Crônico

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Quando eu era moleque…

18 Agosto , 2009 · 3 Comentários

…de vez em quando chamavam a minha mãe no colégio, para uma conversinha.
Era sempre mais ou menos assim:

- olha, o Gabriel é um ótimo aluno. só tem notas boas e é muito inteligente. mas….
- é, eu sei. sempre tem um “mas” com ele.
- …mas ele fala demais.
- e eu não sei?! vivo falando isso pra ele! “tem que falar menos, Gá!”
- então, como eu dizia, ele conversa muito durante as aulas.
- ai, esse gabriel, viu?! é fogo!!
- dona Rose…
- oi.
- então, além de falar muito, ele é muito bagunceiro. incita discussão na classe, enfrenta os professores…
- enfrenta como?
- ah, desafiando, questionando, tudo quer saber o porque, quem é que disse aquilo, como é que a professora sabe e pode provar. desafia a professora a provar que ela sabe mesmo a matéria e que merece estar ali, ensinando aos alunos. [nessa hora, dona Rose tentava disfarçar o sorrisinho no canto da boca] além disso, como falei, ele conversa muito, mas as notas são excelentes. o problema é que atrapalha no rendimento dos amigos e não o dele! ele é também um pouco, para não dizer muito, indisciplinado. tem dificuldade com autoridade e em receber ordens.
- sei, pensava dona Rose, sabendo de onde tudo isso vinha.

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Amanheceu

23 Julho , 2009 · 1 Comentário

amanheceu

A musiquinha das 7h, da Jovem Pan, era o marco para sabermos se estávamos no horário ou se estávamos atrasados. Morávamos em Guarulhos e estudávamos no Mackenzie, eu e meu irmão. Rolê no final da Fernão Dias, Dutra e boa parte da Marginal Tietê. Minha mãe era [é] uma heroína. Durante quase 10 anos fez esse trajeto conosco, todos os dias, pela manhã. Quando o Narciso Vernizzi começava a falar, sabíamos que faltavam cinco minutos para as 7h. Lembro do dia em que, minha mãe tirando o carro da garagem, o Narciso começou a falar. Pensei: “Ah ê! É hoje que perco a primeira aula!”. A meta era estarmos já perto do Sambódromo quando o Sr. Vernizzi [já falecido] começasse a dar a previsão do tempo para o dia e para o final de semana, caso fosse sexta-feira.

Em São Paulo, se você não se policiar [ou não tiver uma cabeça 'boa'], será muito fácil deixar-se tomar pela angústia. Um sentimento de desespero, por sentir-se sempre atrasado. Quando entrei na faculdade [e ainda não trabalhava], acordava por volta das 11h, pois as aulas eram no período da tarde. Sentia que havia perdido um mundo de coisas, pelo horário avançado na qual levantava. Meu primeiro estágio foi na rádio Brasil 2000, na rua onde morava. Ajudava a fazer o jornal da manhã, que começava às 6h. Saia e ia comprar um café com leite no bar. Já havia ônibus lotados passando na avenida, 5h50 da manhã. Por isso, ainda havia um sentimento não necessariamente de atraso, mas de que a cidade já estava em pé há horas e eu ali, acordando ‘tarde’. Houve uma época em que eu acordava às 4h30, para ir trabalhar em Alphaville. O horário da fábrica era 7h30 e pegava um ônibus até a Ponte do Piqueri, para esperar o fretado. Na região do Ceagesp parecia shopping em véspera de Natal. Não importa o horário em que eu acordasse, sempre havia alguém em pé antes de mim.

Sempre achei o clichê “A cidade que não dorme” um pouco exagerado. Porque ela dorme sim, só que em horários diferentes. O problema é que essa sensação de atraso não é uma exclusividade de quem vive aqui. Quando você começa a estudar os escritores clássicos, lê livros de Filosofia, aprende Semiótica, conhece a história da Arte, Música, Matemática, pensadores etc, você percebe o quanto de coisa já aconteceu no mundo e que você não participou ou não tem conhecimento. O sentimento de angústia aparece quando você percebe que a sua vida [o que? uns 70 - 80 anos?] não será suficiente para você conhecer tudo o que já foi ensinado, dito, pensado, cantado, escrito e vivido.

Comecei a me sentir assim quando percebi a quantidade de livros que eu ainda queria ler, mesmo tendo lido muitos até aquele momento. O ser humano não consegue [e acredito que não conseguirá] absorver tudo o que já foi feito. Um rebento, que está nascendo nesse exato momento, já nasce, de certa forma, atrasado, em relação a nós. Daqui uns 15 anos, ele apenas saberá quem foi Michael Jackson pelo que lê e pelos CDs que nós, antiquados, guardaremos para mostrar à posteridade. Esse ‘atraso’ é inerente a todo ser humano e, por isso, inevitável. A gente já nasce com milhares de anos de atraso!

