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California Games

Essa Olimpíada está muito divertida. Essa não, né? Provavelmente foi sempre assim, mas dessa vez estou assistindo pelo esporte, sem seriedade.

Dei sorte de pegar bons jogos, sem querer, como a conquista da medalha de ouro nas argolas de Arthur Zanetti. Foi emocionante vê-lo ser o melhor, tendo acompanhado todos os outros ginastas fazendo suas apresentações. Principalmente quando anunciaram o atleta porto-riquenho Tommy Ramos. Na verdade, acho que só assisti à competição inteira porque liguei a TV na hora que anunciaram o Tommy Ramos, que figura. Ele não lembra em nada o ator brasileiro, mas foi divertido ouvir a comentarista falar “Tommy Ramos” tantas vezes. [Eu não canso].

Outra coisa muito legal foi esse mergulho do alemão Stephan Feck:

Você pode ficar com dó, afinal o cara treina anos para isso. Mas, rapaz, que entretenimento! Ele só recebeu zero, de todos os juízes. Mas “Inspire gerações” é o tema de Londres, e esse mergulho conseguiu cumprir seu papel em minha vida.

Por outro lado, temos esse salto. Precisei vê-lo algumas cinco vezes até entender o que a guria faz:

Nem deve ter sido agora, mas eu queria colocá-lo nesse post, de algum jeito, talvez pra amenizar o mergulho de costas do alemão.

Conversando com um amigo chegamos à conclusão que “Jogos OIímpicos” só têm nome pomposo. Exemplo: Usain Bolt ganha os 100m rasos, é o homem mais rápido do mundo e comemora o feito no seu quarto: com três integrantes do time sueco de handebol. As Olimpíadas nada mais são do que Os Grande Jogos Universitários Mundiais Gigante.

Outro motivo que faz valer o sentimento: o ciclista que ficou em penúltimo lugar, saiu pra comemorar e voltou carregado pelos colegas para a Vila Olímpica. Troque Londres por Guaratinguetá e conheço histórias bem parecidas dos Jogos de Comunicação.

Por último, temos o cabra que ganhou a medalha de ouro de salto em altura esse ano, parabéns! Porém, em 2008 ele foi desclassificado, não conseguiu nem saltar. Estava bêbado demais. Valendo um abraço do Galvão se você adivinhar a nacionalidade do russo.

Todo mundo se preocupando com a Copa no Brasil, mas eu quero é ver como vai ficar o Rio de Janeiro, aquele caldo de suor, areia e mate com limão, abarrotado com a molecada de faculdade vindo competir aqui. Vôlei de praia, por exemplo, vai virar futevôlei, tendo Edmundo e Romário jogando. Pela Rússia.

Fotógrafos de/no Instagram

Alguém sempre vai reclamar, principalmente na internet. Uma recente foi a abertura do Instagram para Androids, mas eu já ouvia reclamações sobre a rede social de fotografias: “É… agora todo mundo é fotógrafo com o Instagram”.

Comecei a reparar que não era nenhum fotógrafo (dos que conheço) reclamando. Por isso, perguntei aos que sigo no Instagram a opinião deles: existe diferença entre fotógrafo de Instagram e fotógrafo que está no Instagram?

Daigo Oliva (@daigooliva)
Mano, eu nem penso nisso… quanto mais as pessoas fotografarem, mais legal. Basicamente é isso.

Alexandre Schneider (@aleschneider)
Acho que fotógrafo de Instagram é o que usa essa ferramenta como câmera fotográfica, exclusivamente. Fotógrafo no Instagram é o que usa a ferramenta como publicador… também reproduz imagens feitas em outros formatos de arquivos.

Acho que, além de fotografar, o Instagram é um grande publicador que pode divulgar seu trabalho.

Nina Jacobi (@ninajacobi)

Falam que qualquer um vira fotógrafo com o Instagram, né? Que bobagem. Isso é dor de cotovelo. As fotos saem bonitas, você aplica um filtro e fica bacana. Mas isso é uma coisa, viver de fotografia é outra!

