Crônico

Entradas categorizadas em ‘ônibus’

Calma, menina

1 Maio , 2009 · Deixe um comentário

3113462138_72e89a877fQuando se tem 1,90m de altura, achar o lugar ideal no ônibus envolve toda uma técnica. Sentei na cadeira bem ao lado do cobrador e as duas amigas sentaram atrás de mim.

Estava cansado de ouvir meus pensamentos e quis variar um pouco. Peguei a conversa nessa fase:

- O médico pediu para ela sentar. Pegou os exames e perguntou se ela tinha o telefone do namorado, fixo e celular, pois precisava falar com ele. Ela não estava entendendo nada e entrou a polícia no consultório.
- Polícia?!
- É, menina! Calma, que isso é o de menos… O médico perguntou de novo sobre os telefones, dessa vez com os policiais dizendo que aquilo era extremamente necesário. Eles explicaram: “Os exames acusaram uma bactéria na senhora, mas uma bactéria diferente. Esse tipo de bactéria só é encontrada em pessoas mortas.”
- Que? Como assim?!
- Calma, menina… Isso não é nada. Na hora ela deu o telefone e endereço do namorado. A polícia foi lá e invadiu a casa. Descobriram dois corpos guardados lá. Ele tinha matado essas duas pessoas… duas mulheres.
- Meu Jesus!!
- Menina, ele não só matou aquelas duas pessoas, como deu depoimento que ela era a próxima. Ele já estava planejando como e quando iria matá-la!
- Nossa, morri!
- Imagina minha mãe!! Chegou em casa tremendo, chorando. Quase descontrolada, tadinha.
- Caramba. Que surreal.
- Demais…


- E a Virgínia, que foi pega colando na prova?
- Mentira!
______________
Foto: Oscar Segovia

Categorias: Miudezas · cidade · conversas · portfolio · ônibus
Etiquetado:

Mesmo que eu não falasse nada

17 Fevereiro , 2009 · Deixe um comentário

Dizem que quando as caravelas chegaram ao litoral norte-americano, os índios não as viram. Por não conhecerem e não saberem o que era uma caravela, seus olhos não ‘identificavam’ os barcos. Só quando estavam mais próximas, perceberam que em um determinado ponto, as águas moviam-se de forma estranha, quebrando as ondas e tudo mais. E, de repente, puf, os barcos estavam ali.

Ele me olhava assim, como se o ar ao meu redor movesse de forma diferente. O azul nunca foi tão colorido. O sol nunca foi tão quente. O vento nunca foi tão refrescante. Cada som era música. Fazia parte de uma composição que só os que nunca deixaram de ser como ele conseguem ouvir. Acho que os poetas, os pintores, os artistas, os gênios e os fotógrafos também olham como ele me viu. Como ele ouviu e como ele sentiu as coisas ao seu redor.

Não eram necessárias palavras, mesmo que ele as soubesse. Conforme ele falava com os olhos, eu respondia com os meus. Cerrava-os quando queria dizer “Você é mais esperto do que parece”; levantava as sobrancelhas, surpreso, quando dividia com ele a novidade de uma nova experiência; levantava apenas uma, quando achava que ele pularia do colo de sua mãe e sairia andando em minha direção. Aos pulos e grunhidos, ele não tirava os olhos de mim e pareceu querer vir dizer, em meus ouvidos, que ele me entendia, mesmo que eu não falasse nada.

Categorias: Miudezas · portfolio · ônibus

Não tenho mais idade para isso

28 Janeiro , 2009 · 2 Comentários

Na verdade, eu não tenho mais idade pra muita coisa. Não posso mais, por exemplo, me perder no supermercado e pedir para a moça do alto-falante avisar que estou esperando minha mãe no balcão de informações. Agora é a Carol que tem que ir me encontrar.

Final de ano, 2006. Carol tinha conseguido, de última hora, uns dias de folga. Aquele ínterim de Natal e Ano Novo. De ‘presente’, acabei comprando uma passagem para podermos ir antes de meus pais. Se fossemos com eles, ela ficaria apenas 2 dias em Florianópolis. Fui na rodoviária do Tietê e na hora em que cheguei, tinham acabado de abrir um ônibus extra. “Que sorte”, foi o que eu, ingenuamente, pensei. Era de ônibus comum.

