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Um vassalo feliz

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“Tenho por meu palácio as longas ruas,
Passeio a gosto e durmo sem temores…
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua…
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.”

Álvares de AzevedoSpleen e Charutos, capítulo 3, Vagabundo

Já fui rei. Minhas terras se estendiam até onde os olhos da imaginação conseguiam enxergar. Soberano, não era uma questão de reconhecimento: como toda monarquia era de direito meu, sem contestações. Rei é rei, e pronto. Claro que reis nascem, não tem isso de geração espontânea, mas qualquer vassalo já nasce sabendo quem é seu rei. Inquestionável. Se o rei morre antes do vassalo, vem outro, mas impávido da mesma forma. Inquestionável.

Construí territórios, expandi o reinado. Precisei trocar de trono por não caber tanto ouro e ornamento em meu pescoço e braços. Sem falar no peso da coroa. Sem ninguém questionar.

Porém, o peso do ouro não era cotado na bolsa de valores. Não havia lastro para meu ouro e pedras preciosas. Poeta e lúdico, já cheguei a contar uma história que aconteceu comigo, em uma mesa de bar, sendo desmentido na mesma hora por meu irmão: “Gá, isso aconteceu comigo.” Não foi maldade ou querendo roubar os créditos, mas histórias e reinos se misturam na minha cabeça. Benção e maldição, mas falo sobre isso outra hora.

E fui questionado. Dos que me dirigiram perguntas, uma única pessoa vale a pena mencionar: eu mesmo. Fui à guerra armado de perguntas, questionamentos que me levaram a desafios colocando meu reino à prova. E ele se esvaiu, como fumaça de fósforo recém-apagado. Um sopro que dissipa de forma suave, mas impávida. Inquestionável. Isso sim não tem como duvidar: você vê a fumaça se desfazendo, desaparecendo. Ninguém precisa te contar, é visível.

E invisível fiquei. Ou procurei ficar. Quando se perde um reino, para que terras correr? Mas era um reinado só meu, criado por mim, uma pátria exclusiva, só minha. Mas é isso, quis me esconder de mim mesmo. Pela primeira vez desci do trono e me olhei no reflexo das joias da coroa. Porém, não eram joias. Eram pequenas pedras, aparentemente sem valor, mas parte de mim. O que sobrou depois da fumaça se dissipar. Mas eram minhas. Aquelas pedrinhas eram eu, e estavam no meu caminho.

Mas não quis retirá-las: não eram tropeço, tampouco obstáculo. Eram pequenas e eram minha base. Podia fazer o que quisesse com elas. Descobri meu reflexo nelas e me encarei. A princípio não foi legal. Eu era rei, cacete. O que seria agora? Bem… eu seria o que eu quisesse.

Com as pequenas pedras, porém sólidas, comecei a construir algo meu. Sem fumaças, sem divagações. Deixo os sonhos e a imaginação para o que faço, não mais para quem sou ou quero ser. Com pequenas pedras, ergui uma construção humilde, longe de ser um castelo. Nem sei se quero castelos. A intenção não é essa. A intenção é construir algo meu, de verdade, por menor que seja, mas real.

Hoje consigo ser mais do que pedrinhas que me refletem. Sou menos rei do que já fui, mas pelo menos sou feliz, de verdade. Um vassalo feliz. É possível.

30 Carolinas

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Não se desespere, meu amor. Dizem que os 30 anos são os novos 20, mas te conheço e sei que você não está nem aí para o que dizem. É uma das coisas que amo em você: sua capacidade de dar valor ao que tem valor. Mas não se desespere.

Sei que você não se sente mais jovem quanto antes. Você me disse isso. Mas eu ainda te vejo como te vi no primeiro dia que saímos: deslumbrado por uma mulher incrível. Há 10 anos você já era mulher, sem saber. Te chamar de guria ou pequena nunca te fez menor ou mais infantil. Você foi a mulher da minha vida, naquele dia, e é a mulher da minha vida hoje, tendo passado por tantas outras vidas juntos.

