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Que saudade, que saco, que maravilha

Aquela moça que deixou tudo para trás, mudou de cidade, de amigos e, até mesmo, de família. No fim das contas, acabou tudo numa coisa só. Cidade, amigos e família, algo que nunca imaginou que aconteceria. Ao acordar e ver o sol batendo no concreto, ao invés de sentir o cheiro da maresia, sente-se em casa. Que saudade, que saco, que maravilha. Essa é sua vida e ela está vivendo.

Ou o menino apaixonado desde o colégio pela guria dos seus sonhos. Se nasceu aqui, se veio de fora, se é descendente de alemães ou africanos, não faz a mínima diferença. O que importa é que escolhe as músicas que vai ouvir para tentar ao máximo reproduzir aquele dia em que ela sorriu para ele. Justo pra ele, que tem um sorriso sincero e honesto quando pensa nela. Será que um dia vão ficar juntos?

Tem também o senhor que distribui folhetos de casa em casa, daqueles de planos odontológicos. Mas ninguém repara nele, muito menos nos seus dentes, fortes, brancos, bonitos e alinhados. Se vissem, perguntariam se ele usa algum daqueles planos e ririam logo depois, percebendo o absurdo da pergunta. Saberiam que ele não mora ali, apesar de estar sempre ali.

E o taxista, que vota no Maluf? Isso já seria motivo para desqualificar qualquer um, você pode pensar, mas e o abraço que ele dá no neto, todo dia que chega em casa? O pai do menino não aparece muito, então ele e a mulher ajudam a criar aquele tesouro. E mesmo ganhando mais por fazer o turno da madrugada, quando chega em casa, fica triste em ver que, mais uma noite, não dormiu ao lado da esposa, apesar de achá-la linda enquanto dorme. Sorri de forma triste e se deita para dormir, quando já é dia.

Descobri que sou apaixonado por pessoas por ser apaixonado por histórias. No final das contas, é isso que vale. As histórias que ouvimos, as que contamos e as que vivemos.

foto: Pedro Jansen

The eagle has landed

A cena: alguns caras fumando do lado de fora. Todos com o rosto preocupado. Cada um que vem lá de dentro, o grupo pergunta: “E aí, está aqui por que? Qual é o seu caso?”.
Parece cenário de sala de espera de um hospital. Mas estamos todos na única loja que sobrou, da Marinho Móveis.

- Comprei uma poltrona e um sofá pequeno no mês passado.
- Putz.
- Que zica.
- Meus sentimentos…

“Comprei um sofá em junho”, digo.
Todos olham surpresos para mim.
- Caramba, cara.
- Não acredito… sério?
- Nossa, e eu pensando que minha situação era ruim.
- A gente nunca acha que vai acontecer com a gente, né?

Mas o sofá chegou. Hoje. Foi comprado no dia 13/junho e ‘entregue’ em 24/setembro.
‘Entregue’: tivemos que mandar um caminhão retirar o produto na loja, pois a Marinho quebrou. Não tem dinheiro para pagar os funcionários, que estão em greve e movendo ações contra a empresa.

- Moça, e meu frete? Como fica?
- Olha, a gente não tem os R$60 para te devolver. Então pode dar uma volta pela loja. Escolhe um puff, uma mesinha de centro ou uma poltrona e leva de brinde. Fica como o reembolso do frete.
Saí da loja com um puff, que devia valer uns R$200, pelo menos.

Uma pena que não receberei mais a ligação diária da Losango, cobrando o cheque sustado.
Estava começando a me sentir querido.

Quando eu era moleque…

…de vez em quando chamavam a minha mãe no colégio, para uma conversinha.
Era sempre mais ou menos assim:

- olha, o Gabriel é um ótimo aluno. só tem notas boas e é muito inteligente. mas….
- é, eu sei. sempre tem um “mas” com ele.
- …mas ele fala demais.
- e eu não sei?! vivo falando isso pra ele! “tem que falar menos, Gá!”
- então, como eu dizia, ele conversa muito durante as aulas.
- ai, esse gabriel, viu?! é fogo!!
- dona Rose…
- oi.
- então, além de falar muito, ele é muito bagunceiro. incita discussão na classe, enfrenta os professores…
- enfrenta como?
- ah, desafiando, questionando, tudo quer saber o porque, quem é que disse aquilo, como é que a professora sabe e pode provar. desafia a professora a provar que ela sabe mesmo a matéria e que merece estar ali, ensinando aos alunos. [nessa hora, dona Rose tentava disfarçar o sorrisinho no canto da boca] além disso, como falei, ele conversa muito, mas as notas são excelentes. o problema é que atrapalha no rendimento dos amigos e não o dele! ele é também um pouco, para não dizer muito, indisciplinado. tem dificuldade com autoridade e em receber ordens.
- sei, pensava dona Rose, sabendo de onde tudo isso vinha.

O que foi dessa vez, Gabriel?

A professora disse que eu não podia ficar mais dentro da sala de aula. Era um sonho de todos aqueles que não gostavam de Biologia, mas eu gostava. Mas o que eu gostava mesmo era de provocar. Alguns vão pensar “Gostava, não, né Gabriel. Gosta!”. OK, eu gosto. Mas sempre gostei, admito. Nasci assim. Naquele dia, a professora disse que eu teria que sair da sala e eu concordei. Ela se assustou por eu não ter resistido, mas a surpresa logo se transformou em ira, quando me viu pegando uma cadeira, abrindo a porta da sala e sentar logo na passagem. Tecnicamente, eu estava do lado de fora. Eu disse que gostava [desculpe, gosto] de provocar.

Entrei na sala da Dª Arlene e ela fez aquela cara “O que foi dessa vez, Gabriel?”. Nós parecíamos bons amigos, daqueles que se vêem semanalmente e batem um papo sobre o que tem acontecido nas nossas vidas. Isso quer dizer que era eu quem dizia, e só as mazelas, claro, que me levavam à sala dela.

Lembro sempre de minha mãe voltando das reuniões de pais e professores e dizer: “Gá, todos disseram que você é um ótimo aluno. Excelente nas notas, mas conversa e responde demais. E você precisa parar de provocá-los, mesmo que você tenha razão. Eles sabem que às vezes você tem razão mesmo, mas não gostam que você os questione ou os exponha assim, utilizando essa tática.” E isso antes dos 15 anos. Agora eu sei porque ela voltava com um sorriso no rosto!

“Gabriel, você vai levar essa advertência paras os seus pais assinarem.” OK, Dª Arlene, mas eu já aprendi a falsificar o visto do meu pai. Como é que a senhora vai saber que eles assinaram mesmo? Como é que esse seu método garante que eles saibam do que acontece aqui? E mesmo que eu não soubesse falsificar, e se desde a primeira vez que eu trouxe algo assinado deles, na verdade fui eu quem assinou? “Gabriel, apenas traga o papel assinado, pode ser?” Tá bom.

Mas eu nunca levei advertência por ter desrespeitado a professora aquele dia, segundo ela afirmou. Enquanto ainda estava na sala da diretora, o celular tocou e eu vi nos olhos dela o desastre. Ela ficou mais branca do que quando fumaram maconha dentro do banheiro do colégio, com um bedel emprestando o isqueiro. Ela simplesmente desligou e me disse: Gabriel, volte para a sala. Acabou de estourar a 3ª Guerra Mundial.

A gente sabe que, de fato, não houve Guerra Mundial. Depois do 11 de setembro, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, Iraque e ainda ameaçam o Irã, além de mais uma meia dúzia da lista negra. Tirando uma dúzia da Inglaterra e uns quatro ou cinco da Austrália, ninguém embarcou nessa de ‘Coalizão’.

Eu preferia ter levado aquela advertência, sem nem falsificar assinatura, do que ter visto tanta coisa acontecer por causa de outra ‘provocação’ naquele dia.

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Lembrei disso depois de ler esse [ótimo] texto do Tucori.


Like an angel from a bedtime story*

Para ler ouvindo Have You Forgotten – Red House Painters.