Pausa. A primeira vez que viajei de ônibus sem minha mãe foi para o Rio de Janeiro, com a avó de meu primo [a que não é também minha avó] e, de tão pequeno que era [OK, pequeno eu nunca fui], de tão menor que eu era, achei aquilo extremamente espaçoso. Um Cometão, comum. Banco de couro, vinho. Lindo. Volta.

Hoje tenho 1,90m. Faz uns anos já, ou seja, estava ciente do risco e decidi encarar aquilo juntando alguns fatores. 1) Eu me acho [achava] novo. Pô, baita aventura para contar aos netos. “Sabe, eu e sua avó [dá um tapinha na bunda da vovó deles] fizemos uma loucura uma vez. Fomos de ônibus comum para Florianópolis.” 2) Era o único jeito de conseguir que Carol aproveitasse mais tempo em Florianópolis.

A minha sorte é que ela é pequena. Durante a viagem, eu pude jogar minhas pernas para o lado dela e ela jogou as dela no meu colo. Ela dormiu meio torta. Eu fiquei meio torto, porque dormir é qualquer outra coisa diferente daquilo que fiz. Chegamos e eu desci do ônibus pensando na tortura que seria a volta.

“Que sorte”, foi o que ingenuamente pensei quando meu pai disse que, por dó, pagaria minha passagem de volta… de leito. Lindo, não? Lembre-se que eu disse “ingenuamente”. Entrei todo serelepe no ônibus. Achei que seria melhor do que dormir na minha cama. Deitei na poltrona, me esparramei, peguei o cobertor [ar-condicionado no talo, aquela delícia] e depois de demorar bastante pra pegar no sono [uns 15 minutos] começou a passar um filme tão tosco, mas tão tosco, que eu ainda acho que foi fruto da minha imaginação.

Roteiro: um cara era assaltante e usava uma máscara de palhaço para isso. Um trauma o tirou de cena. Por algum motivo [acho que a filha dele estava em perigo] foi obrigado a voltar. Detalhe: usando a mesma máscara. Além disso, o som estava mais alto do que em sala de cinema. Durante o tempo do filme, dei umas cochiladas, mas sem conseguir cair no sono. Achei que fosse por causa do som e do filme. “Que sorte”, foi o que ingenuamente pensei quando o filme acabou.

Me acomodei na poltrona novamente e tentei dormir. Não conseguia. Por nada. Revirava, me esticava e nada. Não encontrava “A” posição sabe? Em um determinado ponto comecei sentir aquela angústia nas pernas, de quem está em fase de crescimento, conhece? Cara, eu já tinha 1,90m e 23 anos! Mas com o perrengue da ida, comprei Dramin pra volta, por precaução. “Que sorte”, foi o que… você já sabe. Tomei um Dramin. Nunca tinha tomado antes, então não sabia quanto tempo esperar para o efeito. Esperei 1h.

A angústia e o “eu não consigo dormir” só tinham aumentado. Tomei mais um. Fez efeito. Mas meu corpo se rejeitava a dormir junto com o cérebro. Ou seja, fiquei meio zumbi. Meu cérebro nocauteado, mas meu corpo aceleradíssimo. E com as pernas doendo. Eu literalmente dava murros nelas de agonia, para ver se paravam com aquela palhaçada, mas nada. Resultado: cheguei em São Paulo sem saber direito quem eu era, de onde vinha e pra onde estava indo. Mancando.

Categorias: eu · história · transporte · ônibus
Etiquetado: , ,

Casas Balinhas

25 Dezembro , 2008 · 1 Comentário

Quando a gente chega assim, atrasado, demora mais até entender o que se passa. Ele havia dividido a ‘lousa’ em três partes. Não havia giz. Utilizou os dedos mesmo para rabiscar por cima da gordura do vidro, que serve de divisória no ônibus. Estava explicando que o processo se divide em: Compra, Venda e Lucros. Ele compra as balinhas e doces, vende e obtém os lucros. “Mas calma, minha gente… é lucro ou são lucros?”

