Crônico

Entradas do Março 2008

Sobre meninos e lobos

19 Março , 2008 · 6 Comentários

Meu pai encaminhou um texto pro pessoal daqui de casa.
Todos comentando que o texto era legal.
Ele:

- Gá, coloca esse texto no seu blog.
- Hein?
- É um texto legal.
- Mas pai… não quero.
[Triste]
- Ah, eu queria.

E aqui segue o texto:

A Native American boy was talking with his grandfather.
“What do you think about the world situation?” he asked.
The grandfather replied, “I feel like wolves are fighting in my heart.
One is full of anger and hatred; the other is full of love, forgiveness, and peace.”
“Which one will win?” asked the boy.
To which the grandfather replied, “The one I feed.”
[Origin unknown]

Tradução [minha]:

Um garoto índio, norte-americano, conversava com seu avô.
“O que você acha da atual situação mundial?”, ele perguntou.
O avô respondeu: “Eu sinto como se eu tivesse dois lobos lutando dentro do meu coração.
Um está cheio de raiva e ódio; o outro está cheio de amor, perdão e paz”.
“Qual dois dois vencerá?”, perguntou o garoto.
No que o avô respondeu: “Aquele que eu alimentar”.
[Origem desconhecida]

Título do post: Nome de um filme dirigido por Sean Penn.

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Selina sorria

19 Março , 2008 · 2 Comentários

Como as folhas de uma árvore frondosa quando recebem o vento para mexê-las e cada uma se move independentemente, mas de forma uníssona. Era esse o som de seu sorriso. Apaixonara-se por ele. Seu objetivo de vida tornara-se fazer com que Selina sorrisse. Era uma tarefa delicada. Tinha que achar o equilíbrio entre uma risada e um mero sorriso amarelo. Passou a vida para ouvir seu sorriso. Em vão. O sorriso de Selina possuía um destinatário.

Um dia, adormeceu debaixo de uma árvore, com o sorriso de Selina a beijar as folhas que vinham se acomodar ao seu redor e transformá-lo parte integrante dessa canção alegre. Foi, sorrindo, que ouviu Selina chamá-lo ao longe e ao longe ela ficou, distante de tudo o que fazia sentido a ele, que, ao acordar, não agüentou a triste canção de sua vida e nunca mais foi visto sorrindo.

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Crédito

18 Março , 2008 · 7 Comentários

No ônibus.
Não sei se era tia de sangue, mas era próxima e era como as meninas a chamavam:

- Sei que a gente não tem crédito, mas também acho um absurdo quem não atende ligação a cobrar, tia.
- É verdade, eu também, tia!
- Imagina, se tivesse acontecido alguma coisa com as meninas. A sorte é que não. Mas era uma urgência e a pessoa não atendia a cobrar. Por isso eu acho que você tinha que colocar crédito no nosso celular. Imagina se essas meninas ficam largadas na cidade, a noite toda? E se fosse um seqüestro?!
- Olha, sei disso, mas eu não estou com dinheiro agora. E uma vez eu já fiquei assim na cidade. Foi na época do PCC, lembra? Eu fui a pé da Lapa até Pinheiros, porque não tinha ônibus. E isso, super tarde da noite.
- Sério, tia?! E você não ficou com medo de ser seqüestrada?!
- Eu? Seqüestrada?! Não tenho dinheiro nem pra colocar crédito no celular!

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Brinquedo de estimação

17 Março , 2008 · 2 Comentários

Comprar um animalzinho de estimação é como comprar um brinquedo. Pelo menos, para uma criança. Seu pai e sua mãe não vão deixar você levá-lo aonde quiser, não poderá brincar com ele a hora que quiser e terá que “guardá-lo” na hora de dormir. Lógico, tem gente que dorme com seu respectivo gato ou cachorro. Mas a história é minha e meus pais nunca deixaram. Eu também nunca fiz questão. Nessa parte, economizo com terapia. Quando se trata de hamsters, não conheço ninguém que tenha o costume de dormir com ele[s]. Mesmo porque o risco de quebrar o seu brinquedinho é altíssimo.

