe? E reconheço: é cada vez mais difícil manter-se em algo tão concreto quanto um casamento. Mas vou te dizer, é bom, viu? (E vale a pena). Não acho que seja para todos, mas acredito que muitos perdem a oportunidade de partilhar algo massa com alguém por falta de hombridade ou preguiça do “Se for fazer, que seja bem feito”.

Outro dia, um amigo mais novo, que namora já há uns quatro anos, me perguntou: “Casar é difícil, né?”. Não, meu caro. Casar é fácil. Difícil é ficar casado. Postei isso no Facebook e recebi comentários do tipo: “Não acho que ficar casado é difícil, é muito gostoso!” (e escrevi sobre isso).

Claro que é gostoso. É incrível. Eu, pelo menos, acho sensacional a ideia de compartilhar minha vida com alguém. Alguém que não tem a obrigação de me fazer feliz, nem o contrário, mas alguém que quero partilhar da minha felicidade e de quem já sou. Ter alguém, diferente de você, para te ajudar a crescer, pensar coisas diferentes, novas visões, novos sonhos. É uma das experiências mais sensacionais que tenho vivido nos últimos tempos. Mas é difícil, cacete.

Assim como andar de skate. Tenho um long e, vez ou outra, me arrisco em calçadões, ruas pouco movimentadas, parques e ladeiras. A descida é uma delícia que só. Mas a gente cai. Se rala, estraga o ombro, abre um rombo no joelho. E, mesmo quando tudo vai bem, ao final da descida é preciso colocar aquele trambolho debaixo do braço e subir a ladeira novamente (e sem analogias com sua esposa ser o trambolho, pelamor, hein).

Mas não queremos ralar o joelho. Não queremos encarar a ladeira. Temos medo, inclusive, de descê-la. E, assim, acabamos nos enroscando em outros relacionamentos, já que o nosso não é uma eterna descida de skate. Escondemos essas passeadas por outras ciclovias (digamos assim), para que o nosso calçadão, lá em casa, continue achando que está tudo bem. Mas não está. O acordo não era esse, mesmo que você não goste do acordo.

Antes de casar, falta a convicção. Depois, falta a coragem de manter-se nele ou de jogar a honestidade. Seja de assumir que você gosta mais de bicicleta do que de skate, seja para dizer que você não quer escolher nenhum dos dois, apenas ter delírios de jogar futebol. Mas são escolhas, e não dá pra ter tudo. Escolher casar é escolher abrir mão de muitas outras coisas. Escolhi isso, e escolhi fazer bem feito. (Pelo menos é o que tento).

Na linha branca


É ali que as sirenes silenciam. Acho que nunca tinha visto isso, sem que a viatura (fosse da polícia ou uma ambulância) chegasse ao local do atendimento. Ali não. Elas silenciam pois voltaram, não porque chegaram. Sei que voltaram, mas não sei como estão as pessoas dentro daquela gigante caixa branca sobre rodas, cheia de aparelhos eletrônicos por dentro, para manter o paciente vivo até que os médicos tomem conta.

Foi ali que um querido conhecido também silenciou. Um dia simplesmente seu coração não cantou mais e o silêncio dele fez coro com o silêncio das ambulâncias que chegam ao complexo do Hospital das Clínicas. Passo por ali diariamente. Descobri que é mais rápido do que o caminho que fazia, ganho quase 10 minutos. Tenho conhecidos que não gostam do trajeto, justamente por considerarem triste demais. E estão com razão, principalmente os que também perderam alguém ali. Não há como (nem porquê) contrariá-los.

Ao caminhar hoje cedo por aquela rua, percebi que essa perda me fez mais sensível ao sofrimento do próximo, ainda que eu seja menos impactado. Antigamente, ficaria muito mais incomodado, quase que querendo fugir daquele cenário. Hoje consigo transitar sem me surpreender – talvez a palavra seja essa. Sou impactado, fico triste, mas não me surpreendo.

Porém, ao final da rua, percebo ambulâncias que saem para a Rebouças, ligando suas sirenes, abrindo caminho em meio ao trânsito de São Paulo, para chegar o mais rápido possível a seus destinos. O ligar das sirenes é o nascimento também de uma esperança, de trazer vida a quem está prestes a perdê-la, até mesmo de entregar de volta, a quem possa ter perdido e eles poderem dá-la de volta, uma nova chance.

Um amigo tornou-se pai, recentemente. Todo o pré-natal de sua esposa foi feito ali, no complexo do HC, bem como o nascimento da pequena que nasceu saudável, ainda que tenha passado por uma gravidez um tanto quanto delicada. Graças ao cuidado do hospital, o parto foi absolutamente tranquilo e uma nova vida nasceu.

