Crônico

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Mal sabia

7 Maio , 2009 · 2 Comentários

Atravessou a rua com seu passo tímido e subiu na construção como se fosse sólido.

Mal sabia o engenheiro que, ao descer, nada mais restaria. Foi assaltado no ponto de ônibus. A ladra, para formar o clichê completo, não roubou apenas seu cordão de ouro e celular. Levou também seu coração. Com a faca encostada na barriga, o engenheiro mal respirava. Ela colocou as pernas no colo dele. Ah, que pernas. Mais bonitas e torneadas do que de muitas mulheres dentro da lei. Quando recebeu um beijo no pescoço e aquele arrepio subiu pelas costas até deixar sua cabeça pinicando, sentiu o ímpeto de derrubá-la, rendê-la, agarrá-la e fazer amor com ela, ali no meio da avenida mesmo. Mas ela tinha um comparsa. Há, sempre, os comparsas. Esse, é claro, não gostou do beijo dado. Aquele, por outro lado, não conseguia ver mais nada direito. A visão turvou. Pensou que estava cego de amor, mas seus óculos de grau haviam sido roubados.
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Texto baseado nessa notícia: “Assaltante beija vítima durante roubo no Espírito Santo.”

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Não conseguia parar de pensar nisso

13 Fevereiro , 2009 · 2 Comentários

Gêmeos. Ela estava grávida de gêmeos. Na verdade, gêmeas. Seu sonho sempre foi ter menina e gêmeos, mas não sabe porque nunca havia imaginado a união de duas coisas tão lindas. Meninas e gêmeas.

Inglês e espanhol, a gente arranha. Italiano, francês e outras línguas com origem no latim é só questão de tempo. Mas há uma categoria das línguas indecifráveis: russo, chinês, tcheco e alemão. A tortura dela pousava nessa última língua. Sofria para aprendê-la. Por isso, na Suíça, andava sempre com o celular, para na hora do desespero poder ligar para a irmã, que havia ficado no Brasil. Era o momento que podia dar risada em português e chorar em sua língua nativa.

Gêmeas. Não conseguia parar de pensar nisso. Era justamente sobre elas que falava quando foi abordada. Sempre dizem que o tempo é relativo. Se você está viajando de carro de São Paulo para o Rio, dez minutos de viagem não é nada. Se alguém disser “Daqui a 10 minutos a gente chega”, pode considerar como terminada a viagem. Mas em um jogo de basquete, ou de futebol americano, 10 minutos são uma eternidade.

Os dez minutos dela não foram uma eternidade, foram sua vida. Ela já tinha ouvido falar sobre a discriminação suíça com relação a estrangeiros. Mas falar ao telefone em sua língua mãe não deveria ser motivo para ser espancada e torturada. O corpo do ser humano é algo sagrado. Só cabe à própria pessoa decidir o que fazer nele e com ele. Em certos lugares, é crime grave encostar em uma mulher sem autorização. O que aqueles neonazistas fizeram é imperdoável.

“Por quê?”, era a única coisa que passava pela cabeça daquela advogada. Cada vez que tentava pensar nas gêmeas, era chutada aonde as meninas estavam tentando se proteger. Não satisfeitos, os neonazistas escreveram com estiletes nas pernas e na barriga daquela mulher. SVP [Partido do Povo Suíço] foi o que escreveram.

O “por quê?” havia tomado o lugar de qualquer outro pensamento bom que ela tentasse ter. A gota d’água de seu choro foi quando prestou queixa e os polícias perguntaram se ela não havia tentado a auto-mutilação. Juro.

Ela perdeu as gêmeas. Naquele dia, aqueles extremistas conseguiram matar três vidas de uma só vez.

Por quê?

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Baseado nessa história real, da advogada brasileira que passou por isso na Suíça, país de ‘primeiro’ mundo e ‘civilizado’.

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O da bagunça e do sorriso

11 Fevereiro , 2009 · 1 Comentário

Há anos ele vinha pensando em como faria isso. Não havia comentado nem com Raúl, seu irmão, sobre o assunto. E olha que o irmão era a pessoa que melhor o conhecia. Pensou sobre tudo isso logo cedo, durante o café. Aquela hora em que o sol já clareia o dia, mas parece que a cidade ainda não despertou. Deu o primeiro gole de café, acendeu o charuto e, como fazia todos os dias, pensou em Ernesto. Não aquele das camisetas, mas o da bagunça e do sorriso. Quando saíam juntos para beber e fumar. Voltavam bêbados e abraçados para casa, cantando sambinhas da década de 20.

