Crônico

Entradas do Fevereiro 2009

O que foi dessa vez, Gabriel?

25 Fevereiro , 2009 · 4 Comentários

A professora disse que eu não podia ficar mais dentro da sala de aula. Era um sonho de todos aqueles que não gostavam de Biologia, mas eu gostava. Mas o que eu gostava mesmo era de provocar. Alguns vão pensar “Gostava, não, né Gabriel. Gosta!”. OK, eu gosto. Mas sempre gostei, admito. Nasci assim. Naquele dia, a professora disse que eu teria que sair da sala e eu concordei. Ela se assustou por eu não ter resistido, mas a surpresa logo se transformou em ira, quando me viu pegando uma cadeira, abrindo a porta da sala e sentar logo na passagem. Tecnicamente, eu estava do lado de fora. Eu disse que gostava [desculpe, gosto] de provocar.

Entrei na sala da Dª Arlene e ela fez aquela cara “O que foi dessa vez, Gabriel?”. Nós parecíamos bons amigos, daqueles que se vêem semanalmente e batem um papo sobre o que tem acontecido nas nossas vidas. Isso quer dizer que era eu quem dizia, e só as mazelas, claro, que me levavam à sala dela.

Lembro sempre de minha mãe voltando das reuniões de pais e professores e dizer: “Gá, todos disseram que você é um ótimo aluno. Excelente nas notas, mas conversa e responde demais. E você precisa parar de provocá-los, mesmo que você tenha razão. Eles sabem que às vezes você tem razão mesmo, mas não gostam que você os questione ou os exponha assim, utilizando essa tática.” E isso antes dos 15 anos. Agora eu sei porque ela voltava com um sorriso no rosto!

“Gabriel, você vai levar essa advertência paras os seus pais assinarem.” OK, Dª Arlene, mas eu já aprendi a falsificar o visto do meu pai. Como é que a senhora vai saber que eles assinaram mesmo? Como é que esse seu método garante que eles saibam do que acontece aqui? E mesmo que eu não soubesse falsificar, e se desde a primeira vez que eu trouxe algo assinado deles, na verdade fui eu quem assinou? “Gabriel, apenas traga o papel assinado, pode ser?” Tá bom.

Mas eu nunca levei advertência por ter desrespeitado a professora aquele dia, segundo ela afirmou. Enquanto ainda estava na sala da diretora, o celular tocou e eu vi nos olhos dela o desastre. Ela ficou mais branca do que quando fumaram maconha dentro do banheiro do colégio, com um bedel emprestando o isqueiro. Ela simplesmente desligou e me disse: Gabriel, volte para a sala. Acabou de estourar a 3ª Guerra Mundial.

A gente sabe que, de fato, não houve Guerra Mundial. Depois do 11 de setembro, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, Iraque e ainda ameaçam o Irã, além de mais uma meia dúzia da lista negra. Tirando uma dúzia da Inglaterra e uns quatro ou cinco da Austrália, ninguém embarcou nessa de ‘Coalizão’.

Eu preferia ter levado aquela advertência, sem nem falsificar assinatura, do que ter visto tanta coisa acontecer por causa de outra ‘provocação’ naquele dia.

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Lembrei disso depois de ler esse [ótimo] texto do Tucori.


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De nada

18 Fevereiro , 2009 · 1 Comentário

“Irei contar alguns casos e acasos de Barcelona, durante minha estadia aqui.

Cheguei em Barça em 03.02.2009. 5º ou 6º Celsius, pleno inverno. Saí de Sampa com praticamente 30ºC.

Tudo muito bonito, muito acessível (mais que o dobro de linhas de metrô do que em Sao Paulo e quase 1/6 da populaçao) e encantador. Carros respeitam os pedestres, idosos e mulheres nao precisam pedir lugar para sentar e bicicletadas sao tratadas como meio de transporte, nao apenas um brinquedo locomotivo. Até aquí, tudo ótimo e maravilhoso.

Cheguei em minha habitaçao, para morar com uma argentina (50 anos, dona do apê), uma chinesa e um francês, que ainda estaria por chegar. E ainda continuava tudo lindo e maravilhoso De noite, fui tomar meu primeiro banho europeu. E aí que o bicho pega.”

É o Gui quem conta suas peripécias em Barça. Ele não pediu para eu colocar aqui. Ele não é disso. Mas o texto é tão bom que pedi autorização pra reproduzir o início. Claro que dá vontade de continuar lendo. Claro que para isso você terá que clicar aqui. =) De nada.

