Ao subir a rua de casa, a cada passo, o esparadrapo do curativo em minha perna puxava um pouco mais minha pele, tornando o meu andar algo muito incômodo. Não agüentei e antes mesmo de chegar o fim da subida arranquei-o.
Apesar da ferida ter ficado sem sua ‘proteção’, eu podia caminhar normalmente, sem parecer o Kevin Spacey em “Os Suspeitos”. OK, reconheço que a ferida era minúscula, mas a orientação médica foi para que eu a deixasse protegida!
Como 90% das coisas que eu penso acabo filosofando, um tratado veio à cabeça: há curativos que doem mais do que a própria ferida. Já vi muitas pessoas feridas [física, emocional e ‘espiritualmente’ falando]. E após a ferida ter sido aberta, parecia que a dor da cura, ou a dor do curativo, era o que mais doía.
Quando temos um ferimento assim, exposto, há algumas alternativas para tratá-lo. As três quatro que considero principais são as seguintes:
1 – Deixar o curativo agir: sabe a dor de Merthiolate ardendo na ferida? Pois é. Eu sempre achei que se arde, é porque funciona. Dar ponto em pele rasgada/aberta também dói. Enfim, o curativo pode doer tanto quanto ou até mais do que a ferida. Mas ele cura [o próprio nome já diz]. O problema é que há pessoas que não gostam do curativo. Não gostam que seja colocado alguma coisa que lembre o quanto a ferida dói, ou o quanto doeu aquilo que fizeram a ela. Aí é que entra o próximo ponto.
2 – Deixar a ferida sem curativo: essa é uma opção e bem válida. Eu mesmo, diversas vezes, preferi não colocar nada em cima, fosse Band-Aid ou algodão com esparadrapo, para a ferida ‘respirar’. O corpo fica incumbido de se curar, seja coagulando o sangue, ou criando tecido que recompõe aquela parte aberta. No entanto, o processo leva muito mais tempo. Talvez esse seja o tipo de ferida na qual as pessoas dizem “Com o tempo, passa”. O problema é que a qualquer momento, alguém pode relar, sem querer, na sua ferida e o escândalo do “alguém me feriu” recomeça. Por isso, o 3º ponto
3 – Ficar ‘tocando’ na ferida: isso acontece quando a pessoa fica o tempo todo encostando na ferida, cutucando e dizendo: Olha, é aqui que estou machucada [cutuca a ferida]. Olha, esse é meu machucado [cutuca a ferida]. Olha o que fizeram comigo [cutuca a ferida]. Ou pior, Olha o que você fez comigo [cutuca a ferida com mais força ainda]. A pessoa não deixa nem o curativo agir, ou o tempo dar conta do recado. Ela fica lembrando o tempo todo da ferida, e colocando, ela própria, o dedo naquele local. Cada vez que ela cutuca a própria ferida, ela se abre novamente. No fundo, ela gosta da atenção que as pessoas dão, por haver um ferimento ali. Imagine um corte no seu braço, profundo, e dia-a-dia você enfiando seu dedo até o fim da ferida. É assim que muitas pessoas fazem com sua ferida, seja ela em qual categoria for.
De qualquer forma, uma decisão é tomada. Pode ser que uma ferida tenha sido causada e você tenha apenas uma pequena parcela de responsabilidade. Mas à partir do momento em que ela está aberta, a cicatrização e cura cabe apenas a você. Se ela não fecha, se ela fica exposta ou se curativo age, a única pessoa responsável por isso é você.
Update:
Há uma 4ª relação com a ferida, que uma amiga comentou. Logo depois de feita, é necessário lavá-la. Água, sabão e esfregar. Parece que vai abrir mais ainda, porém é um procedimento extremamente necessário. Melhor que seja você. No hospital, por exemplo, eles esfregam a queimadura, corte, o que for com bucha mesmo, esfregando até ‘arrancar pele’. Mais um motivo para você cuidar de sua ferida. Se deixar nas mãos de outro, pode ser que não a tratem do jeito que você gostaria.

