Crônico

Entradas do Maio 2009

Um recado às assessorias

29 Maio , 2009 · 10 Comentários

Outro dia, conversando com um amigo jornalista, ele me disse: “Imagine que você fosse assessor de imprensa de um escritor. O ano que corre é 2001 e o autor te diz que o lançamento será no dia 11 de setembro, uma terça-feira”. O restante você pode imaginar. Livros, CDs, eventos beneficentes, reuniões, balanços sociais e um número sem medida de coisas que poderiam ser noticiadas pela grande imprensa nunca chegaram aos jornais. Já fui assessor de imprensa e alguns clientes que atendia tenho certeza que teriam dito: “Ué, mas nenhum jornalista deu a nossa notícia por quê?”.

Isso é uma das coisas que mais me deixavam revoltados quando trabalhava com assessoria de imprensa. Sei que é bom pro cliente, sei que ajuda e muito, blablabla… porém, não consigo engolir o fato de que a avaliação do meu trabalho depende do trabalho do outro.

Se você já trabalhou ou conhece a dinâmica em uma assessoria, pode ir para o próximo parágrafo, sem medo. Confie em mim. Agora, se você nunca trabalhou em ou com uma assessoria, saiba: essa é a dinâmica. Explico: digamos que a Pastelaria do Seu Zé contrate uma assessoria. O que faríamos, como assessores? Produziríamos alguns textos e pensaríamos em algumas pautas para o Seu Zé. Um texto sobre quantos pastéis ele vende por mês, por exemplo, pode ser encaminhado ao caderno de Economia dos jornais, ou para revistas especializadas no setor de pastéis de feira. Ou seja, o assessor levanta os dados, produz um texto ‘vendendo’ a idéia da pauta [assunto] e encaminha para o jornalista de Economia. Depois, ficará ligando duas vezes por dia ao jornalista, para tentar convencê-lo de que aquela notícia é digna de ser colocada no jornal. Repito, ligará duas vezes por dia, sem desistir, até que o jornalista diga “OK, vou fazer uma matéria sobre isso” ou “Legal, mas dessa vez não”. Caso ele diga que vai publicar, o assessor passará a ligar apenas uma vez a cada dois dias, perguntando “E aí, sai quando? Se precisar, tenho mais informações aqui bem bacanas sobre a Pastelaria. Tenho fotos super legais também. Se quiser, eu te mando. E aí, quer?”. Quando [se] publicada a matéria, ele a recortará, mandará para uma empresa que calcula quanto o cliente teria gasto para fazer um anúncio do mesmo tamanho da matéria, na mesma página, do mesmo jornal. Digamos, R$ 20 mil reais. Isso é o que chamamos de centimetragem. No final do ano, a assessoria junta todas as matérias, vira para o cliente e diz: “Olha quanto foi a nossa centimetragem: R$ 2 milhões. Ou seja, fizemos você ‘economizar’ R$ 2 milhões em propaganda, sendo que uma matéria publicada dá mais credibilidade à empresa do que uma anúncio. Ou seja, estamos cobrando pouco pelo nosso trabalho, levando em consideração o que economizou. Por isso, nem pense em rediscutir contrato. Porque se formos entrar nessa, o justo seria cobrarmos mais. Fique feliz com os R$ 100 mil que nos paga por mês”.

