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Um vassalo feliz

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“Tenho por meu palácio as longas ruas,
Passeio a gosto e durmo sem temores…
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua…
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.”

Álvares de AzevedoSpleen e Charutos, capítulo 3, Vagabundo

Já fui rei. Minhas terras se estendiam até onde os olhos da imaginação conseguiam enxergar. Soberano, não era uma questão de reconhecimento: como toda monarquia era de direito meu, sem contestações. Rei é rei, e pronto. Claro que reis nascem, não tem isso de geração espontânea, mas qualquer vassalo já nasce sabendo quem é seu rei. Inquestionável. Se o rei morre antes do vassalo, vem outro, mas impávido da mesma forma. Inquestionável.

Construí territórios, expandi o reinado. Precisei trocar de trono por não caber tanto ouro e ornamento em meu pescoço e braços. Sem falar no peso da coroa. Sem ninguém questionar.

Porém, o peso do ouro não era cotado na bolsa de valores. Não havia lastro para meu ouro e pedras preciosas. Poeta e lúdico, já cheguei a contar uma história que aconteceu comigo, em uma mesa de bar, sendo desmentido na mesma hora por meu irmão: “Gá, isso aconteceu comigo.” Não foi maldade ou querendo roubar os créditos, mas histórias e reinos se misturam na minha cabeça. Benção e maldição, mas falo sobre isso outra hora.

E fui questionado. Dos que me dirigiram perguntas, uma única pessoa vale a pena mencionar: eu mesmo. Fui à guerra armado de perguntas, questionamentos que me levaram a desafios colocando meu reino à prova. E ele se esvaiu, como fumaça de fósforo recém-apagado. Um sopro que dissipa de forma suave, mas impávida. Inquestionável. Isso sim não tem como duvidar: você vê a fumaça se desfazendo, desaparecendo. Ninguém precisa te contar, é visível.

E invisível fiquei. Ou procurei ficar. Quando se perde um reino, para que terras correr? Mas era um reinado só meu, criado por mim, uma pátria exclusiva, só minha. Mas é isso, quis me esconder de mim mesmo. Pela primeira vez desci do trono e me olhei no reflexo das joias da coroa. Porém, não eram joias. Eram pequenas pedras, aparentemente sem valor, mas parte de mim. O que sobrou depois da fumaça se dissipar. Mas eram minhas. Aquelas pedrinhas eram eu, e estavam no meu caminho.

Mas não quis retirá-las: não eram tropeço, tampouco obstáculo. Eram pequenas e eram minha base. Podia fazer o que quisesse com elas. Descobri meu reflexo nelas e me encarei. A princípio não foi legal. Eu era rei, cacete. O que seria agora? Bem… eu seria o que eu quisesse.

Com as pequenas pedras, porém sólidas, comecei a construir algo meu. Sem fumaças, sem divagações. Deixo os sonhos e a imaginação para o que faço, não mais para quem sou ou quero ser. Com pequenas pedras, ergui uma construção humilde, longe de ser um castelo. Nem sei se quero castelos. A intenção não é essa. A intenção é construir algo meu, de verdade, por menor que seja, mas real.

Hoje consigo ser mais do que pedrinhas que me refletem. Sou menos rei do que já fui, mas pelo menos sou feliz, de verdade. Um vassalo feliz. É possível.

Quem vai virar o jogo?

Fiquei pensando em um jeito de começar esse texto, com alguma analogia ou de onde veio a ideia, mas às vezes a melhor maneira para um início é ir direto ao assunto [desconsiderando, claro, essa minha introdução]: quando nos oferecemos para segurar a bolsa ou a mochila de alguém no ônibus achamos que estamos ajudando o mundo a ser um lugar melhor. Mas você acha isso mesmo? De coração? Pois eu não acredito.

Claro, existe uma pessoa ali do nosso lado, carregando o peso de seus acessórios e nossa ajuda possibilita que ela se segure melhor nas barras e se desequilibre menos, tirando um peso dos ombros e até ajudando o fluxo de passageiros no corredor. Mas por que a gente não se levanta e oferece nosso lugar? Por que a gente se contenta em segurar a sacola pesada e acha que isso é o suficiente? Não estamos fazendo nada de ruim, mas não estamos fazendo nosso melhor. E isso me incomoda.

