Crônico

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Alguma coisa está errada

6 Agosto , 2009 · 1 Comentário

Estranhei a fila de carros naquela rua, paralela à Dr. Arnaldo, a Arruda Alvim. Quem vem da Alfonso Bovero ou Heitor Penteado, em direção à Consolação/Paulista, é a primeira à direita, passando a ponte do Sumaré. Uma fila enorme de carros. De cara, achei que estivessem indo para algum velório, já que há dois cemitérios ali na região. Mas os carros não andavam. Na rua cabem duas filas de carro e só a do lado direito estava parada.

Achei, depois, que fosse algum evento em um novo condomínio/empreendimento que estão construindo ali. Mas a entrada dele é logo no começo da rua e era possível ver a fila se estender até o cruzamento com a Cardeal Arcoverde. Fiquei intrigado. Sorte que estava caminhando na direção do início da fila de carros e poderia ver o que acontecia.

Conforme avançava, fui desconfiando do motivo de tamanha fila, com tantos automóveis caros. Aquelas pick-ups que consomem 3L/km, sedans chiques e outros mais esportivos. Eu me recusava a acreditar que era aquilo que eu imaginava: uma fila de carros, sendo dirigidos por pais que estavam ali para pegarem seus filhos na saída… do cursinho. Sim, do cursinho. A galera que faz cursinho tem o que? Entre 17 e 19 anos? Sei que há pais que continuam a buscar os filhos no colégio/cursinho, mas sempre soube de casos isolados. Não uma fila de quase 500m formada por carros que esperam seus filhos entrarem.

Fiquei achando um absurdo. Mas depois lembrei que hoje em dia é assim que as coisas são. E, no final das contas, alguém ainda poderia me dizer: “Me deixe em paz, você não tem nada a ver com isso”. Realmente. Justamente por isso, acho que alguma coisa está errada.

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Amanheceu

23 Julho , 2009 · 1 Comentário

amanheceu

A musiquinha das 7h, da Jovem Pan, era o marco para sabermos se estávamos no horário ou se estávamos atrasados. Morávamos em Guarulhos e estudávamos no Mackenzie, eu e meu irmão. Rolê no final da Fernão Dias, Dutra e boa parte da Marginal Tietê. Minha mãe era [é] uma heroína. Durante quase 10 anos fez esse trajeto conosco, todos os dias, pela manhã. Quando o Narciso Vernizzi começava a falar, sabíamos que faltavam cinco minutos para as 7h. Lembro do dia em que, minha mãe tirando o carro da garagem, o Narciso começou a falar. Pensei: “Ah ê! É hoje que perco a primeira aula!”. A meta era estarmos já perto do Sambódromo quando o Sr. Vernizzi [já falecido] começasse a dar a previsão do tempo para o dia e para o final de semana, caso fosse sexta-feira.

Em São Paulo, se você não se policiar [ou não tiver uma cabeça 'boa'], será muito fácil deixar-se tomar pela angústia. Um sentimento de desespero, por sentir-se sempre atrasado. Quando entrei na faculdade [e ainda não trabalhava], acordava por volta das 11h, pois as aulas eram no período da tarde. Sentia que havia perdido um mundo de coisas, pelo horário avançado na qual levantava. Meu primeiro estágio foi na rádio Brasil 2000, na rua onde morava. Ajudava a fazer o jornal da manhã, que começava às 6h. Saia e ia comprar um café com leite no bar. Já havia ônibus lotados passando na avenida, 5h50 da manhã. Por isso, ainda havia um sentimento não necessariamente de atraso, mas de que a cidade já estava em pé há horas e eu ali, acordando ‘tarde’. Houve uma época em que eu acordava às 4h30, para ir trabalhar em Alphaville. O horário da fábrica era 7h30 e pegava um ônibus até a Ponte do Piqueri, para esperar o fretado. Na região do Ceagesp parecia shopping em véspera de Natal. Não importa o horário em que eu acordasse, sempre havia alguém em pé antes de mim.