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O sentimento de fazer parte da sua história e de todas as suas vidas desde que nos conhecemos é algo difícil de descrever. Esse é um dos seus super-poderes: trazer sorrisos a quem está próximo e deixar-nos sem palavras. Diante de você emudeço. Me falta vocabulário e referências, analogias e elucubrações. Sofro para escrever poucas linhas, merecedoras de você e de suas 30 Carolinas, que são incríveis e fantásticas, sagazes e engraçadas, inteligentes e divertidas, lindas e deslumbrantes.

Não ache menos de você: saiba. Não porque estou te dizendo, porque você é. Essa é a verdade e você é verdadeira. Só os tolos não acreditam na verdade. E você é sábia, saiba. Do tipo de pessoa que faz o clichê ser verdadeiro: ajuda o mundo a ser um lugar melhor. Acrescenta muito, pouco [ou quase nada] pedindo em troca. Aprendo tanto contigo, de mim, de você e de nós. Sou afortunado por dessa galera toda no mundo ser eu a estar ao seu lado não só nesse dia especial, mas em todos os nossos dias comuns, que se tornam especiais por você estar neles.

Não se desespere, meu amor. Não prometo que resolverei tudo, mas farei o máximo para se equilibrar. Para nos equilibrarmos. Tamo junto.

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Podia ser pior… você podia ser seu amigo

A melhor coisa de se ter amigos é o compartilhar de histórias. Você poder contar as suas pendengas, frustrações e inseguranças, tendo como retorno histórias deles sobre os mesmos temas, criando laços profundos de intimidade e respeito. A minha sorte é que tenho amigos que confiam em mim e contam histórias piores que as minhas. Para mim, é a coisa mais bela em uma amizade: saber que podia ser pior. Você podia ser seu amigo.

Pegue, por exemplo, a minha famigerada condição de “Zé Noinha”. O próprio nome já diz e em um momento de metalinguagem inception, é claro que vou explicar: é o cara que sempre desconfia. Não é ser cabreiro ou até mesmo desconfiado. O Zé Noinha (eu) sempre acha que o outro pode não ter entendido direito o que disse, entendido errado, que o comentário de alguém sobre você queria dizer algo mais do que o simplesmente dito, que uma coincidência não poderia ser coincidência.

Contando histórias de como sou assim, uma amiga relatou o seguinte: sua terapeuta avisou que sairia de férias. Ela postou isso no Facebook e os comentários que surgiram a partir dali eram todos do tipo “Ih, lembra que marcamos aquela saída? Vou ter que cancelar”. Todos. Inclusive o de um cara que ela tinha saído e que haviam marcado de sair novamente, que comentou: “hum… surgiu um imprevisto”.

Esse foi um dia emblemático em minha vida, nunca esquecerei (mesmo porque foi semana passada). Ela me contou sua reação: “Mano, levei um balão pelo Facebook… pelo Facebook!” Esse é o Zé Noinha saudável, que passa alguma vergonha por pensar coisas assim, mas beleza. Só fica noiado e enchendo o saco de todo mundo sobre o assunto. E é por isso que os amigos são tão importantes na nossa vida: para mostrarem que são piores que você.

Essa amiga, até então, não tinha escrito mais nada nos comentários dos amigos desmarcando coisas (lembre-se, todos!). O comentário dele (“surgiu um imprevisto”) foi postado 19h02. Às 19h10 é possível ver o que ela postou: ?. Isso, apenas uma interrogação, como quem diz: “Como assim?! Que imprevisto?? Você está me dando um balão pelo Facebook???”

Claramente essa amiga é (está?) perturbada, por mais que berre comigo “EU NÃO SOU PERTURBADA!!!”, só confirmando minha teoria. Mas mesmo assim, ela passou do meu nível Zé Noinha. Sem meus amigos, sofreria com algumas coisas para o resto da vida. Mas da próxima vez em que eu sofrer com algo porque minha imaginação foi além do real, terei sempre como parâmetro essa história, me confortando como um cobertor quentinho e gostoso em um dia de chuva e frio, trazendo um chocolate quente de brinde e dizendo: “Viu, Gá? Podia ser pior… lembra da história da sua amiga? Hehehe” e conseguirei dormir em paz.

Casar é fácil. Difícil é ficar casado

- É difícil casar, né?
- Não… casar é fácil. Difícil é ficar casado.

Postei essa conversa no Facebook e a discussão se dividiu entre os que concordam ser difícil e os que disseram “Ah, não acho. É muito gostoso estar casado”.