Estamos satisfeitos em só fazer o mínimo esforço necessário para que a nossa ajuda não chegue a nos prejudicar. E toda vez que me ofereço para segurar a mochila de alguém, me sinto sujo. Pois sei que eu poderia ser melhor do que aquilo. Eu só não quero ser. No fundo, eu escolho não ser melhor.

E estou cansado disso. Cansado de me satisfazer com o suficiente para aliviar minha culpa, aliviar o peso da pessoa, mas não fazer tudo, exatamente tudo o que estava ao meu alcance para facilitar a vida da pessoa ou ajudá-la de forma completa. Apenas o necessário para não ter eu que ficar em pé; não ser eu a ficar incomodado, apertado e esbarrado no corredor. De que vale uma entrega de si, se ela não é completa? De que vale a oferta de uma ajuda se eu não fiz tudo o que podia? “Ah, mas pelo menos você fez algo, diferente de quem não faz nada”. Pode ser, mas isso não me convence mais. Quando você percebe que por preguiça de ser melhor você não é melhor, não tem mais como se enganar.

Se eu não posso oferecer o meu melhor como ser humano, então retiro o meu direito de esperar o melhor da humanidade. Algo precisa mudar. Ou eu, ou a minha esperança.

Mas aí tem isso, d’eu querer fumar meu cigarro em paz no fim do dia

Ao acender o cigarro, percebo como o ambiente já está cheio de fumaça. Meu impulso é reclamar, já que ela me incomoda, e muito.

Comecei a fumar recentemente. Sempre fui desses ativistas cheios de argumentos que provam que não é legal fumar cigarros. Os motivos são vários, comuns, clichês e, por isso, verdades. Mas também vi os benefícios que me traziam. Minimizar complicações, um refúgio e fuga rápida, além de tantos outros clichês de quem não consegue deixar o cigarro.

Mas aí tem isso, d’eu querer fumar meu cigarro em paz no fim do dia, no bar que costumo frequentar, lugar gostoso, mas a fumaça de todos os outros me incomodarem. Queria que o dono do estabelecimento desse um jeito nisso, sério. Tem gente demais fumando. Ficou fácil, sabe? Qualquer um pode chegar com seu cigarro, ainda mais com incentivo à indústria, né? Reclamo da fumaça de cigarro, mas o que me incomoda são os outros. O meu? É meu, oras. Levo para onde quiser, uso do jeito que quiser.

Agora faça um exercício e troque o cigarro por carros. Eu não fumo, nem tenho carro. Mas acho engraçado (só que não) que as pessoas que mais reclamam do trânsito são as que fazem parte do próprio trânsito. Saem de seus carros xingando a cidade, a infraestrutura, as vias, o prefeito, os outros motoristas e a quantidade de carros, tirando da conta seu próprio carro.

Claro que a cidade precisa melhorar. Claro que o prefeito não é dos melhores (e um dos piores). Claro que a nossa cultura do asfalto blablablabla.

Mas acho legal quem: 1) Evita reclamar 2) Evita ter carro. Fora isso, você não tem razão. Você é o trânsito.


foto: Daigo Oliva

Na linha branca


É ali que as sirenes silenciam. Acho que nunca tinha visto isso, sem que a viatura (fosse da polícia ou uma ambulância) chegasse ao local do atendimento. Ali não. Elas silenciam pois voltaram, não porque chegaram. Sei que voltaram, mas não sei como estão as pessoas dentro daquela gigante caixa branca sobre rodas, cheia de aparelhos eletrônicos por dentro, para manter o paciente vivo até que os médicos tomem conta.

Foi ali que um querido conhecido também silenciou. Um dia simplesmente seu coração não cantou mais e o silêncio dele fez coro com o silêncio das ambulâncias que chegam ao complexo do Hospital das Clínicas. Passo por ali diariamente. Descobri que é mais rápido do que o caminho que fazia, ganho quase 10 minutos. Tenho conhecidos que não gostam do trajeto, justamente por considerarem triste demais. E estão com razão, principalmente os que também perderam alguém ali. Não há como (nem porquê) contrariá-los.