Eu já tive um hamster. Eu e meu irmão compramos juntos. Acho que compramos mesmo, eu e ele, quando crianças. Acho mais fácil pensar que gastamos o nosso dinheiro nisso ao invés de nossos pais terem gasto. Talvez amenize a culpa. Culpa do que?

Fomos ao pet shop [acho essa palavra muito frufru, enfim] mais próximo que havia de casa, na V. Galvão, em Guarulhos. Comprei um e meu irmão outro, lógico. Há brinquedo que não se divide. Pensando agora tínhamos um cachorro também. Como é que ele convivia com os hamsters, isso apaguei da minha mente. Porque lembro claramente de soltarmos os bichinhos no corredor de casa. Animal em gaiola sempre me incomodou. Um de meus sonhos é entrar na Cobasi e sair arrebentando tudo quanto é trava de gaiola de passarinhos.

Compramos dois hamsters machos. Um era o Pinky e o outro o Cérebro. Originalidade, 0%. Criatividade é algo que eu desenvolvi ao longo dos anos. Posso me orgulhar dos meus 2%, atualmente. Era tudo lindo e maravilhoso quando percebemos um dia que nossos bichinhos não estavam sozinhos na gaiola. Havia filhotes! Olhei para o hamster do meu irmão e pensei: “Essa Coca é Fanta”. Como havia filhotinhos pela metade [sim, pela metade, comidos, devorados] e desde pequeno eu era [me achava] o Sr. Discovery Channel, decidimos, por sugestão minha, que deixássemos um pouco cada um dos hamsters sozinho com os filhotes. O que tentasse comer os filhotes, era a fêmea. Infelizmente tanto o[a] Pinky quanto o[a] Cérebro[a] acharam que era um banquete e quando se viram com os filhotes, partiram pra cima. O pior é que colocamos o do meu irmão primeiro. Logo que se viu diante dos filhotes, avançou. Tiramos ele, colocamos o meu e conforme foi demorando e eu já cantava vitória, ele também não resistiu à tentação. Como, inconscientemente, eu não queria admitir a derrota, fiquei perguntando à minha mãe: “É impossível os dois serem fêmeas, né?”.

A decisão foi unânime [foi fácil, só eu e meu irmão para decidir]: deixaríamos os bichos em um terreno baldio que havia na rua de baixo de casa, um barranco. Existem algumas lembranças de infância que eu não sei se são reais ou se é a gente que gosta de pensar nelas daquele jeito para dar mais dramaticidade, ou para ficar mais legal. Só sei que era uma fria e nublada manhã de sábado quando eu e meu irmão fomos ainda de pijama até o terreno deixar nossos hamsters. Ao chegarmos, meu irmão foi pertinho da entrada do barranco, se agachou, e com as costas da mão quase encostadas no chão, abriu a mão e deixou seu[ua] hamster sair. Ele [o hamster, lógico] saiu correndo para dentro do mato. Já eu, estava revoltado pela possibilidade de ter um hamster que além de assassino e genocida, era canibal e havia cometido infanticídio. Mesmo me achando um exímio conhecedor do mundo animal, acredito que humanizei os bichinhos e imaginei meus pais me servindo com uma maçã na boca, no jantar do dia seguinte. O que fiz, me arrependo até hoje, mesmo ainda reprovando o hamster. Arremessei ele em uma trajetória, formando um arco que daria inveja a todos os garotos do bairro que jogavam pedras no barranco, para ver qual delas ia mais longe. Se naquele momento o meu hamster não criou asas, prefiro acreditar que ele tenha caído bem em cima do hamster do meu irmão, amortecendo a queda e sobrevivendo. Quanto ao hamster do meu irmão, nunca saberemos o que aconteceu com ele, não é?

Obrigado, doutor.
Deixo o cheque da consulta com a secretária, na saída, né?

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