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Like an angel from a bedtime story*

17 Fevereiro , 2009 · 2 Comentários

Para ler ouvindo Have You Forgotten – Red House Painters.

Dois pequenos acontecimentos da minha infância:
ou
Duas grandes decepções da minha infância:

1 – O dia em que fugi de casa. Eu nunca fui revoltado com minha família. Era rebelde e indignado com a vida, de forma geral. Com professores, guardas de trânsito, juizes de futebol e qualquer autoridade. Mas com meus pais não. Ou seja, não havia muito motivo pra fugir de casa. Simplesmente achei que era uma experiência pela qual todo homem deveria passar, ainda que moleque. E para ser mais autêntico, não fiz trouxa de roupas, não levei dinheiro, nem mantimentos. Saí do jeito que estava. Como morava em um bairro tranqüilo de Guarulhos, passávamos o dia brincando na rua. Ou seja, minha mãe não perceberia até que fosse tarde demais, pensou minha cabeça fugitiva. Joguei bola, andei de bicicleta, fui o mais longe que já havia ido. Sempre tem uma parte do bairro que a gente vai que serve como limite. Mesmo que já tenha passado daquele ponto de carro, sozinho é bem diferente. Fui a lugares que nem imaginava existirem. Fiquei perambulando não sei quanto tempo. Dias, semanas. O suficiente para sentirem falta, pensou minha cabeça fugitiva. Decidi voltar para casa em um dia normal. Na hora da janta, para ser mais emocionante. Entrei em casa com aquele brilho que só os fugitivos e homens pra valer [tipo um Clint Eastwood ou Tommy Lee Jones] têm. Minha mãe me olhou surpresa e exclamou: “Gá! Que bom, chegou bem na hora da janta. Vai tomar um banho pra gente comer”. Eu fugi e voltei no mesmo dia, descobri depois. Ela até hoje não acredita que eu já fugi de casa.

2 – Eu sempre tive muito gibi
. Da Mônica, Super-Homem, X-Men, entre outros [todos, praticamente]. Lembro que certo dia minha mãe se cansou de todas aquelas revistinhas e nos incentivou a vendê-las. A primeira coisa foi reclamar e dizer o quão absurda era a idéia. Ela esperou o esperneio e disse que como a gente vivia reclamando da mesada ser pouca, seria um ‘complemento’ de nossos rendimentos. Ela nem bem terminou a frase e já estávamos, eu e Gui, separando os que seriam vendidos. O mais legal disso tudo era reler todas as historinhas. Não podíamos simplesmente nos desfazer de um gibi, se houvesse uma historinha muito legal dentro dele. Lembro de ter lido uma do Titi, onde ele tinha a idéia de vender seus gibis antigos. Colocou-os à venda no bairro e um garoto veio, deu uma lida e não quis mais comprar, dizendo “Legal! Mas agora que já li, não vou levar”. Achei muito legal o roteiro [identificação com o personagem] e mostrei para o primeiro amigo meu que chegou na nossa garagem, onde havíamos montado nossa ‘barraquinha’ de revistinhas. Ele leu a historinha, deu risada e disse: “Legal. Mas agora que já li, não vou levar”. Juro.
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*Have You Forgotten – Red House Painters

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A gente é 8 ou 80

17 Fevereiro , 2009 · 1 Comentário

Li o texto do Jansen sobre os dois anos que ele já está em São Paulo. Como de costume, me empolguei na resposta, que virou um mini-ensaio. Acho que aproveitarei para utilizá-lo quando alguém me perguntar “E aí? O que acha de São Paulo?”, na intenção de tornar-se mais um cidadão paulistano. A versão abaixo está mais ‘incrementada’:

Todos os dias eu amo e odeio essa cidade. Sabe aquela relação que é simplesmente impossível deixar de existir? Não dá para ignorá-la ou simplesmente ser indiferente.

Ela me joga pra cima, como um pai faz com o filho, sorri para mim e no segundo seguinte, me deixa cair. Pisa em mim. Me afaga, consola e presenteia. Também provoca, exatamente por me conhecer bem, utilizando técnicas de tortura o mais sádicas possível. Eu a abraço e me declaro. Digo que ela é única. Que por mais que conheça outras, nunca irei conseguir trocá-la. Depois, cuspo nela, de desprezo, raiva, indignação e revolta.  A gente é 8 ou 80.

Por isso, acho que não consigo deixá-la. Sempre declaro meu amor por outras. Rio de Janeiro, Florianópolis ou Salvador. Todas têm aquilo que eu sempre quis: o mar. Mesmo assim sempre fica a sensação de que falta algo.

