Crônico

Entradas do Dezembro 2008

2008 foi…

25 Dezembro , 2008 · 1 Comentário

Listas dos melhores do ano. CDs, filmes, shows. Os mais cools, os mais malas e a famigerada “Retrospectiva qualquer-ano” da Globo, com o Mumm-Ra Sérgio Chapelin, desde 1910.

Então, pensei em uma lista. As 5 melhores músicas do ano. Mas tem muita música que descobri de outros anos. Vai com as outras? Não vai?

Aí lembrei que fiz uma lista falando de 2007. Eu disse que listaria algumas coisas durante o ano. O plano era ler 20 livros. Não sei quantos, mas li e reli muitos. Foi o ano em que mais reli livros. Como contabilizar? Contar de novo?. Não sei quantos filmes vi, mas foi o suficiente para me deixar satisfeito. Por ter voltado a trabalhar com cinema, por 3 meses, assisti filmes bons e que gostaria de assistir, como Cashback, Queime Depois de Ler, Be Kind Rewind, Rocknrolla, entre outros. Conheci pessoas espetaculares. Algumas que só conhecia de Twitter [uma das boas descobertas de 2007], conheci ao vivo. Novas amizades, pessoas fabulosas. ‘Conhecer’, tinha que ser pessoalmente, ou as via internet também poderiam ser contabilizadas? Não anotei.

Aliás, anotei poucas coisas, a não ser as idéias que tive para meus textos. No pseudo-moleskine do Batman, algumas frases fajutas. E só.

Para 2009 a regra será: menos anotações. Listas, só daquelas que a gente tem vontade de fazer de última hora, de algo realmente bom. Menos análise e mais curtição. Mais ação.

Claro, uma das vozes na minha cabeça vai dizer: ‘Mas é bom parar de vez em quando e analisar a situação, fazer um balanço, para dar uma direção de onde veio e para onde está indo’. ‘OK, concordo’, dirá uma outra. Porém, a vida toda analisei e avaliei demais, ponderei demais. Deixei de agir por pensar demais em todas as ramificações daquilo que eu estava avaliando e muitas vezes me fez ficar só no pensamento e não agir.

O ponderar e analisar é default. Não vou simplesmente extingüir, mas moderar. O esforço é para que a incidência diminua.

Daqui um ano conto como foi.


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Casas Balinhas

25 Dezembro , 2008 · 1 Comentário

Quando a gente chega assim, atrasado, demora mais até entender o que se passa. Ele havia dividido a ‘lousa’ em três partes. Não havia giz. Utilizou os dedos mesmo para rabiscar por cima da gordura do vidro, que serve de divisória no ônibus. Estava explicando que o processo se divide em: Compra, Venda e Lucros. Ele compra as balinhas e doces, vende e obtém os lucros. “Mas calma, minha gente… é lucro ou são lucros?”

A classe estava vazia. Ele só dava aula para o fundão do ônibus. O casal do último banco era quem mais participava. “Então, o que vocês acham? Lucro ou lucros?”. Como em toda classe, alguém responde timidamente: “Lucros…?”, meio sem saber se estava respondendo ou perguntando. “Isso mesmo, lucros!! E vocês sabem o por que? Se eu comprar por um valor x e vender por um valor 2x, é lucro. Mas se eu vender em cima do prazo de validade, por exemplo, é só lucro. Ou se eu vendo só os doces das Casas Balinhas ou Lojas Marabalas [as duas empresas são minhas], mas sem oferecer nada a mais, ainda é só lucro, pois vocês podem comprar em qualquer lugar. Mas e se eu dou uma aula, explicando que a minha meta mínima é vender R$ 3 a cada 20 minutos? Veja, é o mínimo que eu quero vender. São R$ 9 por hora, e eu procuro sempre trabalhar 10 horas por dia!” Nesse momento, com todo o meu rápido raciocínio em matemática [que se assemelha ao de um aluno da 2ª série do Ensino Fundamental], pensei que são R$ 90 por dia e que se ele trabalhar apenas de segunda a sexta, consegue tirar R$ 1.800 por mês. “Uou”, falou uma voz dentro do meu cérebro.

