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Leon

Estou tocando um projeto na agência de um blog de cores. Tudo que é colorido tem feito com que minha cabeça muitas vezes só pense nisso.

Estava entrando no metrô quando vi esse senhor, com uma baita camisa azul. Com 82 anos, Seu Leon falou que havia escolhido aquela peça por que sabia que o tempo iria virar (com razão, já que era perto de 10h e, desde 8h, já tinha feito frio e calor uma três vezes, alternadamente).

Disse que era aposentado e quando perguntei se ele tinha email, percebi na hora que são daquelas coisas que a gente pensa “Claro que não”, mas vai que, né? Ele não tinha email. Perguntei se ele sabia o de alguém, para eu mandar a foto pra ele, mas também nada.

Por isso o post. Para ficar aí, mesmo que o próprio Seu Leon não veja. Não foi uma grande história, ou uma excelente foto, mas gostei do sorriso sincero dele e de ter permitido que eu o fotografasse.

Estou me dando essa liberdade, de registrar coisas que não precisam ser grandiosas ou extraordinárias: basta emocionar. Por enquanto, tem sido bom.

(Outras fotos da cidade e do dia a dia, de coisas que inspiram ou emocionam você encontra no 1xdia. A ideia inicial era ter uma foto por dia – por isso o nome -, mas já assumi que não lembro de postar diariamente. Mas sempre tem algo novo, fica o convite: http://1xdia.tumblr.com)

Eram esperadas 90 mil pessoas

Quando tive pela primeira vez a ideia de perguntar a alguém na rua  se já tinham agradecido o trabalho que estava fazendo foi também quando decidi começar a perguntar com o próximo que encontrasse, pois não tive coragem de fazer com aquele.

Era um PM, caminhando. A verdade é que na adolescência passei a vê-los como inimigos, mas, no início, em um nível como extensões dos bedéis do colégio. Não demorou para que fossem temidos como ameaças. Por isso hesitei e preferi falar primeiro com o CET.

Perguntei ao Cabo Dorr, que estava próximo a uma das entradas do estádio do Morumbi, quantas pessoas já tinham agradecido a equipe ali pelo trabalho que faziam desde 14h (meu relógio marcava 18h03): “Vish, quase nada…”
- Umas cinco?
- Ah, menos…
- Três?
- Menos…
- Duas… uma?
- Nenhuma.

(Eram esperadas 90 mil pessoas.)

Foi simpático o tempo todo. Os colegas, enfileirados ao lado, interagiram e agradeceram quando os cumprimentei pelo trabalho. Inesperado, não soube como reagir a um sorriso vindo de um policial militar. Aquilo desconcertou-me e só consegui agradecer, apertando a mão do Cabo Dorr e inaugurando um novo ciclo de agradecimentos nessa empreitada.

É sempre assim


Digo que estou cansado, querendo ir dormir e, manhosa, você me diz “Aaaahhhh, fica comigo, estou sem sono…”, mesmo que diga isso bocejando.

Mas OK. Seja mais um episódio de House ou o filme que está começando na Tela Quente, com o Nicolas Cage, a Jessica Biel dando mole para ele e a Julianne Moore fazendo papel de agente federal. Não compro muito o filme, do mesmo jeito que não compro quando ouço “Claro que vou aguentar até o final, Gá”.

Hoje foi “Eu só queria que o sono viesse, sabe? Não vou dormir, estou sem sono… por isso estou dizendo que queria que ele viesse”. Às vezes são 15 minutos, outras, meia hora. Mas é inevitável: você não vai aguentar acordada e eu sempre sei disso.

É quando começo a comentar algo sobre o que está passando e não ter mais resposta. É quando me mexo e só ouço um resmungo, como que reclamando “Pare quieto, estou dormindo”, esparramada no meu colo. É claro que você está dormindo. Eu sempre sei que você vai me abandonar no meio do filme e que terminarei assistindo sozinho, com o sono que já foi embora.

