Crônico

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Casas Balinhas

25 Dezembro , 2008 · 1 Comentário

Quando a gente chega assim, atrasado, demora mais até entender o que se passa. Ele havia dividido a ‘lousa’ em três partes. Não havia giz. Utilizou os dedos mesmo para rabiscar por cima da gordura do vidro, que serve de divisória no ônibus. Estava explicando que o processo se divide em: Compra, Venda e Lucros. Ele compra as balinhas e doces, vende e obtém os lucros. “Mas calma, minha gente… é lucro ou são lucros?”

A classe estava vazia. Ele só dava aula para o fundão do ônibus. O casal do último banco era quem mais participava. “Então, o que vocês acham? Lucro ou lucros?”. Como em toda classe, alguém responde timidamente: “Lucros…?”, meio sem saber se estava respondendo ou perguntando. “Isso mesmo, lucros!! E vocês sabem o por que? Se eu comprar por um valor x e vender por um valor 2x, é lucro. Mas se eu vender em cima do prazo de validade, por exemplo, é só lucro. Ou se eu vendo só os doces das Casas Balinhas ou Lojas Marabalas [as duas empresas são minhas], mas sem oferecer nada a mais, ainda é só lucro, pois vocês podem comprar em qualquer lugar. Mas e se eu dou uma aula, explicando que a minha meta mínima é vender R$ 3 a cada 20 minutos? Veja, é o mínimo que eu quero vender. São R$ 9 por hora, e eu procuro sempre trabalhar 10 horas por dia!” Nesse momento, com todo o meu rápido raciocínio em matemática [que se assemelha ao de um aluno da 2ª série do Ensino Fundamental], pensei que são R$ 90 por dia e que se ele trabalhar apenas de segunda a sexta, consegue tirar R$ 1.800 por mês. “Uou”, falou uma voz dentro do meu cérebro.

Ele continuou “Esse é o mínimo da minha meta. Mas em 20 minutos eu posso pegar, digamos, até três ônibus. Sendo assim, o que eu ganharia em uma hora da minha meta mínima, eu já ganhei a mesma coisa em apenas 20 minutos”. Nesse ponto eu desisti de fazer conta e prestar atenção nele, mas meu cérebro, mais uma vez, [ele tem vida própria, é um ser à parte de mim], disse “É Gabriel… é muito dinheiro”. [Para poupar você de fazer conta ou pegar a calculadora, com três ônibus em 20 minutos, ele faz R$ 27 e até R$ 5.400 em um mês. De segunda a sexta, apenas.]

“Quando eu nasci, meu pai falou pra mim: ‘Filho, você é pobre e feio. Sua única saída é você aprender a se comunicar’. Foi o que fiz. Abri a Casas Balinhas e Lojas Marabalas e aqui estou… foi mais legal essa minha aula ou ouvir ‘Eu podia estar matando, eu podia estar roubando’, ainda por cima cheio de erro de português?”. “Mais legal!”, respondeu a classe. “Então, quem vai querer comprar alguma coisa?”. Ao invés do tradicional silêncio ou resmungos do tipo “Putz, hoje não tenho nada” todo mundo queria comprar alguma coisa. Enquanto sorria, pensei que ali ele vendeu mais do que R$ 3. Quando o empresário dos doces desceu, o cobrador falou para o motorista: “Esse é um cabra que sabe se comunicar… sabe falar e gosta d’uma conversa, né?”. O motorista: “Demais… e ainda ganha mais dinheiro que a gente”. O cobrador ficou com uma cara pensativa, mas não soube o que falar.


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Eu nunca tinha visto essa combinação… sublime

27 Novembro , 2008 · 10 Comentários

Foi a criança mais linda que eu já vi em toda a minha vida. Ouso dizer que a pessoa mais linda. Era um menino negro, com síndrome de Down. Eu nunca tinha visto essa combinação… sublime.

