Crônico

Entradas do Maio 2008

Like a Rolling Stone

30 Maio , 2008 · 5 Comentários

Sempre quis ter uma banda, mas nunca tive tempo [talento] para tal.
Mas é sempre bom sonhar. E no século 21, a internet além de te dar as ferramentas, facilita o seu trabalho:

1) acesse http://en.wikipedia.org/wiki/Special:Random – o título da primeira página aleatória que aparecer será o nome da sua banda.

2) vá pra http://www.quotationspage.com/random.php3 – as últimas quatro palavras da última frase da página formarão o título do seu disco.

3) acesse http://www.flickr.com/explore/interesting/7days/ – a terceira foto, não importa qual seja, será a capa do seu disco.

Vou ser sincero. O primeiro nome que veio pra minha banda foi “Beauty Queen”. Não achei que fosse um nome que combinasse comigo [e o som da banda, lógico] e tentei outro.
A primeira foto também não me agradou. Foi dessa criança. Achei que só uma foto muito boa com criança é válida. Exemplo disso: Nevermind, do Nirvana e Boy, do U2.
Como eu não sou o Bono, muito menos o Kurt Cobain, decidi mudar a foto também.
Alguns podem me chamar de estraga-prazer, mas me dou a liberdade, assim como o Calvin, de inventar as regras. Ele tem um jogo chamado Calvinbol. Se tiver interesse, há explicações no blog Depósito do Calvin [inclusive com um set de quadrinhos com esse tema], na Wikipedia [em inglês e português].
Mas eu tenho minhas regras: por exemplo, peguei a terceira foto que apareceu, mesmo tendo gostado de outras! ;-)

Enfim, apresento-lhes o primeiro álbum da banda Vingtenier, “It lasted forty-three years”.



ps. Está curioso para saber o que é Vengtenier?
ps2. Vi essa idéia do álbum no blog da Frufru.
ps3. Imitei a Vivs, colocando título com frase de música. Like a Rolling Stone – Bob Dylan
ps4. Eu realmente gostei tanto do nome da banda, como do nome do álbum.
ps5.
Peguei a foto e apenas coloquei as palavras. Esse CD [ainda] não existe.

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A arte da guerra

29 Maio , 2008 · 4 Comentários

Sempre fui preconceituoso com relação a quem tem preconceitos. Pode até ser um contra-senso, mas sempre me incomodou muito esse tipo de pessoa. A definição do termo “preconceito”, segundo o dicionário Michaelis, é: “Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados”. Ou seja: é falar, achando que sabe, quando na verdade, não se sabe nada.

Há figuras míticas, alvos de preconceitos e todo tipo de piada possível. Estão inseridos no imaginário coletivo. Advogados e sogras são preferência nacional. No entanto, descobri recentemente uma outra figura: o corretor de imóveis. Um amigo, que também está para casar, ao procurar apartamentos pela cidade de São Paulo, constantemente desligava o telefone xingando: “Odeio corretores de imóveis! Bando de [coisas impublicáveis]!”. Eu sempre me assustava, mas sempre considerei exagero dele, por conhecê-lo e saber de sua tendência a sempre reclamar das coisas, apenas para manter o hábito.

Acontece que eu comecei a procurar imóveis. Talvez por não possuir uma estratégia bem definida, tenha ficado vendido. Deveria ter seguido os conselhos de meu pai e ter lido A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Atualmente, é um livro utilizado por pessoas que precisam gerir empresas, se relacionar com outras pessoas, ir ao cinema e, ocasionalmente, alugar um apartamento. Enfim, um livro de estratégia militar virou auto-ajuda, mas no país do Paulo Coelho, quem sou eu para questionar? Eu deveria ter lido. Sair correndo descontroladamente em direção ao mercado de imóveis de uma cidade como São Paulo é algo que nem o personagem de Mel Gibson, em Coração Valente, indicaria.

De boa vontade, comecei a dar uma olhada nos classificados de domingo, tanto da Folha, como do Estadão. Muitos imóveis saiam nos dois, mas os que mais pareciam vingar eram os encontrados apenas em apenas algum dos dois jornais. Algo igualmente fundamental é percorrer os bairros desejados e anotar números de placas. Ao iniciar as conversas com corretores, comecei a vislumbrar o que me esperava. Raiva e xingamentos, características de meu amigo. Primeiro problema: o corretor entender suas limitações.

