Crônico

Entradas do Abril 2009

Só me restou uma coisa

25 Abril , 2009 · Deixe um comentário

Para ler ouvindo: The Wolves [Act I and Act II] – Bon Iver.

Na quinta-feira começou a chover, muito. Às 14h já estava escurecendo e quando foi 16h, caiu água do céu. Eu estava almoçando do lado de fora da Real que, mesmo coberto [o lado de fora, por isso no masculino], dava pra sentir o vento gelado nas costas. Já escrevi algumas vezes sobre a chuva, mas a sensação que ela dá não cabe em um texto. Ou em dois. Três. Dá texto pra uma vida inteira, então acostume-se.

Enquanto comia, pensei que chegar ao ponto de ônibus me deixaria encharcado. Não menos do que ir até o caixa eletrônico mais próximo e sacar dinheiro para o táxi. Ou seja, para onde eu fosse, molhado estaria. Isso, ou ficar a tarde toda em horário de almoço, o que não era a idéia, apesar de tentadora. O que eu teria que fazer após terminar o almoço, não dava para saber. Podia ser que a chuva demorasse 40 dias e 40 noites, ou podia passar em questão de minutos. Não dava para saber, tentar bolar mil planos ou se preocupar. Só me restou uma coisa: continuar almoçando.

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O quase nada

19 Abril , 2009 · 1 Comentário

nuvemSão Paulo anoitece não quando o sol se põe. Dizem que é a cidade que não para. O fato de não haver transporte coletivo em 100% da frota durante a madrugada seria o primeiro ponto para rebater essa idéia, mas deixemos para outro dia. O fato é que quando dá 18h a cidade para e muito. É, também, o horário em que a noite cai, quando não estamos no horário de verão.

Em pequenas cidades do interior, quando anoitece, o comércio fecha, as pessoas vão para casa e pronto. Findou-se o dia. As atividades do dia começam quando o sol aparece e terminam pouco antes de se por, muito pela cultura da falta de energia elétrica, de antigamente. O ‘horário comercial’ da roça, por exemplo é das 5h às 16h. Até às 18h é chegar em casa e terminar o que deve ser feito naquele dia. Meu pai conta que quando escurecia, o dia simplesmenta acabava. Era ficar dentro de casa conversando, tomando café, aquela história.

São Paulo só anoitece quando as ruas estão vazias. Ou seja, há lugares na cidade onde nunca anoitece. Mas você já experimentou passar por um lugar deserto, às três da madrugada? No começo, é aterrorizante. Cada sombra parece guardar alguma coisa má dentro de si. O que dizer então das ruas mal iluminadas? Parece o caminho que precede o vale da sombra da morte. Mas isso é até nos acostumarmos. Pode levar minutos, dias ou anos.

Eu estava, de madrugada, no meio da avenida São Gabriel. Sempre tive a [péssima] mania de andar na rua. As calçadas não foram projetadas para os pedestres, ao que me parece. Não passava ônibus nenhum e pouquíssimos eram os carros, de forma que consegui ficar um bom tempo bem no meio da avenida, só olhando ao redor. A mistura de luzes amarelas e brancas me fazia achar que não fosse aquele horário. Mas o movimento, ou a falta de, não negava: havia anoitecido. Esse é o horário que mais gosto da cidade. O silêncio. O vazio. O quase nada.

Quando ela parece estar inteira em um longo suspiro, de olhos fechados. Como inspirasse todos os acontecimentos do dia, tudo e todos que passaram por ela, assimilasse, reconhecesse a si mesma como parte deles [e eles sendo parte dela] e soltasse o fôlego inspirado. Esse é o momento em que amanhece. E eu fico perdido em algum lugar desse suspiro, em suspense, onde não há ninguém nas ruas e a cidade é só minha.
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A foto não é de São Paulo, mas ilustra o sentimento.

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Dame tu mano

15 Abril , 2009 · Deixe um comentário

Para ler ouvindo: Julieta Venegas & Marisa Monte – Ilúsion.