A primeira vez, ele estava com um violão de brinquedo no colo, sentado no banco da janela da lotação. Não lembro se ele me viu, mas eu não conseguia tirar os olhos dele. Quando vi que a mãe reparou nisso e me olhou estranho, dei um sorriso amigável, como quem diz “Parabéns. Seu filho é lindo”. Perguntei pra ele se tocava violão e ele disse que sim. Ficou meio acanhado, mas aquele pouco bastou para eu nunca mais esquecê-lo. Eles desceram um ponto antes do meu.

Imagine então o dia em que o encontrei de novo. A mãe dele me reconheceu e cumprimentou. Ele se ofereceu para segurar minha mochila. Desliguei o iPod, enrolei os fones e ele esticou a mão, com a palma virada para cima, para eu entregar-lhe o aparelho. Não hesistei. Entreguei sorrindo, ele abriu minha mochila, guardou e levou uma bronca da mãe… “Ô rapaz… te ensinei que não pode ir abrindo assim”. Eu sou mestre em estragar os filhos dos outros e respondi: “Tem problema nenhum… Qual seu nome?”
- Gabriel
- … [segurei o choro] Que nome bonito… sabe, eu também me chamo Gabriel.
Ele abriu o sorriso, junto com a mãe, que nesse momento se levantou, pois o ponto deles estava chegando. Ele envolveu os braços no meu e apoiou a cabeça um pouco abaixo do meu ombro.
- Gabriel, vamos! A gente vai ter que descer.
- Não.
- Gabriel, vamos!!
- Não
“Minha senhora, eu vou descer nesse também”.
- Mas é o seu ponto?!
“Claro… como não seria?”
Eu estava atrasado, mas, naquele momento, fazia muito mais sentido não deixar o Gabriel causar com o motorista da lotação do que chegar no horário no escritório.
Descemos os três, ele de mãos dadas comigo. Só soltou-a em dois momentos: primeiro para cumprimentar um segurança na calçada, que parecia ser amigo dele de longa data. Nos 4 ou 5 quarteirões que caminhamos, ela me disse que ele tinha 8 anos e que eles moravam em Paraisópolis. Contou também que tinha mais 3 filhos: uma de 25, uma de 20 e um de 13.

Na segunda vez que em que ele soltou minha mão foi para se despedir de mim. Eu agachei, ele se aproximou, me deu um beijo e disse “Tchau, amigo”. Eu não consegui responder. Mas Gabriel é do tipo que entende que certas lágrimas dizem mais do que qualquer “Adeus”.

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Amigôô!

24 Novembro , 2008 · Deixe um comentário

Passei a catraca em direção ao trem e ao longe avistei um oásis: Dog Prensado / 2 Salsichas / R$ 1,19. Tem coisas que só a Barra Funda faz por você, pensei. Logo após as catracas, como todo mundo, passei apressado e não o vi, mas ouvi. Um som que vinha de dentro, das entranhas. Som azedo, de que alguma coisa não está boa. “Amigo, precisa de ajuda?”. Mais grunhidos. “Amigôô! Quer que chame alguém?! Você está bem?”.
- Minhas coisas estão ali no canto… já estou esperando.
“OK, mas se quiser alguma coisa, fale…”
- Não, não é nada [UUUURRRRGGGHHH]. Acho que comi alguma coisa numa barriquinha ali em Osasco que não me fez bem. Estou com umas pontadas no estômago que não estou agüentandUUUURRRRGGGHHH.

A moça com uniforme da CPTM chega mais perto e mexe a boca, sem emitir som: “Está OK. Já chamei. Pode ir”.

OK, Deus, aviso recebido.
Nada de dogão prensado hoje.

