Arquivos da Categoria: sei lá

Manias

O Inagaki compartilhou um post do jornalista Michel Laub, de uma série com 100 escritores brasileiros que ele fez, contando suas manias para escrever. Já tinha batido o olho, mas não tinha dado muita bola. Nos seis meses de mestrado que fiz em Letras, descobri que há uma linha de pensamento que acredita na não necessidade de se conhecer a vida do autor para avaliar sua obra. Às vezes acho isso, às vezes não. Com a leitura de feeds quase zerada, dei o braço a torcer fui dar uma olhada no que o João Paulo Cuenca tinha dito (todos os trechos estão na íntegra, tirados do blog do Michel Laub):

João Paulo Cuenca, autor de O único final feliz para a história de amor é um acidente – “Adoraria listar minhas anedóticas manias de escritor, mas não creio que existam. Eu simplesmente escrevo com o que (es)tiver à mão, normalmente computadores – ou canetas de bico fino e tinta preta sobre caderninhos franceses com papel pólen bold, que sempre levo no bolso. Costumo ouvir música, e posso ouvir os mesmos cinco minutos por horas de maníaca repetição, conforme o estado mental ou ritmo que desejar imprimir ao texto – Mahler ou Radiohead, Keith Jarrett ou Sufjan Stevens etc.  Não esquecer do Philip Glass, que também é ótimo para escrever.  Quando retomo um capítulo num romance, costumo ler o texto desde o início. No final, já li o livro umas 3 mil vezes – não que termine completamente satisfeito. No mais, acho que escrevo a maior parte do tempo longe do papel e dentro da minha cabeça, enquanto durmo, caminho, viajo, vou ao cinema, ao museu etc. – e isso faz de qualquer ritual ligado ao ato de escrever algo inteiramente acessório e pouco relevante. Até porque não há nada menos lúdico do que o ato de escrever prosa – acordo todos os dias querendo ser um pintor ou um músico de jazz.”

* Acabei identificando-me um pouco com ele, pela questão de que música ouvir, sempre ter algo à mão para poder anotar alguma ideia e de acordar todos os dias querendo ser um pintor, músico, fotógrafo ou alguma outra coisa. Como estava sem sono, fui vendo as manias dos outros escritores e separei abaixo alguns que achei mais interessantes:

Moacyr Scliar, autor de Manual da paixão solitária – “Em termos de escrever, o meu método, ou mania, ou superstição consiste em não ter método, ou mania, ou superstição. Desenvolvi minha atividade literária paralelamente a uma intensa carreira médica (primeiro clínica, depois em saúde pública), escrevia quando podia, quando dava tempo. E isso podia acontecer em qualquer lugar: numa lanchonete, esperando a comida, num hotel, no aeroporto (o laptop ajudou muito). Não preciso de silencio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais – só preciso de um teclado. E ah, sim, de ideias (mas diante do teclado as ideias surgem).”

Ronaldo Bressane, autor de Céu de lúcifer – “Para escrever o meu novo romance, comprei uma cortina: percebi que a luminosidade e a vista do nono andar me dispersavam. Outra coisa que me atrapalha demais é a internet, então corto a conexão. Pela primeira vez na vida, tenho preferido as manhãs às madrugadas. Alterno café e coca-cola com gelo. E a cada dia uso um dos chapéus da minha coleção. Me dá a impressão de ser outra pessoa. É meio bobo, mas tem funcionado.”

André Sant’Anna, autor de O paraíso é bem bacana – “O meu problema na hora de escrever é arrumar uma desculpa para adiar a hora de começar a escrever. Antes, eu fumava uns cigarros – ‘só um cigarrinho antes de começar’ –, aí as idéias iam fluindo. Ou: ‘Vou tomar uma lá na padaria pra botar as idéias em ordem’. Felizmente, parei de fumar. Infelizmente, fui obrigado a parar de beber. Então, tenho assistir às piores porcarias na televisão, antes de ir para o computador.”

