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Só sei quando o verão termina por causa do Tom Jobim

Eu adoro o verão, mas tem algo que sempre me deu raiva. Com a programação “Verão MTV” aprendi a odiar (só um pouquinho) a vida cotidiana na cidade. Pleno fevereiro, já tinha até passado o carnaval, provas e trabalhos rolando no colégio, e a Music Television lá, passando Lual MTV, naquela vibe “Somos felizes, vivemos o verão, somos da praia”. Uma falta de respeito passar esse tipo de programa e vinhetas até quase o começo de março. (Trivia: só sei quando o verão termina por causa do Tom Jobim).

Passada metade da semana que ficaríamos em Maresias, começou a bater aquela pré-depressão da volta das férias. Engraçado que a gente estava de perna esticada na areia, mas tristes. Sofreríamos na volta, mas escolhemos sofrer antes também. Eu, principalmente, sofro antes, durante e depois (olha a frase solta!), mesmo que tenha buscado exercitar o contrário nos últimos tempos.

O que pega é que vemos essas propagandas do pessoal sendo feliz no verão e queremos que nossa vida inteira seja assim. Aquilo é um momento. Analisando cenas assim, percebo que vivi (e vivo) diversos momentos daqueles. Mas não vale. Tem que ser assim sempre, todo dia, toda hora, todo instante. É a ditadura do verão, pelo menos na minha alma.

“A nossa vida tem que ser boa. Não podemos depender das férias e descansos para sermos felizes”. Foi com essa declaração que minha esposa gentilmente deu um murro na minha boca (a do estômago está de férias prolongadas, apanha demais, tadinha). A camiseta que escolhi para usar hoje é uma das minhas preferidas. Todas as brancas (15) que tenho estão lavando – assunto para outro post – e vim com essa. “Happiness is a matter of choice” (felicidade é uma questão de escolha) diz a frase nas costas. “Go and choose” (vá e escolha) é o que está estampado na frente.

Pi π

Entrei na farmácia para comprar uma das coisas mais valiosas existentes na humanidade: o anticoncepcional da minha esposa. Acho incrível que algo tão fantástico esteja ali, ao alcance de um “Moço, preciso desse remédio”, enquanto entrego a ele um papelzinho meio amassado, com o nome do medicamento. Se fossemos depender da minha memória, eu já estaria com um time de futebol de salão de filhos e um estoque de sabonete em casa, já que sempre tenho a impressão deles estarem acabando.

Foi quando avistei um cara meio estranho, parado no meio de um dos corredores da drogaria. Ele tinha um olhar longe, meio perdido, quase insano. Passei de longe e pude entender a condição do moço: ele estava escolhendo absorvente. A não ser que estivesse com uma hemorrogia causada pela máfia italiana e não quisesse dar bandeira indo a um hospital, ele fazia aquilo pela guria dele, quanto amor.

Mas me compadeço dele. Se o contato mais próximo que você já teve de decorar o infinito é o Pi (π / 3,14159blablabla), então você nunca precisou comprar absorvente para sua mulher. Sério. Você chega em casa com um pacote de 36 absorventes (promoção) sem abas, noturnos, camada extra, essência de lavanda, cor-de-rosa, para os dias de inverno e descobre que o que ela queria era o que tinha gel rarefeito e você comprou o de algodão em gel. Difícil, meu amigo.

É uma prova de amor chegar ao caixa com aquele pacotão, quando você fica constrangido até no supermercado, na compra do mês, na hora de passar os 72 rolos de papel higiênico (promoção) pela registradora. É chato porque todo mundo sabe que você está precisando daquilo e que, em algum momento, será usado de forma mais constrangedora ainda.

Sempre torço, na farmácia, para ser um homem no caixa. Nada de machismo. É que as moças olham pra gente de duas formas: 1) romantizando o momento, me achando um fofo por fazer isso ou 2) com um ar de reprovação, já imaginando a besteira que estou fazendo, pois com certeza errei em algum detalhe do absorvente. O cara não. Ele olha pra gente e não precisa nem dizer nada. É um olhar de “Tamo junto”, de quem sofre as mesmas agruras dessa vida, mês a mês. Se eu abraçasse um deles depois de informar o número do meu CPF para a Nota Fiscal Paulista, duvido que ele não retribuísse entendendo meu sofrimento.

