Crônico

Entradas do Outubro 2008

É um bichinho bonito*

30 Outubro , 2008 · 2 Comentários

Quando criança, ouvi a história de um cara, em um bairro de São Bernardo, que era bom de cachaça. Não, não é o Sr. Luís Inácio. Quando ele bebia, chegava em casa com sua Kombi e estacionava de primeira. A baliza saia perfeita, não precisava nem dar aquela consertada. Fluía, sabe? Agora, quando ele demorava em acertar e ficava indo e voltando com o carro, para conseguir ‘encaixá-lo’ na vaga, todos sabiam o que desceria do carro: um homem sério. Sóbrio.

Por muito tempo fiquei pensando nessa história. Estou longe de fazer apologia à bebida, que vitimou alguns conhecidos meus. No entanto, sempre achei que houvesse uma moral nessa anedota. Uma conclusão, sabe? Ainda não encontrei. Talvez não haja.

Como Jorge Ben. Já ouviu Spyro Gyro? “É um bichinho bonito, verdinho, que dá na água”. É um ‘plânctum’, segundo Seu Jorge [Ben Jor]. A música não faz nenhum sentido. Ele fica falando do Spyro Gyro, que dá em água “doce, doce, doce, doce, doce”. Mas tem também no mar. Lembro de chegar na Ilha do Mel de noite, largarmos as mochilas e barracas no camping e ir direto pro mar. O mar brilhava. Vários pontinhos verdes. Parecia que as estrelas tinham decido para um mergulho [OK, ficou brega, mas é o que parecia]. Na mesma hora achei que fosse o efeito do baseado dos caras do nosso camping, pois foi um misto de “Estou na Ilha do Mel” com aqueles trocinhos brilhando. Sensacional.

Moral da história: não tem moral.
[Como muitas outras coisas. Mas não deixa de ser peculiar. Ou divertido.]

*Título: Spyro Gyro – Jorge Ben Jor

Categorias: divagação · história
Etiquetado: , ,

O seu balançar era irresistível

28 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

Ele entrou no ônibus com aquela cara. Assim que vagou lugar, ela torceu o nariz quando ele veio em sua direção. Ele tinha cara de maloqueiro. Mas era possível enxergar ternura em seus olhos. Ela tinha cara de amarga, mas era possível enxergar arrependimento em seus olhos. Lado a lado, se evitaram ao máximo. Mas aquele ônibus era mágico. Embalava seus passageiros. O seu balançar era irresistível. Adormeceram.

Ele sonhou que alguém via além de seu boné,  além da corrente e do olhar mal encarado. Não importava que se vestisse assim justamente para afastar: queria ser aceito, queria que percebessem isso. Ela sonhou que a abraçavam, simplesmente. Ninguém lhe dirigia a palavra: apenas a abraçavam, com sinceridade. Podia se entregar a um desconhecido. Não importava como estava vestido ou quem era, desde que outros braços envolvessem-na de forma sincera. Ela se acomodou no ombro dele, que a recebeu de forma convidativa, a não deixá-la mais. Eu apenas queria que os dois se encontrassem e nunca mais acordassem.

Categorias: Miudezas · cidade · conto · cotidiano · divagação · história · portfolio · relacionamentos · transporte · ônibus
Etiquetado:

O alcance da promessa…

23 Outubro , 2008 · 3 Comentários

… é o que realmente pega.
A promessa em si é inevitável. Sempre foram feitas e isso não vai mudar.
Mas qual o alcance da sua promessa?

Vocês prometeram serem amigos para sempre.
O que te fez não agüentar mais?

Vocês prometeram ficarem juntos até que a morte os separasse.
O que deixaram acontecer em suas vidas para que isso mudasse?

Você prometeu se esforçar mais.
O que te fez desistir?

Você prometeu.
Qual foi o alcance de sua promessa?

Título: É o que Me Interessa – Lenine

Categorias: divagação · relacionamentos
Etiquetado:

Ela é um caso sério

23 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

A enorme bandeira, com o rosto de um candidato, bate na minha cara. Pergunto à moça se ela vota naquela pessoa. “Ah, eu voto sim!”

- Todo mundo que está aqui, com as bandeiras, vota nele?
- Não, não… não é obrigatório votar nele. A gente vota em quem a gente quiser, não é?
- E ela, aí do lado? Vota nele?
- Ih, ela não… ela é um caso sério.
Pergunto para a outra moça “E aí, você não vota nele não?”
- Você tá louco?! E eu lá voto em alguém?
- Ah é? Vota em ninguém então?
- Eu voto nulo! Ninguém merece meu voto. Muito menos esse da bandeira.

Categorias: Miudezas · cidade · conversas · cotidiano · drops · portfolio
Etiquetado: ,

É simples

23 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

Se você está, por exemplo, na rua, no ônibus ou no escritório e sente frio, faz o que?
Coloca uma blusa, correto?

