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A fantástica vida breve de Oscar Wao

4 Dezembro , 2009 · Deixe um comentário

O trajeto no Metrô era: [subir] Belém > Sé > Paraíso > Vila Madalena [descer]. Sempre que faço a baldeação na Sé tenho que pensar por alguns segundos no mapa de São Paulo e quase adivinhar se para a V. Madalena/Paraíso é preciso ir no sentido do Jabaquara ou do Tucuruvi. Ele, o cérebro, mandou ir pro Jabaquara. Entrei no vagão e, depois de sentar, abri o que estava lendo, “A fantástica vida breve de Oscar Wao”. Sim, é bom. O autor, Junot Díaz, ganhou um Pulitzer, “o Oscar dos livros”, diria o jornalista cultural. Mas a garantia dele ser bom não é essa, claro.

Já disseram ['disseram' quem? / eles, oras... / 'eles' quem? / você sabe] que são os livros que nos escolhem. Concordo, mas sou eu que compro, então os dois se escolheram. Quando li um tweet do @jpcuenca elogiando “…Oscar Wao”, tive a impressão de já ter ouvido falar no livro antes. Mas a primeira referência linkável no meu cérebro é essa do Twitter, então prossigamos.

Depois disso, dando uma checada da Livraria Cultura, vi o livro na parte de Mais Vendidos / Lançamentos / Destaques [escolha um] e li a contra-capa, com aspas do New York Times: “Tão original e fantástico que somente pode ser descrito como um encontro entre Mario Varga Llosa, Jornada nas Estrelas e Kanye West”. Se você não me conhece, então saiba que uma descrição dessa garante que eu vá diretamente ao caixa comprar o produto, não importando minha situação financeira. A pegadinha é que estou aprendendo a controlar meus impulsos [quando acho necessário, claro] e não comprei o livro. Pedi à minha esposa para comprá-lo de aniversário para mim [o fato de não comprá-lo não quer dizer que eu abriria mão de tê-lo ;-]

Depois de ler, posso afirmar: tem muito mais de Star Wars do que de Kanye West. E de Vargas Llosa, tem a narrativa, claro. Oscar é um guri fissurado em tudo que já fomos e somos fissurados. E é um loser, óbvio. Caso você não saiba, ser nerd nos anos 90 não era legal. Ficava longe de ser bacana como Sheldon/Leonard, o pessoal de CSI, Peter Parker ou Clark Kent [OK, Clark Kent é um mala] o Dr. Manhattan. Ou o Batman que, de certa forma, é um nerd também. Falando nisso, Junot Díaz considera nerd até Che Guevara e cia. O cara mandou bem na construção dos personagens e da ambientação. Merece o Pulitzer que recebeu.

Eis que tinha o livro em mãos e quando a moça do falante do vagão anunciou, “Estação Liberdade”, pensei, Estou no sentido contrário, e todo o resto aconteceu em questão de 8 segundos, no máximo. Levantei, saí do vagão, meu cérebro processou que a possibilidade d’eu ter errado em achar que estava no sentido errado era grande, fui andando lado a lado ao trem, bati o olho no mapinha que fica em cima das portas dos vagões e vi que estava certo em achar que tinha errado em achar que estava no sentido errado. Entrei no vagão seguinte e pude continuar minha leitura, dessa vez me preocupando apenas em não perder a estação Paraíso.

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Texto publicado originalmente no Judão.

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Like a Rolling Stone*

28 Agosto , 2008 · Deixe um comentário

Rolling Stones é a banda de Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Woods. Rolling Stone pode ser tanto um membro da banda ['Lennon era um Beatle'], como o nome de uma das revistas mais conhecidas da cultura pop. O assunto aqui é ela.

Gosto muito de ler entrevistas. “As 30 Melhores Entrevistas de Playboy” foi a primeira coletânea que adquiri. Quando soube que “As Melhores Entrevistas da Rolling Stone” estava para sair, já sabia que teria que comprar o livro, qualquer que fosse o preço. Nunca gostei de biografias. Mas era o caso do “não conheço, não gosto”. Besteira. Instigado por meu primo, passei a ler e adorar histórias reais. Sempre gostei de assistir, ouvir e ler entrevistas, então era meio claro que gostaria de biografias. No caso da Rolling Stone, as entrevistas não são tão longas quanto as da Playboy. Pelo menos, não na coletânea. Mas a vontade de se aprofundar em questões pessoais e polêmicas do entrevistado, está lá. Jann Wenner, editor-chefe da RS, inclusive, diz ter se inspirado na Playboy para realizar tais entrevistas. Eles pegaram o modelo da revista de Hugh Hefner e aplicaram ao mundo do rock e dos músicos, o que não acontecia antes. Grandes sacadas não são, necessariamente, grandes invenções. Podem ser apenas a utilização de algo existente, em uma área ainda não testada.

Ainda não li todo o livro, mas uma das entrevistas mais inusitadas, até o momento, é de Andy Warhol entrevistando Truman Capote. Na verdade, Wenner havia solicitado a Capote uma matéria sobre uma turnê dos Stones, a banda. No entanto, o jornalista acabou sem entregar nada e coube a Andy Warhol chegar e perguntar “O que houve?”. O interessante é o quanto os dois enrolam para chegar a esse assunto. Falam sobre animais, a infância de Capote, entre outras coisas, até que sentam para conversar e Warhol diz “OK, vamos às seis perguntas que Jann pediu que eu fizesse”. Ele vai seguindo o script, mas Capote entre no jogo e as responde. Andy entra no clima e começa a fazer perguntas que ele está interessado e, na verdade, vira mais um bate-papo do que uma entrevista. Com isso, acaba-se descobrindo um pouco do universo dos Stones. Lê-la após a entrevista de John Lennon, que também figura no livro, possibilita fazer fortes analogias sobre o mundo do rock, seu glamour e todos os envolvidos.

Uma máxima do jornalismo é belamente aplicada pela RS. “Se alguém não quiser te dar uma entrevista, isso será sua matéria.” Capote não entregou sua matéria. Por causa disso, entrou na seleção das melhores entrevistas da Rolling Stone.

*Já usei esse título em outra ocasião, mas aqui fica bom também.

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