Ele continuou “Esse é o mínimo da minha meta. Mas em 20 minutos eu posso pegar, digamos, até três ônibus. Sendo assim, o que eu ganharia em uma hora da minha meta mínima, eu já ganhei a mesma coisa em apenas 20 minutos”. Nesse ponto eu desisti de fazer conta e prestar atenção nele, mas meu cérebro, mais uma vez, [ele tem vida própria, é um ser à parte de mim], disse “É Gabriel… é muito dinheiro”. [Para poupar você de fazer conta ou pegar a calculadora, com três ônibus em 20 minutos, ele faz R$ 27 e até R$ 5.400 em um mês. De segunda a sexta, apenas.]

“Quando eu nasci, meu pai falou pra mim: ‘Filho, você é pobre e feio. Sua única saída é você aprender a se comunicar’. Foi o que fiz. Abri a Casas Balinhas e Lojas Marabalas e aqui estou… foi mais legal essa minha aula ou ouvir ‘Eu podia estar matando, eu podia estar roubando’, ainda por cima cheio de erro de português?”. “Mais legal!”, respondeu a classe. “Então, quem vai querer comprar alguma coisa?”. Ao invés do tradicional silêncio ou resmungos do tipo “Putz, hoje não tenho nada” todo mundo queria comprar alguma coisa. Enquanto sorria, pensei que ali ele vendeu mais do que R$ 3. Quando o empresário dos doces desceu, o cobrador falou para o motorista: “Esse é um cabra que sabe se comunicar… sabe falar e gosta d’uma conversa, né?”. O motorista: “Demais… e ainda ganha mais dinheiro que a gente”. O cobrador ficou com uma cara pensativa, mas não soube o que falar.


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Era quinta-feira

22 Dezembro , 2008 · 3 Comentários

Na semana passada recebi um e-mail do Jairo, perguntando “E aí, Gá, não tem Miudezas hoje?”. Era quinta-feira e, infelizmente, não tinha.

Hoje ele me cobrou de novo, mesmo eu tendo dito que só sai às terças-feiras. Um bom sinal: ele gosta dos meus textos. Um mau sinal: ele não presta atenção em mim.

Eis que hoje recebo uma das melhores surpresas. Anteriormente já havia recebido um e-mail assim, de alguém que quis escrever o que havia visto ou vivenciado. Transcrevo abaixo o texto do Jairão, amigo [sem demagogia e com rima infame] do coração. [Talvez ele tenha cansado de esperar o meu texto e tenha ido em busca do dele. A idéia é essa.]

“Era lugar de rotina. Quando passava por lá, sempre acontecia. ‘Moço, tem um trocado?’, infelizmente quase nunca tinha, ou talvez, na maioria das vezes sentia medo de dar, pois achava que o mesmo seria usado para fins não legais, digamos assim.

Mas daquela vez foi diferente. Era um ser pequeno, roupa rasgada, descalça, cabelos enrolados e um grande sorriso no rosto. Logo me afastei e demonstrei não ter nenhum trocado. Infelizmente a minha janela estava aberta e ela insistiu. ‘Oi, você não tem nenhumazinha moedinhazinha assim pra me dar? Pode ser bem pequenininha assim, se você tiver’. Ela não queria um trocado, mas sim uma moedinhazinha. Era linda.

Quando me dei conta, a porta estava aberta, e eu com cinco centavos molhados na mão. Não consegui deter o meu próprio choro. ‘Escrevi uma carta pro Papai Noel, sabia? Tomara que eu tenha me comportado pra ganhar o que eu pedi’. Não consegui falar, mas de alguma maneira, consegui expressar um amor, ou talvez, o amor. ‘Moedinhazinhas eu não tenho muitas, mas o que eu tenho eu te dou’. Um abraço. ‘Deus te abençoe’.

São Paulo, dia 20 de dezembro, próximo à Praça Panamericana, indo para a casa da Ju.

*Jairo não é jornalista como o Gá, muito menos escritor, mas sentiu vontade de passar a experiência pro papel.”

Obrigado, Jairão.