Sempre achei o clichê “A cidade que não dorme” um pouco exagerado. Porque ela dorme sim, só que em horários diferentes. O problema é que essa sensação de atraso não é uma exclusividade de quem vive aqui. Quando você começa a estudar os escritores clássicos, lê livros de Filosofia, aprende Semiótica, conhece a história da Arte, Música, Matemática, pensadores etc, você percebe o quanto de coisa já aconteceu no mundo e que você não participou ou não tem conhecimento. O sentimento de angústia aparece quando você percebe que a sua vida [o que? uns 70 - 80 anos?] não será suficiente para você conhecer tudo o que já foi ensinado, dito, pensado, cantado, escrito e vivido.

Comecei a me sentir assim quando percebi a quantidade de livros que eu ainda queria ler, mesmo tendo lido muitos até aquele momento. O ser humano não consegue [e acredito que não conseguirá] absorver tudo o que já foi feito. Um rebento, que está nascendo nesse exato momento, já nasce, de certa forma, atrasado, em relação a nós. Daqui uns 15 anos, ele apenas saberá quem foi Michael Jackson pelo que lê e pelos CDs que nós, antiquados, guardaremos para mostrar à posteridade. Esse ‘atraso’ é inerente a todo ser humano e, por isso, inevitável. A gente já nasce com milhares de anos de atraso!

Aprendi com um amigo que para um problema que não tem solução, então não há problema. Se esse sentimento de ‘atraso’ é inevitável, basta apenas, então, fazer o que estiver ao nosso alcance. A angústia que essa sensação nos traz pode ser substituída por uma paz de quem, agora, é livre para adquirir e conhecer o que bem entender. Uma viagem à Europa só fará sentido se isso for uma das coisas que você irá querer realmente experenciar [desculpe, Guimarães Rosa] e como parte da sua experiência de vida. Você não precisar conhecer a França, por exemplo, só pelo status que o país tem de ponto turístico mundial e por ter sido palco de inúmeros movimentos e revoluções. Você não precisa ler determinado livro porque ele está na estante “Clássicos”. Já que não será possível conhecer todos os lugares, ou ler todos os livros, então que sejam lidos os que mais têm a ver com você. Que sejam vistos os filmes que mais tem vontade. Que sejam visitadas as cidades que mais te atraem, seja ela Durandé, seja ela Nova York. Quem está atrasado tem mais tempo para fazer as coisas.

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Rayfay

18 Junho , 2009 · 2 Comentários

Eram 10h da manhã. Pedi um pão na chapa e uma média. Em casa não tinha mais nada pra comer, então fui para o trabalho de barriga vazia. Na Dr. Arnaldo tem um boteco/bar/lanchonete que conta com uma frequência elevada de pedreiros. Na rua de trás estão construindo dois prédios, então é o preferido deles. O cara pegou a metade do pão e jogou na chapa, sem passar manteiga ou margarina. Pensei que fosse fazer isso depois, mas me entregou direto da chapa. Olhei o pão e aquele amarelinho de manteiga. A primeira coisa que pensei: “Rapaz, essa chapa tá engordurada mesmo… nem precisa mais passar a manteiga!”. Depois, percebi que o chapeiro deixa todos os pães já cortadinhos e com a quantidade devida de manteiga na canoa. Menos mal.

Se você já trabalhou em alguma obra ou fábrica, sabe que o almoço sai cedo. No meu caso, foi uma fábrica. Entrava 7h30, mas meus amigos do ‘chão da fábrica’ entravam 6h. Ou seja, 10h eles já estavam almoçando. A gente sempre acha cedo, mas pense em alguém que entra às 9h no trabalho. Às 13h, no máximo, estará com fome suficiente para almoçar. O mesmo para eles: nada mais justo que almoçar 4h depois de ter entrado.

Mesmo assim, quando os caras do meu lado no balcão pediram uma porção de torresmo, me embrulhou o estômago. Sorte que a média era boa e dei um gole com o pão molhado. O torresmo que o chapeiro pegou era do tamanho da palma da minha mão que, aberta, tem quase 25cm. Cortou em vários pedacinhos [o torresmo] e serviu. Dois segundos depois, vejo o garçom passar uma Skol para um cara. Garrafa de 600ml, 10h da manhã. OK, já não era mais 10h. O relógio marcava 10h10, como nas propagandas. Olhei as garrafas dispostas no alto do bar e me chamou a atenção um Johnnie Walker Black Label lacrada. O menu na parede dizia “Wiski – R$ 8”. Não sei se era o Black Label, mas um dia eu arrisco.