Dois pequenos acontecimentos da minha infância:
ou
Duas grandes decepções da minha infância:

1 – O dia em que fugi de casa. Eu nunca fui revoltado com minha família. Era rebelde e indignado com a vida, de forma geral. Com professores, guardas de trânsito, juizes de futebol e qualquer autoridade. Mas com meus pais não. Ou seja, não havia muito motivo pra fugir de casa. Simplesmente achei que era uma experiência pela qual todo homem deveria passar, ainda que moleque. E para ser mais autêntico, não fiz trouxa de roupas, não levei dinheiro, nem mantimentos. Saí do jeito que estava. Como morava em um bairro tranqüilo de Guarulhos, passávamos o dia brincando na rua. Ou seja, minha mãe não perceberia até que fosse tarde demais, pensou minha cabeça fugitiva. Joguei bola, andei de bicicleta, fui o mais longe que já havia ido. Sempre tem uma parte do bairro que a gente vai que serve como limite. Mesmo que já tenha passado daquele ponto de carro, sozinho é bem diferente. Fui a lugares que nem imaginava existirem. Fiquei perambulando não sei quanto tempo. Dias, semanas. O suficiente para sentirem falta, pensou minha cabeça fugitiva. Decidi voltar para casa em um dia normal. Na hora da janta, para ser mais emocionante. Entrei em casa com aquele brilho que só os fugitivos e homens pra valer [tipo um Clint Eastwood ou Tommy Lee Jones] têm. Minha mãe me olhou surpresa e exclamou: “Gá! Que bom, chegou bem na hora da janta. Vai tomar um banho pra gente comer”. Eu fugi e voltei no mesmo dia, descobri depois. Ela até hoje não acredita que eu já fugi de casa.

2 – Eu sempre tive muito gibi
. Da Mônica, Super-Homem, X-Men, entre outros [todos, praticamente]. Lembro que certo dia minha mãe se cansou de todas aquelas revistinhas e nos incentivou a vendê-las. A primeira coisa foi reclamar e dizer o quão absurda era a idéia. Ela esperou o esperneio e disse que como a gente vivia reclamando da mesada ser pouca, seria um ‘complemento’ de nossos rendimentos. Ela nem bem terminou a frase e já estávamos, eu e Gui, separando os que seriam vendidos. O mais legal disso tudo era reler todas as historinhas. Não podíamos simplesmente nos desfazer de um gibi, se houvesse uma historinha muito legal dentro dele. Lembro de ter lido uma do Titi, onde ele tinha a idéia de vender seus gibis antigos. Colocou-os à venda no bairro e um garoto veio, deu uma lida e não quis mais comprar, dizendo “Legal! Mas agora que já li, não vou levar”. Achei muito legal o roteiro [identificação com o personagem] e mostrei para o primeiro amigo meu que chegou na nossa garagem, onde havíamos montado nossa ‘barraquinha’ de revistinhas. Ele leu a historinha, deu risada e disse: “Legal. Mas agora que já li, não vou levar”. Juro.
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*Have You Forgotten – Red House Painters

I bet you think that’s pretty clever, don’t you boy?*

Para ler escutando High and Dry – Radiohead.

Era 1994. O Brasil seria ou já havia sido campeão do mundo pela 4ª vez. Não lembro se foi antes ou depois de julho. Na verdade, eu achava que tinha acontecido em 93, mas fui pesquisar e o CD ‘Calango’, do Skank, só saiu um ano depois do que imaginei.

Como foi em 1994, eu estava na 4ª série do primário. Sempre foi fácil lembrar os anos de colégio. E o primeiro fora a gente nunca esquece. Na verdade, acho que não foi o primeiro de todos. Talvez tenha sido o primeiro a me deixar engasgado, até com um pouco de raiva.

Como eu disse, Calango tinha sido lançado e o hit parade pertencia ao Skank. Eu sabia o álbum inteiro de cor. Tirando duas músicas mais chatinhas, ouvia todas. Eu só tinha dois discos: Calango e Nevermind. O clássico do Nirvana foi o primeiro que comprei, antes mesmo de possuir um CD player. E lembro que no dia em que fomos comprar o aparelho, para poder ouvir os cinco ‘disquinhos lasers’ que já tínhamos em casa, meu pai comprou o Calango pra mim. Saímos de Guarulhos e fomos até o SP Market, pra lá de Santo Amaro, porque tinha um CD player mais barato. Hoje em dia eu conseguiria convencer meu pai a não ir, simplesmente mostrando que a quantidade de gasolina gasta daria para comprar um aparelho mais caro, em um lugar mais perto, e ainda sair pra jantar no Outback.