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Faz as contas, por favor

7 Novembro , 2008 · 3 Comentários

Estava no ônibus conversando com Dª Itamar. Havia acabado de conhecê-la. Mora em Bertioga e está em São Paulo para um tratamento médico. Bertioga é uma cidade bacana e tal, com praias, mas, segundo Dª Itamar, não tem nada. Falta atendimento médico de qualidade, escolas, faculdade e emprego. Os jovens de lá não têm muita perspectiva, então têm que procurar emprego no Guarujá, em Santos, etc. E quando ela vem pra cá, fica na casa da filha. Dª Itamar tem filhos entre 30 e 45 anos, mas não parece ser uma senhora de mais de 60. Uma vez, no supermercado, a moça do caixa disse que ela não podia ficar naquela fila especial. Ela tirou o RG, entregou pra moça e disse “Faz as contas, por favor”. A moça teve que pedir desculpas, igual ao cara no banco, que disse que Dª Itamar não podia, também, ficar naquela fila. Ela é uma senhora criativa. “O senhor sabe que eu tenho uma deficiência física?”
- Opa, não senhora. Desculpe…
- O senhor quer saber aonde eu tenho?!
- Não, senhora, por favor… não.

Ela me contou que teve câncer de mama, precisou tirar um seio, mas que hoje está tudo bem. Um pouco antes de ela me dizer isso, perdi a atenção da conversa. Na parte da frente do ônibus, uma senhora de mais de 70 anos sofria para manter-se em pé com tanto balancê. Em frente a ela, uma mulher de no máximo 40 anos, não se movia. E não era daquelas que fingiam estar dormindo para não dar lugar. Ela estava sentada de frente para senhorinha, olhando para ela e não fazia nada. Eu e Dª Itamar estávamos no primeiro banco depois da catraca. Assim que aquela mulher passou, aproveitando um brake na nossa conversa, eu bem que tentei, mas não consegui me conter:

- Moça, da próxima vez, dê lugar à senhora…
- Oi… desculpe?
- Eu disse para você, da próxima vez, pensar um pouco mais na senhora que está em pé e dar lugar pra ela! Não faz sentido, né?
- … [virou o rosto e fingiu que aquela conversa não existiu]

Reparei que ela carregava um livro, “Conversando com o Espírito”. Faltou ela olhar menos para dentro e falar mais com o ‘mundo’.

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Alguma esperança há

5 Novembro , 2008 · Deixe um comentário

Depois de alguns dias extremamente quentes, algumas gotas precipitaram no final da tarde. Na verdade, já era ‘noite’, 19h, mas com o horário de verão, ainda havia claridade no céu nublado. Já há algum tempo eu tento usar guarda-chuva o mínimo possível. Só quando vou ficar encharcado lanço mão dele. Ontem esperei ver alguns guarda-chuvas na avenida Paulista. A água que caia era pouco mais do que uma garoa e pouco menos do que uma chuva. Por muito menos já vi pessoas reclamando e abrindo as sombrinhas. No entanto, não havia um sequer usando qualquer ‘abrigo’. Estranhei, mas sorri.

Talvez estejam sentindo falta de uma relação com o mundo externo. Talvez estejam cansados de viver hermeticamente fechados em seus escritórios com ar-condicionado. Talvez, nem tudo esteja perdido. Alguma esperança há.

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Subindo a Frei Caneca

5 Novembro , 2008 · 1 Comentário

Menina de no máximo 6 – 7 anos dá suco na mamadeira para um gurizinho, no carrinho, que acredito ser o irmão dela.
O bebê dá uma tossida. Pára e engasga logo em seguida. Acho que a menina vai continuar insistindo, e quando preparo o bote para salvar a vida dele, ela tira a mamadeira, olha feio pra ele e diz: “Léozinho! Você não vai mamar enquanto está engasgando! Entendido?”

Uma quadra acima, dois homens na meia-idade [sejá lá o que isso for] conversam:
- Aí o americano colocou a @$%# na mesa!
- Hum, entendi.
- Bom, prazer em revê-lo. Sucesso!
- Tudo de bom, abraço!

