Arquivos da Categoria: cidade

Toda feia e malcuidada

parou

Ela é assim, toda feia e malcuidada. Em uma família à margem do que não é muito bem quisto, consegue ser a preterida. Não a procuram pra fazer matéria de final de ano ou Carnaval, nem mesmo as apelativas. Suja e caçoada, ninguém se apega a ela e não sei se é ela que não permite ou, justamente por não a procurarem, também não se esforça. Mas ontem a Barra Funda conseguiu arrancar um sorriso meu. Sei que não vale muito, mas também não sou fácil.

Desde que me mudei para a região, passei a utilizar mais sua estação de trem e metrô. Sua praça de alimentação é como abrir uma caixa de pizza sabor 32 queijos com cobertura de pipoca. As vésperas de feriados, e até mesmo algumas quintas e sextas-feiras, promovem auês em suas imediações dignos de uma Mumbai. São ônibus clandestinos estacionados do lado B da rodoviária, nada de pararem na avenida do Memorial. Eles ficam na saída dos ônibus “oficiais”, tendo como plataforma a calçada que se estende até o final da rua da Várzea, acompanhando a linha do trem e que fica de frente para a Record. Tem café, bolo de fubá, pão de queijo, leite quente, salgadinho, pilha, rádio e, claro, cigarros. Pilhas de Eight sendo vendidos nas barracas e descartados nos chãos.

Tem quem sinta repulsa por um ambiente assim, mas como um autêntico paulistano filho de migrantes, nascido e criado na cidade, sei que isso faz parte do show. Mas ninguém disse que seria uma comédia. A sujeira criada pela desordem e clandestinidade não ajudam a região, muito menos a própria estação da Barra Funda, que muitas vezes acaba sendo apenas um mal necessário no caminho de quem quer chegar logo a seu destino.

Mas ontem não. Ontem ela foi palco de um show mais bonito. Sei que estou personificando um amontoado de concreto para esse texto desde a primeira linha, mas em São Paulo as pedras dessa selva têm vida. Ninguém pode me dizer que as marquises de Pinheiros, por exemplo, não são a extensão folhosa de árvores frondosas que possuem o formato de pequenos predinhos e comércios da Teodoro. E a Barra Funda foi atuante nessa cena.

Meu ônibus passou em frente ao terminal, pela avenida. Dentro dele havia uma moça com uma cara um tanto quanto distante, melancólica. Fiquei triste com ela por alguns segundos, mas só por alguns segundos. Olhando pela janela, pude vê-la abraçada a uma mulher um pouco mais velha que ela. Fosse irmã, mãe, tia ou amiga: o abraço foi eterno. O ônibus partiu do ponto e, até onde pude acompanhar, elas continuaram abraçadas. Gosto de imaginá-las abraçadas ainda ali, tendo a Barra Funda como palco de algo tão raro e precioso quanto um abraço eterno.

É complicado

No fim da Linha Vermelha, quase na Dutra, o dia amanhecendo. Não há cena mais triste para se deixar o Rio. Você olha pelo retrovisor e lá está o sol, aparecendo por detrás do Galeão, sabendo que você não estará ali junto com ele na hora que passar o latão com mate e limão.

Felizmente, aquele tanto de concreto da Dutra nos faz esquecer as belezas naturais do Rio. Você já passou pela fase de negar que está deixando a cidade, teve raiva com o trânsito, negociou suas barganhas mentais ["Vou fazer mais bate-voltas ao Rio"], já ficou deprimido ao lembrar que não conseguiu realizar essas viagens tanto quanto prometeu e já aceitou o fato de estar na estrada para São Paulo.

Eis que a serra termina, você pronto pra mergulhar na segunda parte da estrada, pimpão e, ali na esquerda, uma placa simples, daquelas de só ter o nome da cidade e um flecha, indicando a direção. Sem falar sobre “Saída 18-B” ou quantos quilômetros faltam. Nada. Apenas:
<— Rio de Janeiro | São Paulo —>

E essa placa, rapaz… Essa placa é uma coisa difícil de explicar. É como se você fosse um adolescente que terminou aquele romance de verão, já estava voltando pra casa, dentro do carro e, no caminho, a guria está na calçada da rua onde você ficou, com um olhar menos triste e mais “É isso mesmo? Última chance…”

E lá está sua última chance de voltar ao Rio, você e sua esposa, mais nada, mais ninguém. Tudo o que vocês precisam está dentro do carro, faça as contas. Mas não. Dessa vez, não. Um dia, quem sabe. Quando você tiver a liberdade que procura. Quem sabe, naquele dia em que você estiver voltando sem precisar e puder ficar mais um pouco, não peço muito. Um dia, quando o sol for mais forte do que a garoa e os dias nublados, quem sabe. Um dia.