Minha raiva [ou paúra] com assessoria de imprensa é justamente essa: se o jornalista achar que a pauta é boa, ele a publica, meu chefe me elogia e fica todo mundo feliz. Mas digamos que, naquele dia, o jornalista tenha acordado de mau-humor e não curtiu minha pauta. O nabo vem no meu. Mas coitado do jornalista, a culpa também não é [sempre] dele. Digamos que a pauta seja chata e fraca. Não interessa. Como assessor de imprensa, você tem a obrigação de fazê-la emplacar em algum lugar. Você já falou para o cliente que aquilo não vai vingar e ouviu dele: “Não interessa. Eu te pago para isso sair no jornal, sem precisar pagar anúncio”. Não interessa se a pauta é uma porcaria, se nem eu leria uma matéria sobre isso. Dane-se. O dinheiro que entra é porque você tem a obrigação de fazer aquilo ser publicado. Só que existe um pequeno detalhe, que os assessores de imprensa parecem ter esquecido: as assessorias não controlam os veículos de comunicação. Já ouvi assessores dizerem “Ainda”. Sério. Mas em uma assessoria, para meu chefe virar para mim e dizer “Bom trabalho”, eu contei com a boa vontade do repórter com quem conversei, com o editor desse repórter e com a pauta ser legal. Agora, se você quer uma medalha de honra pra valer, pegue uma pauta sem graça e faça-a ser publicada. Aí sim, meu amigo, você é o cara. Afinal, você conseguiu que aquela informação inútil chegasse até o cidadão, achando que precisa saber daquilo.

Claro que uma assessoria de imprensa não serve só para isso. Ela é o meio campo entre a imprensa e as empresas. Se um jornalista tiver interesse em escrever sobre a Pastelaria, é ele quem procurará a assessoria, pedindo ‘ajuda’. Caso você não saiba, isso é raro, a não ser que você tenha como cliente órgãos governamentais, mega empresas ou trabalhe com cinema.

Quando estava em assessoria ficava ofendido ao ouvir: “Assessor não é jornalista”. Pô, eu me formei em jornalismo. Mas hoje, fora dela e sem romantismo nenhum quanto à imprensa, o trabalho de assessor não precisa/não deveria ser feito por jornalistas, mas sim por vendedores. Nada contra eles. Meu avô é um dos bons. Tenho uma prima que também. Adora isso e faz bem. Mas fica o recado para as assessorias: não engane seus jornalistas, muitos menos seus estagiários, dizendo que eles estão exercendo a profissão. São jornalistas sim, mas exercendo a função de vendedores.

UPDATE: fiz um outro texto explicando um pouco melhor esse aqui. Só clicar.

UPDATE 2: Resumindo, pois quando escrevo com a emoção à flor da pele, não me expresso muito bem: minha crítica é ao modus operandi delas e não às assessorias em si. Critico o assessor ter que mendigar para o jornalista publicar algo que o cliente pediu e critico o muro que se levanta em torno do cliente quando ele faz alguma cagada e quer se ‘proteger’ dos jornalistas. Tenho mania de me explicar, então a ‘conclusão’ [se é que isso existe] desse textão que você acabou de ler está aqui. Prometo que agora chega.

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Salve o Corinthians

22 Maio , 2009 · 1 Comentário

Lembro da semi-final do Campeonato Paulista de 2001. Corinthians x Santos. Sou corinthiano de nascença. Tenho orgulho em fazer aniversário no dia 1º de setembro, data da inauguração do alvinegro paulista. O jogo estava 1 a 1 e o empate era vantagem do Santos. Meu primo de Florianópolis morava conosco naquela época. Tão corinthiano quanto eu, mas com menos fé. Depois de alguns chutes para fora do gol, ele pediu para desligarmos a televisão. Praticamente chorando, declarei: “Não. Temos que ficar com o Timão até o final.” Eis que aos 48 do segundo tempo Gil faz o lance pela lateral esquerda, cruza para a intermediária, Marcelinho Carioca faz o corta-luz e Ricardinho acerta o petardo no canto superior do gol de Fábio Costa. Ajoelhados no meio da sala, abraçados, choramos como duas crianças. O Corinthians foi à final.

Há algumas semanas, Corinthians e Santos se enfrentaram, novamente em uma decisão do Campeonato Paulista. Era a final e esse primo veio a São Paulo para resolver questões, digamos, ‘diplomáticas’, com o consulado sueco. Aproveitando a passagem pela cidade, foi ao Pacaembu tentar assistir o jogo in loco. Os ingressos esgotaram-se no mesmo dia em que começaram a ser vendidos, dias antes. Mas parece que a fé desse meu primo aumentou um pouco nos últimos oito anos.

