Crônico

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A ilha

5 Novembro , 2009 · 2 Comentários

Não lembro de qual faculdade de engenharia era e talvez seja melhor não saber mesmo. Já faz mais de um ano que vi o anúncio no jornal mostrando a foto de uma ilha e alguma frases, de sugestões para utilização do local. Isso daria um ótimo estacionamento! Não, acho que um shopping seria o ideal! Vocês não sabem de nada… essa ilha é ideal para construirmos um resort ecológico, sem destruir [muito] a vegetação local e explorarmos esse empreendimento.

Quem me conhece, sabe que sou lento para processar as coisas. Li o anúncio e fiquei pensando que diabos aquela faculdade queria ‘vender’? Para mim, é simples. Construir um resort ecológico é tão ruim quanto construir um shopping ou um mega-estacionamento. Se você já foi à Ilha do Mel ou Ilha Grande, sabe que o grande atrativo desses lugares é justamente a distância da civilização e de todos os aparatos da modernidade. O lugar não é chamado de ‘paradisíaco’ à toa.

De cara, fiquei meio revoltado com um anúncio para potenciais alunos de engenharia que olhem para lugares assim e pensem em empreendimentos. Mas, como diria meu pai, é a lógica do mercado. É assim que as construtoras pensam, logo a Academia oferece aos alunos um pouco do que o mercado exige deles.

Depois da revolta vem a tristeza, ao constatar que nossas ilhas, futuramente, poderão ser todas grandes resorts ecológicos e mega-empreendimentos de gigantescas construtoras. Mas podia ser pior, né? Esses engenheiros poderiam se formar em uma faculdade que não a oferecida no anúncio e construírem um estacionamento ali. Deixar a ilha como está, que é bom, ninguém cogita…

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Texto publicado originalmente na coluna Miudezas, da Revista Paradoxo.

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A firma

29 Outubro , 2009 · 2 Comentários

Primeiro dia de trabalho é algo sempre complicado. Você não conhece direito as pessoas e o que conversar. Conta sua vida? Mas o quanto se abre? Pior é que nem o básico para sobreviver está ao alcance de suas mãos. “Onde é mesmo que disseram que ficava o café? E água? Não vi ninguém com garrafinha em cima da mesa. Será que vou escandalizar com essa minha, de 1,5L?”

Esses dias fiquei imaginando o primeiro dia do presidente, por exemplo. Digamos o Lula, vai, que é o atual e nunca havia exercido nenhum cargo assim quando chegou ao Planalto Central. Será que ele conseguiu jogar paciência no computador dele? O pessoal do TI chegou a bloquear o Twitter, blog e Youtube [tão essenciais para a sobrevivência quanto o café e a água]?

Acho que o mandato de presidente e afins duram quatro anos pois até conhecer todo o pessoal ‘da firma’, pelo menos um ano se passa. Inicia-se sempre pelos que estarão mais próximos, no dia a dia, até o pessoal que escreve para o presidente e acha que ele sorteia cartas como a Xuxa fazia, em uma pequena montanha de envelopes, jogando tudo para o alto e pegando uma no ar.

Secretários pessoais, assistentes, assessores, vice-presidente, presidente da Câmara e o pessoal que trabalha de verdade na Esplanada.”Senhor, esse é o responsável pela limpeza da sua sala. Esse é o responsável pela limpeza do corredor. Esse é o chefe-adjunto da limpeza do andar. Esse é o secretário-executivo do cafezinho depois do almoço”. Aleluia!, deve ter exclamado vossa excelência em suas primeiras horas como presidente, já desesperado por um pouco de cafeína.

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1+1=?

21 Outubro , 2009 · 3 Comentários

Já reparou que quando você compra aquele tênis vermelho, começa a reparar o quanto de gente usa tênis vermelho? Ou quando você viaja para algum lugar e depois percebe o quanto se fala nele? Quando a gente casa não é diferente. Você começa a prestar atenção nas conversas ao seu lado e se dá conta do quanto as pessoas falam sobre seus casamentos.