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Ven. Ahn? Venga, dame tu mano. Como assim?! Ven, solo eso, fíate. Levantou, entregou-lhe a palma da mão e ouviu música. Um balé moderno, cantado por duas moças. Brasileira e hispânica. Será possível? Era. Rodopiava na sala de aula como um corpo só, com seu professor. Sim, o professor. O convite foi para exemplificar o movimento que a Terra faz ao redor do Sol, a translação. Ela achou que fosse a rotação, mas isso era coisa do seu coração, que girava em torno de si mesmo há tanto tempo e agora estava entregue nas mãos daquele hispânico. Não havia como fugir, não havia como fingir. Dane-se a classe. Dane-se o ruivo da primeira fileira.

Dane-se. Fechou os olhos e se entregou. Não sabia se era a analogia, mas sentiu-se aquecida. Ao mesmo tempo em que o vento dos movimentos a envolviam e refrescavam. Foram todas as estações em um momento só. Dançou como o verão e riu como o outono. Simplesmente deixou-se ser levada. Ao final, seus olhos estavam diferentes. Não dava muito pra explicar, apenas olhar dentro deles e se deixar levar por aquele mundo de galáxias, planetas, flores e danças. Apaixonada que era, tornou-se pessoa impossível de não se apaixonar.

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Carta ao pai

9 Abril , 2009 · 1 Comentário

broken-glasses_menor2Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. E sim, esse é o início da “Carta ao Pai”, do Kafka, que utilizo para minha própria carta. Só o fato de eu ter utilizado um trecho dele já deveria responder à sua pergunta. Ainda mais você ter feito justamente essa pergunta para mim. Não percebe? Somos um conto de Kafka, pai. Você, fazendo as perguntas dele. Eu, respondendo com trechos dele. Isso não te bota medo?

A mim, sim. Seria o suficiente para temê-lo, mas as coisas nunca são tão simples assim. Somos além do que uma imaginação do Kafka. Somos a manifestação de algo que só ele poderia imaginar e, mesmo assim, não conseguiu escrever. O clichê “Eu sou você amanhã” é uma piada para nós. Estamos acima dessa medida linear. Eu sou você hoje e ontem, assim como você é o que serei amanhã e o que sou hoje. Por mais que eu tente fugir, eu sempre te vejo em mim, pai. O pior [ou melhor?] é que muitas dessas coisas são conscientes, porque eu acho que é assim que eu deveria ser mesmo. Que o melhor jeito, muitas vezes, é o seu jeito. Mas em meio a esse medo e desespero, consigo perceber algo tão fascinante quanto ele. Algumas vezes me angustio e me preocupo com as mesmas coisas que você. Porém, a minha decisão é diferente. Eu penso, considero, sofro e dou o passo. Você pensa, considera e sofre as mesmas coisas, mas muitas vezes não damos o mesmo passo.

Tem quem cante para espantar os males e demônios. Para mim, sempre funcionou escrever. Mais uma vez, acho que deu certo. Para mim, e para você, pois aprendemos a respeitar nossas semelhanças e conviver, pacificamente [quase sempre], com nossas diferenças. Somos maiores que o Kafka , pai. Nossos medos às vezes podem ser maiores do que nós, mas somos mais do que o produto de um conto para uma revista mensal. Somos mais do que esse texto, ou qualquer outro que nos defina. Ninguém melhor do que nós para entendermos isso: que a metafísica é coisa da nossa cabeça e que na nossa cabeça quem manda somos nós.

Obrigado. Pelo medo e pelas brigas. Pelo cuidado e preocupação. Pelos exageros de proteção e os exageros de liberdade. Pela alegria e pelo humor ácido. Pela doçura e pela mão firme. Obrigado por que aprendi a agradecer pelos males e pelos bens. Porque só essa união fez de mim o que sou hoje. Você me perguntou porque eu afirmo ter medo de você. Já não sei mais. Vamos mudar a pergunta.

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Esse texto foi originalmente escrito para um concurso literário da revista Piauí. Não foi escolhido e cá está.