A vida é nada

A vida é boa. As crianças sorriem de graça para mim. Não preciso fazer careta, nem me esconder e aparecer de repente. Parece que sou um daqueles personagens de “Onde Vivem os Monstros”, que parecem assustadores para as pessoas grandes, mas que são apenas um bicho de pelúcia gigante para as pessoinhas. Elas sorriem e retribuo não por educação, mas por ser inevitável. O sorriso delas me faz sorrir.

No instante seguinte lembro que ainda quero ter filhos, mas que, assim como muitos netos, eles não vão conhecer um dos avôs. A vida é uma merda. Dói tanto que meus olhos deixam a criança triste, em contato com uma profundidade de tristeza que espero que elas nunca venham a conhecer, mesmo sabendo ser impossível. Dói tanto que chega a doer, de verdade. No peito, principalmente, doutor. É a dor do vácuo, da ausência, a dor do nada no lugar de algo que era grande e bonito. Agora não é feio ou pequeno, só é nada.

A vida é nada.

Olho para o sol de outono, final de tarde e minha alma fica em paz. Que paz maluca é essa, de onde vem, não sei. Mas ela vem. Como uma criança, apenas recebo, mesmo sem saber sua origem. A paz ainda está misturada à tristeza, mas a dor não é mais angustiante. É uma dor de cicatriz, que vai ficar ali pra sempre. Ou como uma fratura mal curada, que é sempre sentida quando chega o inverno dessa vida. E eu me preparo para os invernos, para os dias cinzentos e os de chuva. Quando não dá vontade de viver.

A vida é boa e é uma merda, às vezes até ao mesmo tempo. É tudo e no instante seguinte é nada. Não sai disso, mas eu ainda me surpreendo. Preocupo-me em chegar o dia que não me surpreenderei mais.

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foto: Marina Sobral

Ladeiras

Acho incrível a quantidade de publicações que há em uma banca. Às vezes desconfio que chega a ser demais. Uma para cada interesse: esportes, moda, carros etc. As de saúde, dizem, são vendidas na sua maioria para pessoas que não se exercitam. Assim como alguém que gostaria de ter uma vida na montanha, de trilhas e escaladas, compra uma pick up para subir as ladeiras da Vila Madalena.

Em um almoço, é possível ouvir: “Gostaria de ter essa vida e ser assim”, mas poucas são as pessoas que buscam, de fato. A maioria de nós, e me percebo muitas vezes assim, espera a condição existir para depois vivê-la. Exemplo simples: eu queria voltar a fotografar mais, sem ninguém precisar ver, mas esperava voltar a ter tempo para isso. Precisei decidir sair com a câmera mais vezes e o tempo foi criado, não veio, como gostaríamos que fosse (e é como fazemos) o contrário.

O sol vai nascer para a humanidade, para todos, sem depender de mim. Esperar mais do que isso é perigoso. Não há garantias. De todos que passaram por aqui, falaram e ensinaram, não há um dizendo isso. Não dá para fiar-se nisso.

Se eu achar que ao ter uma Kombi serei mais hippie, surfista ou aventureiro do que realmente sou, estarei comprando uma farsa. A van já era útil para quem vivia assim e ela cumpre seu papel, mas ela não me dá um. Esse sou eu que preciso ir atrás e não só descobri-lo, mas eu mesmo escrevê-lo.

Varal

Daqui da janela dá pra ver a cobertura de um prédio entre a Vila Madalena e Pinheiros. Na verdade, é menos cobertura do que um apartamento no último andar, pois não tem nada de chique. Um lençol azul e algumas roupas, balançando com o vento frio do início do fim da tarde em São Paulo, e o sol ainda batendo nelas.