Luiz Maximiano (@luizmaximiano)

Cara, é tudo fotografia. Só muda a câmera.

Alisson Louback (@alissonlouback)

Do meu ponto de vista a pergunta está errada, porque existem muitos tipos de fotógrafos e cada um interage com a câmera de uma forma. O tempo de cada um também é diferente… um fotógrafo de comida é diferente de um fotojornalista. Quando parei pra pensar na questão fotógrafo com iPhone parei na questão “Que fotógrafo?”

Qualquer um pode ser fotógrafo, mas não depende do Instagram. Qualquer um pode ser fotógrafo, é só ter uma câmera na mão. Isso não começou agora. Acho que na época do Fotolog isso já tinha mudado.

A diferença é a mesma do amador e profissional: uma das diferenças entre eles é que o profissional consegue fazer um bom trabalho mesmo quando não está afim. Tem gente que tem Instagram patrocinado, como um blog, fotolog… e tem gente que fica postando foto do céu de graça.

Uma coisa legal de se pensar é como cada tipo de fotógrafo lida com a camera portátil/iPhone no dia a dia. Um cara que passa o tempo inteiro dentro do estúdio e o cara que está na rua direto.

Não ultrapasse, propriedade privada

No carro, (ela dirigindo, eu de carona), minha mãe me conta que naquele local ali não havia nada disso. Apenas uma pequena rua que saía da Santo Amaro e desembocava perto do leito do rio. Mas isso faz 4 anos apenas, não 40. E é a Gomes de Carvalho, uma das principas vias, hoje, da Vila Olímpia. Não acreditei.

No dia seguinte, esperando o ônibus, reparei em dois prédios ali, que pareciam idênticos, embora fossem claramente diferentes. O concreto parecia o mesmo, o acabamento, a cor, sem contar as tradicionais janelas espelhadas da Vila Olímpia. De repente, eram três os prédios diferentes, mas iguais. Quatro, cinco e meia dúzia, um ao lado do outro, nenhum fazendo parte do mesmo conjunto ou condomínio, mas iguais, como se fossem rapazes de calça social escura, camisa clara, sapato e cabelo penteado, como 90% dos que passam pelas calçadas desses e outros prédios naquela rua e bairro.

Fiquei a fitá-los, os prédios. O motivo era o sol que se punha no horizonte; horizonte que não mais consigo ver direito enquanto em São Paulo. Ainda assim, as cores do sol nesse horário chamam minha atenção tanto quanto um pernilongo em meu ouvido nas noites de calor que têm feito. Um zumbido ensurdecedor são as cores do sol que se põe. O amarelo-laranja-avermelhado deixava os prédios menos tristes e imaginei a falta que o sol sente disso.

Sempre pensamos na necessidade vital que temos — a natureza — do sol. Sentimos a falta dele em nossas peles, nossos ossos se fortalecem com ele, colocamos as plantas para serem regadas por ele, nossos gatos e cachorros causam inveja em nós ao se deitarem e simplesmente se esparramarem por ele. Lembrando que há menos de 5 anos aquilo ali não tinha prédio algum, imagino quantas árvores deixaram de sentir isso, para agora termos apenas algumas mudas mirradas na ilha da avenida que separa as duas mãos da via. Mas e o sol?

Consigo ver a beleza que há no momento, mas não há resposta de quem o recebe (nenhum ser humano, já que estamos cercados; falo mesmo dos edifícios). Já que humanizamos plantas, tomo a liberdade de imaginar que o sol também sente falta, de alguma maneira, que aquele raio que demorou 8 minutos para atravessar o espaço seja simplesmente repelido. Claro, o sentimento é meu. Eu que sinto falta do sol, eu que sinto falta de sentir a pele processando os raios (devidamente protegida, use filtro solar) e transformando em vitamina K, da cenoura ingerida no café da manhã fazendo mágica em minha melanina. Sol. Só.

