Crônico

Entradas do Agosto 2009

Cafezinho

21 Agosto , 2009 · 2 Comentários

Meus sonhos me surpreendem. Ontem eu tinha combinado de encontrar um amigo jornalista, das antigas e dos bons, para tomar um café e trocar uma idéia. Estou com vontade de escrever crônicas / contar histórias para algum veículo, pequeno que seja e sei que ele sempre tem boas dicas. Quando liguei para desmarcarmos, pois estava com o tempo apertado, me disseram que ele não tinha ido trabalhar, pois havia perdido uma prima.

Sonhei que estava trabalhando, mas não aonde trabalho. Alguém, não me lembro agora quem, passou por mim e disse: “Quer uma dica? Você não vai conseguir isso que quer sentado em frente ao computador”.

Acordei achando meu inconsciente muito bacana. Preciso marcar um café com ele.

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Quando eu era moleque…

18 Agosto , 2009 · 3 Comentários

…de vez em quando chamavam a minha mãe no colégio, para uma conversinha.
Era sempre mais ou menos assim:

- olha, o Gabriel é um ótimo aluno. só tem notas boas e é muito inteligente. mas….
- é, eu sei. sempre tem um “mas” com ele.
- …mas ele fala demais.
- e eu não sei?! vivo falando isso pra ele! “tem que falar menos, Gá!”
- então, como eu dizia, ele conversa muito durante as aulas.
- ai, esse gabriel, viu?! é fogo!!
- dona Rose…
- oi.
- então, além de falar muito, ele é muito bagunceiro. incita discussão na classe, enfrenta os professores…
- enfrenta como?
- ah, desafiando, questionando, tudo quer saber o porque, quem é que disse aquilo, como é que a professora sabe e pode provar. desafia a professora a provar que ela sabe mesmo a matéria e que merece estar ali, ensinando aos alunos. [nessa hora, dona Rose tentava disfarçar o sorrisinho no canto da boca] além disso, como falei, ele conversa muito, mas as notas são excelentes. o problema é que atrapalha no rendimento dos amigos e não o dele! ele é também um pouco, para não dizer muito, indisciplinado. tem dificuldade com autoridade e em receber ordens.
- sei, pensava dona Rose, sabendo de onde tudo isso vinha.

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Nem bombeiro pode apagar

7 Agosto , 2009 · 5 Comentários

Me segurei o máximo que pude para não falar da já famigerada lei antifumo em São Paulo, mas vamos lá.
Não precisa nem ler. Está na categoria “desabafo”, inclusive.

Alguns fumantes estão revoltados com a proibição de tocarem em frente seus vícios. Eu também ficaria, entendo. Mas vamos fazer um exercício: troque todos os fumantes que você encontra em bares, restaurantes e casas noturnas por onanistas. Agora troque todos os cigarros por… bem, você sabe. Imagine agora que a prática comum da sociedade é ir para esses lugares e quando bate aquela vontadezinha de ‘onanar’, a pessoa simplesmente faz isso do seu lado e o resultado da ação, ela simplesmente despeja em você. Nojento, eu sei, blablabla. Mas é assim que acontece, também, com os cigarros. Aí, o que os onanistas dizem: “Tá incomodado? É só não freqüentar esses lugares”. Se você não quer voltar pra casa se sentindo sujo ou com o cabelo naquela caca [no caso das mulheres] é só não ir aonde os onanistas estão: em todos os bares e casas noturnas que você curte ir. Entendeu a analogia, né?

Desculpem, fumantes, mas reclamar de liberdade cerceada é um pouco ‘tarde demais’. Vivemos em sociedade e há regras e condutas para que ela funcione. Mal e porcamente, concordo, mas de um jeito que vá se tocando o pardieiro. Como é que o governo pode te proibir de fazer algo em lugares privados, não é mesmo?! Privados e públicos, lembremos. A definição de público e privado muitas vezes se mistura e pode confundir. A sua casa é uma propriedade privada. Um bar também, mas não é a SUA propriedade privada. Percebe a diferença?

Ainda sobre essa liberdade cerceada. Viver em sociedade tem dessas merdas, fazer o que? Você não pode simplesmente sair nu na rua, por exemplo. Se bater aquela vontade de fazer sexo, mesmo que a pessoa contigo também queira, você não pode fazer isso, por exemplo, dentro do cinema [Cinemark e afins, no Centro é outra história]. Cinema esse que também é uma propriedade privada. Lembrando, não a sua propriedade privada.

Concordo que a polícia faz vistas grossas a outras mazelas da sociedade, como o tráfico de drogas, prostituição infantil, entre milhares de outras coisas. Mas essa hipocrisia não justifica o discurso do “Então nos deixem em paz”. Se fosse assim, o governo tinha que parar de investir dinheiro na rede pública, porque há desvio dos valores. Que hipocrisia, se tem gente que desvia, porque então continuar investindo dinheiro na rede pública? Esse argumento da hipocrisia é fraco e não se sustenta.

Resumindo, essa discussão não terá fim. É claro que os fumantes não curtiram, pois parece segregação. A Rachel Juraski resumiu o sentimento geral da coisa: “Encontrando uma solução para que fumantes e não fumantes consigam conviver em paz nas baladas, a lei cai”. É isso. É o que eu gostaria também. Eu odeio cheiro de cigarro, mas tenho diversos amigos que fumam. Não gostaria de ser privado da presença deles, mesmo que o cigarro me incomode um absurdo. O problema é que o governo acaba se voltando para os não-fumantes e a idéia não é simplesmente excluir os fumantes. A idéia é o convívio pacífico e harmonioso. Mas aí já é pedir demais para a nossa sociedade, esteja você segurando um cigarro entre os dedos, esteja você apontando o dedo para quem está com o cigarro.