A classe estava vazia. Ele só dava aula para o fundão do ônibus. O casal do último banco era quem mais participava. “Então, o que vocês acham? Lucro ou lucros?”. Como em toda classe, alguém responde timidamente: “Lucros…?”, meio sem saber se estava respondendo ou perguntando. “Isso mesmo, lucros!! E vocês sabem o por que? Se eu comprar por um valor x e vender por um valor 2x, é lucro. Mas se eu vender em cima do prazo de validade, por exemplo, é só lucro. Ou se eu vendo só os doces das Casas Balinhas ou Lojas Marabalas [as duas empresas são minhas], mas sem oferecer nada a mais, ainda é só lucro, pois vocês podem comprar em qualquer lugar. Mas e se eu dou uma aula, explicando que a minha meta mínima é vender R$ 3 a cada 20 minutos? Veja, é o mínimo que eu quero vender. São R$ 9 por hora, e eu procuro sempre trabalhar 10 horas por dia!” Nesse momento, com todo o meu rápido raciocínio em matemática [que se assemelha ao de um aluno da 2ª série do Ensino Fundamental], pensei que são R$ 90 por dia e que se ele trabalhar apenas de segunda a sexta, consegue tirar R$ 1.800 por mês. “Uou”, falou uma voz dentro do meu cérebro.

Ele continuou “Esse é o mínimo da minha meta. Mas em 20 minutos eu posso pegar, digamos, até três ônibus. Sendo assim, o que eu ganharia em uma hora da minha meta mínima, eu já ganhei a mesma coisa em apenas 20 minutos”. Nesse ponto eu desisti de fazer conta e prestar atenção nele, mas meu cérebro, mais uma vez, [ele tem vida própria, é um ser à parte de mim], disse “É Gabriel… é muito dinheiro”. [Para poupar você de fazer conta ou pegar a calculadora, com três ônibus em 20 minutos, ele faz R$ 27 e até R$ 5.400 em um mês. De segunda a sexta, apenas.]

“Quando eu nasci, meu pai falou pra mim: ‘Filho, você é pobre e feio. Sua única saída é você aprender a se comunicar’. Foi o que fiz. Abri a Casas Balinhas e Lojas Marabalas e aqui estou… foi mais legal essa minha aula ou ouvir ‘Eu podia estar matando, eu podia estar roubando’, ainda por cima cheio de erro de português?”. “Mais legal!”, respondeu a classe. “Então, quem vai querer comprar alguma coisa?”. Ao invés do tradicional silêncio ou resmungos do tipo “Putz, hoje não tenho nada” todo mundo queria comprar alguma coisa. Enquanto sorria, pensei que ali ele vendeu mais do que R$ 3. Quando o empresário dos doces desceu, o cobrador falou para o motorista: “Esse é um cabra que sabe se comunicar… sabe falar e gosta d’uma conversa, né?”. O motorista: “Demais… e ainda ganha mais dinheiro que a gente”. O cobrador ficou com uma cara pensativa, mas não soube o que falar.


Categorias: Miudezas · cidade · conversas · cotidiano · portfolio · ônibus

Ônibus 3

3 Dezembro , 2008 · 4 Comentários

Era viagem de formatura da 8ª série. Isso foi em 98, ou seja, tinha 14 para 15 anos. Ou seja, testosterona à flor da pele no último, embora, às vezes, conseguisse disfarçar aquela ansiedade natural.

O colégio em que estudei contratava sempre a mesma empresa de turismo para esse tipo de viagens. Eu não sei se já conhecia uma das monitoras ou tinha paquerado-a [é bem provável, porque eu nem sempre conseguia disfarçar], mas pareceu que algum contato anterior havia acontecido.

Eram 3 ônibus… os ônibus 1 e 2 eram ‘normais’. O Ônibus 3 era o que os guris chamavam de “Paraíso”. Não sei como conseguiram colocar só mulher no Ônibus 3. Juro. De homem só tinha o motorista. Até as duas únicas monitoras do grupo estavam lá. E, incrivelmente, parecia que havia rolado um processo seletivo, com base na beleza das meninas. As 40 mais bonitas juntas, em um ônibus apenas.