Aprendi com um amigo que para um problema que não tem solução, então não há problema. Se esse sentimento de ‘atraso’ é inevitável, basta apenas, então, fazer o que estiver ao nosso alcance. A angústia que essa sensação nos traz pode ser substituída por uma paz de quem, agora, é livre para adquirir e conhecer o que bem entender. Uma viagem à Europa só fará sentido se isso for uma das coisas que você irá querer realmente experenciar [desculpe, Guimarães Rosa] e como parte da sua experiência de vida. Você não precisar conhecer a França, por exemplo, só pelo status que o país tem de ponto turístico mundial e por ter sido palco de inúmeros movimentos e revoluções. Você não precisa ler determinado livro porque ele está na estante “Clássicos”. Já que não será possível conhecer todos os lugares, ou ler todos os livros, então que sejam lidos os que mais têm a ver com você. Que sejam vistos os filmes que mais tem vontade. Que sejam visitadas as cidades que mais te atraem, seja ela Durandé, seja ela Nova York. Quem está atrasado tem mais tempo para fazer as coisas.

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O que foi dessa vez, Gabriel?

25 Fevereiro , 2009 · 4 Comentários

A professora disse que eu não podia ficar mais dentro da sala de aula. Era um sonho de todos aqueles que não gostavam de Biologia, mas eu gostava. Mas o que eu gostava mesmo era de provocar. Alguns vão pensar “Gostava, não, né Gabriel. Gosta!”. OK, eu gosto. Mas sempre gostei, admito. Nasci assim. Naquele dia, a professora disse que eu teria que sair da sala e eu concordei. Ela se assustou por eu não ter resistido, mas a surpresa logo se transformou em ira, quando me viu pegando uma cadeira, abrindo a porta da sala e sentar logo na passagem. Tecnicamente, eu estava do lado de fora. Eu disse que gostava [desculpe, gosto] de provocar.

Entrei na sala da Dª Arlene e ela fez aquela cara “O que foi dessa vez, Gabriel?”. Nós parecíamos bons amigos, daqueles que se vêem semanalmente e batem um papo sobre o que tem acontecido nas nossas vidas. Isso quer dizer que era eu quem dizia, e só as mazelas, claro, que me levavam à sala dela.

Lembro sempre de minha mãe voltando das reuniões de pais e professores e dizer: “Gá, todos disseram que você é um ótimo aluno. Excelente nas notas, mas conversa e responde demais. E você precisa parar de provocá-los, mesmo que você tenha razão. Eles sabem que às vezes você tem razão mesmo, mas não gostam que você os questione ou os exponha assim, utilizando essa tática.” E isso antes dos 15 anos. Agora eu sei porque ela voltava com um sorriso no rosto!

“Gabriel, você vai levar essa advertência paras os seus pais assinarem.” OK, Dª Arlene, mas eu já aprendi a falsificar o visto do meu pai. Como é que a senhora vai saber que eles assinaram mesmo? Como é que esse seu método garante que eles saibam do que acontece aqui? E mesmo que eu não soubesse falsificar, e se desde a primeira vez que eu trouxe algo assinado deles, na verdade fui eu quem assinou? “Gabriel, apenas traga o papel assinado, pode ser?” Tá bom.

Mas eu nunca levei advertência por ter desrespeitado a professora aquele dia, segundo ela afirmou. Enquanto ainda estava na sala da diretora, o celular tocou e eu vi nos olhos dela o desastre. Ela ficou mais branca do que quando fumaram maconha dentro do banheiro do colégio, com um bedel emprestando o isqueiro. Ela simplesmente desligou e me disse: Gabriel, volte para a sala. Acabou de estourar a 3ª Guerra Mundial.

A gente sabe que, de fato, não houve Guerra Mundial. Depois do 11 de setembro, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, Iraque e ainda ameaçam o Irã, além de mais uma meia dúzia da lista negra. Tirando uma dúzia da Inglaterra e uns quatro ou cinco da Austrália, ninguém embarcou nessa de ‘Coalizão’.

Eu preferia ter levado aquela advertência, sem nem falsificar assinatura, do que ter visto tanta coisa acontecer por causa de outra ‘provocação’ naquele dia.

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Lembrei disso depois de ler esse [ótimo] texto do Tucori.


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Like an angel from a bedtime story*

17 Fevereiro , 2009 · 2 Comentários

Para ler ouvindo Have You Forgotten – Red House Painters.