Mas o que demorei a entender era a bebida identificada como “Rayfay”. Reifei? Não. Hi-fi, meu amigo, aquela mistura de suco de laranja com vodca. Ou Fanta com cachaça, que sai mais barato. Acredito piamente que você só se torna um ser humano completo quando já passou por bares/botecos/lanchonetes assim. É como diz o Gui, meu irmão: “Brasileiro que não come PF [prato feito] é igual a francês que toma banho”. Existem, mas não são dignos da nacionalidade que carregam.

ps. Antes que me acusem de discriminação racial com franceses, o Gui tem um amigo francês, que confirmou a teoria mundial com relação aos hábitos de higiene de seu povo.

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Salve o Corinthians

22 Maio , 2009 · 1 Comentário

Lembro da semi-final do Campeonato Paulista de 2001. Corinthians x Santos. Sou corinthiano de nascença. Tenho orgulho em fazer aniversário no dia 1º de setembro, data da inauguração do alvinegro paulista. O jogo estava 1 a 1 e o empate era vantagem do Santos. Meu primo de Florianópolis morava conosco naquela época. Tão corinthiano quanto eu, mas com menos fé. Depois de alguns chutes para fora do gol, ele pediu para desligarmos a televisão. Praticamente chorando, declarei: “Não. Temos que ficar com o Timão até o final.” Eis que aos 48 do segundo tempo Gil faz o lance pela lateral esquerda, cruza para a intermediária, Marcelinho Carioca faz o corta-luz e Ricardinho acerta o petardo no canto superior do gol de Fábio Costa. Ajoelhados no meio da sala, abraçados, choramos como duas crianças. O Corinthians foi à final.

Há algumas semanas, Corinthians e Santos se enfrentaram, novamente em uma decisão do Campeonato Paulista. Era a final e esse primo veio a São Paulo para resolver questões, digamos, ‘diplomáticas’, com o consulado sueco. Aproveitando a passagem pela cidade, foi ao Pacaembu tentar assistir o jogo in loco. Os ingressos esgotaram-se no mesmo dia em que começaram a ser vendidos, dias antes. Mas parece que a fé desse meu primo aumentou um pouco nos últimos oito anos.

Contou-nos que chegou ao Pacaembu e tentou ingresso com todos os cambistas. A única coisa que ouvia deles era: “Compro ingresso, compro ingresso!” Perambulando nos arredores do estádio, viu uma aglomeração de jornalista, em volta de uma senhora, já de idade. Aproximou-se e ouviu: “Então, dona Marlene… qual o placar que a senhora chuta para o jogo?” Era Dª Marlene Matheus, viúva do ex-presidente do Sport Club Corinthians Paulista, Vicente Matheus, autor de célebres frases como: “O Sócrates é invendível, incomparável e imprestável.” e “O difícil, como todos sabem, não é fácil.” Nessa altura, a história do meu primo já parece lenda, mas é que você não o conhece. Ouvindo a história, todos nós já esperávamos o que estava por vir.

“Dona Marlene, olha só [abre a carteira e mostra o RG]. Eu vim de Florianópolis só por causa desse jogo e não consegui ingresso. Tem como a senhora me ajudar?” Dona Marlene não hesita: “Entra aí no porta-malas e você vem comigo!” Abriu os fundos do sedan e meu primo pulou lá dentro. Ele diz que não acreditou. Estava dentro do carro da viúva de Vicente Matheus e ainda conseguiria ver a final!

O carro andou um pouquinho e parou. Vozes de autoridade lá fora, pedindo para Dona Marlene abrir o porta-malas. Ela puxa a alavanca, o porta-malas se abre um pouco e meu primo puxa pela alça, lá de dentro, fechando-o. Eles pedem para abrir de novo. O abre-e-fecha se repete por algumas vezes. Ele conta que alguém deve ter visto-o pulando lá pra dentro. Quando o porta-malas se abre novamente, um outro cara vem e pula lá dentro com ele. “Mano! A gente vai assistir a final! Ah êêê! Dona Marlene é do cacete!”. Meu primo falando para o maluco falar baixo e parar de fazer algazarra e ‘os homi’ do lado de fora, já batendo no porta-malas, para eles saírem.