Ao caminhar hoje cedo por aquela rua, percebi que essa perda me fez mais sensível ao sofrimento do próximo, ainda que eu seja menos impactado. Antigamente, ficaria muito mais incomodado, quase que querendo fugir daquele cenário. Hoje consigo transitar sem me surpreender – talvez a palavra seja essa. Sou impactado, fico triste, mas não me surpreendo.

Porém, ao final da rua, percebo ambulâncias que saem para a Rebouças, ligando suas sirenes, abrindo caminho em meio ao trânsito de São Paulo, para chegar o mais rápido possível a seus destinos. O ligar das sirenes é o nascimento também de uma esperança, de trazer vida a quem está prestes a perdê-la, até mesmo de entregar de volta, a quem possa ter perdido e eles poderem dá-la de volta, uma nova chance.

Um amigo tornou-se pai, recentemente. Todo o pré-natal de sua esposa foi feito ali, no complexo do HC, bem como o nascimento da pequena que nasceu saudável, ainda que tenha passado por uma gravidez um tanto quanto delicada. Graças ao cuidado do hospital, o parto foi absolutamente tranquilo e uma nova vida nasceu.

Não há privilégios ou distinção. Assim como as sirenes que, ali, são ligadas ou silenciam-se, vidas partem e vidas nascem. O problema é quando paramos de reparar nas sirenes e deixamos de ouvi-las. Abra os olhos e ouça a canção que elas tocam. É caótica, às vezes parece fora de ritmo e sem melodia, mas é possível compormos algo. Se tivermos sorte, conseguiremos tocá-la para alguém ouvir.

Você já ouviu sirenes hoje?

Feriado de quarta-feira

Claro que podia ser melhor. Poderia ser na quinta ou sexta, para emendar. E estou longe de ser o porta-voz do “Jogo do Contente”, da mala da Pollyanna. (Pra quem não conhece, ele consiste em ter um ponto de vista positivo para tudo na sua vida. A Pollyanna, por exemplo, espera ganhar uma boneca de Natal, mas recebe um par de muletas. O raciocínio do pai, com quem ela aprendeu? “Veja pelo lado bom… você não precisa delas!”).

Então um feriado na quarta-feira é melhor que nenhum, mas não é esse o motivo d’eu gostar tanto dele. É pela concretização de uma utopia. Todo mundo que trabalha acha que o final de semana poderia ter um dia a mais. Acho bem difícil isso mudar, deixando-nos em casa três dias seguidos. Claro que quarta-feira deixar de ser dia útil também, mas é o gostinho que tenho de, por um dia, viver como se aquilo fosse verdade.

Veja bem, você começa a segunda reclamando da semana que começa, na terça ainda tem aquele gosto rançoso da segunda e quando você menos percebe, opa!, já é quarta, feriado. Dá pra marcar um happy hour mais longo na terça e no dia seguinte, apenas curtir a morgação. Ficar de boréstia no pós-almoço, dar uma volta, ver um filme, tomar uma cerveja com os amigos e ir dormir cedo. O dia até termina com aquela sensação triste de fim de domingo (que dizem existir, eu não tenho, mas você precisa se identificar com o texto pra continuar lendo).

Você dorme e POW, é segundops, não, é quinta! Que maravilha, amanhã já é sexta. São tantas as possibilidade de emoções, por termos apenas um dia de descanso no meio da semana, que não tem como não ser divertido. Como disse, é claro que feriado prolongado nos dá uma chance de viajarmos pra mais longe, sem bate-volta, descansar mais dias e tal, mas pô, é um feriado, sabe? A gente tem tanta emenda, é só mais uma semana qualquer… só que não, não é uma semana qualquer, justamente por ter um diazinho ali no meio dando sopa.

Sem contar que a gente reclama demais, né? Me peguei irritado pelo modo como minha mãe estava folheando um livro meu e como aquilo foi desnecessário. Claro, gosto de ter cuidado com as minhas coisas, para que durem, mas cara… É só um livro, saca?

É só um feriado… e a gente reclamando. Desvirtuei um pouco do assunto e, já que não sei mais como encerrar esse texto, deixo um vídeo muito bom, sobre como tudo é maravilhoso e ninguém está feliz (em inglês).

Carta aberta a Sabine Araújo

(para entender, leia o post dela antes.)