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Eu sou feio, mas não tem problema

9 Abril , 2009 · 1 Comentário

kurt_cobainEu nasci em 1983. Quando era adolescente, via o pessoal mais velho falando de algumas coisas que eu fingia conhecer ou lembrar. Quando começou o revival dos anos 80, me senti em casa. Não havia uma conversa que não passasse por Thundercats, Pogobol, DipN’Link, Porta dos Desesperados e Ki-Chute. Sempre ouvi que foi a década perdida na música e, principalmente, nas artes. Ou seja, culturalmente falando, o pessoal que nasceu em 60 – 70 não fez nada de bom, segundo esse pensamento. Claro que não consideram a arte de rua, só para mencionar uma, como Arte, mas enfim. Acontece que depois de 1989 veio 1990 e a nova década chegou. Daqui a pouco começa o revival dela, aguardem.

O aniversário da morte de Kurt Cobain [5 de abril] me fez pensar nisso. Cresci ouvindo meus pais debatarem o Beatle preferido deles. Paul ou John? Ringo ou George? Talvez Kurt Cobain seja o nosso John e o Dave Grohl um Paul mais legal. O mito vai desde a simbologia do vocalista do Nirvana usando All Star, passando pelas calças jeans rasgada e cabelo despenteado, até a gritaria bem feita, com um som melhor ainda. Paul e John estão para os pais da geração 80, assim como o Nirvana está para essa própria geração. Se os Beatles são os divisores de água, Kurt Cobain é a terra prometida.

[Aqui, não cabe a discussão se os Rolling Stones são melhores do que os Beatles, por exemplo. Como grupo, eu acho os Stones melhores, mas a importância dos Beatles no cenário da cultura pop é inegável].

Dos grandes nomes do movimento grunge, destaca-se o Pearl Jam – apesar do Mudhoney ser algo mais underground e, por isso mesmo, defendido pelos ‘puristas’ do grunge como ‘pai’ do movimento. Mas é inegável o apelo que Kurt Cobain, Kris Novoselic e Dave Grohl têm e tiveram junto a nós. Os caras traduziram os sentimentos da molecada, sem cair para o emocore – que nasceria mais de uma década depois – e não seguindo uma linha politizada. Falavam de sexo, drogas e rock n’ roll, como toda molecada quer ouvir, mas falavam de forma verdadeira e sincera.

A trágica ironia do artista perturbado é que ele é amado por ser daquele jeito. A dor, sofrimento, paranóias e misérias próprias são transformadas em acordes, rimas e músicas que arrebatarão milhões. Quanto mais ele se afunda na lama, mais material tem para o repertório, aumentando exponencialmente a fama entre os garotos que se veem refletidos em olhos perdidos. Talvez isso aconteça com o Radiohead, daqui alguns anos. Ainda mais pela bandeira contestadora e anti-cultura que eles levantam, além de também traduzir sentimentos reprimidos da nossa molecada.

Ouso dizer que a minha música preferida do Nirvana é Lithium. Eu gostava dela desde os dez anos de idade, o que pode levar o leitor a acreditar que eu era uma criança perturbada. Era e não era. Ou melhor, era perturbada, mas dentro dos padrões ‘normais, se é que existe algum padrão para isso. Enfim, o que um trecho da letra diz, em tradução livre e adaptada:

“Estou tão feliz, porque hoje encontrei meus amigos. Eles estão na minha cabeça.
E eu sou feio, mas não tem problema. Porque você também é… e nós quebramos todos os espelhos (…)”

Lindo, não? Lembrando que a música chama Lithium. Talvez seja esse o lance com o Nirvana e Kurt Cobain. Já que a década anterior foi a perdida, porque não chutar o balde então na próxima? A atitude que às vezes define Cobain é exatamente essa: chutar o balde. Dane-se. Para o inferno o mundo. Talvez ele estivesse de saco cheio de ouvir que daqueles dez anos anteriores nada de bom havia saído e simplesmente decidiu botar tudo pra fora e ver no que dava. Deu no que deu.