Dois pequenos acontecimentos da minha infância:
ou
Duas grandes decepções da minha infância:

1 – O dia em que fugi de casa. Eu nunca fui revoltado com minha família. Era rebelde e indignado com a vida, de forma geral. Com professores, guardas de trânsito, juizes de futebol e qualquer autoridade. Mas com meus pais não. Ou seja, não havia muito motivo pra fugir de casa. Simplesmente achei que era uma experiência pela qual todo homem deveria passar, ainda que moleque. E para ser mais autêntico, não fiz trouxa de roupas, não levei dinheiro, nem mantimentos. Saí do jeito que estava. Como morava em um bairro tranqüilo de Guarulhos, passávamos o dia brincando na rua. Ou seja, minha mãe não perceberia até que fosse tarde demais, pensou minha cabeça fugitiva. Joguei bola, andei de bicicleta, fui o mais longe que já havia ido. Sempre tem uma parte do bairro que a gente vai que serve como limite. Mesmo que já tenha passado daquele ponto de carro, sozinho é bem diferente. Fui a lugares que nem imaginava existirem. Fiquei perambulando não sei quanto tempo. Dias, semanas. O suficiente para sentirem falta, pensou minha cabeça fugitiva. Decidi voltar para casa em um dia normal. Na hora da janta, para ser mais emocionante. Entrei em casa com aquele brilho que só os fugitivos e homens pra valer [tipo um Clint Eastwood ou Tommy Lee Jones] têm. Minha mãe me olhou surpresa e exclamou: “Gá! Que bom, chegou bem na hora da janta. Vai tomar um banho pra gente comer”. Eu fugi e voltei no mesmo dia, descobri depois. Ela até hoje não acredita que eu já fugi de casa.

2 – Eu sempre tive muito gibi
. Da Mônica, Super-Homem, X-Men, entre outros [todos, praticamente]. Lembro que certo dia minha mãe se cansou de todas aquelas revistinhas e nos incentivou a vendê-las. A primeira coisa foi reclamar e dizer o quão absurda era a idéia. Ela esperou o esperneio e disse que como a gente vivia reclamando da mesada ser pouca, seria um ‘complemento’ de nossos rendimentos. Ela nem bem terminou a frase e já estávamos, eu e Gui, separando os que seriam vendidos. O mais legal disso tudo era reler todas as historinhas. Não podíamos simplesmente nos desfazer de um gibi, se houvesse uma historinha muito legal dentro dele. Lembro de ter lido uma do Titi, onde ele tinha a idéia de vender seus gibis antigos. Colocou-os à venda no bairro e um garoto veio, deu uma lida e não quis mais comprar, dizendo “Legal! Mas agora que já li, não vou levar”. Achei muito legal o roteiro [identificação com o personagem] e mostrei para o primeiro amigo meu que chegou na nossa garagem, onde havíamos montado nossa ‘barraquinha’ de revistinhas. Ele leu a historinha, deu risada e disse: “Legal. Mas agora que já li, não vou levar”. Juro.
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*Have You Forgotten – Red House Painters

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I bet you think that’s pretty clever, don’t you boy?*

4 Fevereiro , 2009 · 10 Comentários

Para ler escutando High and Dry – Radiohead.

Era 1994. O Brasil seria ou já havia sido campeão do mundo pela 4ª vez. Não lembro se foi antes ou depois de julho. Na verdade, eu achava que tinha acontecido em 93, mas fui pesquisar e o CD ‘Calango’, do Skank, só saiu um ano depois do que imaginei.

Como foi em 1994, eu estava na 4ª série do primário. Sempre foi fácil lembrar os anos de colégio. E o primeiro fora a gente nunca esquece. Na verdade, acho que não foi o primeiro de todos. Talvez tenha sido o primeiro a me deixar engasgado, até com um pouco de raiva.

Como eu disse, Calango tinha sido lançado e o hit parade pertencia ao Skank. Eu sabia o álbum inteiro de cor. Tirando duas músicas mais chatinhas, ouvia todas. Eu só tinha dois discos: Calango e Nevermind. O clássico do Nirvana foi o primeiro que comprei, antes mesmo de possuir um CD player. E lembro que no dia em que fomos comprar o aparelho, para poder ouvir os cinco ‘disquinhos lasers’ que já tínhamos em casa, meu pai comprou o Calango pra mim. Saímos de Guarulhos e fomos até o SP Market, pra lá de Santo Amaro, porque tinha um CD player mais barato. Hoje em dia eu conseguiria convencer meu pai a não ir, simplesmente mostrando que a quantidade de gasolina gasta daria para comprar um aparelho mais caro, em um lugar mais perto, e ainda sair pra jantar no Outback.

OK, volta. A história não é essa. Enfim, eu gostava da Andréa/Andrea/Andreia/Andréia. Não lembro direito. Digamos que seja Andrea, que fica mais fácil de escrever, eu não entro em confusão com a reforma ortográfica e todo mundo sai feliz. Menos o Gabrielzinho, de 1994.