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“Luke, yo soy tu padre”

18 Dezembro , 2008 · 7 Comentários

Os dois no quarto, sem fazer nada. Lendo gibi e ouvindo iPod, provavelmente. O Gui, do nada, manda:
- Gá, já pensou o Darth Vader vira e fala “Luke, yo soy tu padre”.
- Ahahahaha. Ou “Luke, I’m your mother”.
- Ahahahaha, boa Gá. Ou “Luke, I’m a Chewbacca. ROOOOAAARRRR!”
- AHAHAHAHA. Muito boa, Gui.
E a conversa continua. Infinita. Se alguém estiver perto, certeza que ouviremos “Meninos, chega. Já passou do limite. Não tem mais graça”. A gente deve ter algum distúrbio, porque o que parece que disseram é “Boa!! Mandem mais!” e a gente insiste.

Foi assim que nasceu o #DarthVader, no Twitter. O Gui começou a colocar os que a gente já tinha conversado nesse dia. As óbvias sempre aparecem antes. Como a minha do “Luke, I’m gay” e a “Luke, I’m Batman”, do Gui.

As pessoas, geralmente, não entendem que é aí que a brincadeira fica boa. Porque você começa meio a que forçar cada vez mais outras melhores [melhor e pior nesse caso é relativo].

Isso é comum na nossa vida.
Exemplo: alguém diz que gosta de Nescafé no sorvete. “Ah, coloca um pouco de azeite também”.
- Ou um pouco de feijão…
- Hum, uma bisnaguinha ia bem.
- Catupiry!
- Coloca o Papa e pronto.

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Malawi é aqui

11 Dezembro , 2008 · 1 Comentário

Madonna, 2006, vai ao Malawi, adotar o pequeno [13 meses] David Banda e quando acusada de infringir as leis locais de adoção declara:
- Isso não foi uma decisão ou um compromisso que eu ou minha família levamos na brincadeira. Quero abrir a minha casa e ajudar uma criança a escapar de uma vida de dificuldades, pobreza e em muitos casos, morte.

Madonna, 2008, vem ao Brasil para sua turnê “Sticky & Sweet” [algo como Grudento & Doce], do CD “Hard Candy” [algo como Guloseima Dura]. O nome da turnê foi retirado de uma das faixas do CD, intitulada “Candyshop” [Loja de Doces]. Que doçura a Madonna Louise, não?

Entre as exigências para sua estadia no Brasil: um Audi A8 blindado para ela, um Audi Q7, também blindado, para seus filhos e cinco modelos A6 para os seguranças… não blindados.

[A notícia é da coluna da Mônica Bergamo (para assinantes). Na Folha Online eles também citam as exigências, mas não informam que os carros dos seguranças não têm blindagem.]

Agora me diz como uma pessoa tão preocupada com o bem estar do próximo, da humanidade e com que elas não morram, me pede diversos carros Audi blindados e para os seguranças – também conhecidos como ‘buchas-de-canhão’, que estão ali justamente para garantir a integridade física da dondoca – não tem carro blindado? Só ela e os filhos merecem viver, caso alguém atire nos carros? Se eu fosse de fã-clube da Madonna, ou algo do gênero, certeza que faria um abaixo-assinado para a diva garantir as mínimas condições de trabalho para seus funcionários… e se fosse um deles, processava, alegando insalubridade no ofício.

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Ouvia tudo com o máximo de atenção possível

10 Dezembro , 2008 · 6 Comentários

Conhecia-a desde os tempos em que meninos não gostam de meninas… mas ele já gostava dela. Talvez fosse a única, talvez tenha sido a primeira. Nada disso nunca importou para ela. Discorria horas e horas sobre suas frustrações, angústias e pesares. Ele sempre hesitava em falar algo que pudesse ajudá-la. Por um tempo que de tão pequeno não é possível ser contado, ele pensava em dizer qualquer coisa que arruinasse a vida dela para que ela percebesse que estavam destinados a ficarem juntos. Mas em um período de tempo menor ainda, desistia, pois o bem-estar dela estava acima do seu.

Claro que ele a ajudava. Claro que a fazia feliz [mesmo que não fosse com ele]. Há 20 e poucos anos ele ouvia e sabia de todas as versões, de todas as histórias contadas, lamentadas e comemoradas… mas não fazia parte de nenhuma delas.

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Ônibus 3

3 Dezembro , 2008 · 4 Comentários

Era viagem de formatura da 8ª série. Isso foi em 98, ou seja, tinha 14 para 15 anos. Ou seja, testosterona à flor da pele no último, embora, às vezes, conseguisse disfarçar aquela ansiedade natural.