Hoje? Hoje eu só queria arrancar aquela placa dali. O que os olhos veem, a saudade sente.

Me balança, tio

Me senti um vencedor esses dias, quando tive que ir ao Poupatempo e me segurei quando a colega do cara que me atendia mandou: “E você acredita que eu, literalmente, dormi na cara dura do professor?” Imaginei o que poderia ser essa cena, literalmente, e achei melhor passar. Valeu a pena, pois naquele instante eu já era invisível pra ela, que continuou o papo: “E a Judite, você sabe como ela é, né, ela recebeu um cara aqui e, na hora de preencher a profissão, ele me solta: ‘Homem-Aranha’, e você conhece a Judite, né, claro que ela colocou Homem-Aranha no formulário. Menino, o moço não me voltou no outro dia vestido de Homem-Aranha!? Eu não sabia se ria ou se ficava com dó, mas ele falou a verdade, né?”

Ouvir conversa alheia, uma dedicação que tenho. Sigo pessoas na rua, falando ao celular, conversando com um colega, como se estivessem em casa. “Amiga, não é que minha filha falou ‘Se o papai não quer mais morar com você, eu também não quero ir pra casa dele’, uma fofa, né!?” Eu mesmo coloco o celular no ouvido pra disfarçar e acharem que não estou prestando atenção.

Claro, as pessoas também contam suas histórias pra mim, naturalmente, sem que eu precise segui-las. Meu avô, por exemplo, vai fazer 80 anos e ainda trabalha. “Meu neto, repare: toda vez que alguém vai sentar a pessoa olha onde vai acomodar o bumbum, é verdade!, não ria, repare. A pessoa olha onde vai sentar, mesmo que esteja no conforto de seu lar. Eu reparei nisso, sabe?, fiquei atento a isso. Foi aí que decidi vender espaço pra anunciarem nos bancos da praça aqui da cidade. Meu senhor — eu digo ao dono da farmácia — já que a pessoa vai olhar onde está sentando, porque não olhar pro nome da sua farmácia?” E o vô tem razão. E o vô é ‘dono’ de uns 30 bancos assim na cidade dele.

E criança, bixo. Adoro bater papo com elas. Não suporto infantilizar uma criança e gosto de pensar que elas me respeitam por isso. Ou simplesmente não entendem o que falo e me ignoram, uma liberdade que admiro.

Esses dias, o filho de um amigo, de 5 anos [acho que é isso, não sei, minha esposa que sabe a idade das crianças] estava na rede, olhou pra mim e: “Me balança? Agora é a hora do meu cochilo da tarde.”
- Você está com sono?
- É.
- E o que é estar com sono?, me explica como é isso.
- Ah, é como dormir nas nuvens.
- Verdade, cara. Essa é uma grande verdade. E como você sabe que está com sono?
- Ah, é quando eu faço assim, ó: Aaaaarrhhhh [bocejo]
- Saquei. E toda vez que sente sono, você dorme?
- É.
- Toda vez?
- Aham.
- E se você sente sono na escola?
- Ahn?
- É, você não sente sono quando está na escola?
- Nunca senti.
- Você é um cara de sorte, meu amigo. O tigrinho também vai dormir? [Ele estava abraçado a um tigre de pelúcia]
- É.
- Que legal. E qual o nome do tigrinho?
- …hum, Tigrinho, ué.
- Não, eu sei que ele é um tigrinho. Igual você: você é uma criança, mas seu nome é Arthur. Qual o nome do tigrinho?
- Tigrinho! Esse é o nome dele.
- Ah, OK, desculpe. Posso conviver com isso. Mas me conta, como vocês se conheceram?
- Olha, um dia eu cheguei em casa, de volta das férias, né, pra onde eu tinha viajado, porque eu viajei nas minhas férias, pra outro lugar, não era esse, aí voltei desse lugar, voltei pra casa e, olha!, ele tava lá em cima da minha cama! Me esperando!
- Rapaz, que legal!
- É.
- E nessa amizade: você que protege ele ou ele que te protege?
- Hum, ele me protege e eu protejo ele, os dois.
- Bela amizade você tem aí, cara. Não perca isso.
- É. Me balança, tio! Tô com sono.

