Crônico

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Meu smartphone tem marcas de chocolate na tela

2 Outubro , 2009 · 3 Comentários

Logo eu, que tenho medo de altura. Eu que, tantas vezes, dei bronca nas pessoas por ficaram próximas às janelas e seus parapeitos. Parece que meu coração vai pular do meu peito. Por que é mesmo que estou aqui? Ah sim, aquela dívida. Não vão me deixar em paz. Mas não tenho dinheiro. A fatura do meu cartão de crédito vem com R$ 3 mil e eu recebo R$ 2,5 mil. Quer dizer, recebia. Demitido não recebe. Pense numa matemática. Recebo o salário e, ao contrário das outras pessoas que pagam suas contas e vêem quanto sobrou para passar o mês, já fico com uma dívida de R$ 500. É o quanto ficou pra pagar o mês que vem. Mais os juros em cima desses R$ 500. Ou seja, minha dívida só aumenta. Pergunta se meu salário aumenta na mesma proporção que os juros comem meu cheque especial?

Cheque especial… nem existe mais. Estou velha mesmo. Ganhando pouco já não conseguia sair do monstro que o cartão de crédito criou, imagina agora, desempregada? É por isso que estou aqui. Como forma de protesto. Para mostrar como os bancos, o mercado e a sociedade estão pouco se lixando para mim. É só ligar pro 190 e dizer “Estou no 23º andar e vou pular” que aparece um monte de gente ‘preocupada’ comigo, dizendo pra eu não pular. OK, e depois que me ‘salvarem’? Quem paga as contas? E ainda esse bando de adolescente babaca lá embaixo, gritando “Pula! Pula! Pula!”. Maldito horário que fui escolher, bem na hora da saída desse colégio… Mas vou aproveitar o protesto e me vingar também. Tá vendo aquele gordinho ali, de tênis importado e com os dedos sujos de chocolate, escrevendo alguma coisa no celular? Pois é. Estou mirando nele.

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Mal sabia

7 Maio , 2009 · 2 Comentários

Atravessou a rua com seu passo tímido e subiu na construção como se fosse sólido.

Mal sabia o engenheiro que, ao descer, nada mais restaria. Foi assaltado no ponto de ônibus. A ladra, para formar o clichê completo, não roubou apenas seu cordão de ouro e celular. Levou também seu coração. Com a faca encostada na barriga, o engenheiro mal respirava. Ela colocou as pernas no colo dele. Ah, que pernas. Mais bonitas e torneadas do que de muitas mulheres dentro da lei. Quando recebeu um beijo no pescoço e aquele arrepio subiu pelas costas até deixar sua cabeça pinicando, sentiu o ímpeto de derrubá-la, rendê-la, agarrá-la e fazer amor com ela, ali no meio da avenida mesmo. Mas ela tinha um comparsa. Há, sempre, os comparsas. Esse, é claro, não gostou do beijo dado. Aquele, por outro lado, não conseguia ver mais nada direito. A visão turvou. Pensou que estava cego de amor, mas seus óculos de grau haviam sido roubados.
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Texto baseado nessa notícia: “Assaltante beija vítima durante roubo no Espírito Santo.”

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Uma vida é o que sempre tivemos

5 Maio , 2009 · 1 Comentário

3420762197_77e69683c6Das sete vidas, temeu fazer as contas de quantas havia gasto. Temia se dar conta de algo que já sabia: uma vida restava. O pior mesmo seria encarar o fato inegável de que uma vida sempre foi o que tivera. Gostava de pensar que muitas vidas já havia vivido. Mas só uma teve, só uma vivia e só uma lhe restava. Era comum a todo o ser humano. Só aos humanos, pois os gatos, malandros que são, já nascem de bigode e com sete vidas. O fato de ser só uma vida fazia-a pensar: “Então é isso… só isso. Essa vida e nada mais”.