Quando questionado sobre o que espero (e busco) da minha vida, se pudesse mostrar a cena, era isso que responderia. Não é necessariamente uma resposta concreta, que deixará a pessoa satisfeita com sua dúvida resolvida, mas também não tenho procurado respostas concretas. Repare no sol por volta das 17h30, amigos tomando um café, o gari varrendo a rua e, talvez, isso traduza um pouco: simplicidade.

Quero uma vida mais simples. Talvez quisesse ser aquela roupa estendida no varal, apenas com a função de ficar seca durante o dia e, se não fosse possível, ficar mais um pouco ali no dia seguinte. A questão não é a falta de percalços e tribulações. A roupa vai pra rua, é surrada, suada, rasgada, amassada e suja. Quando chega em casa, fica com outras roupas na mesma situação, quase desprezadas, escondidas em um cesto e só saem dali para serem afogadas e batidas em um tanque ou máquina de lavar. São torcidas até darem tudo que têm de si, até a última gota de seu respiro ser extraída e, só então, vão para o varal, onde conseguem se esticar, tomar um sol e serem felizes com o vento das tardes frias de São Paulo.

Uma vida sem dificuldades não é vida que vale a pena ser vivida. Seria um passeio, um playground, uma bolha e uma mentira, seria qualquer coisa, mas não seria vida. Porém, mesmo assim, com tantos agouros, acredito na existência de uma vida mais simples, menos frenética e neurótica, menos estressante e massacrante. É possível minimizar algumas das angústias e dores da alma. Ou não, só é possível trocar algumas dores da alma por outras, mas ainda assim quero escolher quais serão. “Basta a cada dia o seu próprio mal”. A única certeza é que o mal virá, então só me resta diminuir os que conseguir evitar e ser um pouco mais roupa ao varal.

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foto: Daigo Oliva

Pretexto

João tem 33 anos e mora no Jd Irene, o mesmo bairro do Cafu, lembra? 100% Jd Irene. Ele estava varrendo a calçada de um dos prédios da rua e, a princípio, não queria muito que eu fizesse a foto dele. Ficou desconfiado, perguntou pelo menos três vezes “Mas tá tirando as fotos por que? Pra que?” e foi difícil dar uma resposta que o convencesse.

Desisti de tentar persuadi-lo com uma resposta que pudesse flexibilizar sua vontade e simplesmente fui sincero: Só estou tirando fotos do pessoal do bairro. Pra mim. Por nada. Não sei.

“Não sei.” Mentira. Quando comecei a fotografar essa galera do bairro achei que dizer “Estou fazendo fotos do pessoal do bairro, posso fazer uma sua?” fosse o pretexto para conseguir os cliques. Descobri que os próprios cliques é que são um pretexto que uso para conhecer mais dessas pessoas que vejo quase todo dia mas não sei quem são, nem o nome sei.

Esse aí de cima é o João, 33 anos, do Jd Irene, que ficou intrigado por eu usar uma câmera de filme e também pelo fato de ainda existir quem espere dias para ver como ficou uma foto.

Chega

Eu odeio Power Point. O programa, os slides, os efeitos e tudo o que nele há. Até reconheço que há pessoas que conseguem utilizá-lo com parcimônia e sabedoria. Há, inclusive, empresas que cobram para te entregar um ppt bacana, o que acho muito útil. Ouso dizer que o Power Point só não perde para o Excel, alvo master da minha revolta tecnológica. Porém, o texto de hoje é para admitir que um slideshow de Power Point já me fez repensar algumas coisas na minha vida.

Era daquele clássico, cheio de fotos tocantes, um texto em Comic Sans e uma música de fundo, pra dar o clima. Não vou reproduzir o texto aqui na íntegra, mas ele começava com a cena de um homem separando a melhor roupa e o melhor perfume da esposa. Fazia aquilo quase como um ato sagrado.  O texto então contava no que o homem estava pensando. A esposa havia falecido e o marido ponderava sobre as vezes que ela deixou de usar aquele vestido, já que não era uma ocasião especial. Ou quando ela não colocava o melhor perfume que tinha, guardando para um dia que fosse especial.