E também teve um sono de dormir nas nuvens a criança minha que estava ali com ele, cansada de perseguir pessoas nas ruas pela curiosidade em ouvir uma conversa alheia.

Mas aí tem isso, d’eu querer fumar meu cigarro em paz no fim do dia

Ao acender o cigarro, percebo como o ambiente já está cheio de fumaça. Meu impulso é reclamar, já que ela me incomoda, e muito.

Comecei a fumar recentemente. Sempre fui desses ativistas cheios de argumentos que provam que não é legal fumar cigarros. Os motivos são vários, comuns, clichês e, por isso, verdades. Mas também vi os benefícios que me traziam. Minimizar complicações, um refúgio e fuga rápida, além de tantos outros clichês de quem não consegue deixar o cigarro.

Mas aí tem isso, d’eu querer fumar meu cigarro em paz no fim do dia, no bar que costumo frequentar, lugar gostoso, mas a fumaça de todos os outros me incomodarem. Queria que o dono do estabelecimento desse um jeito nisso, sério. Tem gente demais fumando. Ficou fácil, sabe? Qualquer um pode chegar com seu cigarro, ainda mais com incentivo à indústria, né? Reclamo da fumaça de cigarro, mas o que me incomoda são os outros. O meu? É meu, oras. Levo para onde quiser, uso do jeito que quiser.

Agora faça um exercício e troque o cigarro por carros. Eu não fumo, nem tenho carro. Mas acho engraçado (só que não) que as pessoas que mais reclamam do trânsito são as que fazem parte do próprio trânsito. Saem de seus carros xingando a cidade, a infraestrutura, as vias, o prefeito, os outros motoristas e a quantidade de carros, tirando da conta seu próprio carro.

Claro que a cidade precisa melhorar. Claro que o prefeito não é dos melhores (e um dos piores). Claro que a nossa cultura do asfalto blablablabla.

Mas acho legal quem: 1) Evita reclamar 2) Evita ter carro. Fora isso, você não tem razão. Você é o trânsito.


foto: Daigo Oliva

Na faixa de pedestre, quem diria?, a preferência é do pedestre

Talvez você não saiba, mas eu já trabalhei para a Prefeitura. Era estagiário na Comunicação, fazendo assessoria para o gabinete do prefeito e escrevendo para o Diário Oficial. Algumas coisas aprendi nessa época. Uma delas foi o conceito da palavra “preferencial”.

Eu sei o que ela significa, mas municipalmente falando, eu não sabia. O Kassab tinha aprovado a faixa preferencial para motos na Rua da Consolação, aquela verde, que eu nem lembro mais se existe. Houve alguma revolta, já que o corredor de ônibus estava em vigor e só sobraria uma faixa para os carros, as motos ficando com a preferencial. Em uma coletiva, o então e ainda prefeito declarou: “A faixa é preferencial. Isso quer dizer que carros podem utilizá-la, mas devem dar preferência às motos”. (Não aconteceu e não deu certo). Aí lembro de terem feito na Avenida Sumaré a faixa exclusiva para motos. Pegou a diferença?

Em 2012 descobrimos que na faixa de pedestre, quem diria?, a preferência é do pedestre. Como o pêndulo da humanidade nunca está em paz, ali no meio, sossegado e equilibrado, da tirania do asfalto, com toneladas de aço se jogando em alta velocidade para cima de 70kg de carne, veias, ossos e sangue, passamos para a tirania dos andantes perniciosos, tomados por um fôlego de coragem em atravessar semáforos vermelhos e fora da faixa.

E esquecemos, ou não sabemos, o significado de “preferencial”. Esses dias, atravessando a faixa sem nenhum carro com intenção de virar, vi uma moto que deu sinal com seta, de longe. Não estava veloz, mas diminuí e parei para o motoqueiro passar. Ele assentiu com a cabeça, agradecendo e depois fez um gesto com a mão, meio que pedindo desculpa. “Está tudo bem!”, tentei fazê-lo ouvir.

A preferencial era (é) minha, mas posso abrir mão. Devemos cobrar que respeitem a preferência, mas não custa nada cedê-la de vez em quando. Posso estar enganado, sendo romântico, mas talvez seja um passo para que o pêndulo se equilibre.