Estava comendo em uma praça de alimentação e as duas amigas ao meu lado conversavam. Uma delas reclamava alguma coisa de seu companheiro / namorado / noivo / marido. Era um detalhe, mas não deixa de ser algo muito comum de acontecer.

O que reparei é o costume que há em se reclamar do seu cônjuge. Seja um casal hetero ou homossexual. Parece que a aliança na mão esquerda não é o suficiente para mostrar que a pessoa está em um relacionamento de casamento, ou nos moldes dele.

Muito já foi dito sobre a crise da família, como instituição e tudo mais. Não há uma causa. Não há um motivo único a ser acusado. Mas tenho visto [e aprendido] que algumas coisas contribuem para enfraquecer esses relacionamentos.

Um deles é a falta de cumplicidade que há entre os casais. Alguém certa vez me disse que a cumplicidade era algo a ser buscado por aqueles que queriam ter um relacionamento completo, com todas as suas vantagens e desvantagens. Uma mistura de Bonnie & Clyde com Lois & Clark. Assumi isso como uma coisa a ser exercitada constantemente.

Claro que, justamente por isso, não é algo fácil. A cultura de ‘homens x mulheres’ é muito forte. Quantas vezes você não viu uma guria dizer “Bah, eles não prestam… estou do seu lado, amiga”? Parece que as mulheres são eternas inimigas dos homens e que nós somos um vírus a ser combatido. Eu, por exemplo, me proibi de participar de jogos do tipo Imagem & Ação, com times de ‘homens x mulheres’. Perco o controle.

Acredito ser necessária a consciência de que a pessoa que mora comigo não é minha inimiga. É minha cúmplice. Se estamos na lama, estamos na lama juntos. Se estamos no caos, estamos no caos juntos. Se estamos vencendo, vencemos juntos. A pessoa que vive comigo é a que mais preciso ao meu lado, me apoiando e me lembrando das coisas que valhem a pena. Proponho que baixemos a guarda, assumamos a decisão de partilharmos nossa vida ao lado de alguém e sejamos cúmplices, um do outro.

O jogo ‘homens x mulheres’ é uma enganação, uma ilusão. Quando se decide viver com alguém, só existe “Nós x O Resto do Mundo”.
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texto publicado originalmente na coluna Miudezas.

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Menino de barba

15 Outubro , 2009 · Deixe um comentário

Escrevi sobre o sorriso das crianças, mas em dois dias descobri o sorriso dos idosos.

idoso_osegovia_menorSexta-feira passada, de manhã, foi ao ajudar uma senhora saindo do ônibus. Ela descia os degraus com dificuldade e o último deles parecia muito distante da calçada. Estiquei minha mão, ela se apoiou, viu que era um ‘menino’ ajudando e sorriu. Valeu meu dia.

No dia anterior garoava com vento. No ponto de ônibus, mesmo embaixo da parte coberta, molhávamo-nos, eu e as três senhoras. Abri meu guarda-chuva e deixei-o de lado, para me proteger do vento. De forma sutil, aproximei-me das senhoras, até que meu guarda-chuva [perdeu o hífen?] as protegesse também, embora não completamente. Passados alguns segundos, uma delas percebeu e veio bem embaixo do guarda-chuva, ficando quase colada em mim. Ela tinha a voz da Nair Belo: “Meninas, venham pra cá também! Tá quentinho!”, falou Dª Terezinha. “Olha que coisa mais fofa esse menino” [eu, no caso, o mesmo da barba que assusta criancinhas do outro texto]. As duas outras senhoras se achegaram e ficaram pertinho de mim. A mais linda de todas, que infelizmente não lembro o nome, foi em um ônibus antes do meu e a Dª Terezinha ficou para pegar o próximo, com a que tinha um guarda-chuva no braço, mas não negou o meu abrigo.

foto: Oscar Segovia

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Homem de barba

9 Outubro , 2009 · 3 Comentários

O sorriso de uma criança vale ouro, já percebeu? Nós, adultos, fazemos de tudo para que nos dêem um sorriso. Para que riam de nós. Eu mesmo, quando encontro com alguma criança na rua que fique olhando mais de três segundos para minha cara de Hagrid, sorrio de forma que ela entenda que sou um deles. Que ela é um de nós. Que entendo [ou lembro] o que passam e que sinto por ouvir mães e babás se relacionarem com elas na base do medo.