Diferente do que faria minha fotossíntese torpe, o concreto padrão dos prédios repele a luz do fim do dia. O melhor concreto de todos, inclusive, é o que não retém calor, para não danificar o poderoso sistema de ar condicionado de cada um dos edifícios. As janelas espelhadas não são uma tendência arquitetônica. São avisos de que aquela luz não é bem-vinda, que ela atrapalha, que seria melhor a vida na Vila Olímpia sem ela. “Não ultrapasse, propriedade privada”.

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foto: Daigo Oliva 

Casar é bom e a gente gosta

O convite que a Apple enviou para a imprensa, chamando-a para o lançamento do novo iPhone, era um primor. Apenas uma imagem com quatro dos principais ícones do celular mais desejado dos últimos anos: o app do iCalendar possuía o número 4 (de outubro, data do lançamento); o ícone do relógio apontava 10h (horário da coletiva); o símbolo do GoogleMaps, a localização da sede da Apple e o ícone do telefone com o número 1, indicando que havia algo novo ali. Mesmo com a saída de Steve Jobs, parece que a máxima da empresa continua sendo: “Se é pra fazer, que faça direito”.

Acredito nisso: se a gente for fazer algo, que seja bem feito. Que a gente, ao menos, tente. Casar (ou ficar casado) é uma dessas. Na maioria das vezes, vejo amigos que simplesmente ficaram de saco cheio de ouvir a namorada dizer que estava cansada de ser enrolada e “Não teve jeito, né?”. Meu velho, sempre tem.

Já li alguns artigos sobre não sabermos lidar direito com a pós-modernidade. Tudo etéreo demais, sabe? E reconheço: é cada vez mais difícil manter-se em algo tão concreto quanto um casamento. Mas vou te dizer, é bom, viu? (E vale a pena). Não acho que seja para todos, mas acredito que muitos perdem a oportunidade de partilhar algo massa com alguém por falta de hombridade ou preguiça do “Se for fazer, que seja bem feito”.

Outro dia, um amigo mais novo, que namora já há uns quatro anos, me perguntou: “Casar é difícil, né?”. Não, meu caro. Casar é fácil. Difícil é ficar casado. Postei isso no Facebook e recebi comentários do tipo: “Não acho que ficar casado é difícil, é muito gostoso!” (e escrevi sobre isso).

Claro que é gostoso. É incrível. Eu, pelo menos, acho sensacional a ideia de compartilhar minha vida com alguém. Alguém que não tem a obrigação de me fazer feliz, nem o contrário, mas alguém que quero partilhar da minha felicidade e de quem já sou. Ter alguém, diferente de você, para te ajudar a crescer, pensar coisas diferentes, novas visões, novos sonhos. É uma das experiências mais sensacionais que tenho vivido nos últimos tempos. Mas é difícil, cacete.

Assim como andar de skate. Tenho um long e, vez ou outra, me arrisco em calçadões, ruas pouco movimentadas, parques e ladeiras. A descida é uma delícia que só. Mas a gente cai. Se rala, estraga o ombro, abre um rombo no joelho. E, mesmo quando tudo vai bem, ao final da descida é preciso colocar aquele trambolho debaixo do braço e subir a ladeira novamente (e sem analogias com sua esposa ser o trambolho, pelamor, hein).

Mas não queremos ralar o joelho. Não queremos encarar a ladeira. Temos medo, inclusive, de descê-la. E, assim, acabamos nos enroscando em outros relacionamentos, já que o nosso não é uma eterna descida de skate. Escondemos essas passeadas por outras ciclovias (digamos assim), para que o nosso calçadão, lá em casa, continue achando que está tudo bem. Mas não está. O acordo não era esse, mesmo que você não goste do acordo.

Antes de casar, falta a convicção. Depois, falta a coragem de manter-se nele ou de jogar a honestidade. Seja de assumir que você gosta mais de bicicleta do que de skate, seja para dizer que você não quer escolher nenhum dos dois, apenas ter delírios de jogar futebol. Mas são escolhas, e não dá pra ter tudo. Escolher casar é escolher abrir mão de muitas outras coisas. Escolhi isso, e escolhi fazer bem feito. (Pelo menos é o que tento).