_______

Foto: Daigo Oliva 

Não ultrapasse, propriedade privada

No carro, (ela dirigindo, eu de carona), minha mãe me conta que naquele local ali não havia nada disso. Apenas uma pequena rua que saía da Santo Amaro e desembocava perto do leito do rio. Mas isso faz 4 anos apenas, não 40. E é a Gomes de Carvalho, uma das principas vias, hoje, da Vila Olímpia. Não acreditei.

No dia seguinte, esperando o ônibus, reparei em dois prédios ali, que pareciam idênticos, embora fossem claramente diferentes. O concreto parecia o mesmo, o acabamento, a cor, sem contar as tradicionais janelas espelhadas da Vila Olímpia. De repente, eram três os prédios diferentes, mas iguais. Quatro, cinco e meia dúzia, um ao lado do outro, nenhum fazendo parte do mesmo conjunto ou condomínio, mas iguais, como se fossem rapazes de calça social escura, camisa clara, sapato e cabelo penteado, como 90% dos que passam pelas calçadas desses e outros prédios naquela rua e bairro.

Fiquei a fitá-los, os prédios. O motivo era o sol que se punha no horizonte; horizonte que não mais consigo ver direito enquanto em São Paulo. Ainda assim, as cores do sol nesse horário chamam minha atenção tanto quanto um pernilongo em meu ouvido nas noites de calor que têm feito. Um zumbido ensurdecedor são as cores do sol que se põe. O amarelo-laranja-avermelhado deixava os prédios menos tristes e imaginei a falta que o sol sente disso.

Sempre pensamos na necessidade vital que temos — a natureza — do sol. Sentimos a falta dele em nossas peles, nossos ossos se fortalecem com ele, colocamos as plantas para serem regadas por ele, nossos gatos e cachorros causam inveja em nós ao se deitarem e simplesmente se esparramarem por ele. Lembrando que há menos de 5 anos aquilo ali não tinha prédio algum, imagino quantas árvores deixaram de sentir isso, para agora termos apenas algumas mudas mirradas na ilha da avenida que separa as duas mãos da via. Mas e o sol?

Consigo ver a beleza que há no momento, mas não há resposta de quem o recebe (nenhum ser humano, já que estamos cercados; falo mesmo dos edifícios). Já que humanizamos plantas, tomo a liberdade de imaginar que o sol também sente falta, de alguma maneira, que aquele raio que demorou 8 minutos para atravessar o espaço seja simplesmente repelido. Claro, o sentimento é meu. Eu que sinto falta do sol, eu que sinto falta de sentir a pele processando os raios (devidamente protegida, use filtro solar) e transformando em vitamina K, da cenoura ingerida no café da manhã fazendo mágica em minha melanina. Sol. Só.

Diferente do que faria minha fotossíntese torpe, o concreto padrão dos prédios repele a luz do fim do dia. O melhor concreto de todos, inclusive, é o que não retém calor, para não danificar o poderoso sistema de ar condicionado de cada um dos edifícios. As janelas espelhadas não são uma tendência arquitetônica. São avisos de que aquela luz não é bem-vinda, que ela atrapalha, que seria melhor a vida na Vila Olímpia sem ela. “Não ultrapasse, propriedade privada”.

_______

foto: Daigo Oliva 

O melhor ainda estava por vir

Nosso primeiro jogo ‘bagaceira’ foi um Grêmio Barueri x Bragantino, na Arena Barueri, quando o time ainda era dessa cidade, antes de ir pra Presidente Prudente e, recentemente, voltar para o mesmo local de antes. Era uma partida da Série B do Brasileirão e, hoje, vejo que nada teve de bagaceira. O melhor ainda estava por vir.

Tudo começou quando eu era estagiário na Prefeitura de São Paulo e escrevia no Diário Oficial. Tinha uma coluna sobre pontos de referência na cidade e um dos lugares escolhidos foi a rua Javari. Hoje, mais velho, percebo que falei pouco da rua em si, e mais do estádio que ali se encontra: o Conde Rodolfo Crespi, o estádio do Juventus, que me apaixonou. Prometi a mim mesmo que voltaria ali um dia, para ver um jogo.

Sou corinthiano de nascença (faço aniversário no mesmo dia que o Timão), mas tenho um irmão palmeirense. Gostamos muito de ver futebol juntos, ainda que ele tenha dormido na final da Copa do Mundo (não o culpo, mas pô, era a final da Copa).

