A professora disse que eu não podia ficar mais dentro da sala de aula. Era um sonho de todos aqueles que não gostavam de Biologia, mas eu gostava. Mas o que eu gostava mesmo era de provocar. Alguns vão pensar “Gostava, não, né Gabriel. Gosta!”. OK, eu gosto. Mas sempre gostei, admito. Nasci assim. Naquele dia, a professora disse que eu teria que sair da sala e eu concordei. Ela se assustou por eu não ter resistido, mas a surpresa logo se transformou em ira, quando me viu pegando uma cadeira, abrindo a porta da sala e sentar logo na passagem. Tecnicamente, eu estava do lado de fora. Eu disse que gostava [desculpe, gosto] de provocar.
Entrei na sala da Dª Arlene e ela fez aquela cara “O que foi dessa vez, Gabriel?”. Nós parecíamos bons amigos, daqueles que se vêem semanalmente e batem um papo sobre o que tem acontecido nas nossas vidas. Isso quer dizer que era eu quem dizia, e só as mazelas, claro, que me levavam à sala dela.
Lembro sempre de minha mãe voltando das reuniões de pais e professores e dizer: “Gá, todos disseram que você é um ótimo aluno. Excelente nas notas, mas conversa e responde demais. E você precisa parar de provocá-los, mesmo que você tenha razão. Eles sabem que às vezes você tem razão mesmo, mas não gostam que você os questione ou os exponha assim, utilizando essa tática.” E isso antes dos 15 anos. Agora eu sei porque ela voltava com um sorriso no rosto!
“Gabriel, você vai levar essa advertência paras os seus pais assinarem.” OK, Dª Arlene, mas eu já aprendi a falsificar o visto do meu pai. Como é que a senhora vai saber que eles assinaram mesmo? Como é que esse seu método garante que eles saibam do que acontece aqui? E mesmo que eu não soubesse falsificar, e se desde a primeira vez que eu trouxe algo assinado deles, na verdade fui eu quem assinou? “Gabriel, apenas traga o papel assinado, pode ser?” Tá bom.
Mas eu nunca levei advertência por ter desrespeitado a professora aquele dia, segundo ela afirmou. Enquanto ainda estava na sala da diretora, o celular tocou e eu vi nos olhos dela o desastre. Ela ficou mais branca do que quando fumaram maconha dentro do banheiro do colégio, com um bedel emprestando o isqueiro. Ela simplesmente desligou e me disse: Gabriel, volte para a sala. Acabou de estourar a 3ª Guerra Mundial.
A gente sabe que, de fato, não houve Guerra Mundial. Depois do 11 de setembro, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, Iraque e ainda ameaçam o Irã, além de mais uma meia dúzia da lista negra. Tirando uma dúzia da Inglaterra e uns quatro ou cinco da Austrália, ninguém embarcou nessa de ‘Coalizão’.
Eu preferia ter levado aquela advertência, sem nem falsificar assinatura, do que ter visto tanta coisa acontecer por causa de outra ‘provocação’ naquele dia.
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Lembrei disso depois de ler esse [ótimo] texto do Tucori.