Sim, minha cara. Uma vida. Mas isso não é motivo de desespero. Uma vida é o que sempre tivemos e o que sempre teremos. Aceite isso e, talvez, essa vida possa se multiplicar e, no final das contas, você perceberá que foram muitas mais. Mas isso só é possível quando se parte de uma vida e agarra-se a ela como se fosse a única, já que a é. Tentar ver as outras, enquanto se vive essa, será em vão. Viva-a e deixe que ela floresça fora de si. Essa tua vida é sua e as que dela brotam, não a pertence. Uma vida é o que sempre tivemos. Uma vida é o que sempre teremos. Já aqui são duas… eu e você. Percebe? Sorria.

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Foto: Oscar Segovia

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Dame tu mano

15 Abril , 2009 · Deixe um comentário

Para ler ouvindo: Julieta Venegas & Marisa Monte – Ilúsion.

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Ven. Ahn? Venga, dame tu mano. Como assim?! Ven, solo eso, fíate. Levantou, entregou-lhe a palma da mão e ouviu música. Um balé moderno, cantado por duas moças. Brasileira e hispânica. Será possível? Era. Rodopiava na sala de aula como um corpo só, com seu professor. Sim, o professor. O convite foi para exemplificar o movimento que a Terra faz ao redor do Sol, a translação. Ela achou que fosse a rotação, mas isso era coisa do seu coração, que girava em torno de si mesmo há tanto tempo e agora estava entregue nas mãos daquele hispânico. Não havia como fugir, não havia como fingir. Dane-se a classe. Dane-se o ruivo da primeira fileira.

Dane-se. Fechou os olhos e se entregou. Não sabia se era a analogia, mas sentiu-se aquecida. Ao mesmo tempo em que o vento dos movimentos a envolviam e refrescavam. Foram todas as estações em um momento só. Dançou como o verão e riu como o outono. Simplesmente deixou-se ser levada. Ao final, seus olhos estavam diferentes. Não dava muito pra explicar, apenas olhar dentro deles e se deixar levar por aquele mundo de galáxias, planetas, flores e danças. Apaixonada que era, tornou-se pessoa impossível de não se apaixonar.

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Carta ao pai

9 Abril , 2009 · 1 Comentário

broken-glasses_menor2Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. E sim, esse é o início da “Carta ao Pai”, do Kafka, que utilizo para minha própria carta. Só o fato de eu ter utilizado um trecho dele já deveria responder à sua pergunta. Ainda mais você ter feito justamente essa pergunta para mim. Não percebe? Somos um conto de Kafka, pai. Você, fazendo as perguntas dele. Eu, respondendo com trechos dele. Isso não te bota medo?

A mim, sim. Seria o suficiente para temê-lo, mas as coisas nunca são tão simples assim. Somos além do que uma imaginação do Kafka. Somos a manifestação de algo que só ele poderia imaginar e, mesmo assim, não conseguiu escrever. O clichê “Eu sou você amanhã” é uma piada para nós. Estamos acima dessa medida linear. Eu sou você hoje e ontem, assim como você é o que serei amanhã e o que sou hoje. Por mais que eu tente fugir, eu sempre te vejo em mim, pai. O pior [ou melhor?] é que muitas dessas coisas são conscientes, porque eu acho que é assim que eu deveria ser mesmo. Que o melhor jeito, muitas vezes, é o seu jeito. Mas em meio a esse medo e desespero, consigo perceber algo tão fascinante quanto ele. Algumas vezes me angustio e me preocupo com as mesmas coisas que você. Porém, a minha decisão é diferente. Eu penso, considero, sofro e dou o passo. Você pensa, considera e sofre as mesmas coisas, mas muitas vezes não damos o mesmo passo.