Mas gosto de me enganar e acreditar nisso, apenas para que você adormeça no meu colo (sei que esse é o seu melhor sono, melhor até do que na cama com travesseiro) e simplesmente poder tocar seu rosto: “Pequena… vamos?” e dar risada, dizendo que mais uma vez você disse que ficaria acordada… mas não ficou.

E ouço, mais manhosa “Você não quer que eu durma bem, né? Você não quer minha felicidade” enquanto arrasta os pés para o quarto.

Melhor assim.

Ficar molhado não é um grande problema

Com os argentinos aprendi a tomar chuva. Estive em Buenos Aires nos primeiros dias de setembro e descobri, lendo umas daquelas revistas de bairro, que agosto é um mês triste, muita chuva e muito frio. Inclusive, Julio Cortázar nasceu em agosto, criando o mito do mês melancólico, segundo a mesma revista.

A chuva caía constante. Nada parecido com os pés-d’água que temos aqui na região do trópico, mas sem garoa também, o suficiente para se molhar andando em um quarteirão. No primeiro dia fomos até o metrô, sem guarda-chuva, e saltando na estação desejada, pensamos em comprar um paraguas para nossa caminhada. Aqueles menores, de R$5 aqui, estavam caros. Olhamos para a calçada, o outro lado da rua e percebemos que a maioria das pessoas caminhava sem sombrinha ou guarda-chuva. Desistimos de comprar o nosso. “Se em Roma…”

Não era sábado, muito menos fazia sol. Acredito que ninguém tivesse a intenção de se refrescar com aquela água caindo do céu. Todos bem arrumados – era uma avenida principal, de movimento e comércio -, adolescentes voltando do colégio e senhoras com sacolas. Nenhum guarda-chuva. As pessoas entravam encharcadas nas lojas e ônibus. Ninguém de cara feia por essa estar molhada, ninguém reclamando de como se molhou, nem nada parecido. Simplesmente levantavam as golas de seus casacos e bora.

A suspeita confirmou-se nos dias seguintes, quando vi que a maioria deles anda assim, nos bairros mais endinheirados e nos mais simples. Parece um povo de bem com sua cidade, com seu clima. Se o tempo manda chuva, é com chuva que continuam seus trajetos, como se fosse apenas uma brisa mais fria, fechando as blusas e caminhando, todos molhados. E não é nem nesse esquema romântico (e bonito, eu acho) “tão legal tomar chuva, lava a alma” etc. Ficar molhado não é um grande problema, só isso.

Só sei quando o verão termina por causa do Tom Jobim

Eu adoro o verão, mas tem algo que sempre me deu raiva. Com a programação “Verão MTV” aprendi a odiar (só um pouquinho) a vida cotidiana na cidade. Pleno fevereiro, já tinha até passado o carnaval, provas e trabalhos rolando no colégio, e a Music Television lá, passando Lual MTV, naquela vibe “Somos felizes, vivemos o verão, somos da praia”. Uma falta de respeito passar esse tipo de programa e vinhetas até quase o começo de março. (Trivia: só sei quando o verão termina por causa do Tom Jobim).

Passada metade da semana que ficaríamos em Maresias, começou a bater aquela pré-depressão da volta das férias. Engraçado que a gente estava de perna esticada na areia, mas tristes. Sofreríamos na volta, mas escolhemos sofrer antes também. Eu, principalmente, sofro antes, durante e depois (olha a frase solta!), mesmo que tenha buscado exercitar o contrário nos últimos tempos.

O que pega é que vemos essas propagandas do pessoal sendo feliz no verão e queremos que nossa vida inteira seja assim. Aquilo é um momento. Analisando cenas assim, percebo que vivi (e vivo) diversos momentos daqueles. Mas não vale. Tem que ser assim sempre, todo dia, toda hora, todo instante. É a ditadura do verão, pelo menos na minha alma.

“A nossa vida tem que ser boa. Não podemos depender das férias e descansos para sermos felizes”. Foi com essa declaração que minha esposa gentilmente deu um murro na minha boca (a do estômago está de férias prolongadas, apanha demais, tadinha). A camiseta que escolhi para usar hoje é uma das minhas preferidas. Todas as brancas (15) que tenho estão lavando – assunto para outro post – e vim com essa. “Happiness is a matter of choice” (felicidade é uma questão de escolha) diz a frase nas costas. “Go and choose” (vá e escolha) é o que está estampado na frente.