Planos para conseguirmos passar para o Ônibus 3 não faltaram. Em uma das paradas a monitora do segundo parágrafo foi importunada por garotos e garotas, implorando para poderem conseguirem um lugar no Ônibus 3 [sei que fui tomar meu Choco Milk e não importunei ninguém]. As garotas estavam de saco cheio da gente só falando sobre aquilo e queriam mudar. E os meninos… bem, você sabe.

Eis que os monitores mandaram todo mundo voltar para seus respectivos ônibus. Alguns manés tentaram entrar no Ônibus 3, mas era bater o olho e ver o intruso. Sentamos e a monitora do segundo parágrafo, provavelmente paquerada por mim, entra no nosso ônibus. Todos alvoroçados, prevendo que uma mudança ocorreria. Durante a parada, rolou um boato que havia 3 vagas no Ônibus 3. Os números estavam ao nosso favor!

Mas, para mim, era uma batalha vencida. Era muito moleque e testosterona juntos para poder ir para o Ônibus 3. Fiquei na minha, sentado no fundão, olhando o movimento da estrada, esperando o nosso ônibus andar. Eis que ouço a monitora falando “OK, então… quem quer ir pro ônibus 3?” Gritaria, garotos histéricos, um furdúncio. “Calma, só vão 3…” Mais histeria, garoto tentando subornar a monitora e uma ameaça de morte. “Então… vai o Gabriel e quem mais?”. Hein? Gabriel? Como ela sabe meu nome?! “Vai o Gabriel Louback e quem mais? Vamos sortear?” Como?! Sorteio?! Mas eu já estou incluído? Não entendi. Explica de novo? “Gabriel, você está me ouvindo? Você quer ir para o Ônibus 3 ou não?” HA! Não precisa perguntar de novo. “OK, pegue suas coisas e pode ir pra lá que a gente vai sortear os outros 2″.

Peguei minha mochila [já era inseparável na época] e fui para o Ônibus 3. Subindo os degraus da porta, o motorista deu um sorriso de canto, como quem abre o portão do Paraíso e diz “Seja bem-vindo, nobre cavalheiro”. Lembro de ter entrado e visto aquele corredor infinito, abarrotado de garotas adolescentes. [Lembre-se que eu tinha a mesma idade delas. Por favor, não me imagine hoje!]. A que parecia ser a líder chegou para mim e disse “Pode escolher o lugar, “. Eu podia escolher. Dei uma geral e todas sorriam. Nem preciso dizer do aroma doce e suave que reinava dentro daquela carruagem divina. Acomodei-me no fundão. Assim como o processo seletivo do Olimpo pegou só as mais bonitas, elas estavam sentadas em ordem crescente de beleza. Quando os outros dois garotos chegaram, nos olhamos como aqueles que compartilham um privilégio tremendo, mas que sabem que qualquer palavra pode estragar o momento. No fundo, sabíamos que não havia palavras para expressarem o momento. Sentei de lado em um dos bancos, ficando apoiado no colo de uma guria [claro], com as pernas esticadas no colo de outra, enquanto outras 5 ficaram debruçadas ao nosso redor, conversando e rindo das piadas bestas que eu [já] fazia na época.

Sério. Até hoje eu não faço a mínima idéia de como isso aconteceu. Apesar de ter sido amigo de todos os grupinhos e todos me conhecerem, eu nunca fui o tipo popular. Mas certas coisas é melhor a gente só desfrutar, sem nada perguntar.

Categorias: eu · história · infância · portfolio · relacionamentos · ônibus
Etiquetado: , ,

Eu nunca tinha visto essa combinação… sublime

27 Novembro , 2008 · 10 Comentários

Foi a criança mais linda que eu já vi em toda a minha vida. Ouso dizer que a pessoa mais linda. Era um menino negro, com síndrome de Down. Eu nunca tinha visto essa combinação… sublime.

A primeira vez, ele estava com um violão de brinquedo no colo, sentado no banco da janela da lotação. Não lembro se ele me viu, mas eu não conseguia tirar os olhos dele. Quando vi que a mãe reparou nisso e me olhou estranho, dei um sorriso amigável, como quem diz “Parabéns. Seu filho é lindo”. Perguntei pra ele se tocava violão e ele disse que sim. Ficou meio acanhado, mas aquele pouco bastou para eu nunca mais esquecê-lo. Eles desceram um ponto antes do meu.