Na linha branca


É ali que as sirenes silenciam. Acho que nunca tinha visto isso, sem que a viatura (fosse da polícia ou uma ambulância) chegasse ao local do atendimento. Ali não. Elas silenciam pois voltaram, não porque chegaram. Sei que voltaram, mas não sei como estão as pessoas dentro daquela gigante caixa branca sobre rodas, cheia de aparelhos eletrônicos por dentro, para manter o paciente vivo até que os médicos tomem conta.

Foi ali que um querido conhecido também silenciou. Um dia simplesmente seu coração não cantou mais e o silêncio dele fez coro com o silêncio das ambulâncias que chegam ao complexo do Hospital das Clínicas. Passo por ali diariamente. Descobri que é mais rápido do que o caminho que fazia, ganho quase 10 minutos. Tenho conhecidos que não gostam do trajeto, justamente por considerarem triste demais. E estão com razão, principalmente os que também perderam alguém ali. Não há como (nem porquê) contrariá-los.

Ao caminhar hoje cedo por aquela rua, percebi que essa perda me fez mais sensível ao sofrimento do próximo, ainda que eu seja menos impactado. Antigamente, ficaria muito mais incomodado, quase que querendo fugir daquele cenário. Hoje consigo transitar sem me surpreender – talvez a palavra seja essa. Sou impactado, fico triste, mas não me surpreendo.

Porém, ao final da rua, percebo ambulâncias que saem para a Rebouças, ligando suas sirenes, abrindo caminho em meio ao trânsito de São Paulo, para chegar o mais rápido possível a seus destinos. O ligar das sirenes é o nascimento também de uma esperança, de trazer vida a quem está prestes a perdê-la, até mesmo de entregar de volta, a quem possa ter perdido e eles poderem dá-la de volta, uma nova chance.

Um amigo tornou-se pai, recentemente. Todo o pré-natal de sua esposa foi feito ali, no complexo do HC, bem como o nascimento da pequena que nasceu saudável, ainda que tenha passado por uma gravidez um tanto quanto delicada. Graças ao cuidado do hospital, o parto foi absolutamente tranquilo e uma nova vida nasceu.

Não há privilégios ou distinção. Assim como as sirenes que, ali, são ligadas ou silenciam-se, vidas partem e vidas nascem. O problema é quando paramos de reparar nas sirenes e deixamos de ouvi-las. Abra os olhos e ouça a canção que elas tocam. É caótica, às vezes parece fora de ritmo e sem melodia, mas é possível compormos algo. Se tivermos sorte, conseguiremos tocá-la para alguém ouvir.

Você já ouviu sirenes hoje?

Feriado de quarta-feira

Claro que podia ser melhor. Poderia ser na quinta ou sexta, para emendar. E estou longe de ser o porta-voz do “Jogo do Contente”, da mala da Pollyanna. (Pra quem não conhece, ele consiste em ter um ponto de vista positivo para tudo na sua vida. A Pollyanna, por exemplo, espera ganhar uma boneca de Natal, mas recebe um par de muletas. O raciocínio do pai, com quem ela aprendeu? “Veja pelo lado bom… você não precisa delas!”).

Então um feriado na quarta-feira é melhor que nenhum, mas não é esse o motivo d’eu gostar tanto dele. É pela concretização de uma utopia. Todo mundo que trabalha acha que o final de semana poderia ter um dia a mais. Acho bem difícil isso mudar, deixando-nos em casa três dias seguidos. Claro que quarta-feira deixar de ser dia útil também, mas é o gostinho que tenho de, por um dia, viver como se aquilo fosse verdade.