Não há privilégios ou distinção. Assim como as sirenes que, ali, são ligadas ou silenciam-se, vidas partem e vidas nascem. O problema é quando paramos de reparar nas sirenes e deixamos de ouvi-las. Abra os olhos e ouça a canção que elas tocam. É caótica, às vezes parece fora de ritmo e sem melodia, mas é possível compormos algo. Se tivermos sorte, conseguiremos tocá-la para alguém ouvir.

Você já ouviu sirenes hoje?

Feriado de quarta-feira

Claro que podia ser melhor. Poderia ser na quinta ou sexta, para emendar. E estou longe de ser o porta-voz do “Jogo do Contente”, da mala da Pollyanna. (Pra quem não conhece, ele consiste em ter um ponto de vista positivo para tudo na sua vida. A Pollyanna, por exemplo, espera ganhar uma boneca de Natal, mas recebe um par de muletas. O raciocínio do pai, com quem ela aprendeu? “Veja pelo lado bom… você não precisa delas!”).

Então um feriado na quarta-feira é melhor que nenhum, mas não é esse o motivo d’eu gostar tanto dele. É pela concretização de uma utopia. Todo mundo que trabalha acha que o final de semana poderia ter um dia a mais. Acho bem difícil isso mudar, deixando-nos em casa três dias seguidos. Claro que quarta-feira deixar de ser dia útil também, mas é o gostinho que tenho de, por um dia, viver como se aquilo fosse verdade.

Veja bem, você começa a segunda reclamando da semana que começa, na terça ainda tem aquele gosto rançoso da segunda e quando você menos percebe, opa!, já é quarta, feriado. Dá pra marcar um happy hour mais longo na terça e no dia seguinte, apenas curtir a morgação. Ficar de boréstia no pós-almoço, dar uma volta, ver um filme, tomar uma cerveja com os amigos e ir dormir cedo. O dia até termina com aquela sensação triste de fim de domingo (que dizem existir, eu não tenho, mas você precisa se identificar com o texto pra continuar lendo).

Você dorme e POW, é segundops, não, é quinta! Que maravilha, amanhã já é sexta. São tantas as possibilidade de emoções, por termos apenas um dia de descanso no meio da semana, que não tem como não ser divertido. Como disse, é claro que feriado prolongado nos dá uma chance de viajarmos pra mais longe, sem bate-volta, descansar mais dias e tal, mas pô, é um feriado, sabe? A gente tem tanta emenda, é só mais uma semana qualquer… só que não, não é uma semana qualquer, justamente por ter um diazinho ali no meio dando sopa.

Sem contar que a gente reclama demais, né? Me peguei irritado pelo modo como minha mãe estava folheando um livro meu e como aquilo foi desnecessário. Claro, gosto de ter cuidado com as minhas coisas, para que durem, mas cara… É só um livro, saca?

É só um feriado… e a gente reclamando. Desvirtuei um pouco do assunto e, já que não sei mais como encerrar esse texto, deixo um vídeo muito bom, sobre como tudo é maravilhoso e ninguém está feliz (em inglês).

O melhor ainda estava por vir

Nosso primeiro jogo ‘bagaceira’ foi um Grêmio Barueri x Bragantino, na Arena Barueri, quando o time ainda era dessa cidade, antes de ir pra Presidente Prudente e, recentemente, voltar para o mesmo local de antes. Era uma partida da Série B do Brasileirão e, hoje, vejo que nada teve de bagaceira. O melhor ainda estava por vir.

Tudo começou quando eu era estagiário na Prefeitura de São Paulo e escrevia no Diário Oficial. Tinha uma coluna sobre pontos de referência na cidade e um dos lugares escolhidos foi a rua Javari. Hoje, mais velho, percebo que falei pouco da rua em si, e mais do estádio que ali se encontra: o Conde Rodolfo Crespi, o estádio do Juventus, que me apaixonou. Prometi a mim mesmo que voltaria ali um dia, para ver um jogo.

Sou corinthiano de nascença (faço aniversário no mesmo dia que o Timão), mas tenho um irmão palmeirense. Gostamos muito de ver futebol juntos, ainda que ele tenha dormido na final da Copa do Mundo (não o culpo, mas pô, era a final da Copa).

Depois de ir a um jogo da segundona, decidimos que estávamos preparados para a Copa Paulista. Foi contra o Votoraty (não, não é aquela empresa), e valia classificação, que o Juve deixou passar. Foi a primeira vez que um bandeirinha de fato me ouviu xingá-lo, bem como a mãe dele e esposa (na hora, supus que ele tivesse uma). Se bobear, até os cuspes que voaram enquanto eu gritava, ele sentiu na nuca.

Depois de ver um empate de 3 x 3 contra o Audax (ex-Pão de Açúcar, agora sim a empresa), voltamos no dia 24 de setembro, achando que seria o último jogo do Moleque Travesso da Mooca, ocasião contra o Taboão da Serra. A classificação para as oitavas-de-final parecia impossível, mas fomos prestigiar. Meu irmão, que já foi mais vezes à Javari, não acreditava. O Juve não tinha se portado assim em nenhuma outra partida, com jogadas armadas, toques pensados e até, quem diria!, uma estratégia. Ganhamos de 4 x 2 e nos classificamos com uma rodada de antecedência, já que o São Bernardo e Grêmio Osasco haviam perdido na rodada.

O fato é que já estou assim, falando em “ganhamos”, “nos classificamos” e conjugando os verbos na 1ª pessoa do plural. A maioria do jogos são tão feios que a gente só dá risada, nem passa raiva. É a torcida mais divertida que já vi na vida. Os jogos acontecem às 15h de sábado, horário perfeito pós-almoço, para comer um canolli do seu João de sobremesa e dar risada com a torcida mais grená do Brasil, com a maioria entre 20 e 40 anos. Um perfeito rolê, seja com amigos da cervejinha ou com a guria que tem medo de estádio.

A próxima meta minha e do meu irmão? Nos tornamos dirigentes do Juventus, só para bancarmos um clube que nos fez voltar a ter gosto de ir ao estádio e torcer para um time só pela diversão disso, esquecendo brigas em arquibancadas, medo da polícia ou passando raiva com conchavos, cartolas e emissoras, que não pensam no entretenimento ou no torcedor.

Como bom corinthiano, ainda sofro com as jogadas terríveis, mas o descarrego é mais eficiente, já que nossos gritos são ouvidos pelos jogadores. No último, por exemplo, escolhi o camisa 5 do Taboão para encher o saco. No intervalo do 1º tempo, ao sair de campo, ele ficou olhando para mim (já havia gritado muito com ele) e sei (vi, na verdade) que ouviu os berros: “Hoje você não joga mais, nem volta do vestiário, hein!” Ele voltou, mas desestabilizado. Só a Javari poderia proporcionar isso a mim. Viva o Moleque Travesso da Mooca.

Vem, setembro

Falta pouco mais de 1h para acabar agosto. Se a cada ano que passa os meses parecem voar mais rápido, agosto dá a impressão de acumular todas essas horas e dias que sobram para si, como um buraco negro dos meses.

Outro dia comentei que o ano é dividido em 3 partes iguais: 1º semestre, 2º semestre e agosto. Não sei o que dizem astrônomos, astrólogos ou os maias, sobre o 8º mês do calendário romano, mas ele parece ser mesmo do avesso, para boa parte das pessoas que converso.

Uma olhada rápida ao calendário traz a resposta aos mais céticos: foram 5 semanas dessa vez. É tudo verdade, mas nada convence.

Se já é caótico no geral, ainda sofro ao dizerem que é nesse período meu inferno astral, exista ele ou não, acreditemos nele ou não. Estou quase como os das bruxas, que não acreditam, pero que las hay, hay.

O final do dia, com seus 13ºC, não permitiu celebrações por este mês que se finda. Jogou grande parte da cidade para dentro de casa, para seus sofás, Jornal Nacional e um jogo na TV aberta. O máximo, para muitos, foi torcer para que seus calendários não marcassem novamente “01/08″ quando acordassem.

Porém, logo após o último segundo de agosto vem o primeiro segundo do dia que nasci. Gosto de pensar que é um tapa na cara, de mão aberta, nesse mês desgraçado, provando que o dia 1º do mês seguinte a agosto é mais forte que todos seus 31 longos dias.

A sensação é a mesma da brincadeira de soltar todo o ar debaixo d’água e, por um instante, aquele segundo, parecer que vamos desmaiar.

Mas nossas pernas empurram o azulejo no fundo da piscina e, ainda no ar pelo salto que demos, puxamos todo o oxigênio possível, como se estivéssemos nascendo pela primeira vez. Nascendo pela 28º vez, como se fosse a primeira. Que seja.

Vem, setembro. Vem.

Carta aberta a Sabine Araújo

(para entender, leia o post dela antes.)

“É como perder alguém”. Interessante como você não pensa no ‘alguém’ até que seja, de fato, alguém para você. Já falei aqui, algumas vezes, sobre isso. Já perdi também todas as músicas do iPod… Sei o que é isso, Bine.

