Crônico

Entradas do Fevereiro 2008

Brasilândia

28 Fevereiro , 2008 · 5 Comentários

Um grupo de amigas:

- Ah, eu beijei muito naquela balada.
- Sério? Quantos, mais ou menos?
- Ah, e você acha que eu fico contando? Eu quero é beijar!
- Entendi…
- Teve até um que eu fiquei beijando uns 10 minutos, vê se pode, e depois desse tempo todo ele me perguntou: Qual o seu nome? Eu nem tinha perguntado o nome dele! Ahahahaha.
- Ahahahaha.
- Ele ficou puto comigo, por nem querer saber! Pô, pra que eu preciso saber o nome?
- Verdade, né?
- Eu não vou casar com ele!

Dormi. Acordei, o mesmo grupo de amigas, ainda conversando:

- Só porque eu pego o Brasilândia, não quer dizer que eu moro na Brasilândia.
- É verdade!
- Pode crer!
- Ainda mais depois daquelas “Antônias”!
- Nossa, odeio aquelas Antônias. Tudo otária!
- Pô, todo mundo acha que aquilo é a nossa vida.
- O pessoal da região não curtiu muito.
- É, mas era o nosso bairro ali na TV, né? A Brasilândia.
- É, todo mundo agora sabe onde fica, conhecem nosso bairro.
- É verdade, quando perguntam aonde eu moro, digo que é na Brasilândia. Mesmo que não seja, mas para facilitar. Aí dizem “Igual ao Antônias?”. Eu digo “É lógico!”.
- Eu também.
- Eu também!

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Borba Gato

27 Fevereiro , 2008 · Deixe um comentário

Matéria publicada no Diário Oficial da Cidade de São Paulo no dia 08 de julho de 2006

O bandeirante que guarda e indica caminhos
Gabriel Louback

“Sempre em frente na avenida Santo Amaro, sentido bairro. Não tem erro”. Essa é a indicação dada no trânsito da avenida que corta a Zona Sul da capital paulista. Cruza vias importantes como a Roque Petroni Júnior, a avenida dos Bandeirantes e a Hélio Pellegrino.

A avenida Santo Amaro se divide em duas: antes e depois “dele”. Na praça onde está localizado, é praticamente uma rosa-dos-ventos, indicando as direções. À direita, à esquerda, antes ou depois. O “ele” em questão é o Borba Gato. Não é uma praça ou um bairro, nem mesmo uma rua. Trata-se de uma estátua, apesar de emprestar seu nome também a um condomínio e a uma escola. Os três levam o nome do desbravador que, além de separar a avenida Santo Amaro da Adolfo Pinheiro, divide opiniões: foi um herói da conquista territorial brasileira ou um aniquilador da cultura indígena? Embora dê nome a poucos locais, a importância de Borba Gato para a região é imensa.

A estátua, obra do artista Júlio Guerra, pesa 20 toneladas e tem 10 metros de altura, mais a base. Está de frente para o lado noroeste da capital, no sentido do caminho para o sertão, onde o bandeirante se refugiou depois ter sido responsabilizado pela morte de um fidalgo espanhol. Como conhecia a região devido às suas viagens com o sogro Fernão Dias Pais, escolheu o local para se retirar. Suas costas estão viradas para a Serra do Mar, de onde vinham os bandeirantes. Eles eram contratados pelos portugueses para abrirem caminho nas matas,adentrando o país, lutando com os indígenas rebeldes e os escravos fugitivos. A divisão de opiniões decorre desse fato: homens que foram responsáveis pela expansão do território brasileiro, mas também violentos caçadores de índios e escravos, contribuindo para a manutenção do sistema escravocrata que vigorava no Brasil.

Devido ao seu tamanho e sua história, a estátua de Borba Gato é sempre utilizada como forma de proteção da região. Adeílton Heleno de Oliveira diz que quando há alguma discussão na lanchonete em que trabalha, não é raro ouvir: “Olha que eu chamo o Borba Gato para lhe dar uma lição!”. Oliveira também confirma o fato de Borba Gato ser um ponto de referência na vizinhança. Nos arredores, tudo que necessita de uma indicação tem a estátua como referencial. O local é estratégico: a confluência da avenida Adolfo Pinheiro com a avenida Santo Amaro. A impressão é de que Borba Gato é mesmo um guardião. Parece dizer a quem chega: “Essa é a minha região e veja lá o que veio fazer no meu bairro”. Bairro que já foi até cidade, vale dizer.