Contou-nos que chegou ao Pacaembu e tentou ingresso com todos os cambistas. A única coisa que ouvia deles era: “Compro ingresso, compro ingresso!” Perambulando nos arredores do estádio, viu uma aglomeração de jornalista, em volta de uma senhora, já de idade. Aproximou-se e ouviu: “Então, dona Marlene… qual o placar que a senhora chuta para o jogo?” Era Dª Marlene Matheus, viúva do ex-presidente do Sport Club Corinthians Paulista, Vicente Matheus, autor de célebres frases como: “O Sócrates é invendível, incomparável e imprestável.” e “O difícil, como todos sabem, não é fácil.” Nessa altura, a história do meu primo já parece lenda, mas é que você não o conhece. Ouvindo a história, todos nós já esperávamos o que estava por vir.

“Dona Marlene, olha só [abre a carteira e mostra o RG]. Eu vim de Florianópolis só por causa desse jogo e não consegui ingresso. Tem como a senhora me ajudar?” Dona Marlene não hesita: “Entra aí no porta-malas e você vem comigo!” Abriu os fundos do sedan e meu primo pulou lá dentro. Ele diz que não acreditou. Estava dentro do carro da viúva de Vicente Matheus e ainda conseguiria ver a final!

O carro andou um pouquinho e parou. Vozes de autoridade lá fora, pedindo para Dona Marlene abrir o porta-malas. Ela puxa a alavanca, o porta-malas se abre um pouco e meu primo puxa pela alça, lá de dentro, fechando-o. Eles pedem para abrir de novo. O abre-e-fecha se repete por algumas vezes. Ele conta que alguém deve ter visto-o pulando lá pra dentro. Quando o porta-malas se abre novamente, um outro cara vem e pula lá dentro com ele. “Mano! A gente vai assistir a final! Ah êêê! Dona Marlene é do cacete!”. Meu primo falando para o maluco falar baixo e parar de fazer algazarra e ‘os homi’ do lado de fora, já batendo no porta-malas, para eles saírem.

Os dois saem e ficam ouvindo o tempo todo que vão levar porrada e vão apanhar até não esquecerem nunca mais a cagada que fizeram. Claro que meu primo ficou irado com o cara, pois estragou o plano. Era bem possível que Dona Marlene convencesse os policiais a deixarem-na entrar. Pelo que sei, por mais que batessem no meu primo, é história pra não esquecer nunca.

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Ternura e olhos que sorriem

11 Maio , 2009 · 6 Comentários

as a bird

Ele vinha avionado na Marginal Pinheiros, puxando a fila entre os carros. 110km/h em cima de uma moto de 125cc. Na tragada que deu dentro do carro, ela pensou no longo dia que teve e na pequena noite que desfrutaria. Tragou enquanto suspirava, engasgou com a fumaça e o cigarro, aceso, caiu no banco. No desespero de se queimar, abriu a porta no trânsito parado. Ele vinha avionado, a 110km/h, viu a porta se abrir, gritou “NÃO!” e jogou as pernas pra frente. Levou porta e tudo. Voou longe. Da fila que puxava, mais três se acidentaram. Até hoje ele vê o momento do acidente e grita igualzinho, para mostrar o desespero que passou.

Ficou 21 dias desacordado, na UTI da Santa Casa de Misericórdia. Ele pronuncia ‘misericórdia’ de forma mais lenta, como quem sabe o que a palavra significa e como quem entende o que é ser agraciado por ela. “Maluco, faz uma conchinha com a mão e vira pra cima. Isso. Agora imagina um montinho de areia nela. O médico disse que foi essa a quantidade que perdi dos miolos. Coloca a mão aqui na minha cabeça, sente o buraco que ficou… não quer? Tudo bem”. Ele conta que pediu para ‘fazerem’ um acelerador na sua mão. Perdeu o movimento de quase todos os dedos, então pediu para os médicos reconstruírem o formato exato para sua mão encaixar na manopla do acelerador e poder continuar andando de moto. Quando voltou a trabalhar, proibiram-no de usar moto. Deram um carro pra ele. “Mas eu tô montando a minha motoca. Já tenho o motor, as rodas, o corpo… quase tudo. Só falta desentortar a base do guidão e tá pronto. Mas não conta pra ninguém, que minha irmã não sabe e vai ficar maluca se desconfiar”.