Cintia Moscovich, autora de Por que sou gorda, mamãe? – “Basicamente, não consigo escrever com nenhuma peça de roupa me apertando. Nem com barulho, uma creche se mudou para a casa ao lado da minha e tenho vivido o inferno. Mas, no mais, eu tenho alguns hábitos, sim, que aplico depois das cinco e meia da tarde, quando o raio da creche fecha. Pode parecer engraçado, e de fato é, mas o ambiente em  que estou tem que estar agradável, nem frio nem calor, nada que me tire o foco de concentração. Sempre tenho um copo de água à mão. Quando sinto os olhos cansados, paro de escrever e tomo café. Quando a coisa fica preta, que nada me sai, faço uma dobradinha poderosa, café e chocolate. O café tem de ser recém-passado e o chocolate pode ser substituído por algum doce, importa é o açúcar. Fico na boa, beleza de doping engordativo, até me ocorrem idéias. O melhor de tudo é quando consigo andar de bicicleta ou fazer ginástica antes de escrever. Banho de endorfina e outros hormônios ajudam a relaxar e a pensar. Quando estou no desespero, coloco perto de mim um óculos que pertenceu a meu pai. Uma muleta afetiva das boas. Recomendo.”

EDIÇÃO

* Outra coisa que me identifiquei. Sou novo, na tentativa de escrever mais ainda, mas descobri uma das coisas que mais gosto de fazer: editar textos. Os preferidos são os meus, claro, pois os conheço e conduzo-os para onde quiser. Gosto de editar textos variados, quando bem escritos e interessantes. Nada que eu precise reconstruir. Imagine um carro que foi lavado e só precisa de uma cera aqui, uma polida ali e passar um pano para tirar a umidade. Gosto de refinar textos já elaborados. Os meus, gosto pois sei o que estava pensando quando os concebi e posso sempre acrescentar algo. Sou escravo do deadline, já que, assim como a Ivana, poderia editá-los para sempre, sem nunca finalizá-los.

Ivana Arruda Leite, autora de Alameda Santos – “Pra falar a verdade, eu detesto escrever. O meu barato é reescrever, mexer no que já está escrito. O começo de um livro é sempre um sacrifício sem fim. Até porque eu sou do tipo que já tem a história pronta na cabeça antes de escrevê-la. Daí a preguiça. Pra eu me obrigar a ficar umas horinhas na frente do computador é só na base do prêmio e castigo. Eu fico me prometendo coisas. Se eu escrever mais uma hora, eu posso ficar duas no twitter. Ou jogando no computador. Se eu não escrever um capítulo hoje, eu não vou poder sair pra beber. Nesta fase, eu só escrevo de manhã e no meu trabalho. Trabalho de prisioneiro mesmo. Eu só relaxo depois da primeira versão concluída. Aí sim o prazer da escrita aparece e eu escrevo freneticamente de dia, de noite, em qualquer lugar. Se o editor não arranca o livro da minha mão eu mexo nele pro resto da vida.”

Sérgio Rodrigues, autor de Elza, a garota – “Sou avesso a superstições e rituais. Escrevo sempre no computador, Word, Times New Roman, corpo 12, mas isso não tem nada de mais. O que tento fazer é criar uma atmosfera confortável, tipo bermuda-e-camiseta ou bermuda só, e de distração mínima – o que significa basicamente deixar o telefone na secretária eletrônica e resistir à tentação de conferir emails e navegar na internet. Já tive fases de escrever só noite adentro, depois que a casa inteira dormia, e em nome de um certo espírito dionisíaco ficar bebendo uísque ou, nas raras ocasiões em que o inverno carioca merecia este nome, conhaque (ainda acho o conhaque uma bebida profundamente literária, não me pergunte por quê). Mas ultimamente tenho virado cada vez mais um trabalhador diurno e sóbrio. Seja como for, escrever é quase sempre um trabalho meio doloroso. Gosto mesmo é do que vem depois: editar o material bruto, cortar, montar os pedaços em outra ordem, preencher lacunas. Isso é tão prazeroso e envolvente que nessa hora nem faz diferença se o telefone toca ou os emails pipocam.”

MANHÃ

* Sempre fui um pouco cético para dicas sobre como escrever. Não digo sobre prática, treino ou técnicas, mas não acho que exista fórmula ou segredo. Porém, gostei de uma coisa que vi em mais de um depoimento: o fato de escrever pela manhã pode ajudar. Por estar com a cabeça ainda “vazia” das coisas cotidianas, porém”cheia” e fresca dos sonhos e do mundo onírico, talvez seja uma boa dica para quando se precisa alguma coisa de ficção, ou de elementos um pouco mais lúdicos. Vale a pena o teste.