- Oi, eu vi um anúncio de imóvel em uma placa e gostaria de informações – disse eu.
- Ah sim, é uma bela cobertura, e está saindo por 800 – me respondeu.
- MIL?!? É para vender então, né?
- Isso, mas é uma bela cobertura.
- Entendi. Mas foge um pouco do valor que estou procurando. [Eu exagerei ao dizer "um pouco". A verdade é que eu teria que ganhar na Mega Sena para comprar algo assim!].
- OK, mas se quiser, temos belas coberturas em torno de R$ 400 mil também! [Para essa, eu teria que vender um rim, um olho e algum conhecido].
- Saquei, mas a bem da verdade, estou procurando algo para alugar.
- Poxa, temos para alugar também!
- Ah é?! Você tem apartamentos para alugar, por até R$ 200, com condomínio incluso?! [Pretendia desencorajá-lo a continuar oferecendo-me apartamentos de valores absurdos].
- Não.
Tutututu. [Desligou na minha cara. Consegui].

Sabe quando você entra numa loja de roupas e a pessoa fica tentando te empurrar um produto, mas você sabe que não vai te servir, ou que está fora das suas condições de comprá-lo? Pois é. Alguns corretores são assim. [Continuo tentando não generalizar. Acredito que há corretores do bem. Apenas não encontrei nenhum]. Já corretores do mal…

- Oi, meu nome é Gabriel. Vi um apartamento para alugar nesse bairro e estou interessado. Gostaria de saber informações dele.
- Ah sim, na verdade são três. Dois já foram alugados e o terceiro, o inquilino vai sair na segunda-feira da semana que vem. [Era uma terça-feira, e naquela semana haveria um feriado prolongado, na quinta e sexta-feira].
- Entendi. Mas eu tenho muito interesse e gostaria de ver antes, se possível.
- Olha, eu sei que está bacana, mas não tem mesmo como ver antes. O inquilino só sai na segunda.
- Entendi, mas não podemos tentar conversar com ele e tentarmos marcar algo antes disso? Só para eu saber como está, dar uma olhada, etc. Estou realmente interessado. [É preciso ser enfático nesse ponto. Muitos corretores acham que estamos querendo comprar um picolé].
- Desculpe Sr. Gabriel, mas não é possível mesmo. Mas fique tranqüilo, o seu telefone está super-anotado e eu vou… Qual é o seu telefone mesmo?
- É, eu achei mesmo que não tivesse te passado. Anota aí, por favor: 234-5678.
- Pronto, como disse, está super-anotado. E na segunda-feira, às 9h, eu te ligo para a gente agendar de ir lá.
- OK, mas tem certeza mesmo que não posso ir antes?
- Não, eu saberia disso.
- OK, obrigado.
[Passei a semana pensando no apartamento, vendo fotos da região no Google Maps, fotos de outros apartamentos do mesmo prédio, etc. Eu estava interessado no picolé. Digo, apartamento].

Segunda-feira, dia no qual o inquilino sairia, ligo às 10h para a corretora:
- Bom dia, é o Gabriel. Lembra-se de mim? Você ficou de me ligar às 9h, já são 10h e como estou realmente interessado no apartamento, gostaria de marcar de visitá-lo hoje.
- Ih Sr. Gabriel… Esse apartamento já foi alugado.
- HEIN???
- É, uma pessoa também estava muito interessada e eu acabei fechando com ela durante o feriado. Inclusive, já pagou o 1º aluguel.
- Como assim?! A pessoa fechou e deu um sinal sem nem ver o imóvel?
- Pois é.
- Pois é?! Você está realmente afirmando que a pessoa te deu o primeiro aluguel sem nem ver se o apartamento de fato existe?!
- Então, é que ele sugeriu de falarmos com o inquilino e conseguimos agendar uma visita antes.
- Sei.
- Pois é, mas seu telefone está super-anotado!
Tutututu. [Dessa vez, eu que desliguei na cara. Xingando, lógico].

E por último, há os proprietários dos imóveis. Eu havia visto, na Internet, em um site desses qualquer de anúncios, um apartamento de bom tamanho, ótima localização e um valor que parecia mentira. Liguei e descobri que havia uma pendência referente ao pagamento do condomínio, estimada em mais de R$ 3 mil. Mesmo o valor sendo repassado por inteiro, ainda saia em conta. Diversas vezes tentei agendar um horário com a proprietária, que sempre me pareceu um pouco confusa e estranha, mas segui tentando, pois parecia valer a pena. Ela disse que precisava resolver algumas coisas e sempre marcava para conversamos mais para frente. Foi assim durante três semanas, e ao percerber que não daria em nada, desisti. Passados quase dois meses, sugeriram que eu voltasse a ligar para ela. “Vai que ela não vendeu”. Era melhor já ter vendido.

