Crônico

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Presença

23 Novembro , 2009 · 1 Comentário

É a primeira vez que sonho com você, desde que se foi. Ali, se despedia das pessoas, sabia que estava para partir, mas ninguém ouvia. Era estranho, pois as pessoas te viam, mas não davam atenção nenhuma quando se despedia.

Achei que fosse sonhar contigo antes, logo nos dias seguintes à sua partida. Mas minha mente adora essas pegadinhas. Deixou passar alguns dias, as coisas se acalmarem, a poeira baixar e BAM! sonhei com você.

Acordei querendo te contar o sonho. Acordei ‘esquecendo’ que você, de fato, se foi. Doeu pra cacete, de um jeito que nunca havia sentido antes. A presença de alguém ausente nunca foi tão sólida e etérea ao mesmo tempo.

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texto publicado originalmente no Tumblr coletivo 5minutos, meu e de Pedro Jansen.

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Eu estava sonhando…

13 Novembro , 2009 · 2 Comentários

…longe, com algo bom. A vida parecia fazer sentido e fluir. Um grande rio refrescante, em um dia quente. Aí ela me acordou. Não tinha o que fazer. Eu estava dormindo no vagão e era a última estação. Se ela não me chamasse, é bem provável que eu teria percorrido a linha inteira até a outra ponta, dormindo. Mas assustei. Era a mesma moça que pareceu irritada com minhas pernas e meu tamanho, algumas estações antes e que mudou de banco, jogando a mala quando alcançou o outro lado. No final das contas, gostei que tenha sido ela a me acordar, sorrindo. Renovou a pouca esperança que tinha na humanidade e que achei ter perdido de vez. Obrigado, moça.

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texto publicado originalmente no Tumblr coletivo 5minutos, meu e de Pedro Jansen.

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Te quiero

29 Outubro , 2009 · Deixe um comentário

A medida exata de água a ser esquentada e colocada dentro da bolsa de borracha, em dias de cólica. Pegar a toalha antes mesmo de você pedi-la, lá de dentro do box, toda molhada. A distância de seu cabelo do meu braço, quando esticado na cama. O perfume de seu travesseiro, ao sol. Abaixar o volume da TV sem que você peça e já queira. Pedir de janta exatamente aquilo que está desejando há dias. Te abraçar sem saber o porque, mas sabendo ser necessário.

Tantas medidas e movimentos já decorados e tanto ainda a aprender. Uma vida inteira já conhecida e uma vida inteira pela frente, de descobertas e surpresas. Que venha mais. Sempre mais. Toda você.

foto: Oscar Segovia


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Menino de barba

15 Outubro , 2009 · Deixe um comentário

Escrevi sobre o sorriso das crianças, mas em dois dias descobri o sorriso dos idosos.

idoso_osegovia_menorSexta-feira passada, de manhã, foi ao ajudar uma senhora saindo do ônibus. Ela descia os degraus com dificuldade e o último deles parecia muito distante da calçada. Estiquei minha mão, ela se apoiou, viu que era um ‘menino’ ajudando e sorriu. Valeu meu dia.

No dia anterior garoava com vento. No ponto de ônibus, mesmo embaixo da parte coberta, molhávamo-nos, eu e as três senhoras. Abri meu guarda-chuva e deixei-o de lado, para me proteger do vento. De forma sutil, aproximei-me das senhoras, até que meu guarda-chuva [perdeu o hífen?] as protegesse também, embora não completamente. Passados alguns segundos, uma delas percebeu e veio bem embaixo do guarda-chuva, ficando quase colada em mim. Ela tinha a voz da Nair Belo: “Meninas, venham pra cá também! Tá quentinho!”, falou Dª Terezinha. “Olha que coisa mais fofa esse menino” [eu, no caso, o mesmo da barba que assusta criancinhas do outro texto]. As duas outras senhoras se achegaram e ficaram pertinho de mim. A mais linda de todas, que infelizmente não lembro o nome, foi em um ônibus antes do meu e a Dª Terezinha ficou para pegar o próximo, com a que tinha um guarda-chuva no braço, mas não negou o meu abrigo.

foto: Oscar Segovia

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Homem de barba

9 Outubro , 2009 · 3 Comentários

O sorriso de uma criança vale ouro, já percebeu? Nós, adultos, fazemos de tudo para que nos dêem um sorriso. Para que riam de nós. Eu mesmo, quando encontro com alguma criança na rua que fique olhando mais de três segundos para minha cara de Hagrid, sorrio de forma que ela entenda que sou um deles. Que ela é um de nós. Que entendo [ou lembro] o que passam e que sinto por ouvir mães e babás se relacionarem com elas na base do medo.