Agora, se você está com calor, faz o que? [Já estou só de camiseta, bermuda e chinelo. E mesmo assim, estou com calor] O que se faz?
.
.
.
.
.
.
Não tem muito o que fazer, né?

Então, por favor, me deixe ligar o ventilador em paz, abrir a janela ou diminuir a temperatura do ar-condicionado.
Se ficar frio, vista uma blusa. Porque contra o calor não há saída.
Grato.

ps. minha esposa já anda sempre com um “casaquinho”. É uma das poucas que me entende… obrigado.

Categorias: desabafo · divagação · drops · eu
Etiquetado: , , , ,

Eles dormem onde eu piso

22 Outubro , 2008 · 2 Comentários

Eles não têm assento reservado ou fila preferencial. Não têm direito à meia-entrada, nem contam com uma passeata ou Parada reivindicando seus direitos. Não são mencionados em nenhuma campanha eleitoral, na pregação dominical ou na prece matinal. Não entram no censo do IBGE, pois são recenseados apenas os moradores em domicílios particulares e coletivos. Domicílio? Eles dormem no chão, na calçada e na rua. Eles dormem onde a gente pisa, cospe, joga o resto de guaraná fora e vomita quando está de ressaca.

Fotos deles fazem sucesso. São expostas em salões inaugurados com pomposos vernissages. Do lado de dentro brindam com champagne, discutem o problema dos sem-teto, depois dormem embriagados com vinhos caros e cheirando a charuto cubano. Ele, o retratado, espera o último convidado sair para conseguir um pequeno espaço embaixo da marquise e não molhar a caixa de uma televisão de plasma de 42″, seu colchão.

Categorias: cotidiano · desabafo · divagação · portfolio · sei lá
Etiquetado: ,

Ela deve ter me odiado

17 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

Estava no ônibus, longo caminho, sem nada para ler ou me distrair. Olhei para o lado e uma garota fazia palavras-cruzadas. Fiquei algum tempo observando os espaços em branco, até que não agüentei. “Olha, acho que aqui, onde está ‘Aplicações de capitais’, com _ N _ ES _ _ M _ N _ OS, é ‘investimentos’. Mesmo porque, ‘Situação de acordo com os padrões’ acaba ficando ‘normalidade’ e a letra ‘e’, no final, cabe em ‘investimentos’ melhor do que se fosse ‘normatizado’, que deixaria ‘invostimentos’.”

Ela deve ter me odiado para o resto da vida. Mas ainda assim consegui me controlar quando ela fechou o jornal com “A da rosa é utilizada em saladas” [P _ T _ L _] em branco.

Categorias: Miudezas · cidade · conversas · cotidiano · drops · portfolio · relacionamentos · transporte · trânsito · ônibus
Etiquetado: ,

Os loucos e estranhos me fascinam

17 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

De terno, gravata e sapatos lustrados aquele homem só olha para baixo. Parece incomodado com alguma coisa. Vejo sua cabeça chacoalhando veloz, de um lado para o outro, como se dissesse “Nãonãonãonãonãonão!” A partir de então, não consigo mais deixar de observar [os loucos e estranhos me fascinam] e, minutos depois, percebo que o movimento da cabeça do moço é para desarrumar sua franja que cai sobre a testa e olhos, para logo em seguida arrumá-la milimetricamente de acordo com o que acha estar OK. Passa alguns segundos alisando-a, deixando o cabelo entre os nós de seus dedos e utilizando a ponta deles para colocá-la de foma que se sinta satisfeito. Quanto mais em cima dos olhos, melhor. Quanto mais escorrida na testa, melhor. Observo por mais um tempo e nem cinco minutos depois, o processo se repete. Cabeça chacoalhando, dedos ‘desarrumando’ a franja, para ser alisada depois, pelo mesmos dedos do rapaz.

Nos intervalos dos movimentos frenéticos, o garoto de terno e gravata alisa um bigode ralo, quase invisível, que insiste em não crescer.

Categorias: Miudezas · cidade · cotidiano · portfolio · transporte · trânsito · ônibus

Nossos dias de sol

9 Outubro , 2008 · 1 Comentário

Lembro bem daquela sobrinha de meu pai. Vinha sempre passar uma temporada conosco. Os velhos do bairro sorriam para ela e durante essa época, voltavam a sonhar. Toda tarde tinha festa. Verinha parecia colocar amor no mundo. Quem sabe fosse pelo ouro que trazia no coração. Com ela por perto, parecia que as coisas dariam certo… a gente acreditava que era possível. Com Vera, nossos dias de sol eram assim.

[O texto é baseado nessa música dos Paralamas]

Categorias: conto · drops · história · música · portfolio
Etiquetado: ,

Me diz 5…

7 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

[não é repetido! Fiz de novo!]
…melhores segredos do PostSecret do último domingo [5/outubro].

heet.jpg

lips.jpg

youarehere.jpg

freaks.jpg

e o melhor do dia

beating.jpg

Categorias: blog · dicas · lista · me diz 5 · relacionamentos
Etiquetado: