Crônico

Entradas do Abril 2008

De prima

26 Abril , 2008 · 1 Comentário

*Primeira crônica minha na Revista Paradoxo. Para ler lá, só clicar aqui.

“Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente”.
Rubem Alves

Em São Paulo, quando alguém encontra com você depois de algum tempo sem se falar, após o tradicional “nossa, quanto tempo!”, a pergunta que se segue é: “e aí, o que tem feito? Está trabalhando onde?”. Outro dia, em uma conversa com dois amigos, eles chegaram àquela velha conclusão de que nosso trabalho reflete nossa personalidade e quem somos. Até mesmo se é um trabalho mal feito e preguiçoso. Dessa forma, sou alguém preguiçoso. Então, quem sou eu? O Gabriel? O que pode ser dito de mim a partir do que produzo?

É fácil escrever. São apenas palavras reunidas. É fácil, mas não é simples, entende?. Ainda mais escrever algo que faça sentido, seja agradável de ler e cative o leitor. Esse é o desafio. Ao observar o dia-a-dia das pessoas, coisas simples, detalhes, miudezas, conseguir escrever um texto que vá além do que foi observado… Meu produto são palavras agrupadas. É fácil, mas não é simples.

A grande sacada de Seinfield, que ficou 10 anos como um dos seriados mais vistos nos EUA, é justamente ser sobre o “nada”. Escrever uma crônica é justamente a fórmula de sucesso de Seinfield: escrever sobre o nada de forma que faça sentido e seja interessante. Pois é. Transformar o nada e o trivial em interessante. Pode parecer absurdo, mas se eu conseguir que você veja isso, você terá entendido um pouco de mim através de meu produto.

Fica um pouco mais difícil quando a cidade parece estar silenciando. Repare dentro dos ônibus e do metrô quantas pessoas têm um fone em seus ouvidos, sendo esse fone branco ou não. Um dos locais mais ricos para se ouvir conversas alheias são nos transportes públicos, nos quais as pessoas estão mais à vontade, do que em restaurantes ou ambientes de trabalho.

Hoje, é mais fácil pescar uma boa história de alguém acompanhado. É raro perceber aquela pessoa que tem um “amigo de coletivo” – gente que por pegar tantas vezes o mesmo carro/vagão, acaba desenvolvendo uma amizade que permite conversas menos triviais do que o tempo ou o trânsito impossível da cidade. Essa espécie está em extinção! Salvem os tagarelas de coletivos!

*Gabriel Louback é jornalista, acha que é escritor e olha para os outros pedestres antes de atravessar.

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Um beijo roubado

25 Abril , 2008 · 2 Comentários

*Se você não gosta de saber do que acontece em um filme antes de assistí-lo, resista. Não leia! Mas o texto, na humilde opinião de dono do texto, ficou legal.

Fui assistir a “Um beijo roubado” sem esperar muito dele. A princípio, quando li a sinopse e vi quem eram os atores, me animei. Depois, ao saber que era do Wong Kar-Wai, fiquei temeroso. O único filme dele que havia assistido até então era “2046”. Eu até gosto de filmes mais artísticos, ou não lineares, diferentes do que Hollywood está acostumada a fazer, com os clichês e previsibilidade de sempre. Mas “2046” é um filme artístico demais para mim. Há coisas que são artísticas, mas podem ser compreendidas, abarcadas por nosso conhecimento, mesmo que não entendamos muito bem. O Tom Zé é um caso assim. A gente não entende muito bem a cabeça dele, ou muitas vezes, até mesmo a obra. Mas ele é gênio, não tem como negar. É o caso que a gente olha, não assimila, mas entende e percebe que existe uma genialidade ali. Com o Wong Kar-Wai, não consigo. Ainda não sei se é pela minha incapacidade de perceber ou se é falta de genialidade da parte dele e as pessoas que o idolatram, fazem isso apenas por posarem de intelectuais. Isso é mais freqüente do que a gente imagina. Se as pessoas, de fato, assumissem o que pensam ou o que não sabem, nos sentiríamos menos “incapazes” ou por fora de alguma coisa.