Nunca entendi porque as pessoas se despedem, olho-no-olho, dizendo “Abraço!” ou “Um beijo”. Por que já não dar logo o beijo e/ou o abraço?

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O seu balançar era irresistível

28 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

Ele entrou no ônibus com aquela cara. Assim que vagou lugar, ela torceu o nariz quando ele veio em sua direção. Ele tinha cara de maloqueiro. Mas era possível enxergar ternura em seus olhos. Ela tinha cara de amarga, mas era possível enxergar arrependimento em seus olhos. Lado a lado, se evitaram ao máximo. Mas aquele ônibus era mágico. Embalava seus passageiros. O seu balançar era irresistível. Adormeceram.

Ele sonhou que alguém via além de seu boné,  além da corrente e do olhar mal encarado. Não importava que se vestisse assim justamente para afastar: queria ser aceito, queria que percebessem isso. Ela sonhou que a abraçavam, simplesmente. Ninguém lhe dirigia a palavra: apenas a abraçavam, com sinceridade. Podia se entregar a um desconhecido. Não importava como estava vestido ou quem era, desde que outros braços envolvessem-na de forma sincera. Ela se acomodou no ombro dele, que a recebeu de forma convidativa, a não deixá-la mais. Eu apenas queria que os dois se encontrassem e nunca mais acordassem.

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Ela é um caso sério

23 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

A enorme bandeira, com o rosto de um candidato, bate na minha cara. Pergunto à moça se ela vota naquela pessoa. “Ah, eu voto sim!”

- Todo mundo que está aqui, com as bandeiras, vota nele?
- Não, não… não é obrigatório votar nele. A gente vota em quem a gente quiser, não é?
- E ela, aí do lado? Vota nele?
- Ih, ela não… ela é um caso sério.
Pergunto para a outra moça “E aí, você não vota nele não?”
- Você tá louco?! E eu lá voto em alguém?
- Ah é? Vota em ninguém então?
- Eu voto nulo! Ninguém merece meu voto. Muito menos esse da bandeira.

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Eles dormem onde eu piso

22 Outubro , 2008 · 2 Comentários

Eles não têm assento reservado ou fila preferencial. Não têm direito à meia-entrada, nem contam com uma passeata ou Parada reivindicando seus direitos. Não são mencionados em nenhuma campanha eleitoral, na pregação dominical ou na prece matinal. Não entram no censo do IBGE, pois são recenseados apenas os moradores em domicílios particulares e coletivos. Domicílio? Eles dormem no chão, na calçada e na rua. Eles dormem onde a gente pisa, cospe, joga o resto de guaraná fora e vomita quando está de ressaca.

Fotos deles fazem sucesso. São expostas em salões inaugurados com pomposos vernissages. Do lado de dentro brindam com champagne, discutem o problema dos sem-teto, depois dormem embriagados com vinhos caros e cheirando a charuto cubano. Ele, o retratado, espera o último convidado sair para conseguir um pequeno espaço embaixo da marquise e não molhar a caixa de uma televisão de plasma de 42″, seu colchão.

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Ela deve ter me odiado

17 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

Estava no ônibus, longo caminho, sem nada para ler ou me distrair. Olhei para o lado e uma garota fazia palavras-cruzadas. Fiquei algum tempo observando os espaços em branco, até que não agüentei. “Olha, acho que aqui, onde está ‘Aplicações de capitais’, com _ N _ ES _ _ M _ N _ OS, é ‘investimentos’. Mesmo porque, ‘Situação de acordo com os padrões’ acaba ficando ‘normalidade’ e a letra ‘e’, no final, cabe em ‘investimentos’ melhor do que se fosse ‘normatizado’, que deixaria ‘invostimentos’.”

Ela deve ter me odiado para o resto da vida. Mas ainda assim consegui me controlar quando ela fechou o jornal com “A da rosa é utilizada em saladas” [P _ T _ L _] em branco.

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