Crônico

Entradas do Julho 2008

Há curativo que dói mais do que a ferida

30 Julho , 2008 · 2 Comentários

Ao subir a rua de casa, a cada passo, o esparadrapo do curativo em minha perna puxava um pouco mais minha pele, tornando o meu andar algo muito incômodo. Não agüentei e antes mesmo de chegar o fim da subida arranquei-o.

Apesar da ferida ter ficado sem sua ‘proteção’, eu podia caminhar normalmente, sem parecer o Kevin Spacey em “Os Suspeitos”. OK, reconheço que a ferida era minúscula, mas a orientação médica foi para que eu a deixasse protegida!

Como 90% das coisas que eu penso acabo filosofando, um tratado veio à cabeça: há curativos que doem mais do que a própria ferida. Já vi muitas pessoas feridas [física, emocional e ‘espiritualmente’ falando]. E após a ferida ter sido aberta, parecia que a dor da cura, ou a dor do curativo, era o que mais doía.

Quando temos um ferimento assim, exposto, há algumas alternativas para tratá-lo. As três quatro que considero principais são as seguintes:

1 – Deixar o curativo agir: sabe a dor de Merthiolate ardendo na ferida? Pois é. Eu sempre achei que se arde, é porque funciona. Dar ponto em pele rasgada/aberta também dói. Enfim, o curativo pode doer tanto quanto ou até mais do que a ferida. Mas ele cura [o próprio nome já diz]. O problema é que há pessoas que não gostam do curativo. Não gostam que seja colocado alguma coisa que lembre o quanto a ferida dói, ou o quanto doeu aquilo que fizeram a ela. Aí é que entra o próximo ponto.

2 – Deixar a ferida sem curativo: essa é uma opção e bem válida. Eu mesmo, diversas vezes, preferi não colocar nada em cima, fosse Band-Aid ou algodão com esparadrapo, para a ferida ‘respirar’. O corpo fica incumbido de se curar, seja coagulando o sangue, ou criando tecido que recompõe aquela parte aberta. No entanto, o processo leva muito mais tempo. Talvez esse seja o tipo de ferida na qual as pessoas dizem “Com o tempo, passa”. O problema é que a qualquer momento, alguém pode relar, sem querer, na sua ferida e o escândalo do “alguém me feriu” recomeça. Por isso, o 3º ponto

3 – Ficar ‘tocando’ na ferida: isso acontece quando a pessoa fica o tempo todo encostando na ferida, cutucando e dizendo: Olha, é aqui que estou machucada [cutuca a ferida]. Olha, esse é meu machucado [cutuca a ferida]. Olha o que fizeram comigo [cutuca a ferida]. Ou pior, Olha o que você fez comigo [cutuca a ferida com mais força ainda]. A pessoa não deixa nem o curativo agir, ou o tempo dar conta do recado. Ela fica lembrando o tempo todo da ferida, e colocando, ela própria, o dedo naquele local. Cada vez que ela cutuca a própria ferida, ela se abre novamente. No fundo, ela gosta da atenção que as pessoas dão, por haver um ferimento ali. Imagine um corte no seu braço, profundo, e dia-a-dia você enfiando seu dedo até o fim da ferida. É assim que muitas pessoas fazem com sua ferida, seja ela em qual categoria for.

De qualquer forma, uma decisão é tomada. Pode ser que uma ferida tenha sido causada e você tenha apenas uma pequena parcela de responsabilidade. Mas à partir do momento em que ela está aberta, a cicatrização e cura cabe apenas a você. Se ela não fecha, se ela fica exposta ou se curativo age, a única pessoa responsável por isso é você.

Update:
Há uma 4ª relação com a ferida, que uma amiga comentou. Logo depois de feita, é necessário lavá-la. Água, sabão e esfregar. Parece que vai abrir mais ainda, porém é um procedimento extremamente necessário. Melhor que seja você. No hospital, por exemplo, eles esfregam a queimadura, corte, o que for com bucha mesmo, esfregando até ‘arrancar pele’. Mais um motivo para você cuidar de sua ferida. Se deixar nas mãos de outro, pode ser que não a tratem do jeito que você gostaria.

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Você tem cheiro de que?

28 Julho , 2008 · Deixe um comentário

O olfato é o sentido mais aguçado que possuo. É tão forte que, ao associar cheiros a lugares, pessoas e épocas de minha vida, a sensação da experiência vivida é extremamente arrebatadora, para o bem e para o mal. Dependendo do cheiro, posso ficar com vontade de chorar [e sem ser cebola] ou de gargalhar.