OK, volta. A história não é essa. Enfim, eu gostava da Andréa/Andrea/Andreia/Andréia. Não lembro direito. Digamos que seja Andrea, que fica mais fácil de escrever, eu não entro em confusão com a reforma ortográfica e todo mundo sai feliz. Menos o Gabrielzinho, de 1994.

Eu gostava bastante da guria. Ela foi a primeira Winnie Cooper que apareceu na minha vida. Eu era um eterno Kevin Arnold. Jurava que os caras do programa iam fazer pesquisa de campo lá em casa, perguntando pra minha mãe o que rolava na minha vida. Deve ter sido um deleite quando ouviram a história da Andrea.

Estudávamos na mesma classe. Ela não fazia o tipo da ‘massa’. Poucos garotos reparavam nela, o que a tornava mais interessante ainda. Ou reparavam, mas eram tão cagões quanto eu. Como sempre fui muito ruim em xavecar, sempre usei a tática [falha] de virar amigo antes. Só fui me dar conta do quanto isso me atrapalhou anos depois. Como éramos amigos, constantemente ligava para ela, falando de trivialidades. Lição de casa, provas etc. Decidi que estava cansado daquilo. Não dava mais para ficar enrolando, sem ela saber o que eu sentia. Liguei, oi, tudo bem, o que você está fazendo e já emendei: “Olha essa música que ouvi e fiquei pensando em você…”. Entra o Samuel Rosa cantando: “Te ver e não te querer, é improvável é impossível. Te ter e ter que esquecer, é insuportável é dor incríveeel”. Na verdade, foram 20 segundos de introdução, até ele entrar cantando. Tem todo o “Arrarraum iê… uh uh uh. Arrarraum iê. Noaiuntchu cybers”.

Coloquei o CD no meu mini system, aumentei o volume e colei o bocal do telefone nas caixinhas de som. A sorte à época: era um minis system portátil e o telefone era sem fio. Pude ir para o quarto, fechar a porta e pagar esse mico em paz. Eu deixei o Sr. Rosa cantar o refrão [que abre a música], cantar a primeira estrofe inteira [“É como mergulhar num rio e não se molhar”], o refrão de novo, a segunda estrofe inteira [“É como esperar o prato e não salivar”] e o refrão. São dois minutos cravados. E finalizei com aquela técnica de ir abaixando o som aos poucos para parecer que a música acabou. [Nem eu acredito que fiz isso... Minha cara agora, se você pudesse ver, é de desaprovação com "que dó do Gabrielzinho"]. Fade out na música até ficar silêncio.

Gabrielzinho: E então?
Andrea: Er… ah… o que tem de lição de casa pra amanhã?

Juro. Pensando agora, não foi meu primeiro fora. Mas foi a primeira grande decepção. A expectativa de qualquer comentário sobre aquilo e nada. Simplesmente nada. Nem um “Que bosta, Gabriel”. Talvez tivesse sido melhor. Mas não. Ela preferiu falar da lição de casa. Eu não entendia e não a perdoava. Hoje sei que não poderia cobrar qualquer coisa dela. Eu fiz esperando um retorno. Apresentei algo com o fim de ter outro algo em troca. Uma resposta, que fosse.

Aprendi – não sei quando, não sei como – que a gente deve fazer as coisas pelo prazer de fazê-las. Talvez eu esteja errado ou você talvez discorde de mim. Se escrevo para alguém, não é esperando uma resposta. Se eu te visito, não é para ver o quanto você sorriu na hora em que me viu na porta. É simplesmente porque estou com vontade de fazer aquilo. É para satisfazer a minha vontade – o que estou sentindo – qualquer que seja o resultado. O fim está na própria ação, e não no que ela vai causar.

Fiquei traumatizado, mas ‘perdoei’ a Andrea. Tenho a vaga lembrança de ter falado com ela sobre isso. Não sei se foram dias, meses ou anos depois, mas lembro dela me pedir desculpas. De dizer que, no momento, não sabia o que responder. De nunca ter tido oportunidade de sequer pensar que eu [ou alguém] gostasse dela. Não há como culpá-la. E por muitos anos eu me culpei. Mas aprendi também a relevar meus próprios ‘erros’ e a perdoá-los. Entender que eu nem sempre soube das coisas e que nunca vou saber por completo.