Outros vieram me perguntar se estava tudo bem no casamento. Um amigo disse que apenas se preocupava com minha esposa ler aquilo e se sentir constrangida. Ou a frase fora de um contexto não fez muito sentido ou as pessoas não entenderam muito bem.

Veja esse vídeo:

Between Yellow Lines from Max Esposito on Vimeo.

Gostoso, né? Lindo. Garanto que é uma delícia, já que tenho um long e pude experimentar, algumas vezes, a maravilhosa sensação de descer uma ladeira em cima do shape ou dar algumas remadas e deixar o skate deslizar por um concreto liso.

Mas não é fácil. Pede dedicação, paciência, persistência, muito treino e prática ainda mais. Você cai, quebra braço e clavícula, sua frio achando que vai ser atropelado em um cruzamento porque não sabe parar, mas é maravilhoso. Uma das melhores sensações é descer uma ladeira de long.

Já deu pra sacar a analogia? O casamento não é uma ladeira, onde existe alternância cadenciada de “descer, curtir, chegar lá embaixo e ter que subir de volta”, sendo essa a parte difícil, pontuada e clara.

Imagine o casamento como uma cidade: cheio de ladeiras, retões, descidas íngremes que dão medo, ladeirinhas tranquilas para curtir o passeio, subidas onde a gente tem que descer do skate e carregá-lo nos braços, quedas, terrenos onde o skate parece não deslizar e precisamos ficar remando – caso contrário o skate para em 2 segundos -, mas sempre uma aventura, sempre valendo a pena.

Andar de skate é difícil. Há quem tenha mais ‘dom’ para isso, é claro. Outros precisam se esforçar mais. Porém, uma coisa é igual a todos: ficar em pé no skate é fácil. Difícil é sair andando e se manter em pé (ou aprender a cair), praticar sempre, não escolher ficar sentado no sofá em casa, em vez de ir pra rua e dar o melhor de si no shape.

ps.: O amigo que comentei, preocupado com meu casamento, está junto de sua esposa há 30 anos. Quando perguntou sobre a frase que postei, questionei: “Sem hipocrisia: é fácil?” Ele me respondeu, rindo, que comentou com a digníssima e a resposta dela foi: “Ué, mas não é verdade?”

Na esperança de expurgar meus demônios

Já aprendi que mesmo rodando todo o ambiente de um comércio (supermercado, por exemplo), não vou encontrar o que procuro, mesmo que já tenha passado pelo corredor do produto. Então, logo que entro já pergunto onde está o que preciso. “Bom dia, onde estão os cotonetes, por favor?” Essa foi a pergunta que fiz, mas só depois de ter percebido que havia falhado como ser humano, mais uma vez.

Entrei  na farmácia e, procurando alguém que trabalhasse no local, vi uma guria baixinha, de costas, que parecia estar de uniforme, com a camisa de um tom muito parecido com a calça jeans. Na minha cabeça só pessoas de uniforme combinam camisetas com a calça jeans, e eu estava certo, mas também errado.

Quando ela virou pude ver que era uma moça com síndrome de Down , a suspeita dela trabalhar ali caiu e fiz a pergunta para a atendente do balcão. Meu erro, que engano. Ao passar por ela, já falando com a outra funcionária, percebi o logo da farmácia em sua camisa.

Neguei meu instinto, de achar que fosse uma funcionária só porque a moça tinha síndrome de Down. Na minha cabeça preconceituosa ela não poderia ser uma funcionária da farmácia devido a seu distúrbio genético. Quanta babaquice.

Já fora da farmácia, ainda com vergonha de mim mesmo, fiquei pensando o motivo daquilo. Primeiro achei que é culpa da sociedade e das empresas, que não contratam cadeirantes, pessoas que tiveram paralisia infantil ou com Down, deixando-nos mal acostumados. Mas culpar o outro está na essência, né? Foi culpa da Eva, a cobra que me falou.

Em seguida assumi que era um preconceito que tinha e pouco importava sua raiz. Fiquei querendo voltar e falar algo para ela, pedir perdão, mas como estava de costas, não sei nem se ela percebeu que eu ia em direção a ela e mudei de ideia. Mesmo assim, se percebeu, não sei se seria o melhor jeito de me redimir, podendo constrangê-la ainda mais.