Como quando fui usado em uma situação dessas, em Embu das Artes. Estava sentado no banco da praça e passou uma mãe arrastando seu filho pelo braço, que fazia birra por alguma coisa. Ao se aproximarem de mim, ela me olhou, se voltou para o menio e mandou: “Filho, se você não parar com essa choradeira, vou te deixar com esse homem de barba aqui. É isso o que você quer?” Claro que não, você adivinhou. Não sou considerado boa companhia para adultos, quanto mais para crianças.

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The eagle has landed

24 Setembro , 2009 · 6 Comentários

A cena: alguns caras fumando do lado de fora. Todos com o rosto preocupado. Cada um que vem lá de dentro, o grupo pergunta: “E aí, está aqui por que? Qual é o seu caso?”.
Parece cenário de sala de espera de um hospital. Mas estamos todos na única loja que sobrou, da Marinho Móveis.

- Comprei uma poltrona e um sofá pequeno no mês passado.
- Putz.
- Que zica.
- Meus sentimentos…

“Comprei um sofá em junho”, digo.
Todos olham surpresos para mim.
- Caramba, cara.
- Não acredito… sério?
- Nossa, e eu pensando que minha situação era ruim.
- A gente nunca acha que vai acontecer com a gente, né?

Mas o sofá chegou. Hoje. Foi comprado no dia 13/junho e ‘entregue’ em 24/setembro.
‘Entregue’: tivemos que mandar um caminhão retirar o produto na loja, pois a Marinho quebrou. Não tem dinheiro para pagar os funcionários, que estão em greve e movendo ações contra a empresa.

- Moça, e meu frete? Como fica?
- Olha, a gente não tem os R$60 para te devolver. Então pode dar uma volta pela loja. Escolhe um puff, uma mesinha de centro ou uma poltrona e leva de brinde. Fica como o reembolso do frete.
Saí da loja com um puff, que devia valer uns R$200, pelo menos.

Uma pena que não receberei mais a ligação diária da Losango, cobrando o cheque sustado.
Estava começando a me sentir querido.

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Rio de Janeiro

18 Setembro , 2009 · Deixe um comentário

Fui ao Rio de Janeiro outro dia, visitar minha cunhada. É uma cidade que me fascina. Tanto quanto São Paulo, se não mais. Mas nem sempre foi assim.

Frequento a cidade desde 1993, quando o irmão do meu pai foi morar lá, na Barra da Tijuca. Desde então, minhas férias se alternaram entre Florianópolis, Rio, Vitória e Salvador. No Rio, praticamente não saíamos da Barra. Há boas praias lá e ótima infraestrutura. Ainda mais para quem é criança/adolescente. Areia e água salgada são tudo o que a gente quer.

Só mais velho fui conhecer, de fato, a cidade do Rio. Foi na época de sair com meus primos para bares, casas dos amigos etc que passei a admirá-la. Lapa, Tijuca, Flamengo, Botafogo, Lagoa, Baixo Gávea e a trindade Ipanema-Copacabana-Leblon. Ô cidade! As construções antigas, o povo, as ruas, o cheiro de mar no meio da cidade, o calor e o sotaque. Carioca soa malandro já na língua. A malandragem transborda pra cara, pros braços, pros pés e pro caminhar.

Agora tenho ‘base’ na Barra [tio], Tijuca [cunhada] e Copacabana [prima], para podermos variar bem nos bairros por lá. Não importa qual desses lugares fique, minha respiração melhora absurdamente quando estou no Rio, por causa da umidade e salinidade do ar. Só isso já seria um ótimo motivo para morar lá, não? Mas tenho outros. Um deles já disse: gosto de lá. Eu gosto, ponto. Não tem nem o que discutir.

