Crônico

Entradas categorizadas em ‘eu’

Me joguei lá dentro, claro

3 Dezembro , 2009 · 1 Comentário

Sabia que eu sei nadar?, Sabe nada!, Claro que sei… você é que não sabe, Sei sim!, Sabe nada, Sei!, e vou te mostrar assim que chegarmos no hotel. Eu tinha três anos. Chegamos e a primeira coisa que fiz quando vi a piscina? Me joguei lá dentro, claro. Não, eu não sabia nadar. E o irmão mais velho de meu pai, que tomava conta de todos nós, também não. Fui salvo por um cara que estava por perto. Contam até hoje do desespero de me ver lá no fundo, só com os cabelinhos em pé, morrendo afogado.

Você sabe dirigir?, Sei, claro!, Mas sabe mesmo?, Sei! Já peguei o carro do meu pai umas duas vezes. Eu não sabia dirigir, mas só sei disso hoje. A vontade de dirigir era tanta que ter chegado na segunda marcha com o carro do meu pai em uma rua deserta de um condomínio fechado me fez dizer “Sei, claro!”. O fato é que peguei um carro em plena Zona Norte, sem nem saber mudar de marcha, quanto mais parar o carro na subida e sair com ele. Como chegamos ao destino sem bater [uns 5km depois], não sei. Assim como não sabia dirigir.

Que mania é essa da gente querer saber tudo, querer dizer que conhece tudo? Quantas vezes você já não mentiu para alguém que te perguntou: “Sabe aquela cena em O Poderoso Chefão, da cabeça do cavalo? Então, foi igualzinho!” Sei! e dá uma risada junto, sem nem fazer ideia de que O Poderoso Chefão tratava de cavalos.

A gente já tem que saber muita coisa nessa vida. Desencane. Pode assumir que não conhece, pois não será a única pessoa. Além do mais, o ser humano só conhece alguma coisa à partir do momento que conheceu. Óbvio? Não, pois tem gente que diz “Você não conhecia essa banda?! Todo mundo conhece!”. Meu velho, até alguém te mostrar, ou você ouvir em algum lugar, você também não conhecia!

No caso de um jornalista, então, é indesculpável. “Como você não sabe que três espanhóis foram sequestrados na Mauritânia?! Você é jornalista!”. Obrigado por avisar. Tinha esquecido.

__________________________

Texto publicado originalmente na coluna Miudezas, da Revista Paradoxo.

Categorias: Miudezas · eu · infância
Etiquetado: ,

Calma

18 Novembro , 2009 · 3 Comentários

foto: Oscar Segovia

Acho que estou ficando velho. Não só achei uma boa dica a do meu pai, como coloquei em prática. Interessante que ele está ficando mais novo. Depois de abrir uma conta no MSN e Skype, a nova coqueluche dele é conversar conosco via Gtalk. Minutos antes de sair do trabalho, disse a ele que não iria de carona, mas de metrô mesmo. Para andar um pouco e dar um tempo até chegar em casa. A idéia não era prolongar a chegada por não querer estar em casa, mas meu pai disse uma coisa interessante, sobre a ida do trabalho para casa, a transição, o trajeto e um monte de coisas que esqueci. O fato é que fez sentido e lá fui eu, tentar me desligar do trabalho aos poucos, andando com vagar.

Não costumo andar com pressa, mas diminuí, mesmo assim, o passo. No meio do primeiro quarteirão já queria andar mais rápido. A gente se acostuma a um ritmo e quando muda, não sabe direito como fazer do novo jeito. Forcei-me a dar passos mais lentos e mais curtos. Fui pensando no que havia feito no trabalho, o que tinha para fazer nos outros dias e reparei nas pessoas. Algumas estranharam ver alguém andando de forma tão devagar, em meio a tanta gente andando depressa e carros acelerando até o semáforo vermelho.