Eu gostava bastante da guria. Ela foi a primeira Winnie Cooper que apareceu na minha vida. Eu era um eterno Kevin Arnold. Jurava que os caras do programa iam fazer pesquisa de campo lá em casa, perguntando pra minha mãe o que rolava na minha vida. Deve ter sido um deleite quando ouviram a história da Andrea.

Estudávamos na mesma classe. Ela não fazia o tipo da ‘massa’. Poucos garotos reparavam nela, o que a tornava mais interessante ainda. Ou reparavam, mas eram tão cagões quanto eu. Como sempre fui muito ruim em xavecar, sempre usei a tática [falha] de virar amigo antes. Só fui me dar conta do quanto isso me atrapalhou anos depois. Como éramos amigos, constantemente ligava para ela, falando de trivialidades. Lição de casa, provas etc. Decidi que estava cansado daquilo. Não dava mais para ficar enrolando, sem ela saber o que eu sentia. Liguei, oi, tudo bem, o que você está fazendo e já emendei: “Olha essa música que ouvi e fiquei pensando em você…”. Entra o Samuel Rosa cantando: “Te ver e não te querer, é improvável é impossível. Te ter e ter que esquecer, é insuportável é dor incríveeel”. Na verdade, foram 20 segundos de introdução, até ele entrar cantando. Tem todo o “Arrarraum iê… uh uh uh. Arrarraum iê. Noaiuntchu cybers”.

Coloquei o CD no meu mini system, aumentei o volume e colei o bocal do telefone nas caixinhas de som. A sorte à época: era um minis system portátil e o telefone era sem fio. Pude ir para o quarto, fechar a porta e pagar esse mico em paz. Eu deixei o Sr. Rosa cantar o refrão [que abre a música], cantar a primeira estrofe inteira [“É como mergulhar num rio e não se molhar”], o refrão de novo, a segunda estrofe inteira [“É como esperar o prato e não salivar”] e o refrão. São dois minutos cravados. E finalizei com aquela técnica de ir abaixando o som aos poucos para parecer que a música acabou. [Nem eu acredito que fiz isso... Minha cara agora, se você pudesse ver, é de desaprovação com "que dó do Gabrielzinho"]. Fade out na música até ficar silêncio.

Gabrielzinho: E então?
Andrea: Er… ah… o que tem de lição de casa pra amanhã?

Juro. Pensando agora, não foi meu primeiro fora. Mas foi a primeira grande decepção. A expectativa de qualquer comentário sobre aquilo e nada. Simplesmente nada. Nem um “Que bosta, Gabriel”. Talvez tivesse sido melhor. Mas não. Ela preferiu falar da lição de casa. Eu não entendia e não a perdoava. Hoje sei que não poderia cobrar qualquer coisa dela. Eu fiz esperando um retorno. Apresentei algo com o fim de ter outro algo em troca. Uma resposta, que fosse.

Aprendi – não sei quando, não sei como – que a gente deve fazer as coisas pelo prazer de fazê-las. Talvez eu esteja errado ou você talvez discorde de mim. Se escrevo para alguém, não é esperando uma resposta. Se eu te visito, não é para ver o quanto você sorriu na hora em que me viu na porta. É simplesmente porque estou com vontade de fazer aquilo. É para satisfazer a minha vontade – o que estou sentindo – qualquer que seja o resultado. O fim está na própria ação, e não no que ela vai causar.

Fiquei traumatizado, mas ‘perdoei’ a Andrea. Tenho a vaga lembrança de ter falado com ela sobre isso. Não sei se foram dias, meses ou anos depois, mas lembro dela me pedir desculpas. De dizer que, no momento, não sabia o que responder. De nunca ter tido oportunidade de sequer pensar que eu [ou alguém] gostasse dela. Não há como culpá-la. E por muitos anos eu me culpei. Mas aprendi também a relevar meus próprios ‘erros’ e a perdoá-los. Entender que eu nem sempre soube das coisas e que nunca vou saber por completo.

[E que não posso tocar "Te Ver" por 2 minutos para uma guria e no final dar um fade out para parecer que a música terminou.]

*High and Dry – Radiohead

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Ônibus 3

3 Dezembro , 2008 · 4 Comentários

Era viagem de formatura da 8ª série. Isso foi em 98, ou seja, tinha 14 para 15 anos. Ou seja, testosterona à flor da pele no último, embora, às vezes, conseguisse disfarçar aquela ansiedade natural.

O colégio em que estudei contratava sempre a mesma empresa de turismo para esse tipo de viagens. Eu não sei se já conhecia uma das monitoras ou tinha paquerado-a [é bem provável, porque eu nem sempre conseguia disfarçar], mas pareceu que algum contato anterior havia acontecido.