- Oi moça, aqui é o Gabriel, lembra-se de mim? Liguei há algum tempinho para você, interessado no seu apartamento. Já vendeu?
- Não – disse, seca.
- Bom, ainda está interessada em vender, moça?
- Olha, eu não atendo ligações com número “não-identificado”.
Tutututu. [Já estava ficando acostumado a isso].

Ligo novamente, dessa vez, do meu celular. Explico tudo de novo, de ter falado com ela há dois meses e ainda estar interessado no imóvel. Ela começa a se descontrolar e desliga o telefone na minha cara. De novo. Eu, persistente [também conhecido como "pentelho"] que sou, tentei mais uma vez, falando manso, quase pedindo desculpas por querer comprar o apartamento dela.

- Oi, desculpe, é o Gabriel de novo… Aliás, não sei seu nome, não sei como te chamar, moça.
- Olha, eu sei o que você está fazendo! Isso é perseguição! Toda vez que eu digo que tenho algumas coisas pra resolver, alguém coloca uma pessoa pra me vigiar, mas eu não vou cair nessa!!!
- Como assim?! Eu só quero informações. Eu já falei com você antes, mas você nunca podia marcar pra ver o apartamento, lembra-se?
- É, eu lembro, mas ninguém liga depois de dois meses de anúncio… Ninguém faz isso!
- Moça, eu não estou te ligando? Então, as pessoas ligam. Eu realmente fiquei interessado no apartamento. Mas não estou entendendo, você ainda quer vender o seu imóvel?
- Quero.
- Então qual o problema se estou te ligando dois meses depois? Você quer vender, eu quero comprar. É simples. Você tem certeza que quer vender?
- Tenho, se você tiver o valor dele à vista, eu vendo.
- Moça, eu tenho mais de R$ 5 milhões na minha conta! Mas preciso ver o apartamento. Você por acaso compra um carro sem nem saber que carro é, a cor, o modelo, etc?
- Não.
- Então, eu queria ver o apartamento.
- Não! Pare de me ligar! Isso é armação e chantagem, eu sei! Não me ligue mais!
- HEIN?! Você não disse que quer vender o apartamento?!
- Para você, não.
Tutututu. [Ah, o som inconfundível de desligarem o telefone na sua cara].

Pensei em ligar novamente, dessa vez com intenção de botar terror pra valer na moça e entrar no jogo da conspiração. Mas percebi que estava sendo contaminado pela raiva do mercado imobiliário e a moça ainda tinha que lidar com todos aqueles corretores interessados no apartamento, tadinha.

Texto publicado originalment na Revista Paradoxo

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Nada pessoal. Nenhuma foto

16 Maio , 2008 · 9 Comentários

Se você já trabalhou em escritório, seja com salas individuais, seja em baias, talvez tenhareparado na decoração que cada pessoa coloca em seu canto. Outro dia, entrei na sala de um dos diretores de uma empresa e parecia que estava na sala de estar da casa dele: mesa de centro com bule de café, jarra d’água caseira, poltronas, fotos da família, flores, toalha, jornal do dia etc. Lógico que como ele recebe figuras importantes em seu escritório, o ambiente deve ser agradável. No entanto, nunca consegui entender baias que figuram lembranças de viagens como mini-berimbaus, foto dos gatos e cachorros, ou até mesmo um pingüim, para dar um ar mais kitsch ao cubículo. Outro dia, vi uma mesa que o dono parecia ter passado em todas as barraquinhas do Largo da Batata e ainda ter dado um pulo na 25 de Março para enfeitá-la. Era um misto de bugigangas: chaveiros, estojos, canecas, espelhinho, bandeira do São Paulo, adesivo do Homem-Aranha, foto do namorado e dos pais, dos colegas de trabalho, três calendários, desenho da sobrinha, pilhas, radinho, iPod, mini árvore de natal e uma coleção de latas de cervejas inusitadas.

Recentemente passaram pelo meu cubículo, analisaram-no em toda a sua extensão [correspondente a um corner de 1m²] e comentaram: “Nada pessoal. Nenhuma foto. Interessante”. Interessante. Eu nunca tinha reparado que o local onde sento não tem nada que diga a meu respeito. Apenas um adesivo minúsculo, do Corinthians, lá no final de uma das paredes da baia. No restante da armação, apenas papéis de contatos, para rápida visualização na hora da correria. Só. Fiquei pensando nos outros lugares que trabalhei. Se alguma coisa havia, era algo que o meu antecessor tinha deixado. Geralmente um porta-lápis, adesivos de florzinhas, post-its com data vencida, entre outras coisas.