Os dois saem e ficam ouvindo o tempo todo que vão levar porrada e vão apanhar até não esquecerem nunca mais a cagada que fizeram. Claro que meu primo ficou irado com o cara, pois estragou o plano. Era bem possível que Dona Marlene convencesse os policiais a deixarem-na entrar. Pelo que sei, por mais que batessem no meu primo, é história pra não esquecer nunca.

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Ternura e olhos que sorriem

11 Maio , 2009 · 6 Comentários

as a bird

Ele vinha avionado na Marginal Pinheiros, puxando a fila entre os carros. 110km/h em cima de uma moto de 125cc. Na tragada que deu dentro do carro, ela pensou no longo dia que teve e na pequena noite que desfrutaria. Tragou enquanto suspirava, engasgou com a fumaça e o cigarro, aceso, caiu no banco. No desespero de se queimar, abriu a porta no trânsito parado. Ele vinha avionado, a 110km/h, viu a porta se abrir, gritou “NÃO!” e jogou as pernas pra frente. Levou porta e tudo. Voou longe. Da fila que puxava, mais três se acidentaram. Até hoje ele vê o momento do acidente e grita igualzinho, para mostrar o desespero que passou.

Ficou 21 dias desacordado, na UTI da Santa Casa de Misericórdia. Ele pronuncia ‘misericórdia’ de forma mais lenta, como quem sabe o que a palavra significa e como quem entende o que é ser agraciado por ela. “Maluco, faz uma conchinha com a mão e vira pra cima. Isso. Agora imagina um montinho de areia nela. O médico disse que foi essa a quantidade que perdi dos miolos. Coloca a mão aqui na minha cabeça, sente o buraco que ficou… não quer? Tudo bem”. Ele conta que pediu para ‘fazerem’ um acelerador na sua mão. Perdeu o movimento de quase todos os dedos, então pediu para os médicos reconstruírem o formato exato para sua mão encaixar na manopla do acelerador e poder continuar andando de moto. Quando voltou a trabalhar, proibiram-no de usar moto. Deram um carro pra ele. “Mas eu tô montando a minha motoca. Já tenho o motor, as rodas, o corpo… quase tudo. Só falta desentortar a base do guidão e tá pronto. Mas não conta pra ninguém, que minha irmã não sabe e vai ficar maluca se desconfiar”.

Dos 21 dias em coma, na UTI, ele diz que pulou corda todos os dias, com uma menina que vinha chamá-lo na cama. “Oi, você vem pular corda hoje?” – Mas eu tô quebrado… muito cansado. “Ah, vem… eu sei que você gosta”. – Tá bom. Ele levantava, saía do quarto e chegava no que conta ser o jardim mais bonito que já viu na vida. “Cara, se morrer é ir praquele lugar que eu ia todo o dia com a menininha, me leva agora. Tinha uma flor de cada cor… vermelha, azul, amarela. Tudo enfileirado. Maluco, ia retinho, uma atrás da outra. Que coisa. Eu nunca tinha visto aquela garotinha, nem a mãe dela. Ela amarrava a corda numa árvore bem grande e ficava pulando. Depois a gente trocava e ela que ficava girando aquela corda pra eu pular… vup, vup, vup, fazia aquele barulhão da corda girando. Ia anoitecendo e na hora de ir embora ela sempre reclamava. Mas eu tinha que voltar pro quarto, pra dormir. Pulei corda 21 dias com aquela menina, que nunca mais vi”. No 22º dia, a primeira coisa que fez ao ver os médicos foi: “Cadê a menina?!”. Seus olhos enchem de lágrimas contando sobre a experiência do coma. “Teve um dia que eu disse pra menina que tava cansado, mas não voltei pro quarto. Fui andando lá pra frente, onde tinha um buraco, tipo um túnel, sabe? Fui entrando, precisei agachar, porque ficava menor e era bem escuro lá dentro. Cada vez mais escuro, mais frio e mais estranho. Cheguei num lugar que um maluco me disse ‘Cara, você tá louco?! Teu lugar é aqui não!! Volta lá pra cima e nunca mais volta aqui!’. Eu nunca mais voltei mesmo”.