Veja bem, você começa a segunda reclamando da semana que começa, na terça ainda tem aquele gosto rançoso da segunda e quando você menos percebe, opa!, já é quarta, feriado. Dá pra marcar um happy hour mais longo na terça e no dia seguinte, apenas curtir a morgação. Ficar de boréstia no pós-almoço, dar uma volta, ver um filme, tomar uma cerveja com os amigos e ir dormir cedo. O dia até termina com aquela sensação triste de fim de domingo (que dizem existir, eu não tenho, mas você precisa se identificar com o texto pra continuar lendo).

Você dorme e POW, é segundops, não, é quinta! Que maravilha, amanhã já é sexta. São tantas as possibilidade de emoções, por termos apenas um dia de descanso no meio da semana, que não tem como não ser divertido. Como disse, é claro que feriado prolongado nos dá uma chance de viajarmos pra mais longe, sem bate-volta, descansar mais dias e tal, mas pô, é um feriado, sabe? A gente tem tanta emenda, é só mais uma semana qualquer… só que não, não é uma semana qualquer, justamente por ter um diazinho ali no meio dando sopa.

Sem contar que a gente reclama demais, né? Me peguei irritado pelo modo como minha mãe estava folheando um livro meu e como aquilo foi desnecessário. Claro, gosto de ter cuidado com as minhas coisas, para que durem, mas cara… É só um livro, saca?

É só um feriado… e a gente reclamando. Desvirtuei um pouco do assunto e, já que não sei mais como encerrar esse texto, deixo um vídeo muito bom, sobre como tudo é maravilhoso e ninguém está feliz (em inglês).

O melhor ainda estava por vir

Nosso primeiro jogo ‘bagaceira’ foi um Grêmio Barueri x Bragantino, na Arena Barueri, quando o time ainda era dessa cidade, antes de ir pra Presidente Prudente e, recentemente, voltar para o mesmo local de antes. Era uma partida da Série B do Brasileirão e, hoje, vejo que nada teve de bagaceira. O melhor ainda estava por vir.

Tudo começou quando eu era estagiário na Prefeitura de São Paulo e escrevia no Diário Oficial. Tinha uma coluna sobre pontos de referência na cidade e um dos lugares escolhidos foi a rua Javari. Hoje, mais velho, percebo que falei pouco da rua em si, e mais do estádio que ali se encontra: o Conde Rodolfo Crespi, o estádio do Juventus, que me apaixonou. Prometi a mim mesmo que voltaria ali um dia, para ver um jogo.

Sou corinthiano de nascença (faço aniversário no mesmo dia que o Timão), mas tenho um irmão palmeirense. Gostamos muito de ver futebol juntos, ainda que ele tenha dormido na final da Copa do Mundo (não o culpo, mas pô, era a final da Copa).

Depois de ir a um jogo da segundona, decidimos que estávamos preparados para a Copa Paulista. Foi contra o Votoraty (não, não é aquela empresa), e valia classificação, que o Juve deixou passar. Foi a primeira vez que um bandeirinha de fato me ouviu xingá-lo, bem como a mãe dele e esposa (na hora, supus que ele tivesse uma). Se bobear, até os cuspes que voaram enquanto eu gritava, ele sentiu na nuca.

Depois de ver um empate de 3 x 3 contra o Audax (ex-Pão de Açúcar, agora sim a empresa), voltamos no dia 24 de setembro, achando que seria o último jogo do Moleque Travesso da Mooca, ocasião contra o Taboão da Serra. A classificação para as oitavas-de-final parecia impossível, mas fomos prestigiar. Meu irmão, que já foi mais vezes à Javari, não acreditava. O Juve não tinha se portado assim em nenhuma outra partida, com jogadas armadas, toques pensados e até, quem diria!, uma estratégia. Ganhamos de 4 x 2 e nos classificamos com uma rodada de antecedência, já que o São Bernardo e Grêmio Osasco haviam perdido na rodada.