Pi π

Entrei na farmácia para comprar uma das coisas mais valiosas existentes na humanidade: o anticoncepcional da minha esposa. Acho incrível que algo tão fantástico esteja ali, ao alcance de um “Moço, preciso desse remédio”, enquanto entrego a ele um papelzinho meio amassado, com o nome do medicamento. Se fossemos depender da minha memória, eu já estaria com um time de futebol de salão de filhos e um estoque de sabonete em casa, já que sempre tenho a impressão deles estarem acabando.

Foi quando avistei um cara meio estranho, parado no meio de um dos corredores da drogaria. Ele tinha um olhar longe, meio perdido, quase insano. Passei de longe e pude entender a condição do moço: ele estava escolhendo absorvente. A não ser que estivesse com uma hemorrogia causada pela máfia italiana e não quisesse dar bandeira indo a um hospital, ele fazia aquilo pela guria dele, quanto amor.

Mas me compadeço dele. Se o contato mais próximo que você já teve de decorar o infinito é o Pi (π / 3,14159blablabla), então você nunca precisou comprar absorvente para sua mulher. Sério. Você chega em casa com um pacote de 36 absorventes (promoção) sem abas, noturnos, camada extra, essência de lavanda, cor-de-rosa, para os dias de inverno e descobre que o que ela queria era o que tinha gel rarefeito e você comprou o de algodão em gel. Difícil, meu amigo.

É uma prova de amor chegar ao caixa com aquele pacotão, quando você fica constrangido até no supermercado, na compra do mês, na hora de passar os 72 rolos de papel higiênico (promoção) pela registradora. É chato porque todo mundo sabe que você está precisando daquilo e que, em algum momento, será usado de forma mais constrangedora ainda.

Sempre torço, na farmácia, para ser um homem no caixa. Nada de machismo. É que as moças olham pra gente de duas formas: 1) romantizando o momento, me achando um fofo por fazer isso ou 2) com um ar de reprovação, já imaginando a besteira que estou fazendo, pois com certeza errei em algum detalhe do absorvente. O cara não. Ele olha pra gente e não precisa nem dizer nada. É um olhar de “Tamo junto”, de quem sofre as mesmas agruras dessa vida, mês a mês. Se eu abraçasse um deles depois de informar o número do meu CPF para a Nota Fiscal Paulista, duvido que ele não retribuísse entendendo meu sofrimento.

Casas Balinhas

Quando a gente chega assim, atrasado, demora mais até entender o que se passa. Ele havia dividido a ‘lousa’ em três partes. Não havia giz. Utilizou os dedos mesmo para rabiscar por cima da gordura do vidro, que serve de divisória no ônibus. Estava explicando que o processo se divide em: Compra, Venda e Lucros. Ele compra as balinhas e doces, vende e obtém os lucros. “Mas calma, minha gente… é lucro ou são lucros?”

A classe estava vazia. Ele só dava aula para o fundão do ônibus. O casal do último banco era quem mais participava. “Então, o que vocês acham? Lucro ou lucros?”. Como em toda classe, alguém responde timidamente: “Lucros…?”, meio sem saber se estava respondendo ou perguntando. “Isso mesmo, lucros!! E vocês sabem o por que? Se eu comprar por um valor x e vender por um valor 2x, é lucro. Mas se eu vender em cima do prazo de validade, por exemplo, é só lucro. Ou se eu vendo só os doces das Casas Balinhas ou Lojas Marabalas [as duas empresas são minhas], mas sem oferecer nada a mais, ainda é só lucro, pois vocês podem comprar em qualquer lugar. Mas e se eu dou uma aula, explicando que a minha meta mínima é vender R$ 3 a cada 20 minutos? Veja, é o mínimo que eu quero vender. São R$ 9 por hora, e eu procuro sempre trabalhar 10 horas por dia!” Nesse momento, com todo o meu rápido raciocínio em matemática [que se assemelha ao de um aluno da 2ª série do Ensino Fundamental], pensei que são R$ 90 por dia e que se ele trabalhar apenas de segunda a sexta, consegue tirar R$ 1.800 por mês. “Uou”, falou uma voz dentro do meu cérebro.