Ele diz que se você for ao Centro de São Paulo e perguntar pelo motoboy Mumm-Ra [vilão dos Thundercats], todo mundo saberá que é ele. “O de vida eterna, maluco!! Olha só, eu só tenho metade do pulmão direito. Foi um câncer. Tem uma bola aqui no meu pescoço, tá vendo?, que disseram ser um tumor também. Eu quero mais é que venha essa bagaça toda. Tô nem aí. Vem que eu não morro, suas doenças!!”. Ele conta isso enquanto almoçamos. Pega o azeite. “Acho que tenho colesterol alto. Azeite faz mal?” e encharca a comida de azeite. “Minha pressão tá alta… mas eu gosto de sal” e salpica o saleiro em todo o prato. “Sabe essa bolota do pescoço? Os médicos disseram que vinagre não faz bem. Mas eu gosto, então como é que não faz bem? Aceita aí?” ele oferece, enquanto lava o arroz, feijão e bife com vinagre. Na empresa, não tem quem não goste dele. Cumprimenta todo mundo, sempre. Dá bom dia, boa tarde e boa noite. Deseja um bom período de trabalho a todos, não importando se está sol, calor, frio ou chovendo. Se você se der o mínimo trabalho de conversar olhando em seus olhos perceberá, antes de qualquer coisa, ternura. Olhos que acolhem. Olhos que sorriem, que dizem “Fala meu chapa. Qualquer coisa. Eu te ouço”.

A gente levanta e enquanto levo a sacola e lata de refrigerante no lixo, deixo a louça na pia. Ele começa a pegar o prato, talheres e, mesmo eu dizendo “Cara, deixa aí que eu vou lavar”, ele me diz: “Que isso, meu chapa. Tem nada não”.

Tem sim. Ternura e olhos que sorriem.

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Calma, menina

1 Maio , 2009 · Deixe um comentário

3113462138_72e89a877fQuando se tem 1,90m de altura, achar o lugar ideal no ônibus envolve toda uma técnica. Sentei na cadeira bem ao lado do cobrador e as duas amigas sentaram atrás de mim.

Estava cansado de ouvir meus pensamentos e quis variar um pouco. Peguei a conversa nessa fase:

- O médico pediu para ela sentar. Pegou os exames e perguntou se ela tinha o telefone do namorado, fixo e celular, pois precisava falar com ele. Ela não estava entendendo nada e entrou a polícia no consultório.
- Polícia?!
- É, menina! Calma, que isso é o de menos… O médico perguntou de novo sobre os telefones, dessa vez com os policiais dizendo que aquilo era extremamente necesário. Eles explicaram: “Os exames acusaram uma bactéria na senhora, mas uma bactéria diferente. Esse tipo de bactéria só é encontrada em pessoas mortas.”
- Que? Como assim?!
- Calma, menina… Isso não é nada. Na hora ela deu o telefone e endereço do namorado. A polícia foi lá e invadiu a casa. Descobriram dois corpos guardados lá. Ele tinha matado essas duas pessoas… duas mulheres.
- Meu Jesus!!
- Menina, ele não só matou aquelas duas pessoas, como deu depoimento que ela era a próxima. Ele já estava planejando como e quando iria matá-la!
- Nossa, morri!
- Imagina minha mãe!! Chegou em casa tremendo, chorando. Quase descontrolada, tadinha.
- Caramba. Que surreal.
- Demais…


- E a Virgínia, que foi pega colando na prova?
- Mentira!
______________
Foto: Oscar Segovia

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Só me restou uma coisa

25 Abril , 2009 · Deixe um comentário

Para ler ouvindo: The Wolves [Act I and Act II] – Bon Iver.