Já me disseram que o trânsito está tão insuportável quanto o de São Paulo. Mas imagine você parado na orla. Cansou de ficar ali?, encosta o carro em algum canto, vai até o calçadão, pede uma água de côco e fica ouvindo as ondas, sentindo a brisa e curtindo a noite, esperando o congestionamento diminuir. Ou, para não pegar tanto carro na rua, vai mais cedo pro trabalho. Dá uma passada na praia, tira o sapato, caminha dez minutos, bate a areia e vai pro trabalho. Essa possibilidade da areia e mar, logo ali, só atravessar a rua, me conquista.

OK, todo mundo que mora em cidade litorânea diz que não se vai tanto à praia assim. Mas em São Paulo, quem é que frequenta, constantemente, a nossa infinidade de praças e museus, por exemplo? São poucos. Mas só de ter a possibilidade, só de saber que é só querer que tem, já me faria mudar para o Rio.


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Diretamente de Feira de Santana

2 Setembro , 2009 · 2 Comentários

Almoçando, vi de longe o senhor de camiseta regata da seleção brasileira, longas barbas brancas e acessórios em todo o canto. Pendurados no chapéu, nos bolsos, no cinto de couro [com cara de vir diretamente de Feira de Santana] e pinduricalhos na mochila. Veio com uma cara triste, quase chorando. Falava enrolado e não consegui ouvir direito, até que chegasse perto de mim e do Alisson. Eu e ele, bobos que somos, demos atenção. Deixamos que ele falasse: “Por favor, me ajudem. Sou um mendigo e só quero alguma coisa” e o resto não entendi. O Alisson perguntou: “Vai ali no balcão e pede alguma coisa, a gente paga. O senhor quer o que?”
- Não, não! Não posso. Sou mendigo. Não vão deixar. É muita vergonha. Tanta gente com tanto dinheiro, disse, cada vez mais triste.
- Mas o senhor quer comer o que? Escolhe ali.
- Não quero comer! Quero um café só, um cafezinho que seja, dessa vez, começando a chorar.
- Então, vai ali no balcão e pega um. Tem café lá.
- Não, não! Sou mendigo. Não posso. É muita vergonha… não vão me deixar entrar.

Alisson olhou pra mim, até agora não sei se me sacaneando ou se falando sério: “Ei Gá, tem alguma coisa aí? Tô sem nada”. Tirei dois reais da carteira e entreguei para o senhor, que já tinha algumas lágrimas correndo pelo rosto. Ele esticou o braço pra pegar a nota de R$2 e assim que a alcançou, mudou de expressão. Toda aquela tristeza sumiu, ficou um pouco sério, com um sorriso sarcástico estampado na cara. Mas a expressão de choro e todo o restante se desfez. Parecia até outra pessoa! Agradeceu e saiu cantando uma música que dizia para Deus me abençoar. Demoramos alguns segundos até sacar que o cara havia nos ludibriado. Alisson começou a gargalhar e eu com aquela cara de quem foi enganado, mas não sabe se ri do próprio infortúnio ou se xinga alguém. De longe, não tínhamos certeza se ele tirava sarro, gritando “Deus te abençoe pela ajuda, meu filho! Deus abençoe seu papai e sua mamãe” ou se falava sério. Ficamos mais alguns segundos, tentando tirar uma lição disso. Era óbvia: o Brasil não é mesmo para principiantes.

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Alguma coisa está errada

6 Agosto , 2009 · 1 Comentário

Estranhei a fila de carros naquela rua, paralela à Dr. Arnaldo, a Arruda Alvim. Quem vem da Alfonso Bovero ou Heitor Penteado, em direção à Consolação/Paulista, é a primeira à direita, passando a ponte do Sumaré. Uma fila enorme de carros. De cara, achei que estivessem indo para algum velório, já que há dois cemitérios ali na região. Mas os carros não andavam. Na rua cabem duas filas de carro e só a do lado direito estava parada.

Achei, depois, que fosse algum evento em um novo condomínio/empreendimento que estão construindo ali. Mas a entrada dele é logo no começo da rua e era possível ver a fila se estender até o cruzamento com a Cardeal Arcoverde. Fiquei intrigado. Sorte que estava caminhando na direção do início da fila de carros e poderia ver o que acontecia.