Comecei a achar que eu sou um cara insensível. Uma pessoa que não demonstra afeto pelos seus entes mais queridos ou que tem vergonha de expô-los em fotos ao lado do monitor. Nessa semana, uma amiga comentou a mesma coisa. Mas no caso dela, o diagnóstico já estava pronto há tempos: ela é uma pessoa fria. Ela se auto-diagnosticou. Não recomendo em casos mais sérios! Mas aos poucos, fui percebendo que comigo a questão era outra. No começo de cada trabalho, costumo não colocar coisas minhas logo de cara pois nunca sei quanto tempo vou ficar. Sempre há aquele período inicial de adaptação, até mesmo previsto em contrato [três meses]. Mas passado esse tempo, a mesa continua intacta, no quesito “coisas pessoais”. Porque as quinquilharias, úteis [e as nem tanto], papéis e bagunça reinam apenas duas horas depois. Porém, mesmo após os primeiros meses, não me empolgo em colocar objetos que me façam sentir em casa, ou mais confortável.

O meu problema, se é que algum há, é justamente esse: eu não quero me sentir em casa enquanto estou no trabalho. Até mesmo nos lugares que mais gostei de trabalhar, não é algo que eu goste de pensar: estou em casa. É um ambiente que não condiz com meu conceito de lar. A não ser que eu tenha um trabalho home-office, o que muda totalmente a figura e o conceito. Mas não quero me acomodar a ponto de pensar em não querer mais sair dali. É esse o sentimento de casa, quando estamos satisfeitos com ela. Há pessoas que moram a vida inteira no mesmo imóvel, não por comodismo, mas simplesmente porque realmente gostam daquele local. Se não há necessidade em sair, para que então se mudar? Já no trabalho, por melhor que ele seja, não podemos nos acomodar ou ficarmos seguros nesse nível. Nosso lar é um refúgio. Quando as pessoas transformam suas baias em seus lares, com todos os apetrechos comuns aos dois, a minha interpretação é que transformaram aquele local em sua zona de conforto, descanso e todas as outras atribuições de nossas casas.

Pode ser que não seja assim para todos. Pode ser que algumas dessas pessoas, até mesmo você, saibam lidar com o fato de chegarem ao escritório e parecer que voltaram para casa. Mas essa é uma das [muitas] coisas que ainda não aprendi a lidar. Talvez nunca aprenda. A questão é saber respeitar a decoração dos meus colegas. No entanto, isso não me impede de dar um pulo na baia vizinha e fazer umas compras. Alguém precisa de pilhas?

Texto publicado na Revista Paradoxo

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Sexta-feira

9 Maio , 2008 · 5 Comentários

é o dia que tenho o sentimento de “último dia de aula”. Não precisa nem ser do ano letivo, pode ser do semestre, quando chega junho – julho. Depois que a gente sai da faculdade, não existe mais isso. Mesmo que você faça mestrado, ou uma pós, não é a mesma coisa, porque muitas vezes, durante as férias, ainda há coisas a serem feitas. No mínimo, seu trabalho. Se você não trabalha, há coisas a serem feitas para o curso.

Agora, se você trabalha e não cursa nada, piorou. Férias? Apenas 30 dias em 365. Isso quando sua empresa não o obriga a tirar apenas 20 e negocia os outros 10. A sensação piora quando você tem amigos que ainda estão no colégio [ou na faculdade], mas só estudam. Chega junho – julho, novembro – dezembro/janeiro e todo mundo tem todos os dias livres! Aquela sensação de ficar julho inteiro sem nada pra fazer e, por isso mesmo, cheio de planos, não tem mais. Dezembro então, o máximo que podemos fazer é torcer para ter uma semana de folga coletiva. E janeiro, tem sempre o aniversário de São Paulo, dia 25. Aí o suspense é pra saber se cai em uma terça ou quinta-feira, para poder emendar.

A sexta-feira é um dia que me traz esse sentimento. Mesmo quando eu gosto do meu trabalho e estou satisfeito com o que faço. Não é apenas a sensação de me ver livre dos afazeres, mas é a sensação de poder encontrar os amigos na hora que quiser, acordar a hora que quiser, almoçar a hora que quiser, enfim, uma liberdade plena! Mas que, infelizmente, dura apenas 48h. Porque a vida também é feita de segundas-feiras.