O último pedido de sua mãe fora que, bem no finalzinho, deixasse seu irmão assumir alguma coisa. Não importava quem fossem seus filhos, ela sempre tentaria que o mais velho desse oportunidades para o mais novo também experimentar certas coisas.

Estava cansado. Há alguns anos que já arranjara uma gaja, sem que ninguém ao seu redor soubesse disso. É verdade que hoje ela já não era tão jovem assim, mas ainda era possível se passar por sua filha.

Acordou decidido a cumprir o desejo de sua mãe. É certo que a idéia inicial era só sair dali dentro de um caixão, mas seu coração, também cansado, começava a amolecer. Além do mais, fazia tempo que não surpreendia ninguém. Era a oportunidade de viver o finalzinho de seu caminho sossegado, sem os infortúnios do dia-a-dia, fazer sua já-não-tão-gaja feliz e ainda cumprir o desejo de Dª Castro. Além do mais, havia colocado uns bons dólars em uma casa de apostas em Las Vegas. Apostou nele mesmo, que sairia de lá antes de morrer. Como conseguiu isso, só conhecendo seus contatos.

E foi assim que imaginei Fidel renunciando.
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A idéia do texto existe desde o exato dia em que ele renunciou, mas os textos têm vida própria e só nascem na hora que bem entendem.

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Um labrador

11 Fevereiro , 2009 · 1 Comentário

Para ler ouvindo The Long Day is Over – Norah Jones.

Um labrador. Essa foi a resposta que recebeu de todos com quem conversou. “Queria um cachorro que fosse companheiro, mas ao mesmo tempo tomasse conta de casa. Esperto, brincalhão, mas que possa me proteger. Passei dos 40 e já tenho problemas demais para casar de novo.” Um labrador.

São ótimos nadadores, dizem. Eu mesmo sou fã dos que conheço. Na verdade, eu gosto de cachorros, de forma geral. Domingo mesmo quase fiquei com um filhotinho, que apareceu abandonado no portão de casa. Mas isso é história pra outro texto. Eu me apego fácil e rapidamente a eles. Sei o que é se despedir de um cão querido. Conheço pessoas que ficaram tristes por semanas ao perderem seus companheiros. Por isso não consigo imaginar o que passou pela cabeça da Isa quando o labrador dela a atacou.

Atacou pra valer. No rosto. Tirou um naco da face dela, suficiente para deixá-la desfigurada para o resto da vida. Desfigurada. Sem boca. Nem xingar o labrador ela podia. Chorar era um ato exclusivo de seus olhos. Gritar de raiva, ou soluçar de dor eram luxos que ela não podia se dar. Nem se quisesse.

Acontece que a Isa é influente. Tem contatos. É o tipo de pessoa que conhece a todos, mas que poucos a conhecem. O labrador era um desses poucos e, mesmo assim, atacou nossa amiga. Alguma visitas no hospital e ela já tinha o caminho para o que parecia ser sua salvação: um transplante de rosto. O primeiro registrado.

Um sucesso, disseram os médicos, depois de um ano. “Não sou eu”, declarou Isa. Não sei porque, mas ela achou que ficaria parecida com ela mesma. Ouvi alguns dizerem que era ridículo ela achar isso, já que estava com o rosto de outra na face. Mas até hoje eu me pego pensando e admirando as singularidades dos rostos alheios. A maioria de nós tem dois olhos, um nariz e uma boca. Só a variação de tamanho deles, ou a distância é o suficiente para o Brad Pitt ser daquele jeito e eu desse? É algo muito mais subjetivo, invísivel, arrisco dizer. A fisionomia de alguém é uma coisa que não dá para ser tão matemático, preciso e biológico, a não ser que você seja formado em Matemática, Biologia e Precisão.

Por isso, não culpo a Isa por achar que ela poderia ainda parecer consigo mesma. Vai que essa parte inexplicável está por baixo, na formação do crânio e dos ossos da face? Pô, ela tinha perdido metade do rosto! Menos cobrança, né, gente?

Por conta de sua recuperação, ela não quis falar muito com a gente. Desde novembro que não falo com ela. Abri minha caixa de emails, abri a pasta de idéias para textos, e lembrei que queria contar essa história. Mesmo porque ela conseguiu se encontrar, mesmo que no rosto de outra.

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Esse texto é fictício e foi baseado nessa história real, de Isabelle Dinoire.

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