O mais difícil foi no Metrô, onde todos correm. Claro que há momentos em que estamos com pressa e precisamos correr. Mas nos acostumamos a estar sempre com pressa. A necessidade de estar nos lugares suprimiu a possibilidade de aproveitarmos as idas e voltas. Como para viver intensamente a vida precisamos estar nas melhores festas, estar com as pessoas mais legais, estar nos restaurantes mais desejados, o processo de ir de um lugar ao outro se tornou apenas um mal necessário. Um incômodo na nossa vida, que não pode ser desperdiçada com coisas banais.

Reconheço que o caos no trânsito de São Paulo [e o transporte público com tantas falhas] ajuda no processo de querermos ficar o menor tempo possível em ‘tráfego’. Quem, em são consciência, curte aquela fumaceira dos caminhões e o altíssimo volume dos motores dos ônibus, motos e buzinas?

Assim como meu pai sugeriu que eu diminuísse o passo, proponho que retomemos os momentos de transição. Andarmos com mais calma para chegar em casa. Nos desligarmos aos poucos das coisas que nos preocupam e que só poderão ser resolvidas daqui 12h ou mais. Darmos ‘bom dia’ e ‘boa tarde’ aos que nos olharem assustados, e validarmos a idéia de que somos loucos, sim, mas que é assim que sobreviveremos. Pessoalmente, preciso lembrar que fazemos sentido também nas passagens e não apenas nos destinos.

_______________________

Texto publicado originalmente na coluna Miudezas, da Revista Paradoxo.

Categorias: Miudezas · cidade · eu
Etiquetado: , , , , ,

Mais é menos

4 Setembro , 2009 · 2 Comentários

Você viaja e a cama fica maior. Tenho o dobro de espaço para dormir e o dobro de espaço para meus sonhos chutarem os lençóis. Tenho dois travesseiros à minha disposição e não tenho problemas com o calor das cobertas. Mas a cama é menor. Não tem tua pele ao alcance do meu braço. Não tem o cheiro de teu cabelo ao alcance do meu desejo. A casa fica sem gosto, sem cheiro, sem cor. Você é pequena, mas detém um espaço enorme na minha vida. Volta logo.

[texto publicado originalmente no 5minutos, tumblr meu e de Pedro Jansen, com pequenos textos diários.]

Categorias: 5minutos · drops · eu · relacionamentos
Etiquetado: , ,

Quando eu era moleque…

18 Agosto , 2009 · 3 Comentários

…de vez em quando chamavam a minha mãe no colégio, para uma conversinha.
Era sempre mais ou menos assim:

- olha, o Gabriel é um ótimo aluno. só tem notas boas e é muito inteligente. mas….
- é, eu sei. sempre tem um “mas” com ele.
- …mas ele fala demais.
- e eu não sei?! vivo falando isso pra ele! “tem que falar menos, Gá!”
- então, como eu dizia, ele conversa muito durante as aulas.
- ai, esse gabriel, viu?! é fogo!!
- dona Rose…
- oi.
- então, além de falar muito, ele é muito bagunceiro. incita discussão na classe, enfrenta os professores…
- enfrenta como?
- ah, desafiando, questionando, tudo quer saber o porque, quem é que disse aquilo, como é que a professora sabe e pode provar. desafia a professora a provar que ela sabe mesmo a matéria e que merece estar ali, ensinando aos alunos. [nessa hora, dona Rose tentava disfarçar o sorrisinho no canto da boca] além disso, como falei, ele conversa muito, mas as notas são excelentes. o problema é que atrapalha no rendimento dos amigos e não o dele! ele é também um pouco, para não dizer muito, indisciplinado. tem dificuldade com autoridade e em receber ordens.
- sei, pensava dona Rose, sabendo de onde tudo isso vinha.

Categorias: eu · família · história · infância
Etiquetado: ,

Carta ao pai

9 Abril , 2009 · 1 Comentário

broken-glasses_menor2Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. E sim, esse é o início da “Carta ao Pai”, do Kafka, que utilizo para minha própria carta. Só o fato de eu ter utilizado um trecho dele já deveria responder à sua pergunta. Ainda mais você ter feito justamente essa pergunta para mim. Não percebe? Somos um conto de Kafka, pai. Você, fazendo as perguntas dele. Eu, respondendo com trechos dele. Isso não te bota medo?