Simplesmente não consigo me desligar dela. É o tipo de relação doentia. Daquelas que fazem tão bem que a gente vicia.

Seja bem-vindo.
Sempre. Diariamente.

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Vento Sul

17 Fevereiro , 2009 · Deixe um comentário

Aqui não tem trânsito, só ‘fila’. Pensando bem, faz mais sentido. Não há carros parados em todas as direções; ou você está indo para o centro ou para as praias. Sabe-se aonde está o norte, sul e leste da ilha, com todas suas praias.

Quando bate o vento Sul, todos os manezinhos sabem o que acontecerá: se o tempo estiver fechado, vai dar um belo dia de praia. Se estiver aberto, é melhor ficar dentro de casa. Já o vento norte dizem ser sujo. Levanta muita poeira, traz muita sujeira do continete. “É um vento estranho, sabe?” diz um morador da ilha. O fato me lembra o filme “Volver”, de Pedro Almodóvar. Em uma cidade, um determinado vento transforma as pessoas. Não se sabe explicar muito bem o motivo. Assim acontece na ilha. O porque do Vento Sul ser tão limpo e mudar drasticamente o tempo ou o motivo do vento norte ser considerado ’sujo’ é algo não explicado tão facilmente pelos locais.

Quem mora em cidade com praia sempre tem uma noção melhor dos fenômenos naturais. Mas os manezinhos parecem estar mais em sintonia com ilha do que todos os outros habitantes litorâneos que conheci.

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She had diamonds on the inside

17 Fevereiro , 2009 · Deixe um comentário

Ela às vezes parece estar cansada… como uma senhora de idade já avançada, que respira com dificuldade a cada passo. Os médicos dizem para tomarmos cuidado com a pressão. Suas veias se entopem facilmente e um enfarte já é previsto e calculado. Às vezes parece ter pouco tempo e que em breve partirá, com seu sistema entrando em colapso.

Mas também a vejo, certas vezes, como uma criança. Perto de outras como ela, até o é. Aprendendo a se manter em pé, tendo esperança e descobrindo um novo mundo. Potencial para se tornar uma criança forte e, conseqüentemente, gente grande em pouco tempo.

Adolescente ela também parece às vezes. Agitada, não consegue parar quieta. Quer ver tudo, conquistar o mundo, acha que sabe mais que todo mundo e qualquer interferência é recebida como um ataque. Não precisa de conselhos. Não precisa de ajuda. É auto-suficiente e acredita ser boa demais para que alguém diga como deve levar sua vida.

Mas alguns dizem que está entrando na maturidade. Dorme bem menos, quase nada. Gosta de um bom vinho, mas também há espaço para a cachaça e a cervejinha no final do dia. Nos dias quentes, se dá a liberdade de tomar um picolé, mas de acerola, pra não ficar com dor de garganta, pois já não é nenhuma menina.

Eu nutro um relacionamento dicotômico com ela, alternando constantemente entre o amor e ódio, mesmo sabendo que a culpa não é dela. Há quem diga que essa cidade não pode ser tratada como um ser vivo. Mas, para mim, ela respira. Ela entende e se relaciona. Depende de como cada um se relaciona com ela.

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The last song

17 Fevereiro , 2009 · Deixe um comentário

Saí de casa como se fosse meu último dia de vida. Na verdade, isso não aconteceu assim que coloquei o pé para fora do imóvel. Foi gradativo, conforme ia caminhando. Havia decidido ir da minha casa até a casa de meu irmão. Dá uns 10km, com duas subidas de morro que um carro com motor 1.0 precisa engatar a segunda para subir.

Nos primeiros 15 minutos, a sensação era de felicidade, por estar vivo e poder fazer aquilo no meio da semana e no meio do dia. Comecei a caminhar às 15h e fiz um trajeto a pé que antes só havia percorrido de carro ou ônibus. Conhecia cada buraco ou valeta, mas não conhecia o cheiro de flores que tem esse trajeto. Não sabia que, naquela dia da semana, havia tantos carrinhos vendendo caldo de cana. Desconhecia os moradores de rua daquela região, os pequenos bares, os jardins das casas e as árvores que me protegeram da chuva.