[E que não posso tocar "Te Ver" por 2 minutos para uma guria e no final dar um fade out para parecer que a música terminou.]

*High and Dry – Radiohead

Não tenho mais idade para isso

Na verdade, eu não tenho mais idade pra muita coisa. Não posso mais, por exemplo, me perder no supermercado e pedir para a moça do alto-falante avisar que estou esperando minha mãe no balcão de informações. Agora é a Carol que tem que ir me encontrar.

Final de ano, 2006. Carol tinha conseguido, de última hora, uns dias de folga. Aquele ínterim de Natal e Ano Novo. De ‘presente’, acabei comprando uma passagem para podermos ir antes de meus pais. Se fossemos com eles, ela ficaria apenas 2 dias em Florianópolis. Fui na rodoviária do Tietê e na hora em que cheguei, tinham acabado de abrir um ônibus extra. “Que sorte”, foi o que eu, ingenuamente, pensei. Era de ônibus comum.

Pausa. A primeira vez que viajei de ônibus sem minha mãe foi para o Rio de Janeiro, com a avó de meu primo [a que não é também minha avó] e, de tão pequeno que era [OK, pequeno eu nunca fui], de tão menor que eu era, achei aquilo extremamente espaçoso. Um Cometão, comum. Banco de couro, vinho. Lindo. Volta.

Hoje tenho 1,90m. Faz uns anos já, ou seja, estava ciente do risco e decidi encarar aquilo juntando alguns fatores. 1) Eu me acho [achava] novo. Pô, baita aventura para contar aos netos. “Sabe, eu e sua avó [dá um tapinha na bunda da vovó deles] fizemos uma loucura uma vez. Fomos de ônibus comum para Florianópolis.” 2) Era o único jeito de conseguir que Carol aproveitasse mais tempo em Florianópolis.

A minha sorte é que ela é pequena. Durante a viagem, eu pude jogar minhas pernas para o lado dela e ela jogou as dela no meu colo. Ela dormiu meio torta. Eu fiquei meio torto, porque dormir é qualquer outra coisa diferente daquilo que fiz. Chegamos e eu desci do ônibus pensando na tortura que seria a volta.

“Que sorte”, foi o que ingenuamente pensei quando meu pai disse que, por dó, pagaria minha passagem de volta… de leito. Lindo, não? Lembre-se que eu disse “ingenuamente”. Entrei todo serelepe no ônibus. Achei que seria melhor do que dormir na minha cama. Deitei na poltrona, me esparramei, peguei o cobertor [ar-condicionado no talo, aquela delícia] e depois de demorar bastante pra pegar no sono [uns 15 minutos] começou a passar um filme tão tosco, mas tão tosco, que eu ainda acho que foi fruto da minha imaginação.

Roteiro: um cara era assaltante e usava uma máscara de palhaço para isso. Um trauma o tirou de cena. Por algum motivo [acho que a filha dele estava em perigo] foi obrigado a voltar. Detalhe: usando a mesma máscara. Além disso, o som estava mais alto do que em sala de cinema. Durante o tempo do filme, dei umas cochiladas, mas sem conseguir cair no sono. Achei que fosse por causa do som e do filme. “Que sorte”, foi o que ingenuamente pensei quando o filme acabou.

Me acomodei na poltrona novamente e tentei dormir. Não conseguia. Por nada. Revirava, me esticava e nada. Não encontrava “A” posição sabe? Em um determinado ponto comecei sentir aquela angústia nas pernas, de quem está em fase de crescimento, conhece? Cara, eu já tinha 1,90m e 23 anos! Mas com o perrengue da ida, comprei Dramin pra volta, por precaução. “Que sorte”, foi o que… você já sabe. Tomei um Dramin. Nunca tinha tomado antes, então não sabia quanto tempo esperar para o efeito. Esperei 1h.