João Gilberto Noll, autor de Acenos e afagos – “Gosto de escrever de manhã cedo. Me parece que é  meu melhor impulso venha desse horário. É a cabeça mais vazia,  muito mais propícia para um arranque em direção a um certo inconsciente.”

Fabrício Corsaletti, autor de Esquimó – “Só consigo escrever prosa de ficção de manhã. Das seis às oito e meia, no máximo. É nesse horário que minha cabeça funciona melhor, que eu consigo me concentrar mais. Ou me defender menos. Porque tenho a impressão de que às seis horas — isto é, mal-saído do sono —, sentado de frente pro laptop, já tendo tomado uma caneca de café sem açúcar e comido uma ou duas fatias de pão com manteiga, há pouca resistência entre o meu cérebro, minhas mãos e o teclado. É quando as frases saem mais facilmente. Não que não me dê trabalho; dá, claro. Às vezes muito, às vezes pouco. Mas acho que o maior esforço que eu faço é o de me disciplinar pra criar essas manhãs quase perfeitas — sem sono, sem ressaca e sem culpa. Por isso, quando estou escrevendo um conto (também escrevi um romance seguindo essa mesma regra), na noite anterior organizo minha mesa, deixando sobre ela apenas o laptop e alguma eventual anotação sobre o texto a ser escrito, ponho a água pro café na leiteira, o pó dentro do coador e durmo cedo, em geral antes das dez. No dia seguinte perco o mínimo de tempo preparando meu café da manhã. Dez minutos depois de acordar já estou escrevendo. Consigo dois ou três parágrafos por dia. Com poesia é outra história. O poema se impõe independentemente do lugar ou da hora. O negócio é estar sempre atento pra perceber quando ele está ali, querendo se transformar em palavras.”

Marcelo Moutinho, autor de Somos todos iguais nesta noite – “Até pelo ofício de jornalista, que nos obriga a redigir em ambentes movimentados e não raro barulhentos, em geral não preciso de muita preparação quando vou escrever ficção. O fundamental é que haja café em profusão e – ainda mais relevante – que não ninguém fite a tela enquanto digito. Prefiro escrever pela manhã, quando a mente ainda está vazia. E na maior parte das vezes, quando me sento para trabalhar, já tenho algumas anotações sobre o conto a ser criado: observações sobre enredo ou personagem, frases soltas, em alguns casos o final da história.”

Miguel Sanches Neto, autor de Chá das cinco com o vampiro – “Escrevo apenas em momentos de intensidade. Um romance vai tomando corpo a partir do acúmulo de observações, frases e memórias, que num instante de choque se unem e se reproduzem ficcionalmente, afastando-se de suas origens. Assim, só consigo escrever tendo à disposição muitas horas de trabalho e durante semanas seguidas, sem interrupções da vida familiar ou social. Quando abandono um relato, ele perde a temperatura e não consigo retomá-lo. Para não parar, tenho que começar a escrever sempre pela madrugada, dia após dia, e seguir até o final da tarde. Acordo perto das 4 da manhã, aproveitando o despovoamento da cidade e me sentindo a única pessoa na face da terra. Na hora em que estamos escrevendo somos sempre a única pessoa na face da terra.”

Ana Paula Maia, autora de Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos – “Escrever na parte da manhã é sempre melhor pois minha cabeça está bem fresca e ainda não tomei contato com a realidade. Sendo assim, entrar na realidade dos mundos que proponho fica mais fácil. Preciso estar limpa. Não gosto de escrever fedendo, suja ou suada. Não me importo com o som de uma britadeira trabalhando ao longe ou o toque da campainha do vizinho. O mais difícil é sair da realidade do mundo ficcional e encarar a fila no supermercado.”

Branco

O branco. Se não fosse o computador, falaria da angústia da página em branco. Aliás, já parou pra pensar que o Word trouxe para a tela o mesmo formato e ‘design’ de uma folha em branco? É tudo digital, mas ainda o mesmo modelo. Enfim, para mim é a realização de poder escrever em linha reta, em uma folha branca, mas sem linhas. Ao mesmo tempo, o branco não deixa de ser o mesmo. O nada ali. Esperando que você escreva alguma coisa. De preferência, interessante e coerente. Mas nem sempre é possível.

Eu sei, estou ‘imitando’ o Mario Prata, naquela excelente crônica que ele tem sobre ‘o branco’. Precisei de dois parágrafos para fazer o que ele fez em um, mas o branco dele é o mesmo que o meu.