Logo no início, quando olhei para o alto e vi o acúmulo de nuvens, pensei: “Será uma leve garoa, poucos pingos, nada com que me preocupar”. Quando percebi que teria que enrolar a carteira e iPod na camiseta reserva e colocá-los no fundo da mochila para molhar a menor quantidade possível, estava parado em um ponto de ônibus e lembrei de meu irmão dizendo na semana anterior: “Queria tomar um banho de chuva”. Na ocasião, estávamos em Florianópolis, de carro, indo para o centro da ilha. Se ele tivesse pedido para encostar o carro e descer para tomar aquela chuva, é bem provável que eu dissesse que não fazia sentido e que, depois, ele molharia todo o carro. Ou seja, eu não iria parar só por causa de um banho de chuva. Protegi bem as coisas dentro da mochila e segui debaixo da chuva que começava a passar de ‘uma leve garoa, com poucos pingos’.

Descobri que as fábricas daquela avenida não estão abandonadas. Vi outras várias pessoas andando na chuva, sem se importar muito por ficarem molhadas. Quando cheguei na avenida principal, a quantidade de água caindo do céu aumentou consideravelmente. Por cinco minutos parei, novamente, em um ponto de ônibus. Havia decidido pegar um até a casa de meu irmão. Já havia andado quase uma hora e o exercício do dia podia ser considerado feito. Acho que foi nessa hora o real começo de viver aquela dia como se fosse o último. Eu realmente acreditei que poderia não estar vivo no dia seguinte. E o que teria valido aquele dia? A chuva só tinha aumentado e mandei às favas minha carteira, meu iPod, meu Bilhete Único e minha mochila. Saí sorrindo.

Atravessei a ponte do Jaguaré e já estava com a camiseta grudando de tão molhada, quando vi que o sol estava saindo. Cheguei seco à Cerro Corá. Em frente a um banco [de dinheiro] havia uma senhora sentada no degrau do jardim. Olhou para mim: “Meu filho, algumas moedinhas…?” A resposta automática foi dizer que não tinha, mas parei, lembrando que havia algumas perdidas na mochila. Não chegava a R$ 0,50. Lembrei dos R$ 10 na carteira e entreguei a ela, depois de pensar que se morresse na próxima esquina, aquele dinheiro também morreria em vão. Ela não soube como agradecer, por isso disse que não precisava. Aquela nota era mais dela do que minha.

Aquele foi o ápice de viver meu último dia de vida, já vivendo 100% como se fosse realmente o último. Logo em seguida, nuvens mais escuras apareceram. Os trovões intensificaram e o vento já tinha cheiro de chuva. Não pensei mais nas coisas da mochila. Meu pensamento estava voltado àqueles que não consigo guardar. Mandei mensagem pedindo desculpa pelo que havia acontecido. A pessoa tinha tempo para perdoar mas eu não tinha muito, para ser perdoado. Liguei para minha esposa dizendo que ela deveria fazer o que quer que a fizesse feliz, sem medo de nada. Nada.

Faltando aproximadamente 15 minutos para chegar na casa de meu irmão, pensei em transformar a experiência em texto. Em seguida lembrei que poderia, de fato, morrer logo mais. Acho que nunca senti tão forte a iminência da morte. A primeira coisa que pensei foi que tudo teria sido em vão. Fiquei triste porque dali a pouco não poderia nem tentar ditar o texto e que ninguém nunca saberia o dia que vivi por último. Mas em seguida percebi que não havia sentido vivê-lo com o objetivo de contar, ou virar um texto. Não poderia ser com objetivo nenhum. Só havia sentido em si mesmo. Apenas viver o último dia por ser o último.

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Envelheço na cidade

17 Fevereiro , 2009 · Deixe um comentário

São quase 11 milhões de pessoas. Os metrôs, trens e ônibus estão lotados. Há filas para o cinema, no mercado, para entrar, para sair e para ficar. Restaurantes sem lugares, ares-condicionados de casas noturnas que não dão conta do recado, parques caóticos e hospitais sem leito.

E ainda assim, ela se sente sozinha [embora não se sinta só]. Amigos os têm. Família também. Liga para o namorado, mas nada muda. Casa-se, mas tudo fica. Esmagada entre cinco pessoas dentro da lotação, sabe que os corpos encostam-se ao seu, mas não os sente. A brisa é mais pesada que uma cotovelada. O movimento do ar mexe mais com ela do que qualquer empurrão. O barulho das folhas no alto das árvores é mais profundo que uma pisada em seu pé, no tênis apertado.

Sentada, sente pena de si mesma, não por achar triste, mas porque os outros, que outros?, a acharão coitada. Quanto mais sente dó, mais patética se acha. Quanto mais patética acredita ser, mais pena sente de si mesma. É como a solidão, sua melhor companheira. Um círculo vicioso. No estádio, no shopping, na avenida, parece estar tão só que nem ela encontra-se ali. É como se sua existência quase deixasse de ser. Quanto menos gente; quanto mais espaço; quanto mais sozinha, mais presente e viva parece estar. Sozinha, ela é, ela vive. Sozinha, ela sente, ela vê, ela acredita. Sozinha, ela é mais.