Depois de ir a um jogo da segundona, decidimos que estávamos preparados para a Copa Paulista. Foi contra o Votoraty (não, não é aquela empresa), e valia classificação, que o Juve deixou passar. Foi a primeira vez que um bandeirinha de fato me ouviu xingá-lo, bem como a mãe dele e esposa (na hora, supus que ele tivesse uma). Se bobear, até os cuspes que voaram enquanto eu gritava, ele sentiu na nuca.

Depois de ver um empate de 3 x 3 contra o Audax (ex-Pão de Açúcar, agora sim a empresa), voltamos no dia 24 de setembro, achando que seria o último jogo do Moleque Travesso da Mooca, ocasião contra o Taboão da Serra. A classificação para as oitavas-de-final parecia impossível, mas fomos prestigiar. Meu irmão, que já foi mais vezes à Javari, não acreditava. O Juve não tinha se portado assim em nenhuma outra partida, com jogadas armadas, toques pensados e até, quem diria!, uma estratégia. Ganhamos de 4 x 2 e nos classificamos com uma rodada de antecedência, já que o São Bernardo e Grêmio Osasco haviam perdido na rodada.

O fato é que já estou assim, falando em “ganhamos”, “nos classificamos” e conjugando os verbos na 1ª pessoa do plural. A maioria do jogos são tão feios que a gente só dá risada, nem passa raiva. É a torcida mais divertida que já vi na vida. Os jogos acontecem às 15h de sábado, horário perfeito pós-almoço, para comer um canolli do seu João de sobremesa e dar risada com a torcida mais grená do Brasil, com a maioria entre 20 e 40 anos. Um perfeito rolê, seja com amigos da cervejinha ou com a guria que tem medo de estádio.

A próxima meta minha e do meu irmão? Nos tornamos dirigentes do Juventus, só para bancarmos um clube que nos fez voltar a ter gosto de ir ao estádio e torcer para um time só pela diversão disso, esquecendo brigas em arquibancadas, medo da polícia ou passando raiva com conchavos, cartolas e emissoras, que não pensam no entretenimento ou no torcedor.

Como bom corinthiano, ainda sofro com as jogadas terríveis, mas o descarrego é mais eficiente, já que nossos gritos são ouvidos pelos jogadores. No último, por exemplo, escolhi o camisa 5 do Taboão para encher o saco. No intervalo do 1º tempo, ao sair de campo, ele ficou olhando para mim (já havia gritado muito com ele) e sei (vi, na verdade) que ouviu os berros: “Hoje você não joga mais, nem volta do vestiário, hein!” Ele voltou, mas desestabilizado. Só a Javari poderia proporcionar isso a mim. Viva o Moleque Travesso da Mooca.

Eram esperadas 90 mil pessoas

Quando tive pela primeira vez a ideia de perguntar a alguém na rua  se já tinham agradecido o trabalho que estava fazendo foi também quando decidi começar a perguntar com o próximo que encontrasse, pois não tive coragem de fazer com aquele.

Era um PM, caminhando. A verdade é que na adolescência passei a vê-los como inimigos, mas, no início, em um nível como extensões dos bedéis do colégio. Não demorou para que fossem temidos como ameaças. Por isso hesitei e preferi falar primeiro com o CET.

Perguntei ao Cabo Dorr, que estava próximo a uma das entradas do estádio do Morumbi, quantas pessoas já tinham agradecido a equipe ali pelo trabalho que faziam desde 14h (meu relógio marcava 18h03): “Vish, quase nada…”
- Umas cinco?
- Ah, menos…
- Três?
- Menos…
- Duas… uma?
- Nenhuma.

(Eram esperadas 90 mil pessoas.)

Foi simpático o tempo todo. Os colegas, enfileirados ao lado, interagiram e agradeceram quando os cumprimentei pelo trabalho. Inesperado, não soube como reagir a um sorriso vindo de um policial militar. Aquilo desconcertou-me e só consegui agradecer, apertando a mão do Cabo Dorr e inaugurando um novo ciclo de agradecimentos nessa empreitada.

Zerovinteum

“Filho, sabe o Toninho, ali do bairro da igreja, que de vez em quando aparece lá? Então, me contou que alguns meninos conhecidos foram mortos, em um bar, essa semana. Chegaram metralhando tudo e eles foram mortos, junto com vários outros inocentes, pelo visto.”