Nessas horas é que a gente sabe o tamanho do vacilo, medido pelo tempo em que ficamos pensando (e sofrendo) com isso. Não voltei à farmácia ainda e, mesmo que já arrependido, o perdão é o único libertador.

Talvez fique preso a esse sentimento para sempre, nunca podendo trazer o assunto à tona com quem realmente importa, já que não sou alguém próximo a ela. Pode ser até que seja uma coisa boa, para não esquecer o quanto consigo ser preconceituoso.

Vai ver, é por isso que escrevo, na esperança de expurgar meus demônios. Boa sorte com os seus.

Hoje não faz um ano que ele morreu

Hoje não faz um ano que ele morreu. Isso aconteceu em novembro de 2010. Mesmo assim, volto a pensar no tema. Assisti um seriado em que um dos personagens perde o pai e terminei o episódio chorando. De novo.

Sempre chorei em momentos de nervosismo ou quando brigava, não só quando criança. Já era mais velho e ainda acontecia isso. Consequentemente, durante anos reprimi qualquer tipo de lágrima, forçado mesmo, até que assisti Mar Adentro, com o Javier Bardem interpretando um cara tetraplégico e que luta para a eutanásia não ser crime. Ou foi Uma História Real, do David Lynch. Sei que os dois assisti com meu irmão, e que foram as comportas abertas de lágrimas seguradas por tanto tempo. Por isso, o “de novo” no final do parágrafo anterior não se refere a um outro episódio desse seriado, embora se refira também.

Essa semana foi a segunda vez, desde que você morreu (é a primeira vez que digo isso, “você morreu”), que sonho com alguma piada sua, me racho de rir, para logo em seguida acordar e me desesperar no choro, sabendo uma das piores sentenças que já tive até hoje: nunca mais vou rir com você. Só de escrever isso, minha alma treme.

A primeira vez foi uma brincadeira / piada que a gente nunca entendeu bem, mas que você se divertia. Acordei com o barulho da minha risada e quando abri os olhos não consegui conter o choro e acabei acordando sua filha mais velha, com quem casei. Desde seu velório que eu não chorava dessa maneira, compulsivamente (aprendi na pele a usar essa palavra) e de forma desesperada, como se fosse morrer se parasse de chorar. Foi uma semana depois de ter feito um ano da sua morte, quando tive que segurar as pontas, ser forte e abraçar as meninas, dizendo que tudo ficaria bem.

Dessa vez, estávamos todos mortos no sonho. Por isso, já sabia ser um sonho, então nem acordar rindo tive a oportunidade. Nele, comecei a chorar quando te vi e continuei quando abri os olhos. Sua filha mais velha estava ao meu lado e não queria que ela sofresse, como da outra vez. Consegui controlar o choro, como há muito tempo não fazia, e até consegui voltar a dormir.

Não sei porque, mas achei que já tinha chorado tudo o que podia nesse ano e dois meses, que ficaria triste muitas vezes, mas que não choraria por qualquer coisa. Como no dia em que o veião me apontou um cara em outra mesa e disse “Saca o carequinha… lembra alguém?” e eu não consegui mais dar um gole de cerveja e cachaça sem engolir algumas lágrimas junto.

O choro não está no peito, nem fundo. Está na ponta dos olhos. Já estive melhor, não sei, mas ultimamente tem sido difícil pensar em você e não chorar. Como hoje, assistindo um simples seriado, onde o personagem declara a mesma coisa que disse a meu pai, no dia em que você morreu: “Eu não estou preparado para isso”.

Desculpe, sogrão. Ainda não estou preparado para isso. Deus tenha misericórdia de mim.

Só sei quando o verão termina por causa do Tom Jobim

Eu adoro o verão, mas tem algo que sempre me deu raiva. Com a programação “Verão MTV” aprendi a odiar (só um pouquinho) a vida cotidiana na cidade. Pleno fevereiro, já tinha até passado o carnaval, provas e trabalhos rolando no colégio, e a Music Television lá, passando Lual MTV, naquela vibe “Somos felizes, vivemos o verão, somos da praia”. Uma falta de respeito passar esse tipo de programa e vinhetas até quase o começo de março. (Trivia: só sei quando o verão termina por causa do Tom Jobim).