Dos 21 dias em coma, na UTI, ele diz que pulou corda todos os dias, com uma menina que vinha chamá-lo na cama. “Oi, você vem pular corda hoje?” – Mas eu tô quebrado… muito cansado. “Ah, vem… eu sei que você gosta”. – Tá bom. Ele levantava, saía do quarto e chegava no que conta ser o jardim mais bonito que já viu na vida. “Cara, se morrer é ir praquele lugar que eu ia todo o dia com a menininha, me leva agora. Tinha uma flor de cada cor… vermelha, azul, amarela. Tudo enfileirado. Maluco, ia retinho, uma atrás da outra. Que coisa. Eu nunca tinha visto aquela garotinha, nem a mãe dela. Ela amarrava a corda numa árvore bem grande e ficava pulando. Depois a gente trocava e ela que ficava girando aquela corda pra eu pular… vup, vup, vup, fazia aquele barulhão da corda girando. Ia anoitecendo e na hora de ir embora ela sempre reclamava. Mas eu tinha que voltar pro quarto, pra dormir. Pulei corda 21 dias com aquela menina, que nunca mais vi”. No 22º dia, a primeira coisa que fez ao ver os médicos foi: “Cadê a menina?!”. Seus olhos enchem de lágrimas contando sobre a experiência do coma. “Teve um dia que eu disse pra menina que tava cansado, mas não voltei pro quarto. Fui andando lá pra frente, onde tinha um buraco, tipo um túnel, sabe? Fui entrando, precisei agachar, porque ficava menor e era bem escuro lá dentro. Cada vez mais escuro, mais frio e mais estranho. Cheguei num lugar que um maluco me disse ‘Cara, você tá louco?! Teu lugar é aqui não!! Volta lá pra cima e nunca mais volta aqui!’. Eu nunca mais voltei mesmo”.

Ele diz que se você for ao Centro de São Paulo e perguntar pelo motoboy Mumm-Ra [vilão dos Thundercats], todo mundo saberá que é ele. “O de vida eterna, maluco!! Olha só, eu só tenho metade do pulmão direito. Foi um câncer. Tem uma bola aqui no meu pescoço, tá vendo?, que disseram ser um tumor também. Eu quero mais é que venha essa bagaça toda. Tô nem aí. Vem que eu não morro, suas doenças!!”. Ele conta isso enquanto almoçamos. Pega o azeite. “Acho que tenho colesterol alto. Azeite faz mal?” e encharca a comida de azeite. “Minha pressão tá alta… mas eu gosto de sal” e salpica o saleiro em todo o prato. “Sabe essa bolota do pescoço? Os médicos disseram que vinagre não faz bem. Mas eu gosto, então como é que não faz bem? Aceita aí?” ele oferece, enquanto lava o arroz, feijão e bife com vinagre. Na empresa, não tem quem não goste dele. Cumprimenta todo mundo, sempre. Dá bom dia, boa tarde e boa noite. Deseja um bom período de trabalho a todos, não importando se está sol, calor, frio ou chovendo. Se você se der o mínimo trabalho de conversar olhando em seus olhos perceberá, antes de qualquer coisa, ternura. Olhos que acolhem. Olhos que sorriem, que dizem “Fala meu chapa. Qualquer coisa. Eu te ouço”.

A gente levanta e enquanto levo a sacola e lata de refrigerante no lixo, deixo a louça na pia. Ele começa a pegar o prato, talheres e, mesmo eu dizendo “Cara, deixa aí que eu vou lavar”, ele me diz: “Que isso, meu chapa. Tem nada não”.

Tem sim. Ternura e olhos que sorriem.

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Mal sabia

7 Maio , 2009 · 2 Comentários

Atravessou a rua com seu passo tímido e subiu na construção como se fosse sólido.

