A primeira vez que tive contato com a expressão ‘pleasure delayer’ [retardador de prazer] foi no filme Vanilla Sky. Não existe uma definição. Mas o nome é um pouco autoexplicativo. [Desculpe, sou jornalista e preciso treinar essa (já famigerada) reforma ortográfica. Aliás, já falei o quanto gosto dessa palavra, né? 'Famigerado'. Um dia, quando tiver conteúdo suficiente, escrevo um texto sobre ela]. Enfim, é alguém que deixa o prazer para depois, mas não por preguiça ou por não estar afim no momento. É simplesmente uma técnica para saborear os momentos aos poucos.
Exemplo: alguém lembrou de você e te comprou uma trufa de Nutella [sim, elas existem]. Você a recebe de manhã. Se você for um retardador de prazer, não a comerá na hora. O mínimo será deixá-la para depois do almoço, como sobremesa. Mas os pleasure delayers puristas não a comerão nem depois do jantar! Ela será guardada para aquele dia especial. Não em um domingo qualquer. Mas um dia realmente especial. Pode ser que fique guardada até o Outono, para ser apreciada [ela não é simplesmente comida] em um dia de friozinho, final de tarde, as folhas caindo e o céu laranja.
A trufa é um exemplo. Existe quem faça isso com relacionamentos, por exemplo. Conhecer alguém e, mesmo que à primeira vista role uma química que nem a Química explique, não dar nem um selinho na hora de se despedir. Nem falar, claramente, sobre o momento. Apenas insinuações. Indiretas reais. Para quando você estiver no ônibus de volta para casa, ouvindo Death Cab for Cutie no iPod, não saber direito se aquilo realmente existiu ou se foi coisa da sua imaginação. Os retardadores de prazer curtirão essa sensação ao máximo! E então… em uma noite, uma tarde ou uma manhã… poderia levar meses para acontecer.
Quando assisti Vanilla Sky e vi isso sobre ‘delay your pleasure’ [atrase seu prazer], de certa forma, me encantou. Porque eu nunca fui assim. Se eu ganhar uma trufa de Nutella o “Obrigado” será já mastigando um pedaço dela. E retardar os prazeres me pareceu algo muito bonito. De apreciar cada momento e perceber o quão especiais eles são. Por isso, passei a me esforçar para ser assim. Tentava ‘esticar’ o momento, ser mais indireto e fazer o ‘joguinho’. Mas rapaz, como eu sofria. Era praticamente contra a minha essência. Foi bom para aprender a não sofrer tanto quando as coisas não acontecessem imediatamente. Aprender a ser paciente, menos angustiado e ansioso. Minha história com Carolina tem um pouco disso e foi muito divertido. Mas tentar ser assim sempre, com tudo, era sofrimento demais.
Um dia descobri [e decidi] que não queria mais ser assim. Não adiantava sofrer por algo que eu achava que poderia ser melhor do que eu era. É aquela fase em que você para um pouco de lutar contra quem você é e aprende a lidar com seu jeito de ser. Vi também os benefícios que isso trazia. Sei de casos onde a pessoa ganhou, por exemplo, uma caixa de Alpino e queria tanto saboreá-los ao longo dos meses que eles um dia simplesmente mofaram. E não foi por esquecê-los no fundo da gaveta. Todo dia a pessoa olhava para eles e pensava: “Nossa, que maravilha esses Alpinos. Meus chocolates preferidos! Acho que vou comer um agora… ou não? Melhor não. Melhor deixar para um dia mais especial”. Certeza que dias especiais essa pessoa teve, mas não tantos, talvez, como gostaria. Porque os bombons simplesmente mofaram.
Eu não suporto emails com Power Point. Daqueles em que contam uma historinha, ou querem passar alguma lição de vida. Mas, invariavelmente, eu leio alguns. Na esperança de que algum dia um desses será, realmente, importante e acrescentará alguma coisa na minha vida. Pois bem, esse dia chegou [faz um tempinho já]. Abri despretenciosamente o Power Point e ele não havia música. Um ponto positivo, logo de cara. E a apresentação começava falando de um homem abrindo a gaveta de sua mulher e tirando um embrulho de dentro dela. Nele havia um vestido, que a mulher havia comprado para poder usá-lo em uma ocasião especial. Mas esse homem estava justamente tirando o vestido do embrulho para poder enterrá-la [calma, vai ter um sentido]. O texto então discorria sobre o fato de deixarmos perfumes e roupas, por exemplo, para momentos especiais. Como aquele perfume que você mais gosta, não utilizá-lo no dia a dia, só porque ele é especial. Eu tinha um perfume desse. Acabou outro dia, justamente depois de ter lido esse email. Justamente porque pensei que eu poderia simplesmente não estar vivo no dia seguinte e ficaria um vidro de perfume em cima da estante, pela metade. Meio cheio ou meio vazio, tanto faz. O fato é que eu teria me privado de algo que eu gostaria de ter feito apenas porque segunda-feira não era um dia especial de usar o perfume. [Recentemente experimentei um dia como se fosse o último. Está publicado aqui.]
Como disse, foi o primeiro email com Power Point que realmente me fez parar para pensar em seu conteúdo. À partir desse dia voltei um pouco ao que eu era. O perfume terminou por causa disso. Quando tinha vontade de usá-lo, não me negava. Não precisava esperar o dia especial chegar para usar o perfume, mas ele se transformava em especial por causa do perfume. É como o caso da trufa. Não é preciso esperar chegar o dia especial de comer trufas. O fato de você ter sido lembrado por alguém que te comprou uma trufa de Nutella já faz daquele dia algo muito especial. E, para celebrá-lo, nada melhor do que brindar com a trufa recebida.
A vantagem é que, dessa forma, cada pequeno acontecimento do seu dia é uma [grande] oportunidade para torná-lo especial. As possibilidades para você viver mais dias especiais estão sendo dadas – de presente, de graça – a todo instante. A grande chance é que você não precisa mais esperar o seu dia especial chegar. Ele está latente e potencialmente possível, diariamente. Não precisa esperá-lo chegar. Depende apenas de você ‘acioná-lo’. Ele está aqui já. Hoje. Abra los ojos.
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UPDATE: O texto foi baseado após uma conversa com a Sabine. O que quis dizer com o texto [sem dizer no texto] é que há uma arte em se viver. Seja retardando os prazeres, seja vivendo-os na hora em que são entregues. O texto não é uma ideia para combater a dela. Muito menos a ideia dela combate a minha. Esse só é o melhor jeito que aprendi pra viver, com as minhas características já incorporadas ao que sou. O meu melhor não é, necessariamente, o seu melhor. A graça na vida é poder aprender novas artes e agregar à sua própria arte de viver. Se a sua ideia for essa, seja benvindo[a].