Ele continuou “Esse é o mínimo da minha meta. Mas em 20 minutos eu posso pegar, digamos, até três ônibus. Sendo assim, o que eu ganharia em uma hora da minha meta mínima, eu já ganhei a mesma coisa em apenas 20 minutos”. Nesse ponto eu desisti de fazer conta e prestar atenção nele, mas meu cérebro, mais uma vez, [ele tem vida própria, é um ser à parte de mim], disse “É Gabriel… é muito dinheiro”. [Para poupar você de fazer conta ou pegar a calculadora, com três ônibus em 20 minutos, ele faz R$ 27 e até R$ 5.400 em um mês. De segunda a sexta, apenas.]

“Quando eu nasci, meu pai falou pra mim: ‘Filho, você é pobre e feio. Sua única saída é você aprender a se comunicar’. Foi o que fiz. Abri a Casas Balinhas e Lojas Marabalas e aqui estou… foi mais legal essa minha aula ou ouvir ‘Eu podia estar matando, eu podia estar roubando’, ainda por cima cheio de erro de português?”. “Mais legal!”, respondeu a classe. “Então, quem vai querer comprar alguma coisa?”. Ao invés do tradicional silêncio ou resmungos do tipo “Putz, hoje não tenho nada” todo mundo queria comprar alguma coisa. Enquanto sorria, pensei que ali ele vendeu mais do que R$ 3. Quando o empresário dos doces desceu, o cobrador falou para o motorista: “Esse é um cabra que sabe se comunicar… sabe falar e gosta d’uma conversa, né?”. O motorista: “Demais… e ainda ganha mais dinheiro que a gente”. O cobrador ficou com uma cara pensativa, mas não soube o que falar.


Eu nunca tinha visto essa combinação… sublime

Foi a criança mais linda que eu já vi em toda a minha vida. Ouso dizer que a pessoa mais linda. Era um menino negro, com síndrome de Down. Eu nunca tinha visto essa combinação… sublime.

A primeira vez, ele estava com um violão de brinquedo no colo, sentado no banco da janela da lotação. Não lembro se ele me viu, mas eu não conseguia tirar os olhos dele. Quando vi que a mãe reparou nisso e me olhou estranho, dei um sorriso amigável, como quem diz “Parabéns. Seu filho é lindo”. Perguntei pra ele se tocava violão e ele disse que sim. Ficou meio acanhado, mas aquele pouco bastou para eu nunca mais esquecê-lo. Eles desceram um ponto antes do meu.

Imagine então o dia em que o encontrei de novo. A mãe dele me reconheceu e cumprimentou. Ele se ofereceu para segurar minha mochila. Desliguei o iPod, enrolei os fones e ele esticou a mão, com a palma virada para cima, para eu entregar-lhe o aparelho. Não hesistei. Entreguei sorrindo, ele abriu minha mochila, guardou e levou uma bronca da mãe… “Ô rapaz… te ensinei que não pode ir abrindo assim”. Eu sou mestre em estragar os filhos dos outros e respondi: “Tem problema nenhum… Qual seu nome?”
- Gabriel
- … [segurei o choro] Que nome bonito… sabe, eu também me chamo Gabriel.
Ele abriu o sorriso, junto com a mãe, que nesse momento se levantou, pois o ponto deles estava chegando. Ele envolveu os braços no meu e apoiou a cabeça um pouco abaixo do meu ombro.
- Gabriel, vamos! A gente vai ter que descer.
- Não.
- Gabriel, vamos!!
- Não
“Minha senhora, eu vou descer nesse também”.
- Mas é o seu ponto?!
“Claro… como não seria?”
Eu estava atrasado, mas, naquele momento, fazia muito mais sentido não deixar o Gabriel causar com o motorista da lotação do que chegar no horário no escritório.
Descemos os três, ele de mãos dadas comigo. Só soltou-a em dois momentos: primeiro para cumprimentar um segurança na calçada, que parecia ser amigo dele de longa data. Nos 4 ou 5 quarteirões que caminhamos, ela me disse que ele tinha 8 anos e que eles moravam em Paraisópolis. Contou também que tinha mais 3 filhos: uma de 25, uma de 20 e um de 13.