“É como perder alguém”. Interessante como você não pensa no ‘alguém’ até que seja, de fato, alguém para você. Já falei aqui, algumas vezes, sobre isso. Já perdi também todas as músicas do iPod… Sei o que é isso, Bine.

Ctrl+A para selecionar tudo e “delete”, achando que estava apenas em um artista específico, querendo apagar as músicas só dele. Voltei aos afazeres, quase 10 minutos depois ouço o barulhinho do iTunes. Tinha esquecido, estranhei a demora. Fui ver, e zerei meu iPod com 80Gb de música, sem nem poder colocar minhas iniciais no final, igual no fliperama.

Tenho back up de todas elas. Não perdi, de fato, nenhuma música tão importante. Perdi também uma playlist, menos especial que a sua, Bine, mas que ainda assim doeu. Quase chorei. Era a playlist =), assim mesmo, um sorriso, com as músicas que sempre me deixavam bem. Foi mais de ano selecionando cada uma, e incluindo na lista. Mas refiz.

Comparar a perda de alguém (hoje, infelizmente, existe um ‘alguém’ que perdi) com perder músicas seria infante e pequeno demais, sem cabimento até. Mas concordo, Bine, que a música mexe com a gente de um jeito inexplicável, por mais que expliquem. Comove, incendeia, acalma, atiça, desespera e alegra.

Por isso, entendo sua dor em perder essa playlist. São os grandes detalhes, de ter sido feita naquele momento, com aquele intuito e ter servido a você tantas vezes, de diferentes maneiras. “The little things… there’s nothing bigger, is there?”. Maldita ironia, eu sei.

Mas a gente refaz playlists, minha amiga. E sei o que está pensando (e tem razão): nunca serão a mesma coisa. Mesmo que Jansen se esmere em remontar aquela tão especial, de forma fiel, com todas as músicas, talvez elas não fiquem na mesma ordem. Talvez você sinta falta de uma ou duas, mesmo tendo certeza que eram 27 músicas e há 27 músicas ali.

Mas a gente refaz playlists, mesmo sabendo que não serão iguais, ou chegarão aos pés da anterior. Novas canções começam a fazer parte da nossa vida, Bine. A gente começa a gostar de canções antigas, aproveita o momento e exclui outras, ouve uma nova que parece conhecida e ouve conhecidas como se fosse a primeira vez.

“Nunca mais será a mesma coisa” é o que vai martelar, e nunca deixará de ser verdade. A mesma coisa, não mais, mas outras coisas serão. Outras músicas tocarão. Conheceremos novas canções e novas playlists serão criadas. Nem chegarão aos pés daquela, mas nem por isso deixarão de ser importantes.

Se deixe livre para a reconstrução, para novas listas montadas, para novos momentos importantes. Lembrar que “nunca mais será a mesma coisa” é importante: mostra que precisamos, então, de novas coisas, pois as antigas já não temos.

Boa caminhada, guria.

Casar é fácil. Difícil é ficar casado

- É difícil casar, né?
- Não… casar é fácil. Difícil é ficar casado.

Postei essa conversa no Facebook e a discussão se dividiu entre os que concordam ser difícil e os que disseram “Ah, não acho. É muito gostoso estar casado”.

Outros vieram me perguntar se estava tudo bem no casamento. Um amigo disse que apenas se preocupava com minha esposa ler aquilo e se sentir constrangida. Ou a frase fora de um contexto não fez muito sentido ou as pessoas não entenderam muito bem.

Veja esse vídeo:

Between Yellow Lines from Max Esposito on Vimeo.

Gostoso, né? Lindo. Garanto que é uma delícia, já que tenho um long e pude experimentar, algumas vezes, a maravilhosa sensação de descer uma ladeira em cima do shape ou dar algumas remadas e deixar o skate deslizar por um concreto liso.

Mas não é fácil. Pede dedicação, paciência, persistência, muito treino e prática ainda mais. Você cai, quebra braço e clavícula, sua frio achando que vai ser atropelado em um cruzamento porque não sabe parar, mas é maravilhoso. Uma das melhores sensações é descer uma ladeira de long.

Já deu pra sacar a analogia? O casamento não é uma ladeira, onde existe alternância cadenciada de “descer, curtir, chegar lá embaixo e ter que subir de volta”, sendo essa a parte difícil, pontuada e clara.