Eram 3 ônibus… os ônibus 1 e 2 eram ‘normais’. O Ônibus 3 era o que os guris chamavam de “Paraíso”. Não sei como conseguiram colocar só mulher no Ônibus 3. Juro. De homem só tinha o motorista. Até as duas únicas monitoras do grupo estavam lá. E, incrivelmente, parecia que havia rolado um processo seletivo, com base na beleza das meninas. As 40 mais bonitas juntas, em um ônibus apenas.

Planos para conseguirmos passar para o Ônibus 3 não faltaram. Em uma das paradas a monitora do segundo parágrafo foi importunada por garotos e garotas, implorando para poderem conseguirem um lugar no Ônibus 3 [sei que fui tomar meu Choco Milk e não importunei ninguém]. As garotas estavam de saco cheio da gente só falando sobre aquilo e queriam mudar. E os meninos… bem, você sabe.

Eis que os monitores mandaram todo mundo voltar para seus respectivos ônibus. Alguns manés tentaram entrar no Ônibus 3, mas era bater o olho e ver o intruso. Sentamos e a monitora do segundo parágrafo, provavelmente paquerada por mim, entra no nosso ônibus. Todos alvoroçados, prevendo que uma mudança ocorreria. Durante a parada, rolou um boato que havia 3 vagas no Ônibus 3. Os números estavam ao nosso favor!

Mas, para mim, era uma batalha vencida. Era muito moleque e testosterona juntos para poder ir para o Ônibus 3. Fiquei na minha, sentado no fundão, olhando o movimento da estrada, esperando o nosso ônibus andar. Eis que ouço a monitora falando “OK, então… quem quer ir pro ônibus 3?” Gritaria, garotos histéricos, um furdúncio. “Calma, só vão 3…” Mais histeria, garoto tentando subornar a monitora e uma ameaça de morte. “Então… vai o Gabriel e quem mais?”. Hein? Gabriel? Como ela sabe meu nome?! “Vai o Gabriel Louback e quem mais? Vamos sortear?” Como?! Sorteio?! Mas eu já estou incluído? Não entendi. Explica de novo? “Gabriel, você está me ouvindo? Você quer ir para o Ônibus 3 ou não?” HA! Não precisa perguntar de novo. “OK, pegue suas coisas e pode ir pra lá que a gente vai sortear os outros 2″.

Peguei minha mochila [já era inseparável na época] e fui para o Ônibus 3. Subindo os degraus da porta, o motorista deu um sorriso de canto, como quem abre o portão do Paraíso e diz “Seja bem-vindo, nobre cavalheiro”. Lembro de ter entrado e visto aquele corredor infinito, abarrotado de garotas adolescentes. [Lembre-se que eu tinha a mesma idade delas. Por favor, não me imagine hoje!]. A que parecia ser a líder chegou para mim e disse “Pode escolher o lugar, “. Eu podia escolher. Dei uma geral e todas sorriam. Nem preciso dizer do aroma doce e suave que reinava dentro daquela carruagem divina. Acomodei-me no fundão. Assim como o processo seletivo do Olimpo pegou só as mais bonitas, elas estavam sentadas em ordem crescente de beleza. Quando os outros dois garotos chegaram, nos olhamos como aqueles que compartilham um privilégio tremendo, mas que sabem que qualquer palavra pode estragar o momento. No fundo, sabíamos que não havia palavras para expressarem o momento. Sentei de lado em um dos bancos, ficando apoiado no colo de uma guria [claro], com as pernas esticadas no colo de outra, enquanto outras 5 ficaram debruçadas ao nosso redor, conversando e rindo das piadas bestas que eu [já] fazia na época.

Sério. Até hoje eu não faço a mínima idéia de como isso aconteceu. Apesar de ter sido amigo de todos os grupinhos e todos me conhecerem, eu nunca fui o tipo popular. Mas certas coisas é melhor a gente só desfrutar, sem nada perguntar.

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Cadernos

14 Novembro , 2008 · 2 Comentários

Vou ser honesto.
O texto é longo.
Um tratado, diria Saramago.
Então se prepare…

Para quem escreve, certas coisas são sagradas. E profanas. Cadernos, por exemplo, envolvem esses dois conceitos.

Lembro de mim [óóó] na 1ª série e os famigerados ‘diários’. Não, eu não tinha um “Querido diário”. O Mackenzie sempre se orgulhou por ser um Colégio Americano. Algumas [várias] coisas eram baseadas nos valores, princípios e culturas do país que elegeu Barack Obama. Por isso só fui ter futebol na Educação Física lá pro ginásio. Como o futebol [de salão] não é esporte olímpico, o Mackenzie não o incluía em sua grade de esportes. Legal, né?