Tem quem cante para espantar os males e demônios. Para mim, sempre funcionou escrever. Mais uma vez, acho que deu certo. Para mim, e para você, pois aprendemos a respeitar nossas semelhanças e conviver, pacificamente [quase sempre], com nossas diferenças. Somos maiores que o Kafka , pai. Nossos medos às vezes podem ser maiores do que nós, mas somos mais do que o produto de um conto para uma revista mensal. Somos mais do que esse texto, ou qualquer outro que nos defina. Ninguém melhor do que nós para entendermos isso: que a metafísica é coisa da nossa cabeça e que na nossa cabeça quem manda somos nós.

Obrigado. Pelo medo e pelas brigas. Pelo cuidado e preocupação. Pelos exageros de proteção e os exageros de liberdade. Pela alegria e pelo humor ácido. Pela doçura e pela mão firme. Obrigado por que aprendi a agradecer pelos males e pelos bens. Porque só essa união fez de mim o que sou hoje. Você me perguntou porque eu afirmo ter medo de você. Já não sei mais. Vamos mudar a pergunta.

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Esse texto foi originalmente escrito para um concurso literário da revista Piauí. Não foi escolhido e cá está.

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Estrelas de fevereiro

12 Fevereiro , 2009 · Deixe um comentário

Para ler ouvindo February Stars – Foo Fighters.

O trânsito. Eu sabia que o maldito trânsito de São Paulo acabaria me matando.

Sempre achei que quinta-feira é o dia mais triste da semana. Chover em uma quinta-feira chega a ser redundante. Sei que é o final da semana, é o dia em que a gente pensa “Legal, amanhã é sexta”, mas a quinta-feira tem algo de triste que não sei explicar. É claro que isso só podia acontecer em uma quinta.

Tenho a mania de ouvir de olhos fechados uma música que gosto muito. Era February Stars, do Foo Fighters. Algumas coisas colaboraram para que isso acontecesse. 1) Dave Grohl disputa o título de “O” cara com o Eddie Vedder. 2) Era fevereiro e, mesmo que não estivesse de noite, não daria para ver as estrelas em São Paulo. Mas as gotas caindo faziam as vezes de estrelas. 3) Meu irmão está fora, viajando. É o amigo que todo irmão queria ter e a letra bate com isso.

Eu sempre subo a rua de casa de olhos fechados. Com ou sem música. Tentando ouvir o dia amanhecer e o vento me acordando de verdade. Mas ela é tranquila, quase não passa carro nesse horário. Sei que atravessar a Vital Brasil de olho fechado não foi uma boa idéia. Agora eu sei, né? Na hora foi intuitivo, não foi planejado. Mr. Grohl começava a cantar “February Stars, floating in the dark… temporary scars”. Eu sabia que as cicatrizes não seriam temporárias. Não essas.

Não sei quanto tempo fiquei deitado. Como tinha colocado a música no repeat, quando acordei, estavam pedindo “just hang it on”. Meus olhos encheram de lágrima. Eu não queria partir. Não assim. Há algum tempo já havia aceitado que nossa vida é mesmo um instante. Mas eu queria ter tempo de dizer adeus. Eu nunca consegui deixar essas coisas em aberto, sabe?. Simplesmente dar as costas e sair andando. Eu precisava dizer a todos que amo o quanto os amava. Queria vê-los sorrindo mais uma vez, por alguma piada besta que fizesse, mesmo que com lágrimas nos olhos. Queria eu dizer para eles “just hang it on”, não pela minha perda, mas por tudo nessa vida.

Quando voltou na parte mais pesada da música, parece que entrou em loop mesmo. Não sei mais se era da minha cabeça ou a música. Acredito que de alguma forma ela tenha ficado dentro da cabeça, pois eu já não estava mais com os fones no ouvido. Eles voaram longe quando o Vectra me acertou.

Eu só sei que, assim como a letra, eu parecia flutuar na escuridão. Mesmo ouvindo a música, conseguia perceber por trás o barulho da ambulância. O estranho é que ele nunca se aproximava. Aquele ‘ión-ión-ión-ión’ estático. Sempre me deu desespero quando esse som não vinha ou não ia. Sempre no mesmo lugar. Parado na Alvarenga com a Vital Brasil. Um ônibus avançou mesmo estando tudo parado e travou o cruzamento.