Depois de pensar em tudo isso, acho que Kurt Cobain não é o nosso John ou nosso Paul. Kurt Cobain quis ser apenas ele. Foi acusado de ser egoísta entre tantas outras coisas, principalmente pela viúva Courtney Love. Pode ser que sim. Pode ser que não. Há coisas louváveis e outras condenáveis. O problema é que atualmente não nos sobram mais referências e mitos a serem seguidos. Os nossos ídolos de lutadores e vencedores são os mesmos ainda da ditura. São os mesmos de nossos pais, como poderia dizer Elis Regina. Mas mesmo não sendo um exemplo de vida [inclusive porque determinou sua morte, cometendo suicídio], é inegável o fato de Kurt ser uma referência, mesmo que você apenas o escolha para isso no quesito música e a diferença que fez no rock. Ou que não seja uma referência a ser seguida, mas que, sem sombra de dúvidas, foi a expressão de um sentimento da época. Uma melancolia que não se contenta com a introspecção, mas grita e externaliza seus demônios. Uma revolta que às vezes não tem inimigo a não ser sua própria insegurança. Se Kurt Cobain não servir de exemplo a ser seguido, serve de exemplo a ser compreendido, para entender toda uma cultura de jovens que hoje se torna adulta. Em último caso, serve para entender um pouco mais de mim mesmo e o que vivi naqueles anos.

Que, mesmo morto, o mito viva e continue com aquele sabor de espírito adolescente.

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É necessário voltar

8 Abril , 2009 · 1 Comentário

Estava em frente à igreja que fica no início da rua da Consolação, ali no Centro. Os sinos fizeram aquele barulho de quem vai anunciar as horas e badalaram doze vezes. Nesse instante, eu me dei conta do quanto estive longe dali. Na verdade, descendo a Consolação [ainda no sentido centro], percebi que fazia tempo que não passava em frente ao cemitério, rua Sergipe, Antônio de Queirós, Mackenzie, Caio Prado e igreja. Doze vezes ‘bléim’ e onze anos depois reparei que não existem mais lugares em São Paulo onde você sabe que horas são só de ouvir os sinos. Mas no Centro, sim.

Desci no início da Xavier de Toledo. Fui a um prédio da Quirino de Andrade. Perceber o cheiro de urina em todos os cantos foi quando meus sentidos lembraram-se da região. Alguns postes com brasões da República me fizeram nostálgico, mais do que já sou. Não por aqueles tempos, claro, pois nem meus pais eram nascidos [acho]. Mas pelo tempo em que trabalhei ali. Não deu tempo de passar pelo Viaduto do Chá e dar um alô às ciganas que, diariamente, pediam para ler minha sorte ou simplesmente dinheiro para o leite das crianças.

Foi bom rever as tribos dos punks, dos emos, dos hippies, dos nigerianos, dos homens-placas, dos servidores públicos, do rapa e dos amigos de sempre, claro, os mendigos. Estranho esse sentimento. Nunca havia tido-o. Ficar por muito tempo fora de um bairro faz com que uma parte determinada do seu cérebro fique ‘desligada’ Pelo menos para mim, é como se houvesse um mapa da cidade, uma identidade dela impressa no meu cérebro e que ao acessar determinadas áreas, ele ativasse as partes correspondentes do sistema. Não é como visitar o local onde passou a infância, ou onde seus avós moravam. Você se lembra que esqueceu daquilo. Percebe que, embora pensasse no Centro quando as pessoas o mencionavam, você só se lembrava de onde ele era e dos pontos de referência. Mas o cheiro, os rostos, as curvas, as sombras, os tijolos, os pombos, os choros e os passos não faziam mais parte de você. É necessário voltar.

Estava já dentro do ônibus, no final da avenida Ipiranga. Mais uma vez, os sinos se prepararam com aquela melodia que identifica as horas cheias. Dessa vez, foram duas badaladas. A sensação de cidade do interior mais uma vez veio à tona, em pleno caos da Consolação. Foram apenas duas horas que passaram, mas o sentimento foi o de uma vida.

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