Fiquei intrigado com a história. “Olha, pelo que soube, foi o Piolho, que o Toninho conheceu quando eram moleques ainda, no morro. O Piolho é conhecido por ser um cara muito, mas muito violento, em todas as suas atitudes. Ficou um tempo preso e, agora que saiu, decidiu tirar a milícia que tomou conta dos locais dele. Descobriu onde os milicianos iam no final do dia, chegou no bar – já com as portas abaixadas, só a saideira lá dentro – e metralhou tudo, não quis nem saber quem estava lá. O Toninho disse que dois meninos ali do bairro foram mortos, e mais um monte ferido.”

“Uma vez, ele soube de um cara que tinha traído ele. Amarrou o cara, no lugar onde estava dando um churrasco, no Morro do Saçu. O cara ficou preso lá no poste. De vez em quando ele vinha, cortava um pedaço da pele do cara, ou um membro, e jogava pros cachorros. Sentava, tomava uma cerveja, cachaça. Comia uma carne. Ia lá, cortava mais do cara e foi assim, o churrasco todo, o cara sendo morto aos poucos, durante um churrasco que ele deu.”

É muito fácil falar de coisas tão belas de frente pro mar, mas de costas pra favela.

(Marcelo D2, em Zerovinteum, lembrado pelo Vitor Zanirato)

- Ei, filho… ainda tem ouvido troca de tiros perto da sua casa?
- Não, pai… nunca mais.

Como assim? Simplesmente pararam? “Olha, depois que as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) começaram a tomar conta de uns morros, nunca mais. A Rocinha tá com uma entrada cinematográfica. Um monte de casa pintada, colorida… coisa pra gringo e turista ver. Mesmo. Tem até passeio turístico por algumas favelas, depois das UPPs.”

Mas o tráfico simplesmente sumiu? Não existe mais? “Nesses lugares, zero de tráfico. Nem nada.” Eita, mas e os caras que não foram presos? “Aí é que está. Correram para outros morros e complexos. Por enquanto, as UPPs estão nessas aí e se garantindo. Mas uma hora o cerco vai fechar, nessas últimas remanescentes, onde praticamente todo o tráfico foi parar. A tensão que rola aqui agora é essa. O que vai explodir quando decidirem encurralar a todos? Porque nego não vai ter mais nada a perder. É cair pras cabeças, metralhando.”

Carioca não tem paz… nem em tempo de paz.

Não retiro o que disse das coisas belas do Rio, no outro texto. Mas não posso esquecer nunca dessa frase do Marcelo D2, quando é muito fácil falar delas de costas pra favela. Ainda assim, essa cidade consegue me fascinar ainda mais, justamente por tudo isso.

Ela me faz lembrar que a vida é assim. Exatamente assim. Uma merda, um caos e, ainda assim, bela e com sol, de vez em quando praia. Tudo ao mesmo tempo, no mesmo lugar.

Que Deus me ajude a nunca dar as costas pra favela, lembrando sempre de não esquecer também as coisas tão belas.
___________________________

Texto publicado originalmente no Epic Shit.

Buenos Aires

Já ensaiei o início desse texto de uns três jeitos diferentes, pelo menos. Um deles falava sobre como eu gosto de fazer turismo quando viajo, de um jeito mais relax, sem me preocupar muito com os “Você tem que visitar tal lugar”. O outro tentava explicar o quanto Buenos Aires fez bem para mim, sem melodramatizar ou algo do gênero, apenas pela experiência incrível que foi viajar para lá. O terceiro era um sobre a NFL, não tem nada a ver com a minha viagem, estava cansado, já tinha desistido de falar dela, mas esse ficou para daqui alguns dias.

Meu vôo de ida foi no dia do meu aniversário, uma quarta-feira, 21h30. Meia hora antes, na sala de embarque, abri o notebook na tentativa de ter uma luz do que faria no dia seguinte. O fato é que estávamos há 12 horas de acordar em Buenos Aires e eu não tinha ideia do que faria depois do café da manhã, para que lado da rua iria quando saíssemos do hotel. Brincamos que havia ainda 2h30m para pensar nisso, durante o vôo. Dormimos os dois, claro.