Eu não gostei de “2046”, justamente porque não entendi porcaria nenhuma do filme. Entendi que o cara utiliza milhares de digressões e meta-lingüagem, mas que não me ajudaram em nada a pensar em coisas da minha vida, ou me proporcionar um bom passatempo. Já “Um beijo roubado” consegue isso. A gente se vê no comodismo da Beth, ou Lizzie. A gente se vê na impulsividade da mesma Lizzie, ao decidir sair e viajar sem destino. A gente se vê na passividade e na espera de Jeremy, mas também de saber que no fim, vai dar tudo certo.

Um beijo roubado, tem uma ótima trilha também. Para quem quer ver Norah Jones cantando, isso não acontece. Tem uma música dela que abre o filme e a que fecha o filme. Mas ela não canta. Aliás, acho isso legal. O ato cantar no filme, não acontece pra valer. Quando alguém canta em algum filme, a pessoa apenas interpreta que está cantando. Ou você acha que em Moulin Rouge ou Chicago, o som captado no momento daquela cena é exatamente o que você ouve? Aham. Do mesmo jeito que o que você lê aqui não é exatamente como foi saindo da minha cabeça e eu vou editando, mudando, para ficar mais legal e agradável [se é que isso é possível], o que a gente ouve em uma cena que alguém canta, é, na verdade, uma gravação em estúdio e a pessoa interpretando a canção. Óóóóó [expressão de surpresa]. Ou seja, a Norah Jones não cantar no filme não é uma coisa ruim, é uma boa coisa! Ah, tem a Cat Power também no longa, mas ela também não canta. Aliás, é só uma ponta e como pouca gente sabe quem é a Chan Marshall [Cat Power], a beleza dela sobressai. Mas tem uma música dela [The Greateste, do CD The Greatest] que toca várias vezes durante o filme e quem é meio fissurado em trilhas, acaba indo atrás e descobre que é uma música da Cat Power. E para as meninas, tem o Jude Law, que tem se mostrado mais do que um ator bonitinho.

Sou um cara meio exagerado. Se me dizem que algo é ruim, eu já vou esperando a maior porcaria da história. Se me dizem que é bom, vou esperando algo sublime, que me arrebatára. Por isso, a melhor lição que tirei disso tudo é: quanto menor a expectativa, melhor o filme fica. Isso eu já tinha “descoberto”, no mínimo, entendido. Tinham me dito que o filme era mais ou menos, que no começo cansava e só do meio pro final, ficava um pouquinho interessante. Ou seja, eu acabo gostando muito mais do filme [do que deveria?] e quando vou dizer pra alguém, boto uma pilha, e com isso, é muito provável que a pessoa ache o filme bem mediano. Eu fico em dúvida. Se falo mal do filme, pode ser que ela nunca assista. Se falo bem e ela assistir, a expectativa dela será alta e o filme será inferior ao esperado. O bom disso é que, quando essa pessoa for falar do filme pra alguém, ela vai falar que o filme é fraco e se a outra pessoa assistí-lo, gostará como eu. É uma coisa doida, de um dizer que é bom, e a gente não gostar. Aí a gente diz que não gostou e quem for assistir, com a nossa opinião na cabeça, vai adorar. Nesse ciclo maluco que ajuda uns a gostarem mais do filme e prejudica outros, espero que sempre me digam que o filme é ruim. Não tenham medo. Eu sou teimoso e assisto mesmo assim.

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Calvin & Hobbes

15 Abril , 2008 · 8 Comentários

Hobbes: Então sua professora não sabia que vc tinha rasgado a calça, e ela te obrigou a ir ao quadro resolver um problema de Matemática?
Calvin: Isso resume bem.
Hobbes: Que horror! E o que vc fez?!
Calvin: Eu não tive opção. Fiz balei branca pra classe inteira.
Hobbes: Por isso vc voltou mais cedo pra casa?
Calvin: Três professores e o diretor não conseguiram restaurar a ordem.

Eu leio Calvin e Haroldo desde não sei quando. Não sei mesmo. Mas faz muito tempo, antes mesmo de descobrir que o nome, original, é Calvin & Hobbes. Lembro bem de achar fantástico o Hobbes ter vida apenas para o Calvin e quando alguém estava por perto, ele simplesmenter ser um bicho de pelúcia, inanimado.

Sempre achei que o Hobbes simplesmente se transformava na pelúcia, apenas para não ser “descoberto”. Quem não faria isso? Várias das ‘artes’ quem realizava era ele! Inclusive, com o próprio Calvin, jogando balões d’água e bolas de neve nele, ou empurrando-o pra dentro de uma poça de lama.