É a solidão que a faz se sentir completa e não uma outra pessoa.
Contraditório, mas é assim com sua melhor amiga, a cidade de 11 milhões de pessoas, que faz boa parte de si se sentir sozinha.

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Mesmo que eu não falasse nada

17 Fevereiro , 2009 · Deixe um comentário

Dizem que quando as caravelas chegaram ao litoral norte-americano, os índios não as viram. Por não conhecerem e não saberem o que era uma caravela, seus olhos não ‘identificavam’ os barcos. Só quando estavam mais próximas, perceberam que em um determinado ponto, as águas moviam-se de forma estranha, quebrando as ondas e tudo mais. E, de repente, puf, os barcos estavam ali.

Ele me olhava assim, como se o ar ao meu redor movesse de forma diferente. O azul nunca foi tão colorido. O sol nunca foi tão quente. O vento nunca foi tão refrescante. Cada som era música. Fazia parte de uma composição que só os que nunca deixaram de ser como ele conseguem ouvir. Acho que os poetas, os pintores, os artistas, os gênios e os fotógrafos também olham como ele me viu. Como ele ouviu e como ele sentiu as coisas ao seu redor.

Não eram necessárias palavras, mesmo que ele as soubesse. Conforme ele falava com os olhos, eu respondia com os meus. Cerrava-os quando queria dizer “Você é mais esperto do que parece”; levantava as sobrancelhas, surpreso, quando dividia com ele a novidade de uma nova experiência; levantava apenas uma, quando achava que ele pularia do colo de sua mãe e sairia andando em minha direção. Aos pulos e grunhidos, ele não tirava os olhos de mim e pareceu querer vir dizer, em meus ouvidos, que ele me entendia, mesmo que eu não falasse nada.

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Não conseguia parar de pensar nisso

13 Fevereiro , 2009 · 2 Comentários

Gêmeos. Ela estava grávida de gêmeos. Na verdade, gêmeas. Seu sonho sempre foi ter menina e gêmeos, mas não sabe porque nunca havia imaginado a união de duas coisas tão lindas. Meninas e gêmeas.

Inglês e espanhol, a gente arranha. Italiano, francês e outras línguas com origem no latim é só questão de tempo. Mas há uma categoria das línguas indecifráveis: russo, chinês, tcheco e alemão. A tortura dela pousava nessa última língua. Sofria para aprendê-la. Por isso, na Suíça, andava sempre com o celular, para na hora do desespero poder ligar para a irmã, que havia ficado no Brasil. Era o momento que podia dar risada em português e chorar em sua língua nativa.

Gêmeas. Não conseguia parar de pensar nisso. Era justamente sobre elas que falava quando foi abordada. Sempre dizem que o tempo é relativo. Se você está viajando de carro de São Paulo para o Rio, dez minutos de viagem não é nada. Se alguém disser “Daqui a 10 minutos a gente chega”, pode considerar como terminada a viagem. Mas em um jogo de basquete, ou de futebol americano, 10 minutos são uma eternidade.

Os dez minutos dela não foram uma eternidade, foram sua vida. Ela já tinha ouvido falar sobre a discriminação suíça com relação a estrangeiros. Mas falar ao telefone em sua língua mãe não deveria ser motivo para ser espancada e torturada. O corpo do ser humano é algo sagrado. Só cabe à própria pessoa decidir o que fazer nele e com ele. Em certos lugares, é crime grave encostar em uma mulher sem autorização. O que aqueles neonazistas fizeram é imperdoável.

“Por quê?”, era a única coisa que passava pela cabeça daquela advogada. Cada vez que tentava pensar nas gêmeas, era chutada aonde as meninas estavam tentando se proteger. Não satisfeitos, os neonazistas escreveram com estiletes nas pernas e na barriga daquela mulher. SVP [Partido do Povo Suíço] foi o que escreveram.

O “por quê?” havia tomado o lugar de qualquer outro pensamento bom que ela tentasse ter. A gota d’água de seu choro foi quando prestou queixa e os polícias perguntaram se ela não havia tentado a auto-mutilação. Juro.

Ela perdeu as gêmeas. Naquele dia, aqueles extremistas conseguiram matar três vidas de uma só vez.

Por quê?

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Baseado nessa história real, da advogada brasileira que passou por isso na Suíça, país de ‘primeiro’ mundo e ‘civilizado’.

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