Procuro anotar tudo o que tenho de ideia, mas é difícil quando isso acontece durante o banho, por exemplo, ou no ônibus lotado. Não tem como escrever no vapor do box ou nas janelas do ônibus, que ficam igualmente embaçadas quando chove e está frio.

Antes de me dizer “ande com um bloquinho e uma caneta” saiba que já faço isso. Além do meu celular e seu humilde bloco de notas. Mas não adianta. Minha memória adora tanto me sacanear que eu esqueço de anotar! Tipo, eu precisaria anotar no bloco de notas que não posso esquecer de anotar as idéias! Posso com meu cérebro?

Não sei porquê [claro que sei, falei de cérebro], mas me veio agora falar sobre o House, aquele médico/seriado, sabe? Eu e minha esposa estamos viciados. Já interajo com os personagens e reajo a situações como se estivesse assistindo a um filme dos X-Men. Esse é o nível para saber o quanto me interesso por algo. Choro com os casos dos pacientes, digo pro House que ele é um fanfarrão, fico com raiva dele, peço desculpas por ter ficado com raiva, pois ele estava certo [ele sempre está certo] e tudo mais. Sabe sua tia-avó [pode ser sua tia ou sua avó também] assistindo novela? Pois então, House é minha novela.

Falando nisso, todos temos alguma coisa que criticamos os outros, mas fazemos igual, já percebeu? Criticar alguém que assiste novela, mas ser viciado em gibi ou em algum seriado, não faz sentido. É ‘novela’ também. Assim como reclamar com a esposa que ela está comprando outro sapato, que não precisa, quando você quer um celular novo, que também não precisa. Todo mundo tem sua novela, todo mundo tem seus desejos não necessários.

Já existem sites que prometem ajudá-lo na hora do branco. O Plinky é um deles. Há outros parecidos, mas nada melhor para resolvê-lo do que encarar a folha em branco e escrever o que vier na cabeça. E esperar que os leitores o perdoem por você ter enrolado um texto por alguns parágrafos e não ter dito nada.

I bet you think that’s pretty clever, don’t you boy?*

Para ler escutando High and Dry – Radiohead.

Era 1994. O Brasil seria ou já havia sido campeão do mundo pela 4ª vez. Não lembro se foi antes ou depois de julho. Na verdade, eu achava que tinha acontecido em 93, mas fui pesquisar e o CD ‘Calango’, do Skank, só saiu um ano depois do que imaginei.

Como foi em 1994, eu estava na 4ª série do primário. Sempre foi fácil lembrar os anos de colégio. E o primeiro fora a gente nunca esquece. Na verdade, acho que não foi o primeiro de todos. Talvez tenha sido o primeiro a me deixar engasgado, até com um pouco de raiva.

Como eu disse, Calango tinha sido lançado e o hit parade pertencia ao Skank. Eu sabia o álbum inteiro de cor. Tirando duas músicas mais chatinhas, ouvia todas. Eu só tinha dois discos: Calango e Nevermind. O clássico do Nirvana foi o primeiro que comprei, antes mesmo de possuir um CD player. E lembro que no dia em que fomos comprar o aparelho, para poder ouvir os cinco ‘disquinhos lasers’ que já tínhamos em casa, meu pai comprou o Calango pra mim. Saímos de Guarulhos e fomos até o SP Market, pra lá de Santo Amaro, porque tinha um CD player mais barato. Hoje em dia eu conseguiria convencer meu pai a não ir, simplesmente mostrando que a quantidade de gasolina gasta daria para comprar um aparelho mais caro, em um lugar mais perto, e ainda sair pra jantar no Outback.

OK, volta. A história não é essa. Enfim, eu gostava da Andréa/Andrea/Andreia/Andréia. Não lembro direito. Digamos que seja Andrea, que fica mais fácil de escrever, eu não entro em confusão com a reforma ortográfica e todo mundo sai feliz. Menos o Gabrielzinho, de 1994.

Eu gostava bastante da guria. Ela foi a primeira Winnie Cooper que apareceu na minha vida. Eu era um eterno Kevin Arnold. Jurava que os caras do programa iam fazer pesquisa de campo lá em casa, perguntando pra minha mãe o que rolava na minha vida. Deve ter sido um deleite quando ouviram a história da Andrea.