A mim, sim. Seria o suficiente para temê-lo, mas as coisas nunca são tão simples assim. Somos além do que uma imaginação do Kafka. Somos a manifestação de algo que só ele poderia imaginar e, mesmo assim, não conseguiu escrever. O clichê “Eu sou você amanhã” é uma piada para nós. Estamos acima dessa medida linear. Eu sou você hoje e ontem, assim como você é o que serei amanhã e o que sou hoje. Por mais que eu tente fugir, eu sempre te vejo em mim, pai. O pior [ou melhor?] é que muitas dessas coisas são conscientes, porque eu acho que é assim que eu deveria ser mesmo. Que o melhor jeito, muitas vezes, é o seu jeito. Mas em meio a esse medo e desespero, consigo perceber algo tão fascinante quanto ele. Algumas vezes me angustio e me preocupo com as mesmas coisas que você. Porém, a minha decisão é diferente. Eu penso, considero, sofro e dou o passo. Você pensa, considera e sofre as mesmas coisas, mas muitas vezes não damos o mesmo passo.

Tem quem cante para espantar os males e demônios. Para mim, sempre funcionou escrever. Mais uma vez, acho que deu certo. Para mim, e para você, pois aprendemos a respeitar nossas semelhanças e conviver, pacificamente [quase sempre], com nossas diferenças. Somos maiores que o Kafka , pai. Nossos medos às vezes podem ser maiores do que nós, mas somos mais do que o produto de um conto para uma revista mensal. Somos mais do que esse texto, ou qualquer outro que nos defina. Ninguém melhor do que nós para entendermos isso: que a metafísica é coisa da nossa cabeça e que na nossa cabeça quem manda somos nós.

Obrigado. Pelo medo e pelas brigas. Pelo cuidado e preocupação. Pelos exageros de proteção e os exageros de liberdade. Pela alegria e pelo humor ácido. Pela doçura e pela mão firme. Obrigado por que aprendi a agradecer pelos males e pelos bens. Porque só essa união fez de mim o que sou hoje. Você me perguntou porque eu afirmo ter medo de você. Já não sei mais. Vamos mudar a pergunta.

____________________________________________

Esse texto foi originalmente escrito para um concurso literário da revista Piauí. Não foi escolhido e cá está.

Categorias: conto · desabafo · eu · portfolio · relacionamentos
Etiquetado: ,

O que foi dessa vez, Gabriel?

25 Fevereiro , 2009 · 4 Comentários

A professora disse que eu não podia ficar mais dentro da sala de aula. Era um sonho de todos aqueles que não gostavam de Biologia, mas eu gostava. Mas o que eu gostava mesmo era de provocar. Alguns vão pensar “Gostava, não, né Gabriel. Gosta!”. OK, eu gosto. Mas sempre gostei, admito. Nasci assim. Naquele dia, a professora disse que eu teria que sair da sala e eu concordei. Ela se assustou por eu não ter resistido, mas a surpresa logo se transformou em ira, quando me viu pegando uma cadeira, abrindo a porta da sala e sentar logo na passagem. Tecnicamente, eu estava do lado de fora. Eu disse que gostava [desculpe, gosto] de provocar.

Entrei na sala da Dª Arlene e ela fez aquela cara “O que foi dessa vez, Gabriel?”. Nós parecíamos bons amigos, daqueles que se vêem semanalmente e batem um papo sobre o que tem acontecido nas nossas vidas. Isso quer dizer que era eu quem dizia, e só as mazelas, claro, que me levavam à sala dela.