Já escrevi a respeito dos “pleasure-delayers”, os retardadores de prazer. Acho que vai além. Esperamos sempre uma ocasião especial para estrear aquela roupa, sapato ou perfume. Esperamos que os momentos sejam especiais para, daí sim, desfrutarmos deles como merecem. Esperamos que algo fantástico seja proporcionado, para podermos admirar a maravilha que aquilo é.

Vivemos de forma passiva, esperando que os momentos especiais aconteçam ao nosso redor e que sejamos convidados para eles. Chega. Chega de esperar o maravilhoso acontecer. Chega de esperar o especial te chamar pra sair. Use seu melhor perfume para ir à padaria, se assim lhe der vontade. Vai no supermercado e queria usar aquela camisa que gosta? Use! De verdade, qual o problema em fazer isso?

(In)felizmente foi necessário que eu recebesse (abrisse e lesse) uma apresentação de Power Point para pensar nisso. Não importa se a história ali contada era verdadeira ou apenas um conto. A esposa daquele homem havia morrido sem usar um vestido que adorava e que comprou com tanto carinho. Pode ser que tenha deixado de ouvir um elogio de seu marido, em casa, por estar com um cheiro tão gostoso.

Não temos controle dos nossos dias, como serão ou quando serão. A única possibilidade de mudarmos alguma coisa é com relação a como encaramos cada um deles. Podemos viver esperando que os dias especiais cheguem ou podemos decidir quais deles serão especiais, simplesmente mudando a forma como enxergamos nossa vida.

Cada dia que acordo ao lado da minha esposa é especial. Cada dia que converso com meus pais, meu irmão e meus amigos é especial. Cada dia que o sol se põe é especial. Por isso, farei também especial cada dia que ele nascer. Afinal, é a única coisa que posso fazer.

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Texto publicado na Paradoxo.

Que saudade, que saco, que maravilha

Aquela moça que deixou tudo para trás, mudou de cidade, de amigos e, até mesmo, de família. No fim das contas, acabou tudo numa coisa só. Cidade, amigos e família, algo que nunca imaginou que aconteceria. Ao acordar e ver o sol batendo no concreto, ao invés de sentir o cheiro da maresia, sente-se em casa. Que saudade, que saco, que maravilha. Essa é sua vida e ela está vivendo.

Ou o menino apaixonado desde o colégio pela guria dos seus sonhos. Se nasceu aqui, se veio de fora, se é descendente de alemães ou africanos, não faz a mínima diferença. O que importa é que escolhe as músicas que vai ouvir para tentar ao máximo reproduzir aquele dia em que ela sorriu para ele. Justo pra ele, que tem um sorriso sincero e honesto quando pensa nela. Será que um dia vão ficar juntos?

Tem também o senhor que distribui folhetos de casa em casa, daqueles de planos odontológicos. Mas ninguém repara nele, muito menos nos seus dentes, fortes, brancos, bonitos e alinhados. Se vissem, perguntariam se ele usa algum daqueles planos e ririam logo depois, percebendo o absurdo da pergunta. Saberiam que ele não mora ali, apesar de estar sempre ali.

E o taxista, que vota no Maluf? Isso já seria motivo para desqualificar qualquer um, você pode pensar, mas e o abraço que ele dá no neto, todo dia que chega em casa? O pai do menino não aparece muito, então ele e a mulher ajudam a criar aquele tesouro. E mesmo ganhando mais por fazer o turno da madrugada, quando chega em casa, fica triste em ver que, mais uma noite, não dormiu ao lado da esposa, apesar de achá-la linda enquanto dorme. Sorri de forma triste e se deita para dormir, quando já é dia.

Descobri que sou apaixonado por pessoas por ser apaixonado por histórias. No final das contas, é isso que vale. As histórias que ouvimos, as que contamos e as que vivemos.

foto: Pedro Jansen

Anônimo

- Posso fazer uma foto sua?
- HEIN?! AHN??
- Opa, estou tirando foto do pessoal do bairro… posso fazer uma sua?

- Fica tranquilo, não é pra nenhum jornal nem revista. É só pra mim mesmo.
- Sei não, hein… acho que não.