Enfim, os professores obrigavam-nos a ter nossos diários. Era um caderno de capa dura, com linhas. Só. Lá, tínhamos que anotar as tarefas da próxima aula. No primário, tirando artes e Ed. Física, era a mesma professora para todas as matérias. Então a nossa única ‘diversão’ na hora de escrever no diário era trocá-lo com alguém. Todo mundo queria ter a letra da Isabela grafada em seu diário. Meninos e meninas. Ela era esse tipo de guria. O Gustavo, um dos moleques mais nerds que já conheci na vida, era o maior puxa-saco e mais paga-pau de Isabela. Eu já era meio nerd também, mas eu sempre fui um nerd às avessas. Tocava o terror na sala de aula, brigava pra sair na porrada, sentava no fundão, não estudava e muito menos fazia lição de casa. Como eu me formei [do pré à faculdade] sem nunca pegar recuperação ou DP e consegui entrar em dois mestrados [e depois largá-los], acho que nem meus pais explicam. O caso é que eu não era o Gustavo. Nunca fui e nunca serei [até que ele era um cara bacana]. Mas me irritava o fato dele sempre conseguir trocar diário com a Isabela, sendo bonzinho daquele jeito [será que era isso?]. O fato é que um dia eu consegui. Seria legal ter aqui como é que isso aconteceu, não? Pois é, não lembro. Como eu conheci tanta mulher [e casei com a mais linda delas (óóónnn)] também é um mistério. Nunca tive muita tática. Nem para os estudos, nem para as mulheres.

No fim das contas, acho que as mulheres e os estudos são parecidos. Por mais que inventem fórmulas e tentam decifrá-los, sempre tem um ou outro que obtém sucesso e ninguém explica como. [Prazer, Gabriel].

No colegial começou a tortura: um professor para cada matéria. Como todo pré-adolescente, eu queria aquele cadernão, com as divisórias. Mas umas acabavam muito antes que as outras. Alguma matérias pediam 5 páginas por aula. Outras, 5 páginas por mês. Andar com 2 – 3 cadernões não era a solução mais prática.

Só fui equacionar esse problema na faculdade. Na verdade, acho que foi um pouco antes, pois já cheguei com essa tática sedimentada na universidade. Para variar, não lembro quando e como. A estratégia: um cadernão, mas sem divisórias. Arrancava todas as divisórias e começava a escrever. Primeiro dia de aula, primeira disciplina: Teoria da Comunicação 1. Era na primeira página. Semiótica da Cultura 1, segunda aula. Passava um risco na linha de baixo de onde tinha terminado TC1 e emendava as anotações da aula seguinte. Eu tive um caderno por semestre. Todas as matérias compiladas em um. E uma atrás da outra, divididas apenas por um risco.

Por incrível que pareça, essa foi a solução para meus problemas. O caos dos meus cadernos é que fez eu conseguir estudar. Aquela bagunça foi o quando parei e pensei “Agora sim”. Lógico, meus colegas odiavam isso, quando pediam meu caderno para xerocar e poder estudar com base nele. Mas era um preço a se pagar. Eu não anotava apenas o que os professores falavam. Eu já colocava ali as minhas considerações, já colocava a informação processada… mastigada e digerida. Era a minha interpretação daquelas teorias, no caderno. Em Semiótica a gente aprende que o caos é benéfico ao homem. Uma situação caótica [um problema, uma crise] obriga o homem a se reorganizar, sair da zona de conforto, se esforçar para sair daquilo. Passado o caos, ele ’subiu’ um nível. Se reorganizou de uma forma inédita, cresceu como ser humano. Se acomoda até que um novo caos o tire da zona de conforto.

Acho que o caos em meus cadernos era o que me fazia ter paz nos estudos. Eu não funciono separado, em divisões. Não sou linear. Leio algo aqui e pulo 2 – 3 páginas até encontrar novamente meu assunto. E meus assuntos se misturam. Tudo acontece ao mesmo tempo agora. Não dá para separar algo tão mesclado. Talvez, por isso, gostasse de ter meus cadernos assim e só dessa forma consegui me organizar para estudar… no caos.

Update: atualmente, ando com um caderninho na mochila, inseparável. Para anotar idéias e coisas que ouço e acho interessante. No esquema tudo-junto-agora. Sem divisórias. E tenho um pseudo-Moleskine, do Batman, onde tenho anotado frases que penso [e considero bacanas], lista de DVDs e livros emprestados aos amigos e nas últimas páginas, contatos importantes.

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Um mundo quase perfeito

11 Setembro , 2008 · 5 Comentários

O mundo que imagino é um mundo sem violência, sem drogas, sem abuso sexual, sem pobreza. Não teria sujeira, políticos corruptos, inflação, corrupção e não haveria greve por qualquer coisa.

Ele seria cheio de árvores, todas as cidades teriam praias, mesmo sendo no interior do país; não haveria noite, só dia.

Ninguém seria chato, não sentiríamos dor, nem tristeza; não haveria frio, nem teríamos doença.