A angústia e o “eu não consigo dormir” só tinham aumentado. Tomei mais um. Fez efeito. Mas meu corpo se rejeitava a dormir junto com o cérebro. Ou seja, fiquei meio zumbi. Meu cérebro nocauteado, mas meu corpo aceleradíssimo. E com as pernas doendo. Eu literalmente dava murros nelas de agonia, para ver se paravam com aquela palhaçada, mas nada. Resultado: cheguei em São Paulo sem saber direito quem eu era, de onde vinha e pra onde estava indo. Mancando.

Quem vê pedigree não vê coração

As coisas nem sempre acontecem do jeito que a gente espera. Clichê e lugar-comum, não? Bem Manuel Bandeira me autorizou a escrever sobre o lugar-comum depois desse ‘flash autobiográfico’ dele [indicação da Dani Arrais].

Voltando. Já aconteceu e vai sempre acontecer. Se planejar e não acontecer como esperado. O que a gente aprende com isso? Se você de fato aprender algo são duas opções: 1) não se planejar mais. Deixar rolar, o que for. Mas se você for como eu e simplesmente não sabe deixar tudo rolar, você continuará se planejando mas 2) na hora em que der errado, não se estressará.

Tudo isso para contar a divertida [para mim] história de uma amiga. Ela tinha uma pitbull de pedigree. Colocou pra cruzar. Cada filhotinho sairia por mil reais, aproximadamente, ou seja, um que nascesse já pagaria a quantia gasta [sim, isso é caro]. Ela cruzou [a cadela]. Tudo lindo e maravilhoso. Colocaram aquela fraldinha pra nenhum outro cachorro tentar algo. O que aconteceu? A fraldinha caiu e o basset da minha amiga, que vivia junto com a pitbull, não pensou em pedigree, nem nada. Foi lá e cruzou por livre e espontâneo instinto com a cadela. Resultado: monstrinhos. A pitbull não ficou prenha do pitbull de pedigree e deu a luz à cachorrinhos esticados, mas com uma cara de pitbull.

FIM

O pé que me encosta

Ainda não tenho TV em casa. OK, TV-aparelho eu tenho. Já até comprei o codificador da parabólica, os cabos e até conectores. Mas o conduíte pra sair lá de cima e vir até a minha casa não existe ou foi feito errado. Ou seja, tem que passar o cabo por fora, fazer uns furos nas paredes com uma broca especial, etc. História longa demais e um parágrafo perdido.

Vamos começar de novo. Sem a antena instalada em casa, eu e minha esposa temos assistido basicamente DVDs na TV. Já foram umas 5 temporadas de Friends, a 1ª temporada de Everybody Loves Raymond, uns 10 filmes e começamos a assistir Band of Brothers [completo] no final do ano passado. É um seriado sobre alguns os caras da Companhia Easy, que lutaram na 2ª Guerra. Americanos, claro. Tem co-produção do Tom Hanks e Steven Spielberg. Classuda. Ou seja, quando em casa, para relaxar, a gente vê um monte de gente sendo morta, bombas, soldado morrendo congelado e essas coisas que o Jornal Nacional também passa. E eu ainda sou uma criança nesse quesito. Se eu assisto algo que me impressionar, certeza que vou sonhar com isso à noite.

Estou armado, com botas, com roupas de camuflagem e sendo carregado junto com outros feridos. Estamos na caçamba de um caminhão, ou algo do gênero. De repente, sinto um pé apoiado no meu. O pé que me encosta está imóvel, gelado. Me contraio e de repente percebo que está tudo escuro e que estou na minha cama. Totalmente encolhido, tento alcançar a lanterna que deixo no chão, ao lado da cama. Quero ter certeza de que aquilo ali não é um corpo morto. Eu já sei que estava sonhando, sei que estou no meu quarto mas ainda não sei que pé é aquele. Pego a lanterna e ilumino o pé que me encosta. Ele é pequenino e moreno. É o pé de Carol, claro. Mas quem disse que minha mente [insana] consegue parar de sonhar, mesmo quando já estou acordado?

Ônibus 3

Era viagem de formatura da 8ª série. Isso foi em 98, ou seja, tinha 14 para 15 anos. Ou seja, testosterona à flor da pele no último, embora, às vezes, conseguisse disfarçar aquela ansiedade natural.