Lembro sempre de minha mãe voltando das reuniões de pais e professores e dizer: “Gá, todos disseram que você é um ótimo aluno. Excelente nas notas, mas conversa e responde demais. E você precisa parar de provocá-los, mesmo que você tenha razão. Eles sabem que às vezes você tem razão mesmo, mas não gostam que você os questione ou os exponha assim, utilizando essa tática.” E isso antes dos 15 anos. Agora eu sei porque ela voltava com um sorriso no rosto!

“Gabriel, você vai levar essa advertência paras os seus pais assinarem.” OK, Dª Arlene, mas eu já aprendi a falsificar o visto do meu pai. Como é que a senhora vai saber que eles assinaram mesmo? Como é que esse seu método garante que eles saibam do que acontece aqui? E mesmo que eu não soubesse falsificar, e se desde a primeira vez que eu trouxe algo assinado deles, na verdade fui eu quem assinou? “Gabriel, apenas traga o papel assinado, pode ser?” Tá bom.

Mas eu nunca levei advertência por ter desrespeitado a professora aquele dia, segundo ela afirmou. Enquanto ainda estava na sala da diretora, o celular tocou e eu vi nos olhos dela o desastre. Ela ficou mais branca do que quando fumaram maconha dentro do banheiro do colégio, com um bedel emprestando o isqueiro. Ela simplesmente desligou e me disse: Gabriel, volte para a sala. Acabou de estourar a 3ª Guerra Mundial.

A gente sabe que, de fato, não houve Guerra Mundial. Depois do 11 de setembro, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, Iraque e ainda ameaçam o Irã, além de mais uma meia dúzia da lista negra. Tirando uma dúzia da Inglaterra e uns quatro ou cinco da Austrália, ninguém embarcou nessa de ‘Coalizão’.

Eu preferia ter levado aquela advertência, sem nem falsificar assinatura, do que ter visto tanta coisa acontecer por causa de outra ‘provocação’ naquele dia.

___________________________________________________________

Lembrei disso depois de ler esse [ótimo] texto do Tucori.


Categorias: eu · história · infância
Etiquetado:

Like an angel from a bedtime story*

17 Fevereiro , 2009 · 2 Comentários

Para ler ouvindo Have You Forgotten – Red House Painters.

Dois pequenos acontecimentos da minha infância:
ou
Duas grandes decepções da minha infância:

1 – O dia em que fugi de casa. Eu nunca fui revoltado com minha família. Era rebelde e indignado com a vida, de forma geral. Com professores, guardas de trânsito, juizes de futebol e qualquer autoridade. Mas com meus pais não. Ou seja, não havia muito motivo pra fugir de casa. Simplesmente achei que era uma experiência pela qual todo homem deveria passar, ainda que moleque. E para ser mais autêntico, não fiz trouxa de roupas, não levei dinheiro, nem mantimentos. Saí do jeito que estava. Como morava em um bairro tranqüilo de Guarulhos, passávamos o dia brincando na rua. Ou seja, minha mãe não perceberia até que fosse tarde demais, pensou minha cabeça fugitiva. Joguei bola, andei de bicicleta, fui o mais longe que já havia ido. Sempre tem uma parte do bairro que a gente vai que serve como limite. Mesmo que já tenha passado daquele ponto de carro, sozinho é bem diferente. Fui a lugares que nem imaginava existirem. Fiquei perambulando não sei quanto tempo. Dias, semanas. O suficiente para sentirem falta, pensou minha cabeça fugitiva. Decidi voltar para casa em um dia normal. Na hora da janta, para ser mais emocionante. Entrei em casa com aquele brilho que só os fugitivos e homens pra valer [tipo um Clint Eastwood ou Tommy Lee Jones] têm. Minha mãe me olhou surpresa e exclamou: “Gá! Que bom, chegou bem na hora da janta. Vai tomar um banho pra gente comer”. Eu fugi e voltei no mesmo dia, descobri depois. Ela até hoje não acredita que eu já fugi de casa.