Imagine o casamento como uma cidade: cheio de ladeiras, retões, descidas íngremes que dão medo, ladeirinhas tranquilas para curtir o passeio, subidas onde a gente tem que descer do skate e carregá-lo nos braços, quedas, terrenos onde o skate parece não deslizar e precisamos ficar remando – caso contrário o skate para em 2 segundos -, mas sempre uma aventura, sempre valendo a pena.

Andar de skate é difícil. Há quem tenha mais ‘dom’ para isso, é claro. Outros precisam se esforçar mais. Porém, uma coisa é igual a todos: ficar em pé no skate é fácil. Difícil é sair andando e se manter em pé (ou aprender a cair), praticar sempre, não escolher ficar sentado no sofá em casa, em vez de ir pra rua e dar o melhor de si no shape.

ps.: O amigo que comentei, preocupado com meu casamento, está junto de sua esposa há 30 anos. Quando perguntou sobre a frase que postei, questionei: “Sem hipocrisia: é fácil?” Ele me respondeu, rindo, que comentou com a digníssima e a resposta dela foi: “Ué, mas não é verdade?”

O choro inconsolável

Como homem, fui programado para consolar choros alheios. No mínimo, tratavam (professores, tios, educadores, pais) meu choro como algo a ser resolvido. Havia um problema, havia o choro, era necessário achar a solução. Digamos que fui constituído dessa maneira.

Por isso, ao ser apresentado ao estilo de choro inconsolável, não sei o que fazer. “Mas você não tem que fazer nada”, dizem. Eu sei, é óbvio. Mas, como falei, fui constituído assim. Convido-o(a) a ir contra sua constituição, uma qualquer que seja. Me conte depois como foi.

Seria bom jogar a bomba e terminar o texto ali, mas acontece que o choro inconsolável não para. Por todos os lados, de diversas maneiras, por inúmeros motivos, vejo pessoas chorando inconsolavelmente. Eu mesmo já experimentei o gosto da lágrima que desce não salgada, mas amarga, de um choro compulsivo.

“E o que fazer?”, é a pergunta que me enche o saco, mesmo racionalmente sabendo que nenhuma ação minha será eficaz em consolar esse choro desgraçado (minha mãe me ensinou a nunca chamar alguém de desgraçado, mas, peço licença, mãe, para o caso, já que é um choro desprovido, sim, de qualquer graça. Abandonado e desamparado).

Mesmo não tendo resposta para uma pergunta que não deveria ser feita, sei reconhecer mais facilmente, hoje, quando é esse tipo de choro. Primeiro, claro, você pensa em algo para falar e percebe que qualquer coisa será pura babaquice. Assuma: “Não sei o que dizer”. Excelente, não diga nada.

Só que ele piora: toma conta da pessoa, de todo seu corpo, que estremece a cada expiração que mistura choro, grito e desespero. Sei que é um caso de choro sem solução quando minha alma arrepia e meus olhos enchem de lágrima, sofrendo também a dor daquele choro, ainda que não seja minha dor.

Quando é esse o caso, assumi que vou simplesmente abraçar a pessoa, da maneira mais firme possível que ela entenda que estamos juntos. Que, embora eu não tenha resposta para seu choro, eu choro também. Eu entendo. E saiba que, se você precisar desabar em lágrimas no apoio de alguém, meus braços e meu colo estão à sua disposição. Que eu odeio o fato de não poder fazer nada, absolutamente nada, que resolva, tire ou amenize sua dor. Mas que me dói vê-la sofrendo tanto. E que se meus olhos enchem de lágrimas, não importa mais se é por sentir a mesma dor ou por doer vê-la assim. Mas que eu choro contigo e, abraçado a você, nosso choro é um. Você não está só.

Tamo junto.

Nada bem

Ela entrava em casa e eu não sabia o que fazer. Perguntar como estava era desnecessário, o choro mostrava que “Nada bem”. Foi uma das épocas em que mais me senti perdido, sem ação, sem saber como confortá-la, o que fazer para que ela não sofresse ou até sofresse menos. Mas não tem como. Não tinha nenhuma palavra, não tinha como dizer qualquer coisa que ajudasse a melhorar o sentimento dela de “Estou perdendo meu pai e não posso fazer nada”.