Na quinta-feira começou a chover, muito. Às 14h já estava escurecendo e quando foi 16h, caiu água do céu. Eu estava almoçando do lado de fora da Real que, mesmo coberto [o lado de fora, por isso no masculino], dava pra sentir o vento gelado nas costas. Já escrevi algumas vezes sobre a chuva, mas a sensação que ela dá não cabe em um texto. Ou em dois. Três. Dá texto pra uma vida inteira, então acostume-se.

Enquanto comia, pensei que chegar ao ponto de ônibus me deixaria encharcado. Não menos do que ir até o caixa eletrônico mais próximo e sacar dinheiro para o táxi. Ou seja, para onde eu fosse, molhado estaria. Isso, ou ficar a tarde toda em horário de almoço, o que não era a idéia, apesar de tentadora. O que eu teria que fazer após terminar o almoço, não dava para saber. Podia ser que a chuva demorasse 40 dias e 40 noites, ou podia passar em questão de minutos. Não dava para saber, tentar bolar mil planos ou se preocupar. Só me restou uma coisa: continuar almoçando.

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O quase nada

19 Abril , 2009 · 1 Comentário

nuvemSão Paulo anoitece não quando o sol se põe. Dizem que é a cidade que não para. O fato de não haver transporte coletivo em 100% da frota durante a madrugada seria o primeiro ponto para rebater essa idéia, mas deixemos para outro dia. O fato é que quando dá 18h a cidade para e muito. É, também, o horário em que a noite cai, quando não estamos no horário de verão.

Em pequenas cidades do interior, quando anoitece, o comércio fecha, as pessoas vão para casa e pronto. Findou-se o dia. As atividades do dia começam quando o sol aparece e terminam pouco antes de se por, muito pela cultura da falta de energia elétrica, de antigamente. O ‘horário comercial’ da roça, por exemplo é das 5h às 16h. Até às 18h é chegar em casa e terminar o que deve ser feito naquele dia. Meu pai conta que quando escurecia, o dia simplesmenta acabava. Era ficar dentro de casa conversando, tomando café, aquela história.

São Paulo só anoitece quando as ruas estão vazias. Ou seja, há lugares na cidade onde nunca anoitece. Mas você já experimentou passar por um lugar deserto, às três da madrugada? No começo, é aterrorizante. Cada sombra parece guardar alguma coisa má dentro de si. O que dizer então das ruas mal iluminadas? Parece o caminho que precede o vale da sombra da morte. Mas isso é até nos acostumarmos. Pode levar minutos, dias ou anos.

Eu estava, de madrugada, no meio da avenida São Gabriel. Sempre tive a [péssima] mania de andar na rua. As calçadas não foram projetadas para os pedestres, ao que me parece. Não passava ônibus nenhum e pouquíssimos eram os carros, de forma que consegui ficar um bom tempo bem no meio da avenida, só olhando ao redor. A mistura de luzes amarelas e brancas me fazia achar que não fosse aquele horário. Mas o movimento, ou a falta de, não negava: havia anoitecido. Esse é o horário que mais gosto da cidade. O silêncio. O vazio. O quase nada.

Quando ela parece estar inteira em um longo suspiro, de olhos fechados. Como inspirasse todos os acontecimentos do dia, tudo e todos que passaram por ela, assimilasse, reconhecesse a si mesma como parte deles [e eles sendo parte dela] e soltasse o fôlego inspirado. Esse é o momento em que amanhece. E eu fico perdido em algum lugar desse suspiro, em suspense, onde não há ninguém nas ruas e a cidade é só minha.
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A foto não é de São Paulo, mas ilustra o sentimento.

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É necessário voltar

8 Abril , 2009 · 1 Comentário

Estava em frente à igreja que fica no início da rua da Consolação, ali no Centro. Os sinos fizeram aquele barulho de quem vai anunciar as horas e badalaram doze vezes. Nesse instante, eu me dei conta do quanto estive longe dali. Na verdade, descendo a Consolação [ainda no sentido centro], percebi que fazia tempo que não passava em frente ao cemitério, rua Sergipe, Antônio de Queirós, Mackenzie, Caio Prado e igreja. Doze vezes ‘bléim’ e onze anos depois reparei que não existem mais lugares em São Paulo onde você sabe que horas são só de ouvir os sinos. Mas no Centro, sim.