Como quando fui usado em uma situação dessas, em Embu das Artes. Estava sentado no banco da praça e passou uma mãe arrastando seu filho pelo braço, que fazia birra por alguma coisa. Ao se aproximarem de mim, ela me olhou, se voltou para o menio e mandou: “Filho, se você não parar com essa choradeira, vou te deixar com esse homem de barba aqui. É isso o que você quer?” Claro que não, você adivinhou. Não sou considerado boa companhia para adultos, quanto mais para crianças.

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Vai chover

28 Setembro , 2009 · 1 Comentário

É inevitável. As nuvens escuras virão, trazendo uma enxurrada d’água. Vai molhar as plantas, as ruas e as pessoas. Vai te molhar. Seus cadernos, livros, canetas, contas, celular, óculos e iPod. Não tem jeito, rapaz. Vai chover. É inevitável.

Mas você tem escolha. Só parece que não. Você pode correr e se refugiar, embaixo de uma marquise qualquer. Pode assistir a chuva cair, pode se desesperar com o trânsito, com a água que corre. Pode colocar a mão pra fora e sentir a chuva. Pode cair na água e deixar seu corpo ser inteiramente lavado. Pode ser levado pela correnteza ou pode apenas aguardar passar. Pode observar as pessoas e aprender algo. Ou apenas observar e curtir aquele momento. Ou se irritar. Ou só assistir.

Mas é inevitável que a chuva venha. Ela sempre virá, como sempre veio.
O que você vai fazer?

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Não dá pra ter tudo

28 Setembro , 2009 · Deixe um comentário

Queria aquela casa. Aquele emprego, aquele carro, aquele celular, aquele tênis, aquele relógio, aquele óculos. Queria aquele Mac, aquele iPod, aquele restaurante. Queria ter aquele cabelo, aquela cintura, aquela barriga, aquela barba, aquela pele.

Em busca do perfeito [conceito que nosso desejo cria] vivemos eternamente insatisfeitos com as coisas boas que conquistamos. Isso é doentio.

Trate-se.

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Mil pedaços

28 Setembro , 2009 · Deixe um comentário

“Talvez eu não consiga fazer diferente. Minha natureza será a minha destruição”, sentenciou, ao perceber que o inevitável possui esse nome por um bom motivo. Tinha a consciência que só perceberia seu erro em um futuro, próximo, e que as escolhas atuais [já no passado, quando descobrir] haviam acabado com ele.

Com medo de ter que tomar uma decisão drástica, achou melhor não quebrar o biscoito da sorte… sentiu-se em pedaços.

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Equilíbrio

11 Setembro , 2009 · 1 Comentário

A esperança é a última que morre. Mas, às vezes, acho que deveria ser a primeira. Essa esperança de que as coisas podem ser melhores, ou pior, a esperança de que as coisas vão melhorar, muitas vezes, nos paralisa para a mudança. Ficamos acomodados e esperamos que a vida se resolva, para que possamos seguir em frente. Um amigo diz que o mundo não pertence aos otimistas, pois, ao esperarem que tudo dará certo, muitos sentam e esperam. Quero o equilíbrio. Ter a esperança necessária para não me tornar um cético, enquanto aprendo a não esperar por ela e só, tornando-me, assim, um romântico obsoleto.

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Mais é menos

4 Setembro , 2009 · 2 Comentários

Você viaja e a cama fica maior. Tenho o dobro de espaço para dormir e o dobro de espaço para meus sonhos chutarem os lençóis. Tenho dois travesseiros à minha disposição e não tenho problemas com o calor das cobertas. Mas a cama é menor. Não tem tua pele ao alcance do meu braço. Não tem o cheiro de teu cabelo ao alcance do meu desejo. A casa fica sem gosto, sem cheiro, sem cor. Você é pequena, mas detém um espaço enorme na minha vida. Volta logo.

[texto publicado originalmente no 5minutos, tumblr meu e de Pedro Jansen, com pequenos textos diários.]

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