Na segunda vez que em que ele soltou minha mão foi para se despedir de mim. Eu agachei, ele se aproximou, me deu um beijo e disse “Tchau, amigo”. Eu não consegui responder. Mas Gabriel é do tipo que entende que certas lágrimas dizem mais do que qualquer “Adeus”.

Amigôô!

Passei a catraca em direção ao trem e ao longe avistei um oásis: Dog Prensado / 2 Salsichas / R$ 1,19. Tem coisas que só a Barra Funda faz por você, pensei. Logo após as catracas, como todo mundo, passei apressado e não o vi, mas ouvi. Um som que vinha de dentro, das entranhas. Som azedo, de que alguma coisa não está boa. “Amigo, precisa de ajuda?”. Mais grunhidos. “Amigôô! Quer que chame alguém?! Você está bem?”.
- Minhas coisas estão ali no canto… já estou esperando.
“OK, mas se quiser alguma coisa, fale…”
- Não, não é nada [UUUURRRRGGGHHH]. Acho que comi alguma coisa numa barriquinha ali em Osasco que não me fez bem. Estou com umas pontadas no estômago que não estou agüentandUUUURRRRGGGHHH.

A moça com uniforme da CPTM chega mais perto e mexe a boca, sem emitir som: “Está OK. Já chamei. Pode ir”.

OK, Deus, aviso recebido.
Nada de dogão prensado hoje.

Faz as contas, por favor

Estava no ônibus conversando com Dª Itamar. Havia acabado de conhecê-la. Mora em Bertioga e está em São Paulo para um tratamento médico. Bertioga é uma cidade bacana e tal, com praias, mas, segundo Dª Itamar, não tem nada. Falta atendimento médico de qualidade, escolas, faculdade e emprego. Os jovens de lá não têm muita perspectiva, então têm que procurar emprego no Guarujá, em Santos, etc. E quando ela vem pra cá, fica na casa da filha. Dª Itamar tem filhos entre 30 e 45 anos, mas não parece ser uma senhora de mais de 60. Uma vez, no supermercado, a moça do caixa disse que ela não podia ficar naquela fila especial. Ela tirou o RG, entregou pra moça e disse “Faz as contas, por favor”. A moça teve que pedir desculpas, igual ao cara no banco, que disse que Dª Itamar não podia, também, ficar naquela fila. Ela é uma senhora criativa. “O senhor sabe que eu tenho uma deficiência física?”
- Opa, não senhora. Desculpe…
- O senhor quer saber aonde eu tenho?!
- Não, senhora, por favor… não.

Ela me contou que teve câncer de mama, precisou tirar um seio, mas que hoje está tudo bem. Um pouco antes de ela me dizer isso, perdi a atenção da conversa. Na parte da frente do ônibus, uma senhora de mais de 70 anos sofria para manter-se em pé com tanto balancê. Em frente a ela, uma mulher de no máximo 40 anos, não se movia. E não era daquelas que fingiam estar dormindo para não dar lugar. Ela estava sentada de frente para senhorinha, olhando para ela e não fazia nada. Eu e Dª Itamar estávamos no primeiro banco depois da catraca. Assim que aquela mulher passou, aproveitando um brake na nossa conversa, eu bem que tentei, mas não consegui me conter:

- Moça, da próxima vez, dê lugar à senhora…
- Oi… desculpe?
- Eu disse para você, da próxima vez, pensar um pouco mais na senhora que está em pé e dar lugar pra ela! Não faz sentido, né?
- … [virou o rosto e fingiu que aquela conversa não existiu]

Reparei que ela carregava um livro, “Conversando com o Espírito”. Faltou ela olhar menos para dentro e falar mais com o ‘mundo’.