O trânsito. Eu sabia que o maldito trânsito de São Paulo acabaria me matando.

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O da bagunça e do sorriso

11 Fevereiro , 2009 · 1 Comentário

Há anos ele vinha pensando em como faria isso. Não havia comentado nem com Raúl, seu irmão, sobre o assunto. E olha que o irmão era a pessoa que melhor o conhecia. Pensou sobre tudo isso logo cedo, durante o café. Aquela hora em que o sol já clareia o dia, mas parece que a cidade ainda não despertou. Deu o primeiro gole de café, acendeu o charuto e, como fazia todos os dias, pensou em Ernesto. Não aquele das camisetas, mas o da bagunça e do sorriso. Quando saíam juntos para beber e fumar. Voltavam bêbados e abraçados para casa, cantando sambinhas da década de 20.

O último pedido de sua mãe fora que, bem no finalzinho, deixasse seu irmão assumir alguma coisa. Não importava quem fossem seus filhos, ela sempre tentaria que o mais velho desse oportunidades para o mais novo também experimentar certas coisas.

Estava cansado. Há alguns anos que já arranjara uma gaja, sem que ninguém ao seu redor soubesse disso. É verdade que hoje ela já não era tão jovem assim, mas ainda era possível se passar por sua filha.

Acordou decidido a cumprir o desejo de sua mãe. É certo que a idéia inicial era só sair dali dentro de um caixão, mas seu coração, também cansado, começava a amolecer. Além do mais, fazia tempo que não surpreendia ninguém. Era a oportunidade de viver o finalzinho de seu caminho sossegado, sem os infortúnios do dia-a-dia, fazer sua já-não-tão-gaja feliz e ainda cumprir o desejo de Dª Castro. Além do mais, havia colocado uns bons dólars em uma casa de apostas em Las Vegas. Apostou nele mesmo, que sairia de lá antes de morrer. Como conseguiu isso, só conhecendo seus contatos.

E foi assim que imaginei Fidel renunciando.
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A idéia do texto existe desde o exato dia em que ele renunciou, mas os textos têm vida própria e só nascem na hora que bem entendem.

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10h23

11 Fevereiro , 2009 · 4 Comentários

Naquele dia ele acordou cinco minutos atrasado. Apenas cinco minutinhos e imaginou que perderia o ônibus, que era tão chato e pontual quanto ele. Naquele dia escovou os dentes, mas sem passar o fio dental. Tomou seu café, mas sem repetir o copo de leite. Passou seu perfume, mas sem dar a última borrifada.

Enquanto isso a Duda decidiu passar o fio dental em todos os dentes. Não repetiu o copo de leite apenas uma vez, mas duas. Demorou alguns segundos a mais para escolher qual perfume usaria. Por isso, saiu de casa sete minutos mais tarde do que o costume.

Ele pegou o ônibus às 10h23 e ela às 10h32. Como ele morava antes, era o mesmo ônibus. Naquele dia, ele estava mais cheio do que o costume. Não chegava a estar apertado, mas Duda queria ir sentada. Como já estava atrasada mesmo, esperou o próximo.

Ela casou [não com ele], teve três filhos [duas meninas e um menino] e nunca conheceu a pessoa que teria sua vida mudada caso a conhecesse. Assistindo Benjamin Button, ele procurou-a em todos os minutos e segundos que achou serem especiais, por pequenos atrasos ou adiantamentos, sem nunca saber o que é ser arrebatado pela coincidência de pequenos incidentes da vida.

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Um labrador

11 Fevereiro , 2009 · 1 Comentário

Para ler ouvindo The Long Day is Over – Norah Jones.