Recentemente fui a Cancun. Assim que desci do avião, tive uma sensação de déjà vu. Me lembrou Salvador, por descer pela escadinha e sem precisar pegar ônibus até o terminal. Aeroporto até que pequeno, calor e umidade ao extremo. Mas tinha algo de diferente no ar. No trajeto até o hotel, aquela sensação ainda permanecia.

Ao conversar com um amiga, a primeira coisa que ela me disse foi “E aí, me conta tudo! Qual o cheiro da cidade?”. Foi a primeira vez que me perguntaram isso em toda a minha vida. Ela me explicou que cada cidade possui seu cheiro, assim como as pessoas e que tenta sempre guardá-lo na lembrança. Acredito que na hora de ‘revivê-la’, é mais real.

Eu sempre percebo esses cheiros e guardo as impressões para mim, mas nunca tinham me perguntado sobre eles. Foi instantâneo: Cancun tem um cheiro doce, parecido com o do bronzeador Banana Boat. É um cheiro que lembra frutas, bem tropical. Mas é doce, mesmo que doce seja algo para que o paladar identifique.

É esse o cheiro que senti assim que saí do avião. É esse o cheiro que ficou impregnado em algum lugar da minha mente. Por isso, ao usar Banana Boat perto de mim, saiba que o sorriso besta na cara é pela lembrança da viagem de lua-de-mel, OK?

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Não adianta calibrar o monitor

24 Julho , 2008 · 1 Comentário

O skyline dos prédios são as novas encostas das montanhas, onde os seres humanos se juntam para ver o pôr-do-sol. Em seus escritórios, almejando uma cor-bahia e alcançando a cor-baia [essa não é minha], viajam pelo mundo com o poder de um rato em suas mãos. Uma clicada no olho desse animalzinho e é possível ver inúmeras obras do Louvre. Legal. Mas qual o tamanho real daquela tela? Qual a cor que se vê? Não adianta calibrar o monitor. Aquilo não é a obra.

A foto de alguém boiando n’água que parece ser refrescante nos lembra do ar-condicionado agradável ao redor e nos dá sede. Pronto. Mais uma sensação vivida, ao alcance de um clique. É só dar o gole da água do filtro e continuar nas experiências alheias.

Paramos de viver os sentimentos e emoções. Nos contentamos em ler ou ver o que outros viveram e postaram em seus Flickrs ou blogs. Amyr Klink já foi até o Ártico algumas vezes. Já foi sozinho e com a família. Em uma de suas primeiras aventuras, uma das mais ousadas, atravessou o Altântico num barquinho merreca, a remo, sozinho. E eu vi a entrevista dele sobre isso e o livro dele sobre as viagens. Pronto?

[Aliás, ele fala uma coisa interessante, quando o repórter pergunta se ele repetiria a viagem, depois de afirmar que foi uma das melhores experiências: "Não, não a faria de novo. Essa, eu já conheço, por melhor que seja. Quero a próxima", ou algo assim.]

Aliás, essa crítica de vivermos pelos olhos dos outros e pelo que os outros vivem, um amigo que me disse, depois de ter lido no livro do Amyr Klink. Paradoxal, não? Não do jeito que estamos acostumados a viver.

Enquanto escrevo, o pôr-do-sol está sensacional do alto de um 9º andar na Faria Lima. É isso o que tenho, por enquanto. Se quero mais, tenho que sair daqui e procurar por esse ‘mais’. E se você imagina um pôr-do-sol bacana como esse aqui e não quer só imaginar, procure o seu pôr-do-sol também. Todo dia tem um.

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Ah, o doce som do progresso

8 Julho , 2008 · 4 Comentários

O barulho nas ruas é ensurdecedor. Os motores dos ônibus ficam na altura de nossos ouvidos, barracas de camelôs colocam suas músicas no volume máximo e, para completar, há os inconvenientes que apenas por diversão [própria] grudam suas mãos nas buzinas.

Chegar em casa traz aquela sensação de paz e tranqüilidade não apenas por ser o nosso lar. O barulho diminui consideravelmente. Como é que a Engenharia consegue levar seres-humanos à Lua, trazê-los vivos de volta, mas não constrói furadeiras silenciosas, freios que não gritem e motores que não agridam nossa sanidade?

Desconfio que no imaginário coletivo dos construtores de automóveis, máquinas e afins, a doce música do progresso seja justamente o barulhinho do maquinário funcionando.

Os passáros cantam? Façam esses pistões movimentarem mais barulho! As pessoas conversam? Coloquem essa britadeira para funcionar! As crianças cantam? Buzinem, buzinem!

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