O fato é que já estou assim, falando em “ganhamos”, “nos classificamos” e conjugando os verbos na 1ª pessoa do plural. A maioria do jogos são tão feios que a gente só dá risada, nem passa raiva. É a torcida mais divertida que já vi na vida. Os jogos acontecem às 15h de sábado, horário perfeito pós-almoço, para comer um canolli do seu João de sobremesa e dar risada com a torcida mais grená do Brasil, com a maioria entre 20 e 40 anos. Um perfeito rolê, seja com amigos da cervejinha ou com a guria que tem medo de estádio.

A próxima meta minha e do meu irmão? Nos tornamos dirigentes do Juventus, só para bancarmos um clube que nos fez voltar a ter gosto de ir ao estádio e torcer para um time só pela diversão disso, esquecendo brigas em arquibancadas, medo da polícia ou passando raiva com conchavos, cartolas e emissoras, que não pensam no entretenimento ou no torcedor.

Como bom corinthiano, ainda sofro com as jogadas terríveis, mas o descarrego é mais eficiente, já que nossos gritos são ouvidos pelos jogadores. No último, por exemplo, escolhi o camisa 5 do Taboão para encher o saco. No intervalo do 1º tempo, ao sair de campo, ele ficou olhando para mim (já havia gritado muito com ele) e sei (vi, na verdade) que ouviu os berros: “Hoje você não joga mais, nem volta do vestiário, hein!” Ele voltou, mas desestabilizado. Só a Javari poderia proporcionar isso a mim. Viva o Moleque Travesso da Mooca.

Na esperança de expurgar meus demônios

Já aprendi que mesmo rodando todo o ambiente de um comércio (supermercado, por exemplo), não vou encontrar o que procuro, mesmo que já tenha passado pelo corredor do produto. Então, logo que entro já pergunto onde está o que preciso. “Bom dia, onde estão os cotonetes, por favor?” Essa foi a pergunta que fiz, mas só depois de ter percebido que havia falhado como ser humano, mais uma vez.

Entrei  na farmácia e, procurando alguém que trabalhasse no local, vi uma guria baixinha, de costas, que parecia estar de uniforme, com a camisa de um tom muito parecido com a calça jeans. Na minha cabeça só pessoas de uniforme combinam camisetas com a calça jeans, e eu estava certo, mas também errado.

Quando ela virou pude ver que era uma moça com síndrome de Down , a suspeita dela trabalhar ali caiu e fiz a pergunta para a atendente do balcão. Meu erro, que engano. Ao passar por ela, já falando com a outra funcionária, percebi o logo da farmácia em sua camisa.

Neguei meu instinto, de achar que fosse uma funcionária só porque a moça tinha síndrome de Down. Na minha cabeça preconceituosa ela não poderia ser uma funcionária da farmácia devido a seu distúrbio genético. Quanta babaquice.

Já fora da farmácia, ainda com vergonha de mim mesmo, fiquei pensando o motivo daquilo. Primeiro achei que é culpa da sociedade e das empresas, que não contratam cadeirantes, pessoas que tiveram paralisia infantil ou com Down, deixando-nos mal acostumados. Mas culpar o outro está na essência, né? Foi culpa da Eva, a cobra que me falou.

Em seguida assumi que era um preconceito que tinha e pouco importava sua raiz. Fiquei querendo voltar e falar algo para ela, pedir perdão, mas como estava de costas, não sei nem se ela percebeu que eu ia em direção a ela e mudei de ideia. Mesmo assim, se percebeu, não sei se seria o melhor jeito de me redimir, podendo constrangê-la ainda mais.

Nessas horas é que a gente sabe o tamanho do vacilo, medido pelo tempo em que ficamos pensando (e sofrendo) com isso. Não voltei à farmácia ainda e, mesmo que já arrependido, o perdão é o único libertador.

Talvez fique preso a esse sentimento para sempre, nunca podendo trazer o assunto à tona com quem realmente importa, já que não sou alguém próximo a ela. Pode ser até que seja uma coisa boa, para não esquecer o quanto consigo ser preconceituoso.

Vai ver, é por isso que escrevo, na esperança de expurgar meus demônios. Boa sorte com os seus.