Qualquer que seja sua religião, tendo você uma ou não, é fato: não existe palavra nenhuma para dizer em momentos assim que ajude a pessoa a sofrer menos. Aprendi a abraçar e dar apoio, em silêncio. Respeitar o sofrimento, mas sofrendo junto. Desisti de buscar palavras (sou jornalista, guardo o máximo delas que posso, para os textos e as ocasiões necessárias, mas não encontrei) e me deixei chorar junto.

Ela entrava em casa chorando, voltando do hospital, e eu apenas abria meus braços, para que ela pudesse chorar em mim, sabendo que não estava sozinha, e que eu sofria junto. Que o sofrer dela era meu sofrer e que “Estou com você… estamos juntos” era o melhor que eu podia fazer, nem precisando dizer.

Por isso, quando estávamos no metrô e o trem passou pela Estação das Clínicas, pegando uma mulher que sentou e desabou a chorar, ela disse: “Sempre vejo alguém chorando aqui nessa estação. Lembro quando eu saía daqui também, pegava o metrô nessa estação, e ia para casa chorando, o trajeto todo”. Perguntei se ela queria parar e falar algo com a moça cheia de lágrimas. “Falar o que? ‘Isso, pode chorar’? Ela já sabe”.

Pensei em dizer “Sei o que é isso, tem quem sofra com você”, mas ela continuaria seu caminho sozinha. Acho que ainda não aprendi a lidar com o sofrimento humano. Talvez nunca aprenda.

Na esperança de expurgar meus demônios

Já aprendi que mesmo rodando todo o ambiente de um comércio (supermercado, por exemplo), não vou encontrar o que procuro, mesmo que já tenha passado pelo corredor do produto. Então, logo que entro já pergunto onde está o que preciso. “Bom dia, onde estão os cotonetes, por favor?” Essa foi a pergunta que fiz, mas só depois de ter percebido que havia falhado como ser humano, mais uma vez.

Entrei  na farmácia e, procurando alguém que trabalhasse no local, vi uma guria baixinha, de costas, que parecia estar de uniforme, com a camisa de um tom muito parecido com a calça jeans. Na minha cabeça só pessoas de uniforme combinam camisetas com a calça jeans, e eu estava certo, mas também errado.

Quando ela virou pude ver que era uma moça com síndrome de Down , a suspeita dela trabalhar ali caiu e fiz a pergunta para a atendente do balcão. Meu erro, que engano. Ao passar por ela, já falando com a outra funcionária, percebi o logo da farmácia em sua camisa.

Neguei meu instinto, de achar que fosse uma funcionária só porque a moça tinha síndrome de Down. Na minha cabeça preconceituosa ela não poderia ser uma funcionária da farmácia devido a seu distúrbio genético. Quanta babaquice.

Já fora da farmácia, ainda com vergonha de mim mesmo, fiquei pensando o motivo daquilo. Primeiro achei que é culpa da sociedade e das empresas, que não contratam cadeirantes, pessoas que tiveram paralisia infantil ou com Down, deixando-nos mal acostumados. Mas culpar o outro está na essência, né? Foi culpa da Eva, a cobra que me falou.

Em seguida assumi que era um preconceito que tinha e pouco importava sua raiz. Fiquei querendo voltar e falar algo para ela, pedir perdão, mas como estava de costas, não sei nem se ela percebeu que eu ia em direção a ela e mudei de ideia. Mesmo assim, se percebeu, não sei se seria o melhor jeito de me redimir, podendo constrangê-la ainda mais.

Nessas horas é que a gente sabe o tamanho do vacilo, medido pelo tempo em que ficamos pensando (e sofrendo) com isso. Não voltei à farmácia ainda e, mesmo que já arrependido, o perdão é o único libertador.

Talvez fique preso a esse sentimento para sempre, nunca podendo trazer o assunto à tona com quem realmente importa, já que não sou alguém próximo a ela. Pode ser até que seja uma coisa boa, para não esquecer o quanto consigo ser preconceituoso.

Vai ver, é por isso que escrevo, na esperança de expurgar meus demônios. Boa sorte com os seus.