Passada metade da semana que ficaríamos em Maresias, começou a bater aquela pré-depressão da volta das férias. Engraçado que a gente estava de perna esticada na areia, mas tristes. Sofreríamos na volta, mas escolhemos sofrer antes também. Eu, principalmente, sofro antes, durante e depois (olha a frase solta!), mesmo que tenha buscado exercitar o contrário nos últimos tempos.

O que pega é que vemos essas propagandas do pessoal sendo feliz no verão e queremos que nossa vida inteira seja assim. Aquilo é um momento. Analisando cenas assim, percebo que vivi (e vivo) diversos momentos daqueles. Mas não vale. Tem que ser assim sempre, todo dia, toda hora, todo instante. É a ditadura do verão, pelo menos na minha alma.

“A nossa vida tem que ser boa. Não podemos depender das férias e descansos para sermos felizes”. Foi com essa declaração que minha esposa gentilmente deu um murro na minha boca (a do estômago está de férias prolongadas, apanha demais, tadinha). A camiseta que escolhi para usar hoje é uma das minhas preferidas. Todas as brancas (15) que tenho estão lavando – assunto para outro post – e vim com essa. “Happiness is a matter of choice” (felicidade é uma questão de escolha) diz a frase nas costas. “Go and choose” (vá e escolha) é o que está estampado na frente.

A arte de ficar calado

Admiro quem consegue ficar calado. Principalmente, ficar calado nas horas certas. Quem me conhece sabe que sou apenas um admirador, pois se falo muito, acabo falando ainda mais nas horas em que não deveria.

Veja bem, não é só ficar calado e pronto. Sou um ser, por natureza, que gosta de socializar, conhecer pessoas novas e, claro, falar. Mas essa arte, não, VIRTUDE, de ficar quieto quando convém, ainda não adquiri/desenvolvi.

Suspeito que seja algo patológico, pois não é aquela ‘implicância’ apenas [apesar d’eu ser implicante, não precisa me lembrar]. Mas se ouço algo muito absurdo, algo que simplesmente não faça sentido algum, ou algo que discordo veementemente, preciso dizer alguma coisa. É mais forte do que a minha força de vontade, que devia mudar de nome, para “vontade” só, porque de força não tem nada.

Nessas férias estive com um amigo que diz o que pensa, declara o que acredita, mesmo que polêmico, mas na hora certa e, principalmente, para as pessoas certas. Comigo, por exemplo, ele se abriu. Mas nas horas em que a discussão pegava fogo, comigo jogando lenha, claro, mesmo que involuntariamente, olhava para ele, que mantinha aquela cara serena, pacífica e, principalmente, de pau! Foi o que achei, já que sabia que ele concordava comigo em alguns assuntos, sem se manifestar.

Entendi, porém, que não era omissão. Se você perguntar a ele qualquer coisa que queira saber, ele vai falar. Não vai te enrolar e ludibriar, mas será sincero na resposta. Porém, quando alguém solta alguma coisa que soa absurda, ele simplesmente fica na dele. Nem a sobrancelha se mexe! Fica impassível, como se nada tivesse acontecido.

Não sei, mas desconfio que deva existir algum monge dando um curso desses por aí. “Saiba ficar calado em 30 dias”. Mesmo que seja no Tibet, acho que valeria a pena. Porque eu tenho noção de quando é que devo ficar calado. O problema é que isso só acontece antes e depois do momento. Agora, por exemplo, consigo elencar alguns momentos futuros em que devo deixar de falar o que penso. Acontece que quando chegar o momento, esquecerei de tudo. Incrivelmente [?], cinco minutos após ter feito um discurso sobre o que penso, sinto aquela pontada no cérebro que diz “Você devia ter ficado calado”. Eu sei! Eu sei! Mas porque você não me impediu?, digo ao meu cérebro. “Eu tentei, mas quem disse que você me ouve?”. Ele tem razão. Sempre.

Papai Noel

Não sei até quantos anos acreditei em Papai Noel, mas lembro da última vez em que achei fosse possível que ele existisse. Eu já não acreditava nele, mas um tio de meu pai, psicólogo, quis brincar com a gente. Passaríamos aquele Natal na casa deles e, semanas antes, ele começou a jogar no ar esse assunto. Perguntava se eu ainda acreditava em Papai Noel e quando disse categoricamente que não, que besteira, ele perguntou “Por que?”. Aí deu um nó, claro. E foi assim por algumas semanas.