Chega um amigo dele
- Aí? Tá fazendo o que aqui??
Percebo que ele é cego de um olho e não enxerga muito bem com o outro
- Só tirando uma foto do pessoal do bairro.
- Cara, se eu souber que essa foto tu vendeu ou publicou em algum lugar, O CIRCO VAI PEGAR FOGO!! EU VOU TACAR FOGO EM TUDO!!
- Não, não… fica tranquilo. Não quero nada pegando fogo. Não vou tirar uma foto sua, só queria uma dele.
- Não tira foto minha também não!
- OK, beleza…

Começo a ir embora
- Ei, pera aí! (risos) peraí! (risos), diz o que não pretende tacar fogo em nada.
- Fala.
- Então, um real… me dá um real que eu deixo você tirar uma foto minha.
- Um real? Fechado.

Me preparo para fazer a foto
- Dois reais, né? Dois reais pela foto.
- Dois, amigo? Não era um?!
- Não, não… dois reais. Dois reais e eu deixo fazer a foto.
- OK… dois reais

(o do retrato tá que não se contém de alegria dos dois reais que vai ganhar. Carol me ajuda a segurar a mochila, capa da câmera, capinha da lente)
- Olha aí, amigo… Dois reais. Obrigado!

O amigo dele, mesmo cego de um olho e enxergando mal com o outro, fica me fitando desconfiado, de longe, até me perder de vista na avenida.

Os humildes de espírito

Fiquei pensando no Seu Sebastião, do post anterior, e veio o que você lê abaixo:

Ele tem 59 anos e trabalha distribuindo folhetos e panfletos há quatro. Já fez de tudo na vida, menos roubar. Apesar do olhar cansado, mantinha um sorriso, um segredo que não ousei perguntar. O fato de ter me contado que dos cinco filhos só tinha dois, fez com que eu refreasse minha curiosidade, apesar dela ser enorme. Seu Sebastião não tinha um grande ensinamento para me passar ou uma visão de mundo que mudasse meus olhos. Justamente por isso mexeu tanto comigo.

Desde adolescente acredito que as pessoas simples e humildes de espírito têm uma sabedoria superior aos demais. Sempre valorizei isso, enquanto olhava com certo desprezo o ensino sistemático e formal, oferecido por escolas públicas e particulares, mesmo sendo formado por esse tipo de ensino. Romantizei essa visão por muito tempo, visão essa que segrega e dicotomiza demais as pessoas. O fato é que há a possibilidade de beleza e lição a ser aprendida com todos. Mesmo que não tenham uma lição a nos ensinar.

Com Seu Sebastião, fiquei intrigado nos olhos cansados. Em outra foto, a pessoa não me disse nada. É um senhor que todo dia encontro uma esquina antes de chegar ao trabalho, sentado ou na guia ou debaixo de uma marquise, martelando pedaços de metal e que me respondeu trabalhar com seu “carroção”, enquanto apontava para ele, cheio de papelão. Não tinha lição ali, mas aquela vida era tão importante quanto a do Seu Sebastião, a minha ou a sua.

A verdade é que a gente valoriza as pessoas e quantifica a importância delas. Tenho aprendido que qualquer vida é valiosa e valiosa igual. Reconheço que algumas vidas façam mais ‘diferença’ do que outras, como Gandhi, Mandela ou Martin Luther King. Mas sabe qual foi a grande diferença que eles fizeram? Consideraram todos importantes da mesma forma. Reconheciam o valor individual de cada um, como ser humano, fosse a instrução que tivesse, o quanto possuísse na conta corrente ou o quanto tivesse estudado, onde tivesse estudado, se tivesse estudado.

Hoje, olho para Seu Sebastião sem esperar que venha uma palavra de sabedoria divinal. Converso com todas as pessoas sem esperar que sejam fabulosas ou sem esperar que me decepcionem. A graça está nessa surpresa, de não saber o que virá das pessoas, sem precisar esperar que digam o que achamos que dirá. Não espero nada. Só espero poder me surpreender constantemente com o ser humano.