Desci no início da Xavier de Toledo. Fui a um prédio da Quirino de Andrade. Perceber o cheiro de urina em todos os cantos foi quando meus sentidos lembraram-se da região. Alguns postes com brasões da República me fizeram nostálgico, mais do que já sou. Não por aqueles tempos, claro, pois nem meus pais eram nascidos [acho]. Mas pelo tempo em que trabalhei ali. Não deu tempo de passar pelo Viaduto do Chá e dar um alô às ciganas que, diariamente, pediam para ler minha sorte ou simplesmente dinheiro para o leite das crianças.

Foi bom rever as tribos dos punks, dos emos, dos hippies, dos nigerianos, dos homens-placas, dos servidores públicos, do rapa e dos amigos de sempre, claro, os mendigos. Estranho esse sentimento. Nunca havia tido-o. Ficar por muito tempo fora de um bairro faz com que uma parte determinada do seu cérebro fique ‘desligada’ Pelo menos para mim, é como se houvesse um mapa da cidade, uma identidade dela impressa no meu cérebro e que ao acessar determinadas áreas, ele ativasse as partes correspondentes do sistema. Não é como visitar o local onde passou a infância, ou onde seus avós moravam. Você se lembra que esqueceu daquilo. Percebe que, embora pensasse no Centro quando as pessoas o mencionavam, você só se lembrava de onde ele era e dos pontos de referência. Mas o cheiro, os rostos, as curvas, as sombras, os tijolos, os pombos, os choros e os passos não faziam mais parte de você. É necessário voltar.

Estava já dentro do ônibus, no final da avenida Ipiranga. Mais uma vez, os sinos se prepararam com aquela melodia que identifica as horas cheias. Dessa vez, foram duas badaladas. A sensação de cidade do interior mais uma vez veio à tona, em pleno caos da Consolação. Foram apenas duas horas que passaram, mas o sentimento foi o de uma vida.

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Terceira margem do rio

12 Março , 2009 · 3 Comentários

No cruzamento da Rebouças com a Faria Lima, o pessoal atravessou para aproveitar o semáforo verde enquanto eu esperava meu amigo. Há anos que nenhum conhecido meu parava para comprar churros, quanto mais os daquele cruzamento. Instantaneamente me vi em Guarulhos, onde morei dos três aos 14 anos, e às sextas-feiras passava o ‘tiozinho’ dos churros. Era um carrinho como aqueles de hambúrguer ou hot-dog, na parte de trás de um mini-trailer, onde se abre uma janela que vira balcão.

3c2aa-margemEsse amigo voltou recentemente de uma viagem a Teresina – Piauí, onde morou a vida toda. Está em São Paulo há dois anos. Perguntei como era voltar para casa. Sempre fiquei curioso com isso: quem é a pessoa que volta e quem são as pessoas que o recebem. Nunca, e já sabemos disso, são as mesmas pessoas. Um homem não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio.

Ao meu redor há também os cearenses que se conhecem há anos, da mesma cidade, mas que não planejaram vir para cá. Vieram uns, depois outros e se encontraram por aqui. Assim como os baianos. Sejam os fotógrafos, os músicos, os engenheiros ou padeiros. Assim como os mineiros donos de restaurantes italianos, os empresários e professores. Os cariocas, recifenses, amazonenses e paraenses.

É difícil ver uma família que tenha mais de três gerações apenas de paulistanos e/ou brasileiros. Sei que eles existem, mas nunca tive algum amigo que fizesse parte de uma família assim. Gosto de pensar que não é São Paulo que contém as pessoas, mas o contrário. Cada um de nós contém a cidade dentro de si.

Quando esses meus amigos viajam para visitarem suas famílias, não voltam para lá os mesmos. Não raro, pais e amigos reclamam que o ‘menino’ mudou. Passados alguns dias, ele se sente em casa novamente, já familiarizado com as novas gírias e novas histórias. Dali mais uma semana, é hora de voltar a São Paulo. Ele já não é o mesmo que saiu da cidade natal. Nem o mesmo que saiu de São Paulo. É um novo ser, algo entre ‘lá’ e ‘cá’. Como uma terceira margem do rio.
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Foto - Alisson Louback

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