Imagine então o dia em que o encontrei de novo. A mãe dele me reconheceu e cumprimentou. Ele se ofereceu para segurar minha mochila. Desliguei o iPod, enrolei os fones e ele esticou a mão, com a palma virada para cima, para eu entregar-lhe o aparelho. Não hesistei. Entreguei sorrindo, ele abriu minha mochila, guardou e levou uma bronca da mãe… “Ô rapaz… te ensinei que não pode ir abrindo assim”. Eu sou mestre em estragar os filhos dos outros e respondi: “Tem problema nenhum… Qual seu nome?”
- Gabriel
- … [segurei o choro] Que nome bonito… sabe, eu também me chamo Gabriel.
Ele abriu o sorriso, junto com a mãe, que nesse momento se levantou, pois o ponto deles estava chegando. Ele envolveu os braços no meu e apoiou a cabeça um pouco abaixo do meu ombro.
- Gabriel, vamos! A gente vai ter que descer.
- Não.
- Gabriel, vamos!!
- Não
“Minha senhora, eu vou descer nesse também”.
- Mas é o seu ponto?!
“Claro… como não seria?”
Eu estava atrasado, mas, naquele momento, fazia muito mais sentido não deixar o Gabriel causar com o motorista da lotação do que chegar no horário no escritório.
Descemos os três, ele de mãos dadas comigo. Só soltou-a em dois momentos: primeiro para cumprimentar um segurança na calçada, que parecia ser amigo dele de longa data. Nos 4 ou 5 quarteirões que caminhamos, ela me disse que ele tinha 8 anos e que eles moravam em Paraisópolis. Contou também que tinha mais 3 filhos: uma de 25, uma de 20 e um de 13.

Na segunda vez que em que ele soltou minha mão foi para se despedir de mim. Eu agachei, ele se aproximou, me deu um beijo e disse “Tchau, amigo”. Eu não consegui responder. Mas Gabriel é do tipo que entende que certas lágrimas dizem mais do que qualquer “Adeus”.

Categorias: Miudezas · cidade · conversas · cotidiano · portfolio · relacionamentos · ônibus
Etiquetado: ,

Faz as contas, por favor

7 Novembro , 2008 · 3 Comentários

Estava no ônibus conversando com Dª Itamar. Havia acabado de conhecê-la. Mora em Bertioga e está em São Paulo para um tratamento médico. Bertioga é uma cidade bacana e tal, com praias, mas, segundo Dª Itamar, não tem nada. Falta atendimento médico de qualidade, escolas, faculdade e emprego. Os jovens de lá não têm muita perspectiva, então têm que procurar emprego no Guarujá, em Santos, etc. E quando ela vem pra cá, fica na casa da filha. Dª Itamar tem filhos entre 30 e 45 anos, mas não parece ser uma senhora de mais de 60. Uma vez, no supermercado, a moça do caixa disse que ela não podia ficar naquela fila especial. Ela tirou o RG, entregou pra moça e disse “Faz as contas, por favor”. A moça teve que pedir desculpas, igual ao cara no banco, que disse que Dª Itamar não podia, também, ficar naquela fila. Ela é uma senhora criativa. “O senhor sabe que eu tenho uma deficiência física?”
- Opa, não senhora. Desculpe…
- O senhor quer saber aonde eu tenho?!
- Não, senhora, por favor… não.

Ela me contou que teve câncer de mama, precisou tirar um seio, mas que hoje está tudo bem. Um pouco antes de ela me dizer isso, perdi a atenção da conversa. Na parte da frente do ônibus, uma senhora de mais de 70 anos sofria para manter-se em pé com tanto balancê. Em frente a ela, uma mulher de no máximo 40 anos, não se movia. E não era daquelas que fingiam estar dormindo para não dar lugar. Ela estava sentada de frente para senhorinha, olhando para ela e não fazia nada. Eu e Dª Itamar estávamos no primeiro banco depois da catraca. Assim que aquela mulher passou, aproveitando um brake na nossa conversa, eu bem que tentei, mas não consegui me conter:

- Moça, da próxima vez, dê lugar à senhora…
- Oi… desculpe?
- Eu disse para você, da próxima vez, pensar um pouco mais na senhora que está em pé e dar lugar pra ela! Não faz sentido, né?
- … [virou o rosto e fingiu que aquela conversa não existiu]

Reparei que ela carregava um livro, “Conversando com o Espírito”. Faltou ela olhar menos para dentro e falar mais com o ‘mundo’.