O colégio em que estudei contratava sempre a mesma empresa de turismo para esse tipo de viagens. Eu não sei se já conhecia uma das monitoras ou tinha paquerado-a [é bem provável, porque eu nem sempre conseguia disfarçar], mas pareceu que algum contato anterior havia acontecido.

Eram 3 ônibus… os ônibus 1 e 2 eram ‘normais’. O Ônibus 3 era o que os guris chamavam de “Paraíso”. Não sei como conseguiram colocar só mulher no Ônibus 3. Juro. De homem só tinha o motorista. Até as duas únicas monitoras do grupo estavam lá. E, incrivelmente, parecia que havia rolado um processo seletivo, com base na beleza das meninas. As 40 mais bonitas juntas, em um ônibus apenas.

Planos para conseguirmos passar para o Ônibus 3 não faltaram. Em uma das paradas a monitora do segundo parágrafo foi importunada por garotos e garotas, implorando para poderem conseguirem um lugar no Ônibus 3 [sei que fui tomar meu Choco Milk e não importunei ninguém]. As garotas estavam de saco cheio da gente só falando sobre aquilo e queriam mudar. E os meninos… bem, você sabe.

Eis que os monitores mandaram todo mundo voltar para seus respectivos ônibus. Alguns manés tentaram entrar no Ônibus 3, mas era bater o olho e ver o intruso. Sentamos e a monitora do segundo parágrafo, provavelmente paquerada por mim, entra no nosso ônibus. Todos alvoroçados, prevendo que uma mudança ocorreria. Durante a parada, rolou um boato que havia 3 vagas no Ônibus 3. Os números estavam ao nosso favor!

Mas, para mim, era uma batalha vencida. Era muito moleque e testosterona juntos para poder ir para o Ônibus 3. Fiquei na minha, sentado no fundão, olhando o movimento da estrada, esperando o nosso ônibus andar. Eis que ouço a monitora falando “OK, então… quem quer ir pro ônibus 3?” Gritaria, garotos histéricos, um furdúncio. “Calma, só vão 3…” Mais histeria, garoto tentando subornar a monitora e uma ameaça de morte. “Então… vai o Gabriel e quem mais?”. Hein? Gabriel? Como ela sabe meu nome?! “Vai o Gabriel Louback e quem mais? Vamos sortear?” Como?! Sorteio?! Mas eu já estou incluído? Não entendi. Explica de novo? “Gabriel, você está me ouvindo? Você quer ir para o Ônibus 3 ou não?” HA! Não precisa perguntar de novo. “OK, pegue suas coisas e pode ir pra lá que a gente vai sortear os outros 2″.

Peguei minha mochila [já era inseparável na época] e fui para o Ônibus 3. Subindo os degraus da porta, o motorista deu um sorriso de canto, como quem abre o portão do Paraíso e diz “Seja bem-vindo, nobre cavalheiro”. Lembro de ter entrado e visto aquele corredor infinito, abarrotado de garotas adolescentes. [Lembre-se que eu tinha a mesma idade delas. Por favor, não me imagine hoje!]. A que parecia ser a líder chegou para mim e disse “Pode escolher o lugar, “. Eu podia escolher. Dei uma geral e todas sorriam. Nem preciso dizer do aroma doce e suave que reinava dentro daquela carruagem divina. Acomodei-me no fundão. Assim como o processo seletivo do Olimpo pegou só as mais bonitas, elas estavam sentadas em ordem crescente de beleza. Quando os outros dois garotos chegaram, nos olhamos como aqueles que compartilham um privilégio tremendo, mas que sabem que qualquer palavra pode estragar o momento. No fundo, sabíamos que não havia palavras para expressarem o momento. Sentei de lado em um dos bancos, ficando apoiado no colo de uma guria [claro], com as pernas esticadas no colo de outra, enquanto outras 5 ficaram debruçadas ao nosso redor, conversando e rindo das piadas bestas que eu [já] fazia na época.

Sério. Até hoje eu não faço a mínima idéia de como isso aconteceu. Apesar de ter sido amigo de todos os grupinhos e todos me conhecerem, eu nunca fui o tipo popular. Mas certas coisas é melhor a gente só desfrutar, sem nada perguntar.

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