Maria Edite Duarta Pereira está em Santo Amaro há muitos anos. Aposentada, abriu recentemente uma banca de jornal em uma travessa da avenida que leva o nome do bairro. Sua banca é praticamente um posto de informações, a maioria indicando endereços: se é “para lá” do Borba Gato, de que lado, etc.

Na praça Augusto Tortorelo de Araújo, onde monte guarda o atento Borba Gato, há um pequeno jardim, com algumas árvores ao redor. As sombras providenciais pedem um banquinho, mas o ponto não é muito utilizado como área para descanso. Parece que o bandeirante Borba Gato também não descansa, guardando e protegendo um bairro da cidade que não dorme.

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No donut for you

8 Fevereiro , 2008 · 1 Comentário

retrovisor_menor.jpgEu tinha que ir no número 2.500 e pouco da Faria Lima. Em São Paulo há duas avenidas que começam com o nome Brigadeiro [existem outras, mas essas duas são as maiores] e para não haver confusão e não ser necessário falar o nome completo, informalmente elas são identificadas como: Brigadeiro – a Brigadeiro Luís Antônio, que vai do Ibirapuera, até quase o Largo São Francisco; Faria Lima – a Brigadeiro Faria Lima, que vai de Pinheiros até o Itaim.

A minha era a Faria Lima. Entrei no Google Maps e digitei o endereço, com número e tudo. O local indicado era pertinho da Pedroso de Moraes, perto da Fnac e do prédio-carambola, do Ohtake. Perfeito [o local, não o prédio, que acho horrível]. De casa até ali, de carro, dá 10 minutos no máximo, com trânsito. Como era dia de chuva e era uma entrevista de emprego, resolvi pegar o táxi, sendo a distância pequena e sabendo que gastaria entre R$10 e R$15. O táxi foi agendado para às 17h. A entrevista era às 17h30 e a idéia era chegar mais cedo mesmo.

Assim que entramos na Faria Lima, avisei o taxista para ir mais devagar, pois estávamos perto. Ele olha os números e me diz “O local que você quer ir é pra lá da Rebouças”. Assistindo “Meu Tio Matou um Cara” aprendi uma coisa [se for verdade o que diz no filme]: a numeração dos imóveis é feita pela distância entre o começo da rua e aquele ponto. Ou seja, se você mora no nº 322, isso quer dizer que do começo da rua até a sua casa são 322 metros. Agora imagina eu na altura do 150 na Faria Lima e o local que eu queria ir sendo 2.500 e tralalá. Liguei no escritório que faria a entrevista: “Por favor, vocês ficam em que altura da Faria Lima?”

- Perto da Cidade Jardim.

Eu mereço. Era no final da Faria Lima e eu estava no comecinho dela. Dois quilômetros e pouco nos separavam. Dois quilômetros, a princípio, parece pouco. Mas em São Paulo, em uma das avenidas mais movimentadas, horário de pico e com chuva, é muita coisa. Muita. O Google Maps falhou comigo, pensei. Era a primeira vez que algum serviço do Google me sacaneava legal. Pense aí num congestionamento. Cheguei 18h no lugar [avisei que atrasaria] e a corrida deu bem mais que R$15.

Outro dia voltei a digitar o mesmo endereço e número no Google Maps, que me indicou o mesmo local de antes. Fiquei encafifado com isso. Coloquei 2000 sem ponto, com ponto, de todos os jeitos. O resultado era sempre o mesmo. Apontava o começo e não o final da Faria Lima [segundo a numeração].

Mas eis que recentemente fui agraciado com algo que não me torturará o resto da vida. Estava de ônibus, no início da Faria Lima, observando o lado de fora, a calçada, pessoas, edifícios, vi um número de um local e embaixo “Antigo 2.014”. Fiquei me questionando o porque dos imóveis serem renumerados em uma cidade, o que faz com que a prefeitura decida colocar novos números e foi aí que deu o CLICK.

Esperei aparecer outro grande edifício, pois tinha certeza que teria a mesma indicação. Se o número antigo seguinte fosse menor, isso significaria que o número que digitei no Google Maps [2.500] seria antes da onde estava naquele momento. No seguinte estava “Antigo 1983”. Ou seja, o Google Maps não falhou comigo, de todo. A referência dele é a antiga e segundo os dados fornecidos dentro do sistema, o 2.500 e pouco, o meu número, era ali no comecinho da Faria Lima. O que acontece é que antigamente o número “1” da Faria Lima era perto do Itaim, e o final dela, em Pinheiros. A prefeitura inverteu. O começo da Faria Lima, atualmente, é em Pinheiros e o final, no Itaim. O Google Maps segue a numeração antiga.

Simples assim, mas uma coisa que me atormentou durante algumas semanas.
Enfim, posso dormir em paz.

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