Mal sabia o engenheiro que, ao descer, nada mais restaria. Foi assaltado no ponto de ônibus. A ladra, para formar o clichê completo, não roubou apenas seu cordão de ouro e celular. Levou também seu coração. Com a faca encostada na barriga, o engenheiro mal respirava. Ela colocou as pernas no colo dele. Ah, que pernas. Mais bonitas e torneadas do que de muitas mulheres dentro da lei. Quando recebeu um beijo no pescoço e aquele arrepio subiu pelas costas até deixar sua cabeça pinicando, sentiu o ímpeto de derrubá-la, rendê-la, agarrá-la e fazer amor com ela, ali no meio da avenida mesmo. Mas ela tinha um comparsa. Há, sempre, os comparsas. Esse, é claro, não gostou do beijo dado. Aquele, por outro lado, não conseguia ver mais nada direito. A visão turvou. Pensou que estava cego de amor, mas seus óculos de grau haviam sido roubados.
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Texto baseado nessa notícia: “Assaltante beija vítima durante roubo no Espírito Santo.”

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Uma vida é o que sempre tivemos

5 Maio , 2009 · 1 Comentário

3420762197_77e69683c6Das sete vidas, temeu fazer as contas de quantas havia gasto. Temia se dar conta de algo que já sabia: uma vida restava. O pior mesmo seria encarar o fato inegável de que uma vida sempre foi o que tivera. Gostava de pensar que muitas vidas já havia vivido. Mas só uma teve, só uma vivia e só uma lhe restava. Era comum a todo o ser humano. Só aos humanos, pois os gatos, malandros que são, já nascem de bigode e com sete vidas. O fato de ser só uma vida fazia-a pensar: “Então é isso… só isso. Essa vida e nada mais”.

Sim, minha cara. Uma vida. Mas isso não é motivo de desespero. Uma vida é o que sempre tivemos e o que sempre teremos. Aceite isso e, talvez, essa vida possa se multiplicar e, no final das contas, você perceberá que foram muitas mais. Mas isso só é possível quando se parte de uma vida e agarra-se a ela como se fosse a única, já que a é. Tentar ver as outras, enquanto se vive essa, será em vão. Viva-a e deixe que ela floresça fora de si. Essa tua vida é sua e as que dela brotam, não a pertence. Uma vida é o que sempre tivemos. Uma vida é o que sempre teremos. Já aqui são duas… eu e você. Percebe? Sorria.

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Foto: Oscar Segovia

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Calma, menina

1 Maio , 2009 · Deixe um comentário

3113462138_72e89a877fQuando se tem 1,90m de altura, achar o lugar ideal no ônibus envolve toda uma técnica. Sentei na cadeira bem ao lado do cobrador e as duas amigas sentaram atrás de mim.

Estava cansado de ouvir meus pensamentos e quis variar um pouco. Peguei a conversa nessa fase:

- O médico pediu para ela sentar. Pegou os exames e perguntou se ela tinha o telefone do namorado, fixo e celular, pois precisava falar com ele. Ela não estava entendendo nada e entrou a polícia no consultório.
- Polícia?!
- É, menina! Calma, que isso é o de menos… O médico perguntou de novo sobre os telefones, dessa vez com os policiais dizendo que aquilo era extremamente necesário. Eles explicaram: “Os exames acusaram uma bactéria na senhora, mas uma bactéria diferente. Esse tipo de bactéria só é encontrada em pessoas mortas.”
- Que? Como assim?!
- Calma, menina… Isso não é nada. Na hora ela deu o telefone e endereço do namorado. A polícia foi lá e invadiu a casa. Descobriram dois corpos guardados lá. Ele tinha matado essas duas pessoas… duas mulheres.
- Meu Jesus!!
- Menina, ele não só matou aquelas duas pessoas, como deu depoimento que ela era a próxima. Ele já estava planejando como e quando iria matá-la!
- Nossa, morri!
- Imagina minha mãe!! Chegou em casa tremendo, chorando. Quase descontrolada, tadinha.
- Caramba. Que surreal.
- Demais…


- E a Virgínia, que foi pega colando na prova?
- Mentira!
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Foto: Oscar Segovia

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