Categorias: Miudezas · cidade · conversas · cotidiano · eu · portfolio · relacionamentos · transporte · ônibus
Etiquetado: ,

O seu balançar era irresistível

28 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

Ele entrou no ônibus com aquela cara. Assim que vagou lugar, ela torceu o nariz quando ele veio em sua direção. Ele tinha cara de maloqueiro. Mas era possível enxergar ternura em seus olhos. Ela tinha cara de amarga, mas era possível enxergar arrependimento em seus olhos. Lado a lado, se evitaram ao máximo. Mas aquele ônibus era mágico. Embalava seus passageiros. O seu balançar era irresistível. Adormeceram.

Ele sonhou que alguém via além de seu boné,  além da corrente e do olhar mal encarado. Não importava que se vestisse assim justamente para afastar: queria ser aceito, queria que percebessem isso. Ela sonhou que a abraçavam, simplesmente. Ninguém lhe dirigia a palavra: apenas a abraçavam, com sinceridade. Podia se entregar a um desconhecido. Não importava como estava vestido ou quem era, desde que outros braços envolvessem-na de forma sincera. Ela se acomodou no ombro dele, que a recebeu de forma convidativa, a não deixá-la mais. Eu apenas queria que os dois se encontrassem e nunca mais acordassem.

Categorias: Miudezas · cidade · conto · cotidiano · divagação · história · portfolio · relacionamentos · transporte · ônibus
Etiquetado:

Ela deve ter me odiado

17 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

Estava no ônibus, longo caminho, sem nada para ler ou me distrair. Olhei para o lado e uma garota fazia palavras-cruzadas. Fiquei algum tempo observando os espaços em branco, até que não agüentei. “Olha, acho que aqui, onde está ‘Aplicações de capitais’, com _ N _ ES _ _ M _ N _ OS, é ‘investimentos’. Mesmo porque, ‘Situação de acordo com os padrões’ acaba ficando ‘normalidade’ e a letra ‘e’, no final, cabe em ‘investimentos’ melhor do que se fosse ‘normatizado’, que deixaria ‘invostimentos’.”

Ela deve ter me odiado para o resto da vida. Mas ainda assim consegui me controlar quando ela fechou o jornal com “A da rosa é utilizada em saladas” [P _ T _ L _] em branco.

Categorias: Miudezas · cidade · conversas · cotidiano · drops · portfolio · relacionamentos · transporte · trânsito · ônibus
Etiquetado: ,

Os loucos e estranhos me fascinam

17 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

De terno, gravata e sapatos lustrados aquele homem só olha para baixo. Parece incomodado com alguma coisa. Vejo sua cabeça chacoalhando veloz, de um lado para o outro, como se dissesse “Nãonãonãonãonãonão!” A partir de então, não consigo mais deixar de observar [os loucos e estranhos me fascinam] e, minutos depois, percebo que o movimento da cabeça do moço é para desarrumar sua franja que cai sobre a testa e olhos, para logo em seguida arrumá-la milimetricamente de acordo com o que acha estar OK. Passa alguns segundos alisando-a, deixando o cabelo entre os nós de seus dedos e utilizando a ponta deles para colocá-la de foma que se sinta satisfeito. Quanto mais em cima dos olhos, melhor. Quanto mais escorrida na testa, melhor. Observo por mais um tempo e nem cinco minutos depois, o processo se repete. Cabeça chacoalhando, dedos ‘desarrumando’ a franja, para ser alisada depois, pelo mesmos dedos do rapaz.

Nos intervalos dos movimentos frenéticos, o garoto de terno e gravata alisa um bigode ralo, quase invisível, que insiste em não crescer.

Categorias: Miudezas · cidade · cotidiano · portfolio · transporte · trânsito · ônibus