O mundo seria redondo mesmo, só que com poucos relevos; o céu sempre azul, chuvas só para nos refrescar e não chuvas torrenciais; o Tietê e todos os rios seriam limpos.

Este é o meu mundo, um mundo quase perfeito.
_______________

este texto escrevi em 1995, quando estava na 5ª série, com 11 – 12 anos.
achei outro dia o livrinho em que ele foi publicado.todo ano, as melhores redações da 5ª à 8ª série eram compiladas em um livrinho chamado ‘Lermack’ [de Mackenzie].

desde que achei o livrinho, li para algumas pessoas.
sempre ao final do texto, me perguntavam: – porque ‘um mundo quase perfeito’? por que é ‘quase’?

não precisei tentar entender o motivo, ou buscar lembrar.
sempre esteve na minha cabeça, desde a primeira vez que escrevi a redação.
é ‘quase’ perfeito porque é o meu jeito de ver o mundo.

muita gente vai discordar de muita coisa que coloquei ali.
até eu mesmo penso diferente em algumas coisas que escrevi e a redação hoje sairia diferente.
mas quando a escrevi, lembro exatamente de ter pensado nisso.
essa é a minha visão de como o mundo seria perfeito.
por isso é quase.
porque, em última instância, só agrada a uma pessoa: a mim.
por isso não pode ser perfeito.
o conceito de ‘perfeição’ é absoluta, indiscutível.

apesar de pensar diferente hoje em dia [eu gosto do frio, gosto da noite, gosto de chuva], ainda tenho esse princípio: o que é bom pra mim, pode não ser para você.
assim como o que é bom para você, pode não ser para mim.

desse jeito, a gente vive muito menos estressado, entendendo que nem todo mundo quer a mesma coisa que a gente.
e se alguém não entende isso, entenda que ele talvez não queira entender.
é uma escolha que se faz e tentar mudar essa pessoa, acabaria com a idéia da coisa.

deixa pra lá.
não é descaso.
é paz.

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Meu primeiro quadrinho

14 Agosto , 2008 · 2 Comentários

Sempre fui um bom aluno. Nunca repeti, fiquei de exame ou recuperação. Apesar de ser um dos que mais bagunçava e conversava durante a aula, eu me garantia. Aprendi cedo a perceber quando o professor começava a repetir o conteúdo do dia, então prestava o máximo de atenção na primeira vez e sempre me sobrava metade ou um terço da aula para minhas divagações.

A matéria que sempre fui mal era Artes. Embora a Vivs Tiemi ache isso um absurdo, o meu colégio era um tanto quanto tradicional e para ir bem em Artes, tinha que saber desenhar.

Lembro que um dos trabalhos foi produzirmos uma história em quadrinhos, em um A3, de canson. Sem exagero, foi uma dos maiores sofrimentos que senti na vida. A cada dia que passava, a angústia aumentava. Isso porque os quadrinhos tinham que ser absolutamente simétricos, do mesmo tamanho, todo padronizado. Havia uma técnica em desenhá-los, quase uma fórmula. E eu nunca fui muito bom de fórmulas.

Em Física, por exemplo, eu deduzia as fórmulas, pois não conseguia decorá-las. Para mim era muito mais fácil pensar no fenômeno, nas condições e deduzir a fórmula. Gastava metade do tempo da prova apenas chegando à formulazinha decoreba que meus amigos anotavam na sola do tênis. Enfim, só o trabalho de desenhar os quadrinhos, o espaço aonde iriam os desenhos, o sofrimento foi enorme. Eu cheguei a chorar, palavra. Lembro de um dia entrar no carro com meus pais e eu começar a chorar e soluçar. Minha mãe perguntou o motivo e eu disse que era aquele maldito trabalho de Artes. Até eu sinto dó de mim, hoje.

Como meus traços eram parecidos a de uma criança que nem segurar o lápis direito sabe, eu optei por uma perspectiva em primeira pessoa. Não sei se estava influenciado por Wolf 3D, mas achei que seria mais fácil. E o que meus amigos levaram uma semana para fazer, eu levei o semestre inteiro. Ainda bem que o trabalho era o do semestre.

Dei o melhor de mim. Foi um dos trabalhos que mais me esforcei, me dediquei e suei. Ficou impecável. Perfeito. A melhor coisa em Artes que eu já havia feito. Tirei 6.5, pois a professora sabia da minha deficiência em Artes e não queria me deixar de recuperação. Imagina o trauma que isso poderia ter provocado.

Até que cresci e comecei a descobrir as verdadeiras obras de arte. Os desenhos de Picasso não faziam o menor sentido ao mesmo tempo em que faziam todo o sentido. Um dia descobri os Malvados [se você é sensível a temas polêmicos e 'cenas fortes', nem se dê ao trabalho]. Quadrinho ácido, que se a profª Edite lesse, daria no máximo 3, pela rebeldia e originalidade. Já a profª Claudete daria zero e ainda mandaria uma ocorrência para os pais do Dahmer assinarem.