No dia seguinte, antes do café, “Carol, seguinte. O que gente quer fazer? Onde queremos ir?”. Chovia muito e optamos por locais fechados. Sabe quando você chega em um parque de diversões pela primeira vez e fica meio perdido, meio bobo, sem saber pra onde correr primeiro? A sensação foi essa. Epic shit pra valer. Peguei metrô, me encharquei da chuva, rodamos ruas e ruas a pé e pensando: “Isso pode dar certo”.

E deu. Nesse dia choveu muito e dane-se, decidimos não comprar paráguas (“Sério, eu não vou levar isso de volta para São Paulo. Já odeio o meu guarda-chuva de lá, não preciso de outro”), resolvemos que se em Roma, faríamos como os romanos: casaco na lomba e capuz na cabeça. Já no fim do dia, comprei um jornal local, para ver como é que eles escrevem (bem bacana, com uns abres de matéria mais literários e ousados) e vi que uma tal de sudestada havia promovido a retirada de pelo menos 400 pessoas da Gran Buenos Aires. Li o Clarín e o La Nación inteiros, sentado na escada de uma loja, enquanto esperava Carol, que chegou ao final do meu jornal dizendo “Estou te esperando na porta da loja faz uns 20 minutos”. Sem problema, deu tempo de ler os dois jornais que havia acabado de comprar. Isso pode dar certo.

Segundo dia, muito frio, menos chuva. Resolvemos conhecer Palermo, descer a pé para perto do centro (o que nos possibilitou comer uma das melhores empanadas da viagem, em um lugar que só vendia isso e tortas, de bairro mesmo, com todos os clientes, e os quatro funcionários, nos olhando estranho quando entramos, afinal, “Vocês são turistas, não deveriam estar aqui”), descer até o Cemitério da Recoleta e voltar para casa exausto, largado dentro de um táxi, pela primeira vez na vida dentro de um automóvel com o aquecedor no máximo. Eu passaria, fácil, uma semana dentro daquele táxi. Perguntei para o motorista que caminho ele faria, ele resmungou o suficiente para eu entender e perceber que é o que eu havia pensado, olhando meu mapa. “Cacete, isso pode MESMO dar certo”.

Dia seguinte quase padeci por não ter conseguido ir ao jogo do Boca Juniors, que aconteceu a poucos quarteirões de mim, enquanto visitava Caminito, bairro ao lado da cancha del Boca, onde comi uma medialuna com queso y ramón fantástica, acompanhada da sempre Quilmes, claro, dessa vez uma stout. No fim, eles perderam pro San Lorenzo por 2×1 e fiquei satisfeito por não ter conseguido ir, ainda assim acreditando que se tivesse ido, o resultado teria sido diferente, já que sou meio supersticioso, foram raríssimas as vezes que vi um time perder enquanto estava no estádio.

O sol veio com voadora, os dois pés no peito, e entre 16h – 16h30, eu só não chorei porque três locais já tinham pedido informação de direção e ruas para mim e não queria estragar o momento. Claro que coloquei os óculos escuros para esconder as lágrimas que insistissem em vir, sentei em um banquinho qualquer na Plaza del Congreso, ao lado de um casal de velhinhos e comi meu alfajor de Oreo em silêncio, pensando que aqueles dois ali poderiam ser (e eu queria que fossem) eu e Carol, no futuro, não em um banquinho qualquer da nossa cidade, mas ali mesmo, em Buenos Aires. Eu poderia viver ali, um mês, três meses, um ano. Sério, isso daria certo.

Naquele momento, final do penúltimo dia, percebi, não havia jeito. Fui fisgado pela cidade como alguém que conhece uma guria em uma festa, passa algumas horas com ela, trocando ideia de forma despretensiosa, sem precisar fazer pose ou convencer de algo, que dá risada pra cacete com ela, percebe que é linda e, ao final, enquanto toca a sua música favorita para momentos assim, não entende como é que a vida existia antes de você conhecê-la e padece de imaginar uma vida daqui pra frente sem voltar a vê-la. “Mi Buenos Aires querida” é uma das expressões clichês sobre a cidade, assim como a camiseta “I <3 NY”, mas cara, como traduz o que essa guria de cheiro amadeirado, de bons ares, fez comigo. Você consegue explicar o motivo da guria perfeita da festa perfeita ser tão perfeita e mexer tanto contigo? Nem eu. Mas assim que foi. Deu certo pra cacete e pode dar, quantas vezes quisermos, por quanto tempo pudermos, de quantas maneiras imaginarmos.

______________________

Texto publicado originalmente no Epic Shit.