Ctrl+A para selecionar tudo e “delete”, achando que estava apenas em um artista específico, querendo apagar as músicas só dele. Voltei aos afazeres, quase 10 minutos depois ouço o barulhinho do iTunes. Tinha esquecido, estranhei a demora. Fui ver, e zerei meu iPod com 80Gb de música, sem nem poder colocar minhas iniciais no final, igual no fliperama.

Tenho back up de todas elas. Não perdi, de fato, nenhuma música tão importante. Perdi também uma playlist, menos especial que a sua, Bine, mas que ainda assim doeu. Quase chorei. Era a playlist =), assim mesmo, um sorriso, com as músicas que sempre me deixavam bem. Foi mais de ano selecionando cada uma, e incluindo na lista. Mas refiz.

Comparar a perda de alguém (hoje, infelizmente, existe um ‘alguém’ que perdi) com perder músicas seria infante e pequeno demais, sem cabimento até. Mas concordo, Bine, que a música mexe com a gente de um jeito inexplicável, por mais que expliquem. Comove, incendeia, acalma, atiça, desespera e alegra.

Por isso, entendo sua dor em perder essa playlist. São os grandes detalhes, de ter sido feita naquele momento, com aquele intuito e ter servido a você tantas vezes, de diferentes maneiras. “The little things… there’s nothing bigger, is there?”. Maldita ironia, eu sei.

Mas a gente refaz playlists, minha amiga. E sei o que está pensando (e tem razão): nunca serão a mesma coisa. Mesmo que Jansen se esmere em remontar aquela tão especial, de forma fiel, com todas as músicas, talvez elas não fiquem na mesma ordem. Talvez você sinta falta de uma ou duas, mesmo tendo certeza que eram 27 músicas e há 27 músicas ali.

Mas a gente refaz playlists, mesmo sabendo que não serão iguais, ou chegarão aos pés da anterior. Novas canções começam a fazer parte da nossa vida, Bine. A gente começa a gostar de canções antigas, aproveita o momento e exclui outras, ouve uma nova que parece conhecida e ouve conhecidas como se fosse a primeira vez.

“Nunca mais será a mesma coisa” é o que vai martelar, e nunca deixará de ser verdade. A mesma coisa, não mais, mas outras coisas serão. Outras músicas tocarão. Conheceremos novas canções e novas playlists serão criadas. Nem chegarão aos pés daquela, mas nem por isso deixarão de ser importantes.

Se deixe livre para a reconstrução, para novas listas montadas, para novos momentos importantes. Lembrar que “nunca mais será a mesma coisa” é importante: mostra que precisamos, então, de novas coisas, pois as antigas já não temos.

Boa caminhada, guria.

Buscas que caem no blog

Faz um tempo que publico no Twitter algumas buscas bizarras que caem aqui no blog. Sempre com alguma resposta, esqueço que o mais indicado é colocar aqui.

Então segue o que mais de estranho procuraram e acabaram chegando aqui:

• “fotos conrado e sorvetão”
não vá por esse caminho, amg.

• “qual a missão de um taxista”
chegar?

• “escultura do borba gato na av.sto. amaro sp”
isso, é lá.

• “como É que eu faÇo pra arrumar a tela do word”
use o notepad

• “caroço na cabeça 2 anos”
médico agora

• “onde fica brasilândia”
maps.google.com

• “odeio joão paulo cuenca”
blog errado. aqui a gente odeia o gabriel louback.

• “qual a importancia de borba gato para o brasil”
a construção da av. santo amaro.

• “historia de um menino q era doente e gostava da menina e não sabia q ela gostava dele”
a história da humanidade, talvez?

• e a clássica busca que SEMPRE cai aqui no blog: “por que eu sou feio ?!”
resposta de sempre: o google não sabe.

Podia ser pior… você podia ser seu amigo

A melhor coisa de se ter amigos é o compartilhar de histórias. Você poder contar as suas pendengas, frustrações e inseguranças, tendo como retorno histórias deles sobre os mesmos temas, criando laços profundos de intimidade e respeito. A minha sorte é que tenho amigos que confiam em mim e contam histórias piores que as minhas. Para mim, é a coisa mais bela em uma amizade: saber que podia ser pior. Você podia ser seu amigo.

Pegue, por exemplo, a minha famigerada condição de “Zé Noinha”. O próprio nome já diz e em um momento de metalinguagem inception, é claro que vou explicar: é o cara que sempre desconfia. Não é ser cabreiro ou até mesmo desconfiado. O Zé Noinha (eu) sempre acha que o outro pode não ter entendido direito o que disse, entendido errado, que o comentário de alguém sobre você queria dizer algo mais do que o simplesmente dito, que uma coincidência não poderia ser coincidência.