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Lá vai ele. Acha que pode

8 Maio , 2008 · Deixe um comentário

Cansei de ouvir que o trânsito de São Paulo está impossível. Cansei também de reclamar do congestionamento. É senso comum que a solução para esse problema é melhorar o transporte público, entre outros detalhes. Mas até a nova linha do Metrô ficar pronta ou até o trânsito realmente começar a melhorar, eu precisei arranjar uma saída. Não agüentava mais ficar parado no tráfego, mesmo quando o ônibus estava vazio. E estava precisando fazer exercícios. A solução: voltar a pé para casa. É uma caminhada de seis a sete quilômetros. E como São Paulo tem muito morro [embora não pareça, por estarem cobertos de concreto], há uma boa subida de perto da margem do Rio Pinheiros até lá perto da avenida Pompéia. Mas como a caminhada até o pé da montanha é tranqüila, a subida não mata e ainda dá um up no meu coração [espero].

Mas com muita freqüência as pessoas me olham com ar de surpresa. Há alguns que toda vez, ao me verem saindo de bermuda e camiseta do trabalho, dizem “Lá vai ele. Acha que pode”. Como assim? Acha que pode, o quê? É só trazer a roupa extra na mochila! Muitas vezes, os mesmos que admiram e dizem “Ah, queria também poder fazer isso” ficam dando desculpas quando digo que podem fazer o mesmo, desde que tenham idéias de como conseguir executar o plano.

Andar na cidade, em longas distâncias, inicialmente recai sobre o clichê de você reparar em coisas que não via antes, passando rápido dentro de um ônibus ou no carro. Passada essa descoberta, os detalhes começam a aparecer. São eles que sempre me chamam mais a atenção. Um exemplo disso é o cheiro que há nas ruas. Vai além do cheiro da poluição. Em certas regiões, mais residenciais, é possível perceber o perfume do sabonete que estão usando no banho. Ou aquele cheirinho de janta preparada por uma avó. Há diferença no cheiro da comida da avó e da mãe, caso você ainda não tenha reparado. Quando fazia o trajeto da Praça da República, até a Pompéia, subindo pela Consolação, a parte onde diminuía o passo e só não fechava os olhos para não tropeçar, era quando passava pelas bancas de flores da Dr. Arnaldo e podia sentir o perfume das rosas, tulipas, gérberas, margaridas, e girassóis. Ou o cheiro doce da vegetação da Rua Natingui, que automaticamente fecha os meus olhos e transforma em música o som dos tênis pisando a calçada.

Os bairros têm seu cheiro característico também, como o perfume de alguém que é reconhecido por alguma essência, sempre presente. Em Perdizes e em alguns locais do Jardins, há o cheiro de amendoeiras. É um cheiro, que quando está calor, eu me sinto em Salvador das décadas de 80 – 90, pois passava férias em uma rua repleta dessa árvore. Aliás, descobri outro dia que tenho um bom olfato. Não que consiga distingüir uma pitada de noz-moscada em um panelão fervendo molho, mas descobri que minha memória olfativa é extremamente aguçada e sou facilmente levado e conduzido pelos cheiros. Sou muito suscetível a esse tipo de presença e sentir um cheiro conhecido é como estar, de fato, vivendo o momento que está na memória. Talvez por isso seja tão nostálgico, pois não consigo abandonar nunca minhas experiências.

A cidade, com todos os seus cheiros e suas idiossincrasias olfativas, permite que eu conheça outros mundos e viva outras experiência. Um perfume reconhecido na rua pode fazer com que eu preste atenção em quem seja e reencontrar um antigo conhecido. Mesmo cansado e suado da caminhada, o cheiro de banho tomado, vindo de uma casa, reanima o vigor, para que eu termina o trajeto daquele dia. O cheiro da cidade, na verdade, reflete experiências e lembranças muito pessoais. Caso haja poucas relacionadas aos perfumes que conhecemos, a cidade apresenta ali, naquele exato momento, algo para guardar e poder ser lembrado, em um momento olfativo futuro.

Texto publicado na Revista Paradoxo.

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Do amor

8 Maio , 2008 · 6 Comentários

“Não existe investimento seguro. Amar é ser vulnerável. Ame qualquer coisa e seu coração irá certamente ser espremido e possivelmente partido. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, não deve dá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Evite todos os envolvimentos, feche-o com segurança no esquife ou no caixão do seu egoísmo. Mas nesse esquife seguro, sombrio, imóvel, sufocante ele irá mudar: não será quebrado, mas vai se tornar inquebrável, impenetrável, irredimível. O único lugar fora do Céu onde você pode se manter perfeitamente seguro contra todos os perigos e perturbações do amor é o Inferno”.

C.S. [Clive Staples] Lewis

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