Um labrador. Essa foi a resposta que recebeu de todos com quem conversou. “Queria um cachorro que fosse companheiro, mas ao mesmo tempo tomasse conta de casa. Esperto, brincalhão, mas que possa me proteger. Passei dos 40 e já tenho problemas demais para casar de novo.” Um labrador.

São ótimos nadadores, dizem. Eu mesmo sou fã dos que conheço. Na verdade, eu gosto de cachorros, de forma geral. Domingo mesmo quase fiquei com um filhotinho, que apareceu abandonado no portão de casa. Mas isso é história pra outro texto. Eu me apego fácil e rapidamente a eles. Sei o que é se despedir de um cão querido. Conheço pessoas que ficaram tristes por semanas ao perderem seus companheiros. Por isso não consigo imaginar o que passou pela cabeça da Isa quando o labrador dela a atacou.

Atacou pra valer. No rosto. Tirou um naco da face dela, suficiente para deixá-la desfigurada para o resto da vida. Desfigurada. Sem boca. Nem xingar o labrador ela podia. Chorar era um ato exclusivo de seus olhos. Gritar de raiva, ou soluçar de dor eram luxos que ela não podia se dar. Nem se quisesse.

Acontece que a Isa é influente. Tem contatos. É o tipo de pessoa que conhece a todos, mas que poucos a conhecem. O labrador era um desses poucos e, mesmo assim, atacou nossa amiga. Alguma visitas no hospital e ela já tinha o caminho para o que parecia ser sua salvação: um transplante de rosto. O primeiro registrado.

Um sucesso, disseram os médicos, depois de um ano. “Não sou eu”, declarou Isa. Não sei porque, mas ela achou que ficaria parecida com ela mesma. Ouvi alguns dizerem que era ridículo ela achar isso, já que estava com o rosto de outra na face. Mas até hoje eu me pego pensando e admirando as singularidades dos rostos alheios. A maioria de nós tem dois olhos, um nariz e uma boca. Só a variação de tamanho deles, ou a distância é o suficiente para o Brad Pitt ser daquele jeito e eu desse? É algo muito mais subjetivo, invísivel, arrisco dizer. A fisionomia de alguém é uma coisa que não dá para ser tão matemático, preciso e biológico, a não ser que você seja formado em Matemática, Biologia e Precisão.

Por isso, não culpo a Isa por achar que ela poderia ainda parecer consigo mesma. Vai que essa parte inexplicável está por baixo, na formação do crânio e dos ossos da face? Pô, ela tinha perdido metade do rosto! Menos cobrança, né, gente?

Por conta de sua recuperação, ela não quis falar muito com a gente. Desde novembro que não falo com ela. Abri minha caixa de emails, abri a pasta de idéias para textos, e lembrei que queria contar essa história. Mesmo porque ela conseguiu se encontrar, mesmo que no rosto de outra.

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Esse texto é fictício e foi baseado nessa história real, de Isabelle Dinoire.

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Ouvia tudo com o máximo de atenção possível

10 Dezembro , 2008 · 6 Comentários

Conhecia-a desde os tempos em que meninos não gostam de meninas… mas ele já gostava dela. Talvez fosse a única, talvez tenha sido a primeira. Nada disso nunca importou para ela. Discorria horas e horas sobre suas frustrações, angústias e pesares. Ele sempre hesitava em falar algo que pudesse ajudá-la. Por um tempo que de tão pequeno não é possível ser contado, ele pensava em dizer qualquer coisa que arruinasse a vida dela para que ela percebesse que estavam destinados a ficarem juntos. Mas em um período de tempo menor ainda, desistia, pois o bem-estar dela estava acima do seu.

Claro que ele a ajudava. Claro que a fazia feliz [mesmo que não fosse com ele]. Há 20 e poucos anos ele ouvia e sabia de todas as versões, de todas as histórias contadas, lamentadas e comemoradas… mas não fazia parte de nenhuma delas.

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