Contando histórias de como sou assim, uma amiga relatou o seguinte: sua terapeuta avisou que sairia de férias. Ela postou isso no Facebook e os comentários que surgiram a partir dali eram todos do tipo “Ih, lembra que marcamos aquela saída? Vou ter que cancelar”. Todos. Inclusive o de um cara que ela tinha saído e que haviam marcado de sair novamente, que comentou: “hum… surgiu um imprevisto”.

Esse foi um dia emblemático em minha vida, nunca esquecerei (mesmo porque foi semana passada). Ela me contou sua reação: “Mano, levei um balão pelo Facebook… pelo Facebook!” Esse é o Zé Noinha saudável, que passa alguma vergonha por pensar coisas assim, mas beleza. Só fica noiado e enchendo o saco de todo mundo sobre o assunto. E é por isso que os amigos são tão importantes na nossa vida: para mostrarem que são piores que você.

Essa amiga, até então, não tinha escrito mais nada nos comentários dos amigos desmarcando coisas (lembre-se, todos!). O comentário dele (“surgiu um imprevisto”) foi postado 19h02. Às 19h10 é possível ver o que ela postou: ?. Isso, apenas uma interrogação, como quem diz: “Como assim?! Que imprevisto?? Você está me dando um balão pelo Facebook???”

Claramente essa amiga é (está?) perturbada, por mais que berre comigo “EU NÃO SOU PERTURBADA!!!”, só confirmando minha teoria. Mas mesmo assim, ela passou do meu nível Zé Noinha. Sem meus amigos, sofreria com algumas coisas para o resto da vida. Mas da próxima vez em que eu sofrer com algo porque minha imaginação foi além do real, terei sempre como parâmetro essa história, me confortando como um cobertor quentinho e gostoso em um dia de chuva e frio, trazendo um chocolate quente de brinde e dizendo: “Viu, Gá? Podia ser pior… lembra da história da sua amiga? Hehehe” e conseguirei dormir em paz.

Casar é fácil. Difícil é ficar casado

- É difícil casar, né?
- Não… casar é fácil. Difícil é ficar casado.

Postei essa conversa no Facebook e a discussão se dividiu entre os que concordam ser difícil e os que disseram “Ah, não acho. É muito gostoso estar casado”.

Outros vieram me perguntar se estava tudo bem no casamento. Um amigo disse que apenas se preocupava com minha esposa ler aquilo e se sentir constrangida. Ou a frase fora de um contexto não fez muito sentido ou as pessoas não entenderam muito bem.

Veja esse vídeo:

Between Yellow Lines from Max Esposito on Vimeo.

Gostoso, né? Lindo. Garanto que é uma delícia, já que tenho um long e pude experimentar, algumas vezes, a maravilhosa sensação de descer uma ladeira em cima do shape ou dar algumas remadas e deixar o skate deslizar por um concreto liso.

Mas não é fácil. Pede dedicação, paciência, persistência, muito treino e prática ainda mais. Você cai, quebra braço e clavícula, sua frio achando que vai ser atropelado em um cruzamento porque não sabe parar, mas é maravilhoso. Uma das melhores sensações é descer uma ladeira de long.

Já deu pra sacar a analogia? O casamento não é uma ladeira, onde existe alternância cadenciada de “descer, curtir, chegar lá embaixo e ter que subir de volta”, sendo essa a parte difícil, pontuada e clara.

Imagine o casamento como uma cidade: cheio de ladeiras, retões, descidas íngremes que dão medo, ladeirinhas tranquilas para curtir o passeio, subidas onde a gente tem que descer do skate e carregá-lo nos braços, quedas, terrenos onde o skate parece não deslizar e precisamos ficar remando – caso contrário o skate para em 2 segundos -, mas sempre uma aventura, sempre valendo a pena.

Andar de skate é difícil. Há quem tenha mais ‘dom’ para isso, é claro. Outros precisam se esforçar mais. Porém, uma coisa é igual a todos: ficar em pé no skate é fácil. Difícil é sair andando e se manter em pé (ou aprender a cair), praticar sempre, não escolher ficar sentado no sofá em casa, em vez de ir pra rua e dar o melhor de si no shape.

ps.: O amigo que comentei, preocupado com meu casamento, está junto de sua esposa há 30 anos. Quando perguntou sobre a frase que postei, questionei: “Sem hipocrisia: é fácil?” Ele me respondeu, rindo, que comentou com a digníssima e a resposta dela foi: “Ué, mas não é verdade?”