Eis que encontro um site com um dos melhores quadrinhos que já li, com um traço e uma técnica muito parecida com a minha: palitinhos-man. Vale a pena dar uma olhada no xkcd.

Nesse mundão da internet, não lembro como, tive contato com os Bichinhos de Jardim, da Clara Gomes. Depois de já ter virado fã, adicionei a guria no Gtalk e começamos a falar sobre Arte e o[s] nosso[s] produto[s]. O meu é texto, o dela é desenho [dos bons]. Ela manda muito bem também no roteiro dos Bichinhos e os personagens, com sua fofura enganam.

Estou em um processo de me ‘libertar’ de querer agradar ou impressionar as pessoas, com o que escrevo ou produzo. Tenho feito isso pelo prazer que me dá. Ponto. Se isso me faz bem, a única coisa que preciso para me sentir bem, é fazer. Clara divide a mesma opinião.

Tudo isso para dizer que escrevi o meu primeiro quadrinho. Vou considerar o primeiro, pois os produzidos na década de 90 não contam. Agradeço o esforço e dedicação da Dª Edite e Dª Claudete, mas não posso considerar aqueles quadrinhos como meus primeiros. Aquilo não era [m]eu. Eram vocês, senhoras, se manifestando na mente das crianças e querendo que elas fizessem como vocês.

Enfim, meu primeiro quadrinho.
Como já fiquei satisfeito apenas por tê-lo feito, fique à vontade para gostar ou não. =)
E outros virão.
Ou não.

[Legenda (minha letra é horrível):
- Como a Rússia ousa invadir outro país?
- Sr., essa é a nossa política há décadas
- (...) Mas eles não são a gente]

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A arte de jogar a vida

11 Junho , 2008 · 2 Comentários

Nunca fui um grande jogador de futebol, apesar de sempre ter sido grande. Talvez isso atrapalhasse o desenvolvimento da técnica de controle da bola, velocidade, entre tantos outros fundamentos necessários para que um garoto seja considerado “bom”. Por ser muito grande [em altura e largura], não é difícil imaginar que durante anos joguei como goleiro. Segundo meu irmão, único e mais novo, sou “o gordinho mais ágil que ele já conheceu”. Em competições de atletismo, sempre me classificava em corrida.

Lembro-me nitidamente de minha timidez e insegurança durante minha infância. Quando ia a lugares onde havia muitos desconhecidos, grudava nas pernas de meu pai e dentro de mim era medo que sentia. Imagine então a minha adolescência como foi. Época de questionamentos, revoltas, turbulência, hormônios à flor da pele e garotas. Elas não fazem sentido e mesmo assim, às vezes achamos que só fazemos sentido ao lado delas. A minha timidez e insegurança foram controladas, de certa forma, quando descobri que conseguia fazê-las rir. Tenho para mim a teoria de que quando você consegue fazer uma moça sorrir e/ou rir, meio caminho está andado para conquistá-la.

O que é que isso tem a ver com o futebol? No geral, não muito, mas com o meu futebol sim. Quando aprendi, durante a adolescência, a relaxar e descontrair, de certo modo, meu futebol melhorou. Continuo sendo “o gordinho mais ágil” que meu irmão já conheceu. Além disso, minha ginga [se é que é possível chamar esse sacolejar de massa de um lado para o outro de "ginga"] foi aprimorada. Não dou dribles sensacionais, mas também já não sou apenas o jogador de 1,90m que apenas pela altura e agilidade é escalado para o gol. Quando aprendi a viver a vida de um jeito menos tenso, a relevar mais e a curtir mais a vida, meu futebol melhorou. Para que esse esporte único e com tantas idiossincrasias seja jogado, é necessário que a tensão e a dureza da vida sejam lapidadas e as pontas que ferem, arredondadas. Talvez seja por isso que, em um país com tanta decepção, tanta fome, tanta tristeza e com tanta gente desiludida, o futebol seja mais expressivo e amado do que em qualquer outro lugar do mundo. Ele é a expressão de uma vida leve e como a maioria das pessoas não têm a oportunidade de levar uma vida assim, nos contentamos pelos que conseguiram e esses tornam-se heróis.

Meu irmão ensinou-me não apenas a fazer bola de chiclete, mas também a gostar e conhecer mais o único esporte que joga bola com os pés. Me incentivou a discutir táticas, estratégias, saber o nome dos jogadores e a apreciar uma partida entre Barueri x Bragantino, times menos conhecidos, mas não menos respeitados. Ensinamento de um irmão mais novo: não importa seu tamanho, todos têm seu valor.

Obrigado, Gui.
Com seu jeito de jogar a vida, aprendi melhor a viver o futebol.

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