No cruzamento da Rebouças com a Faria Lima, o pessoal atravessou para aproveitar o semáforo verde enquanto eu esperava meu amigo. Há anos que nenhum conhecido meu parava para comprar churros, quanto mais os daquele cruzamento. Instantaneamente me vi em Guarulhos, onde morei dos três aos 14 anos, e às sextas-feiras passava o ‘tiozinho’ dos churros. Era um carrinho como aqueles de hambúrguer ou hot-dog, na parte de trás de um mini-trailer, onde se abre uma janela que vira balcão.
Esse amigo voltou recentemente de uma viagem a Teresina – Piauí, onde morou a vida toda. Está em São Paulo há dois anos. Perguntei como era voltar para casa. Sempre fiquei curioso com isso: quem é a pessoa que volta e quem são as pessoas que o recebem. Nunca, e já sabemos disso, são as mesmas pessoas. Um homem não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio.
Ao meu redor há também os cearenses que se conhecem há anos, da mesma cidade, mas que não planejaram vir para cá. Vieram uns, depois outros e se encontraram por aqui. Assim como os baianos. Sejam os fotógrafos, os músicos, os engenheiros ou padeiros. Assim como os mineiros donos de restaurantes italianos, os empresários e professores. Os cariocas, recifenses, amazonenses e paraenses.
É difícil ver uma família que tenha mais de três gerações apenas de paulistanos e/ou brasileiros. Sei que eles existem, mas nunca tive algum amigo que fizesse parte de uma família assim. Gosto de pensar que não é São Paulo que contém as pessoas, mas o contrário. Cada um de nós contém a cidade dentro de si.
Quando esses meus amigos viajam para visitarem suas famílias, não voltam para lá os mesmos. Não raro, pais e amigos reclamam que o ‘menino’ mudou. Passados alguns dias, ele se sente em casa novamente, já familiarizado com as novas gírias e novas histórias. Dali mais uma semana, é hora de voltar a São Paulo. Ele já não é o mesmo que saiu da cidade natal. Nem o mesmo que saiu de São Paulo. É um novo ser, algo entre ‘lá’ e ‘cá’. Como uma terceira margem do rio.
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Foto - Alisson Louback