2 – Eu sempre tive muito gibi
. Da Mônica, Super-Homem, X-Men, entre outros [todos, praticamente]. Lembro que certo dia minha mãe se cansou de todas aquelas revistinhas e nos incentivou a vendê-las. A primeira coisa foi reclamar e dizer o quão absurda era a idéia. Ela esperou o esperneio e disse que como a gente vivia reclamando da mesada ser pouca, seria um ‘complemento’ de nossos rendimentos. Ela nem bem terminou a frase e já estávamos, eu e Gui, separando os que seriam vendidos. O mais legal disso tudo era reler todas as historinhas. Não podíamos simplesmente nos desfazer de um gibi, se houvesse uma historinha muito legal dentro dele. Lembro de ter lido uma do Titi, onde ele tinha a idéia de vender seus gibis antigos. Colocou-os à venda no bairro e um garoto veio, deu uma lida e não quis mais comprar, dizendo “Legal! Mas agora que já li, não vou levar”. Achei muito legal o roteiro [identificação com o personagem] e mostrei para o primeiro amigo meu que chegou na nossa garagem, onde havíamos montado nossa ‘barraquinha’ de revistinhas. Ele leu a historinha, deu risada e disse: “Legal. Mas agora que já li, não vou levar”. Juro.
__________________
*Have You Forgotten – Red House Painters

Categorias: eu · história · infância
Etiquetado: , , , , ,

The last song

17 Fevereiro , 2009 · Deixe um comentário

Saí de casa como se fosse meu último dia de vida. Na verdade, isso não aconteceu assim que coloquei o pé para fora do imóvel. Foi gradativo, conforme ia caminhando. Havia decidido ir da minha casa até a casa de meu irmão. Dá uns 10km, com duas subidas de morro que um carro com motor 1.0 precisa engatar a segunda para subir.

Nos primeiros 15 minutos, a sensação era de felicidade, por estar vivo e poder fazer aquilo no meio da semana e no meio do dia. Comecei a caminhar às 15h e fiz um trajeto a pé que antes só havia percorrido de carro ou ônibus. Conhecia cada buraco ou valeta, mas não conhecia o cheiro de flores que tem esse trajeto. Não sabia que, naquela dia da semana, havia tantos carrinhos vendendo caldo de cana. Desconhecia os moradores de rua daquela região, os pequenos bares, os jardins das casas e as árvores que me protegeram da chuva.

Logo no início, quando olhei para o alto e vi o acúmulo de nuvens, pensei: “Será uma leve garoa, poucos pingos, nada com que me preocupar”. Quando percebi que teria que enrolar a carteira e iPod na camiseta reserva e colocá-los no fundo da mochila para molhar a menor quantidade possível, estava parado em um ponto de ônibus e lembrei de meu irmão dizendo na semana anterior: “Queria tomar um banho de chuva”. Na ocasião, estávamos em Florianópolis, de carro, indo para o centro da ilha. Se ele tivesse pedido para encostar o carro e descer para tomar aquela chuva, é bem provável que eu dissesse que não fazia sentido e que, depois, ele molharia todo o carro. Ou seja, eu não iria parar só por causa de um banho de chuva. Protegi bem as coisas dentro da mochila e segui debaixo da chuva que começava a passar de ‘uma leve garoa, com poucos pingos’.

Descobri que as fábricas daquela avenida não estão abandonadas. Vi outras várias pessoas andando na chuva, sem se importar muito por ficarem molhadas. Quando cheguei na avenida principal, a quantidade de água caindo do céu aumentou consideravelmente. Por cinco minutos parei, novamente, em um ponto de ônibus. Havia decidido pegar um até a casa de meu irmão. Já havia andado quase uma hora e o exercício do dia podia ser considerado feito. Acho que foi nessa hora o real começo de viver aquela dia como se fosse o último. Eu realmente acreditei que poderia não estar vivo no dia seguinte. E o que teria valido aquele dia? A chuva só tinha aumentado e mandei às favas minha carteira, meu iPod, meu Bilhete Único e minha mochila. Saí sorrindo.