Calvin: Ontem dei uma rasteria em um garoto e ele caiu na lama. Foi hilário.

Hobbes: Não sei. Esse tipo de humor é tão duvidoso.
Calvin: Você não fez direito. Vem aqui e me dê uma mão.

Eu já não era mais criança e ainda gostava de acreditar que o Hobbes podia conversar com o Calvin. Várias das falas dele não poderiam ser imaginadas apenas pelo Calvin, afinal, ele sempre balanceia o pensamento e a “moral” da tira. Ele é muito mais tranqüilo com relação às garotas, por exemplo, e por isso, curte mais algumas coisas.

O problema é que a gente cresce. A gente racionaliza as coisas e perde a parte lúdica da vida. Envelheci e deixei de acreditar que o Hobbes falasse e andasse. Simplesmente não fazia mais sentido um bicho de pelúcia ter vida. “OK, como explicar então o fato do Calvin ter um balão d’água estourado na cabeça?”. E a minha mente adulta[erada], sem imaginação e racionalista, diria: Liberdade poética do autor.

Calvin: Eu escondi um balão d’água embaixo desse turbante! Genial, não?
Hobbes: Aposto que a toalha vai ser útil.
Calvin: Por quê?

É triste isso. De verdade, gostaria de retomar esse espírito lúdico. Comprei [mais] um livro do Calvin recentemente e me esforcei em acreditar que o Hobbes tomava vida. O máximo que consegui foram pequenos lances de que algo ali poderia realmente acontecer. Mas a minha cabeça, adulta[erada], não consegue mais “desligar” esse modo.

Dizem que a nossa vida é cíclica. Quando passamos dos 40 – 50, voltamos a ser adolescentes. Quando chegamos aos 70, somos como crianças. Espero chegar à fase onde poderei ler Calvin para as crianças e dizer: “Sim, é verdade. O tigre dele fica ‘de verdade’ quando ninguém está olhando. Aliás, tenho um bem aqui comigo, guardado na minha mochila, que também faz isso. Querem ver?”.

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Depois do beijo

7 Abril , 2008 · 7 Comentários

Depois do beijo parece que uma membrana é tirada dos olhos. O que era cuidado, passa a ser cachorragem. O que era atenção, passa a ser interesse. O pior é saber disso. Se entregar a essa enganação. Tudo é justificável no momento da paquera e do flerte. É brincadeira, mas é sério. São indiretas, mas das diretas. Repara nos detalhes mais miúdos e insignifcantes, dando uma importância ao acontecimento que não encaixa com o descaso charmoso, superficial e aparente.

Depois do beijo, passa a ser tratada com desdém. Se consome e se castiga por, mais uma vez, ter acredito que fosse sincero, que havia um interesse além de um beijo, além de uma boca. Mas ela sabe que gosta de se entregar a isso. Faz parte do charme. Fingir entrega total, deslumbramento e romance e depois chorar que não dão a ela o valor que merece. No fundo, o que procura é atenção. Seja da onde for, seja a qualidade que for. Ela se embriaga com a atenção despejada como um alcóolatra que já não faz diferença entre whisky e uísque. O que importa é a viagem. A ressaca é só um ônus irrevogável.

Depois do beijo, ele não se preocupa mais em galantear e conquistar. A máscara cai e se mostra como é realmente. Justamente por ter beijado-o, sente-se enojada ao perceber que tudo era apenas um jogo. O asco aumenta quando ele continua procurando-a com os mesmos subterfúgios, como se eles não tivessem sido trazidos à tona. Como a moça que coloca meias dentro do sutiã e mesmo após todos perceberem e descobrirem, continua utilizando, como se fossem reais. É deprimente para um ser humano não jogar limpo e ainda por cima, quando tem seu jogo sujo descoberto, continuar nele.

Depois do beijo, tudo se resolve. Aquela ansiedade adolescente se aquieta, o desejo transforma-se em paixão, que se transforma em um sentimento mais forte, daquele que as pessoas têm medo de admitir, pois ele pressupõe um envolvimento absolutamente profundo, íntimo, confidente e relacional, na qual as pessoas têm medo de se entregar, principalmente, depois do beijo.

Cada um tem um beijo. Pode acontecer tudo isso ao mesmo tempo, pode acontecer só um ou pode não acontecer nada.
Não se prenda ao texto.
Leia o contexto.

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