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Alguma coisa está errada

6 Agosto , 2009 · 1 Comentário

Estranhei a fila de carros naquela rua, paralela à Dr. Arnaldo, a Arruda Alvim. Quem vem da Alfonso Bovero ou Heitor Penteado, em direção à Consolação/Paulista, é a primeira à direita, passando a ponte do Sumaré. Uma fila enorme de carros. De cara, achei que estivessem indo para algum velório, já que há dois cemitérios ali na região. Mas os carros não andavam. Na rua cabem duas filas de carro e só a do lado direito estava parada.

Achei, depois, que fosse algum evento em um novo condomínio/empreendimento que estão construindo ali. Mas a entrada dele é logo no começo da rua e era possível ver a fila se estender até o cruzamento com a Cardeal Arcoverde. Fiquei intrigado. Sorte que estava caminhando na direção do início da fila de carros e poderia ver o que acontecia.

Conforme avançava, fui desconfiando do motivo de tamanha fila, com tantos automóveis caros. Aquelas pick-ups que consomem 3L/km, sedans chiques e outros mais esportivos. Eu me recusava a acreditar que era aquilo que eu imaginava: uma fila de carros, sendo dirigidos por pais que estavam ali para pegarem seus filhos na saída… do cursinho. Sim, do cursinho. A galera que faz cursinho tem o que? Entre 17 e 19 anos? Sei que há pais que continuam a buscar os filhos no colégio/cursinho, mas sempre soube de casos isolados. Não uma fila de quase 500m formada por carros que esperam seus filhos entrarem.

Fiquei achando um absurdo. Mas depois lembrei que hoje em dia é assim que as coisas são. E, no final das contas, alguém ainda poderia me dizer: “Me deixe em paz, você não tem nada a ver com isso”. Realmente. Justamente por isso, acho que alguma coisa está errada.

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Confesso que a invejei

3 Agosto , 2009 · 3 Comentários

Foram frações de segundos. Mas tudo isso se passou pela minha cabeça.

Fui atravessar a rua e ela estava sentada no chão. Uma senhora mais morena do que eu, com cobertores ao redor, uma caixa de papelão dobrada para sentar em cima e algumas sacolas. Parecia estar descansando. Estava na esquina, ao lado de uma pequena árvore, que começa a nascer. Ela só olhou para mim e sorriu. Como se fosse uma velha conhecida, apenas sorriu. Não estendeu a mão, não fez cara de dó. Sorriu feliz, de fato. Não tentava agradar ou amolecer meu coração. Estava realmente feliz e expressou o sentimento com um sorriso absolutamente sincero.

Confesso que a invejei, com suas roupas um tanto quanto sujas e gastas. Invejei aquele sorriso autêntico e verdadeiro. A meu ver, ela não tinha motivos para isso. Estava frio, ela não tinha uma casa para morar, um travesseiro para encostar a cabeça quando se sentisse cansada e, provavelmente, dependia da boa-vontade de outros seres humanos para sobreviver. E sejamos sinceros, nós conhecemos bem os seres humanos e que boa-vontade hoje em dia está em falta.

Eu, com minha casa, roupas, cama, edredons e cobertores, iPod e computador, tênis e sandálias, invejei aquele sorriso que nada pedia. Apenas sorria, escancarando a alegria de alguém que ‘não merecia’ aquele sentimento e expondo os meus próprios sentimentos, de quem tem uma vida boa e, ainda assim, não consegue sorrir como ela. Ficou bem óbvio que o que garante esse sorriso não são as coisas que temos. Na verdade, isso sempre foi ‘óbvio’, mas é incrível como nos esquecemos dessas obviedades. O motivo do sorriso é algo mais verdadeiro, algo menos passageiro. Aquela mulher é livre para ser feliz, porque ela não tem nada a perder.

O fato é que ela conseguiu me fazer bem. Quando ela sorriu, minha cara automática de “Desculpe, não tenho nada”, como se ela estivesse pedindo algo, se desfez. Por uma fração de segundo, fiquei sem saber como reagir. Mas aquele sorriso foi fundo. Naquele instante, não havia diferença entre nós. A quantidade de coisas que cada um possuía não fazia a menor diferença. O que fez diferença foi ela ter olhado para mim de igual para igual, me fazendo merecedor daquele sorriso, tanto quanto ela. Com aquele sorriso, ela me trouxe para um patamar de reconhecimento como poucos seres humanos conseguem realizar. Ela me disse: “Sorria, meu querido. Você também pode. Não importa o que digam, esse sorriso é seu também. Faça parte dele.”

E eu fiz, da forma que pude. Sorri de volta para ela, como poucas vezes sorri de volta para alguém. Era um sorriso de agradecimento, pelo que ela havia feito comigo naquele instante. Sorri pela alegria dela e pela alegria que ela havia proporcionado. Como disse, no primeiro instante, eu a invejei. Depois, desejei aprender a ser tão feliz quanto ela, não importando o que eu tenha, quem eu tenha ou onde eu esteja.

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