Atravessei a ponte do Jaguaré e já estava com a camiseta grudando de tão molhada, quando vi que o sol estava saindo. Cheguei seco à Cerro Corá. Em frente a um banco [de dinheiro] havia uma senhora sentada no degrau do jardim. Olhou para mim: “Meu filho, algumas moedinhas…?” A resposta automática foi dizer que não tinha, mas parei, lembrando que havia algumas perdidas na mochila. Não chegava a R$ 0,50. Lembrei dos R$ 10 na carteira e entreguei a ela, depois de pensar que se morresse na próxima esquina, aquele dinheiro também morreria em vão. Ela não soube como agradecer, por isso disse que não precisava. Aquela nota era mais dela do que minha.

Aquele foi o ápice de viver meu último dia de vida, já vivendo 100% como se fosse realmente o último. Logo em seguida, nuvens mais escuras apareceram. Os trovões intensificaram e o vento já tinha cheiro de chuva. Não pensei mais nas coisas da mochila. Meu pensamento estava voltado àqueles que não consigo guardar. Mandei mensagem pedindo desculpa pelo que havia acontecido. A pessoa tinha tempo para perdoar mas eu não tinha muito, para ser perdoado. Liguei para minha esposa dizendo que ela deveria fazer o que quer que a fizesse feliz, sem medo de nada. Nada.

Faltando aproximadamente 15 minutos para chegar na casa de meu irmão, pensei em transformar a experiência em texto. Em seguida lembrei que poderia, de fato, morrer logo mais. Acho que nunca senti tão forte a iminência da morte. A primeira coisa que pensei foi que tudo teria sido em vão. Fiquei triste porque dali a pouco não poderia nem tentar ditar o texto e que ninguém nunca saberia o dia que vivi por último. Mas em seguida percebi que não havia sentido vivê-lo com o objetivo de contar, ou virar um texto. Não poderia ser com objetivo nenhum. Só havia sentido em si mesmo. Apenas viver o último dia por ser o último.

Categorias: Miudezas · cidade · desabafo · eu

Estrelas de fevereiro

12 Fevereiro , 2009 · 1 Comentário

Para ler ouvindo February Stars – Foo Fighters.

O trânsito. Eu sabia que o maldito trânsito de São Paulo acabaria me matando.

Sempre achei que quinta-feira é o dia mais triste da semana. Chover em uma quinta-feira chega a ser redundante. Sei que é o final da semana, é o dia em que a gente pensa “Legal, amanhã é sexta”, mas a quinta-feira tem algo de triste que não sei explicar. É claro que isso só podia acontecer em uma quinta.

Tenho a mania de ouvir de olhos fechados uma música que gosto muito. Era February Stars, do Foo Fighters. Algumas coisas colaboraram para que isso acontecesse. 1) Dave Grohl disputa o título de “O” cara com o Eddie Vedder. 2) Era fevereiro e, mesmo que não estivesse de noite, não daria para ver as estrelas em São Paulo. Mas as gotas caindo faziam as vezes de estrelas. 3) Meu irmão está fora, viajando. É o amigo que todo irmão queria ter e a letra bate com isso.

Eu sempre subo a rua de casa de olhos fechados. Com ou sem música. Tentando ouvir o dia amanhecer e o vento me acordando de verdade. Mas ela é tranquila, quase não passa carro nesse horário. Sei que atravessar a Vital Brasil de olho fechado não foi uma boa idéia. Agora eu sei, né? Na hora foi intuitivo, não foi planejado. Mr. Grohl começava a cantar “February Stars, floating in the dark… temporary scars”. Eu sabia que as cicatrizes não seriam temporárias. Não essas.