Conforme avançava, fui desconfiando do motivo de tamanha fila, com tantos automóveis caros. Aquelas pick-ups que consomem 3L/km, sedans chiques e outros mais esportivos. Eu me recusava a acreditar que era aquilo que eu imaginava: uma fila de carros, sendo dirigidos por pais que estavam ali para pegarem seus filhos na saída… do cursinho. Sim, do cursinho. A galera que faz cursinho tem o que? Entre 17 e 19 anos? Sei que há pais que continuam a buscar os filhos no colégio/cursinho, mas sempre soube de casos isolados. Não uma fila de quase 500m formada por carros que esperam seus filhos entrarem.

Fiquei achando um absurdo. Mas depois lembrei que hoje em dia é assim que as coisas são. E, no final das contas, alguém ainda poderia me dizer: “Me deixe em paz, você não tem nada a ver com isso”. Realmente. Justamente por isso, acho que alguma coisa está errada.

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Confesso que a invejei

3 Agosto , 2009 · 3 Comentários

Foram frações de segundos. Mas tudo isso se passou pela minha cabeça.

Fui atravessar a rua e ela estava sentada no chão. Uma senhora mais morena do que eu, com cobertores ao redor, uma caixa de papelão dobrada para sentar em cima e algumas sacolas. Parecia estar descansando. Estava na esquina, ao lado de uma pequena árvore, que começa a nascer. Ela só olhou para mim e sorriu. Como se fosse uma velha conhecida, apenas sorriu. Não estendeu a mão, não fez cara de dó. Sorriu feliz, de fato. Não tentava agradar ou amolecer meu coração. Estava realmente feliz e expressou o sentimento com um sorriso absolutamente sincero.

Confesso que a invejei, com suas roupas um tanto quanto sujas e gastas. Invejei aquele sorriso autêntico e verdadeiro. A meu ver, ela não tinha motivos para isso. Estava frio, ela não tinha uma casa para morar, um travesseiro para encostar a cabeça quando se sentisse cansada e, provavelmente, dependia da boa-vontade de outros seres humanos para sobreviver. E sejamos sinceros, nós conhecemos bem os seres humanos e que boa-vontade hoje em dia está em falta.

Eu, com minha casa, roupas, cama, edredons e cobertores, iPod e computador, tênis e sandálias, invejei aquele sorriso que nada pedia. Apenas sorria, escancarando a alegria de alguém que ‘não merecia’ aquele sentimento e expondo os meus próprios sentimentos, de quem tem uma vida boa e, ainda assim, não consegue sorrir como ela. Ficou bem óbvio que o que garante esse sorriso não são as coisas que temos. Na verdade, isso sempre foi ‘óbvio’, mas é incrível como nos esquecemos dessas obviedades. O motivo do sorriso é algo mais verdadeiro, algo menos passageiro. Aquela mulher é livre para ser feliz, porque ela não tem nada a perder.

O fato é que ela conseguiu me fazer bem. Quando ela sorriu, minha cara automática de “Desculpe, não tenho nada”, como se ela estivesse pedindo algo, se desfez. Por uma fração de segundo, fiquei sem saber como reagir. Mas aquele sorriso foi fundo. Naquele instante, não havia diferença entre nós. A quantidade de coisas que cada um possuía não fazia a menor diferença. O que fez diferença foi ela ter olhado para mim de igual para igual, me fazendo merecedor daquele sorriso, tanto quanto ela. Com aquele sorriso, ela me trouxe para um patamar de reconhecimento como poucos seres humanos conseguem realizar. Ela me disse: “Sorria, meu querido. Você também pode. Não importa o que digam, esse sorriso é seu também. Faça parte dele.”

E eu fiz, da forma que pude. Sorri de volta para ela, como poucas vezes sorri de volta para alguém. Era um sorriso de agradecimento, pelo que ela havia feito comigo naquele instante. Sorri pela alegria dela e pela alegria que ela havia proporcionado. Como disse, no primeiro instante, eu a invejei. Depois, desejei aprender a ser tão feliz quanto ela, não importando o que eu tenha, quem eu tenha ou onde eu esteja.

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