No dia 24 de dezembro, fomos para a casa de meus tios e tudo correu como o planejado. Jantar, conversas, risadas etc. Pouco antes da meia-noite, meu tio voltou ao assunto “Papai Noel” e começou a dizer que ele existia sim. De repente, ele parou de falar. Ficou olhando para o nada, como um caçador tentando ouvir os passos de sua presa. “Acho que tem alguém lá fora”. Dei risada, já imaginando o que ele estava tentando fazer. Ele continuou sério, não dando bola para mim. “Sério, ouçam” e ficamos todos em silêncio. Ouvimos alguns passos e corremos para o andar debaixo da casa. Havia presentes no quintal e me assustei, pois tinha ido lá pouco tempo antes e não vi nada. Meu tio continuava sério e ficamos em silêncio novamente. Ouvimos o som de guizos na varanda de cima e subimos correndo a escada que ligava o quintal àquela varanda. O som dos sininhos foi ficando distante e eu fiquei olhando para todos os lados, para cima, procurando alguma coisa, sem saber o que exatamente.

Fiquei um tempo olhando para o céu, estrelado. Estava admirado por algo tão mágico ter acontecido naquela noite e eu estar presente. Ainda não sei como meu tio fez aquilo, já que em nenhum momento ‘sumiu’ alguém da família. Na verdade, prefiro não saber. Nunca perguntei e pretendo que continue assim.

Vivi aquela experiência como a última vez em que acreditei no senhorzinho de barba branca e roupa vermelha. Mesmo sabendo que ele não existia, acreditei pra valer e, de certa forma, ele acabou existindo, para mim. Pela última vez, é verdade, mas com a lembrança de um tempo em que eu acreditei no Papai Noel.

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foto: Oscar Segovia

Me joguei lá dentro, claro

Sabia que eu sei nadar?, Sabe nada!, Claro que sei… você é que não sabe, Sei sim!, Sabe nada, Sei!, e vou te mostrar assim que chegarmos no hotel. Eu tinha três anos. Chegamos e a primeira coisa que fiz quando vi a piscina? Me joguei lá dentro, claro. Não, eu não sabia nadar. E o irmão mais velho de meu pai, que tomava conta de todos nós, também não. Fui salvo por um cara que estava por perto. Contam até hoje do desespero de me ver lá no fundo, só com os cabelinhos em pé, morrendo afogado.

Você sabe dirigir?, Sei, claro!, Mas sabe mesmo?, Sei! Já peguei o carro do meu pai umas duas vezes. Eu não sabia dirigir, mas só sei disso hoje. A vontade de dirigir era tanta que ter chegado na segunda marcha com o carro do meu pai em uma rua deserta de um condomínio fechado me fez dizer “Sei, claro!”. O fato é que peguei um carro em plena Zona Norte, sem nem saber mudar de marcha, quanto mais parar o carro na subida e sair com ele. Como chegamos ao destino sem bater [uns 5km depois], não sei. Assim como não sabia dirigir.

Que mania é essa da gente querer saber tudo, querer dizer que conhece tudo? Quantas vezes você já não mentiu para alguém que te perguntou: “Sabe aquela cena em O Poderoso Chefão, da cabeça do cavalo? Então, foi igualzinho!” Sei! e dá uma risada junto, sem nem fazer ideia de que O Poderoso Chefão tratava de cavalos.

A gente já tem que saber muita coisa nessa vida. Desencane. Pode assumir que não conhece, pois não será a única pessoa. Além do mais, o ser humano só conhece alguma coisa à partir do momento que conheceu. Óbvio? Não, pois tem gente que diz “Você não conhecia essa banda?! Todo mundo conhece!”. Meu velho, até alguém te mostrar, ou você ouvir em algum lugar, você também não conhecia!

No caso de um jornalista, então, é indesculpável. “Como você não sabe que três espanhóis foram sequestrados na Mauritânia?! Você é jornalista!”. Obrigado por avisar. Tinha esquecido.

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Texto publicado originalmente na coluna Miudezas, da Revista Paradoxo.