Não sei quanto tempo fiquei deitado. Como tinha colocado a música no repeat, quando acordei, estavam pedindo “just hang it on”. Meus olhos encheram de lágrimas. Eu não queria partir. Não assim. Há algum tempo já havia aceitado que nossa vida é mesmo um instante. Mas eu queria ter tempo de dizer adeus. Eu nunca consegui deixar essas coisas em aberto, sabe? Simplesmente dar as costas e sair andando. Eu precisava dizer a todos que amo o quanto os amava. Queria vê-los sorrindo mais uma vez, por alguma piada besta que fizesse, mesmo que com lágrimas nos olhos. Queria eu dizer para eles “just hang it on”, não pela minha perda, mas por tudo nessa vida.

Quando voltou na parte mais pesada da música, parece que entrou em loop mesmo. Não sei mais se era da minha cabeça ou a música. Acredito que de alguma forma ela tenha ficado dentro da cabeça, pois eu já não estava mais com os fones no ouvido. Eles voaram longe quando o Vectra me acertou.

Eu só sei que, assim como a letra, eu parecia flutuar na escuridão. Mesmo ouvindo a música, conseguia perceber por trás o barulho da ambulância. O estranho é que ele nunca se aproximava. Aquele ‘ión-ión-ión-ión’ estático. Sempre me deu desespero quando esse som não vinha ou não ia. Sempre no mesmo lugar. Parado na Alvarenga com a Vital Brasil. Um ônibus avançou mesmo estando tudo parado e travou o cruzamento.

O trânsito. Eu sabia que o maldito trânsito de São Paulo acabaria me matando.

Categorias: conto · eu
Etiquetado: , , ,

How I wish…

5 Fevereiro , 2009 · 5 Comentários

Para ler ouvindo Wish You Were Here – Pink Floyd.

Eu chego e ainda não há nada aberto. Apenas algumas poucas janelas, onde as faxineiras começam o dia batendo o tapete na varanda e estendendo-os para tomar sol. Algumas crianças passeiam dentro de seus carrinhos, sem ninguém buzinando ou pedindo passagem.

O dia passa. Passam os desenhos da manhã, Ana Maria Braga, programas esportivos na hora do almoço, Jornal Hoje, Sessão da Tarde e Sônia Abrão. O Datena berra que a polícia tem mesmo que invadir Paraisópolis, porque onde já se viu? Não, eu não vi. Não vi que choveu, não vi o sol que fez, não vi o céu cor de rosa quando o astro-rei se pôs.

Não vejo as faxineiras saindo cansadas dos pequenos prédios do bairro. Não vejo o trânsito, muito menos a cidade parada. Não sei o que comentaram no ônibus, o que discutiram no bar ou do que deram risada na hora da janta. Não sei quanto foi o jogo, muito menos quem jogou. Não ouço histórias para contar. Não ouço canções para lembrar. Não leio textos para inspirar. Eu vou embora e já está tudo fechado. Eu chego só e sozinho vou embora, sem a cidade para me acompanhar.

E para poder parecer que um dia isso vai acabar, escrevo. Enquanto isso, ouço o Pink Floyd dizer como ele gostaria que você estivesse aqui. Volto do café cheirando à cigarro. De vez em quando gosto desse cheiro da fumaça levemente impregnada na minha camiseta e no meu corpo. Nem sequer encostei os dedos em um cigarro, mas eles parecem velhos conhecidos, do tipo inseparável. Não sinto vontade fumar – não dessa vez – mas o cheiro do cigarro em mim me agrada.

Instantaneamente me lembra você. Logo você que, assim como eu, não suporta esse cheiro. Me surpreendo o quanto consigo chegar em casa de um show e tão logo tirar a roupa, estendê-la no varal, por não suportar o cheiro do cigarro nelas, mas em outro momento, como esse, me sentir confortável exalando o mesmo cheiro. Conforto mesmo. Como se eu estivesse colocando a cabeça no meu travesseiro, colado ao seu.

Talvez seja o cansaço. Talvez ele faça com que tudo ao nosso redor pareça aconchegante. E eu só consigo pensar em como gostaria de estar com você. Aí. Eu vou embora e já está tudo fechado… inclusive, e principalmente, seus olhos. How I wish I was there.

Categorias: cidade · desabafo · eu · relacionamentos