O colégio em que estudei contratava sempre a mesma empresa de turismo para esse tipo de viagens. Eu não sei se já conhecia uma das monitoras ou tinha paquerado-a [é bem provável, porque eu nem sempre conseguia disfarçar], mas pareceu que algum contato anterior havia acontecido.

Eram 3 ônibus… os ônibus 1 e 2 eram ‘normais’. O Ônibus 3 era o que os guris chamavam de “Paraíso”. Não sei como conseguiram colocar só mulher no Ônibus 3. Juro. De homem só tinha o motorista. Até as duas únicas monitoras do grupo estavam lá. E, incrivelmente, parecia que havia rolado um processo seletivo, com base na beleza das meninas. As 40 mais bonitas juntas, em um ônibus apenas.

Planos para conseguirmos passar para o Ônibus 3 não faltaram. Em uma das paradas a monitora do segundo parágrafo foi importunada por garotos e garotas, implorando para poderem conseguirem um lugar no Ônibus 3 [sei que fui tomar meu Choco Milk e não importunei ninguém]. As garotas estavam de saco cheio da gente só falando sobre aquilo e queriam mudar. E os meninos… bem, você sabe.

Eis que os monitores mandaram todo mundo voltar para seus respectivos ônibus. Alguns manés tentaram entrar no Ônibus 3, mas era bater o olho e ver o intruso. Sentamos e a monitora do segundo parágrafo, provavelmente paquerada por mim, entra no nosso ônibus. Todos alvoroçados, prevendo que uma mudança ocorreria. Durante a parada, rolou um boato que havia 3 vagas no Ônibus 3. Os números estavam ao nosso favor!

Mas, para mim, era uma batalha vencida. Era muito moleque e testosterona juntos para poder ir para o Ônibus 3. Fiquei na minha, sentado no fundão, olhando o movimento da estrada, esperando o nosso ônibus andar. Eis que ouço a monitora falando “OK, então… quem quer ir pro ônibus 3?” Gritaria, garotos histéricos, um furdúncio. “Calma, só vão 3…” Mais histeria, garoto tentando subornar a monitora e uma ameaça de morte. “Então… vai o Gabriel e quem mais?”. Hein? Gabriel? Como ela sabe meu nome?! “Vai o Gabriel Louback e quem mais? Vamos sortear?” Como?! Sorteio?! Mas eu já estou incluído? Não entendi. Explica de novo? “Gabriel, você está me ouvindo? Você quer ir para o Ônibus 3 ou não?” HA! Não precisa perguntar de novo. “OK, pegue suas coisas e pode ir pra lá que a gente vai sortear os outros 2″.

Peguei minha mochila [já era inseparável na época] e fui para o Ônibus 3. Subindo os degraus da porta, o motorista deu um sorriso de canto, como quem abre o portão do Paraíso e diz “Seja bem-vindo, nobre cavalheiro”. Lembro de ter entrado e visto aquele corredor infinito, abarrotado de garotas adolescentes. [Lembre-se que eu tinha a mesma idade delas. Por favor, não me imagine hoje!]. A que parecia ser a líder chegou para mim e disse “Pode escolher o lugar, “. Eu podia escolher. Dei uma geral e todas sorriam. Nem preciso dizer do aroma doce e suave que reinava dentro daquela carruagem divina. Acomodei-me no fundão. Assim como o processo seletivo do Olimpo pegou só as mais bonitas, elas estavam sentadas em ordem crescente de beleza. Quando os outros dois garotos chegaram, nos olhamos como aqueles que compartilham um privilégio tremendo, mas que sabem que qualquer palavra pode estragar o momento. No fundo, sabíamos que não havia palavras para expressarem o momento. Sentei de lado em um dos bancos, ficando apoiado no colo de uma guria [claro], com as pernas esticadas no colo de outra, enquanto outras 5 ficaram debruçadas ao nosso redor, conversando e rindo das piadas bestas que eu [já] fazia na época.

Sério. Até hoje eu não faço a mínima idéia de como isso aconteceu. Apesar de ter sido amigo de todos os grupinhos e todos me conhecerem, eu nunca fui o tipo popular. Mas certas coisas é melhor a gente só desfrutar, sem nada perguntar.