Ficar molhado não é um grande problema

Com os argentinos aprendi a tomar chuva. Estive em Buenos Aires nos primeiros dias de setembro e descobri, lendo umas daquelas revistas de bairro, que agosto é um mês triste, muita chuva e muito frio. Inclusive, Julio Cortázar nasceu em agosto, criando o mito do mês melancólico, segundo a mesma revista.

A chuva caía constante. Nada parecido com os pés-d’água que temos aqui na região do trópico, mas sem garoa também, o suficiente para se molhar andando em um quarteirão. No primeiro dia fomos até o metrô, sem guarda-chuva, e saltando na estação desejada, pensamos em comprar um paraguas para nossa caminhada. Aqueles menores, de R$5 aqui, estavam caros. Olhamos para a calçada, o outro lado da rua e percebemos que a maioria das pessoas caminhava sem sombrinha ou guarda-chuva. Desistimos de comprar o nosso. “Se em Roma…”

Não era sábado, muito menos fazia sol. Acredito que ninguém tivesse a intenção de se refrescar com aquela água caindo do céu. Todos bem arrumados – era uma avenida principal, de movimento e comércio -, adolescentes voltando do colégio e senhoras com sacolas. Nenhum guarda-chuva. As pessoas entravam encharcadas nas lojas e ônibus. Ninguém de cara feia por essa estar molhada, ninguém reclamando de como se molhou, nem nada parecido. Simplesmente levantavam as golas de seus casacos e bora.

A suspeita confirmou-se nos dias seguintes, quando vi que a maioria deles anda assim, nos bairros mais endinheirados e nos mais simples. Parece um povo de bem com sua cidade, com seu clima. Se o tempo manda chuva, é com chuva que continuam seus trajetos, como se fosse apenas uma brisa mais fria, fechando as blusas e caminhando, todos molhados. E não é nem nesse esquema romântico (e bonito, eu acho) “tão legal tomar chuva, lava a alma” etc. Ficar molhado não é um grande problema, só isso.

Só sei quando o verão termina por causa do Tom Jobim

Eu adoro o verão, mas tem algo que sempre me deu raiva. Com a programação “Verão MTV” aprendi a odiar (só um pouquinho) a vida cotidiana na cidade. Pleno fevereiro, já tinha até passado o carnaval, provas e trabalhos rolando no colégio, e a Music Television lá, passando Lual MTV, naquela vibe “Somos felizes, vivemos o verão, somos da praia”. Uma falta de respeito passar esse tipo de programa e vinhetas até quase o começo de março. (Trivia: só sei quando o verão termina por causa do Tom Jobim).

Passada metade da semana que ficaríamos em Maresias, começou a bater aquela pré-depressão da volta das férias. Engraçado que a gente estava de perna esticada na areia, mas tristes. Sofreríamos na volta, mas escolhemos sofrer antes também. Eu, principalmente, sofro antes, durante e depois (olha a frase solta!), mesmo que tenha buscado exercitar o contrário nos últimos tempos.

O que pega é que vemos essas propagandas do pessoal sendo feliz no verão e queremos que nossa vida inteira seja assim. Aquilo é um momento. Analisando cenas assim, percebo que vivi (e vivo) diversos momentos daqueles. Mas não vale. Tem que ser assim sempre, todo dia, toda hora, todo instante. É a ditadura do verão, pelo menos na minha alma.

“A nossa vida tem que ser boa. Não podemos depender das férias e descansos para sermos felizes”. Foi com essa declaração que minha esposa gentilmente deu um murro na minha boca (a do estômago está de férias prolongadas, apanha demais, tadinha). A camiseta que escolhi para usar hoje é uma das minhas preferidas. Todas as brancas (15) que tenho estão lavando – assunto para outro post – e vim com essa. “Happiness is a matter of choice” (felicidade é uma questão de escolha) diz a frase nas costas. “Go and choose” (vá e escolha) é o que está estampado na frente.