Estudávamos na mesma classe. Ela não fazia o tipo da ‘massa’. Poucos garotos reparavam nela, o que a tornava mais interessante ainda. Ou reparavam, mas eram tão cagões quanto eu. Como sempre fui muito ruim em xavecar, sempre usei a tática [falha] de virar amigo antes. Só fui me dar conta do quanto isso me atrapalhou anos depois. Como éramos amigos, constantemente ligava para ela, falando de trivialidades. Lição de casa, provas etc. Decidi que estava cansado daquilo. Não dava mais para ficar enrolando, sem ela saber o que eu sentia. Liguei, oi, tudo bem, o que você está fazendo e já emendei: “Olha essa música que ouvi e fiquei pensando em você…”. Entra o Samuel Rosa cantando: “Te ver e não te querer, é improvável é impossível. Te ter e ter que esquecer, é insuportável é dor incríveeel”. Na verdade, foram 20 segundos de introdução, até ele entrar cantando. Tem todo o “Arrarraum iê… uh uh uh. Arrarraum iê. Noaiuntchu cybers”.

Coloquei o CD no meu mini system, aumentei o volume e colei o bocal do telefone nas caixinhas de som. A sorte à época: era um minis system portátil e o telefone era sem fio. Pude ir para o quarto, fechar a porta e pagar esse mico em paz. Eu deixei o Sr. Rosa cantar o refrão [que abre a música], cantar a primeira estrofe inteira [“É como mergulhar num rio e não se molhar”], o refrão de novo, a segunda estrofe inteira [“É como esperar o prato e não salivar”] e o refrão. São dois minutos cravados. E finalizei com aquela técnica de ir abaixando o som aos poucos para parecer que a música acabou. [Nem eu acredito que fiz isso... Minha cara agora, se você pudesse ver, é de desaprovação com "que dó do Gabrielzinho"]. Fade out na música até ficar silêncio.

Gabrielzinho: E então?
Andrea: Er… ah… o que tem de lição de casa pra amanhã?

Juro. Pensando agora, não foi meu primeiro fora. Mas foi a primeira grande decepção. A expectativa de qualquer comentário sobre aquilo e nada. Simplesmente nada. Nem um “Que bosta, Gabriel”. Talvez tivesse sido melhor. Mas não. Ela preferiu falar da lição de casa. Eu não entendia e não a perdoava. Hoje sei que não poderia cobrar qualquer coisa dela. Eu fiz esperando um retorno. Apresentei algo com o fim de ter outro algo em troca. Uma resposta, que fosse.

Aprendi – não sei quando, não sei como – que a gente deve fazer as coisas pelo prazer de fazê-las. Talvez eu esteja errado ou você talvez discorde de mim. Se escrevo para alguém, não é esperando uma resposta. Se eu te visito, não é para ver o quanto você sorriu na hora em que me viu na porta. É simplesmente porque estou com vontade de fazer aquilo. É para satisfazer a minha vontade – o que estou sentindo – qualquer que seja o resultado. O fim está na própria ação, e não no que ela vai causar.

Fiquei traumatizado, mas ‘perdoei’ a Andrea. Tenho a vaga lembrança de ter falado com ela sobre isso. Não sei se foram dias, meses ou anos depois, mas lembro dela me pedir desculpas. De dizer que, no momento, não sabia o que responder. De nunca ter tido oportunidade de sequer pensar que eu [ou alguém] gostasse dela. Não há como culpá-la. E por muitos anos eu me culpei. Mas aprendi também a relevar meus próprios ‘erros’ e a perdoá-los. Entender que eu nem sempre soube das coisas e que nunca vou saber por completo.

[E que não posso tocar "Te Ver" por 2 minutos para uma guria e no final dar um fade out para parecer que a música terminou.]

*High and Dry – Radiohead

Quem vê pedigree não vê coração

As coisas nem sempre acontecem do jeito que a gente espera. Clichê e lugar-comum, não? Bem Manuel Bandeira me autorizou a escrever sobre o lugar-comum depois desse ‘flash autobiográfico’ dele [indicação da Dani Arrais].

Voltando. Já aconteceu e vai sempre acontecer. Se planejar e não acontecer como esperado. O que a gente aprende com isso? Se você de fato aprender algo são duas opções: 1) não se planejar mais. Deixar rolar, o que for. Mas se você for como eu e simplesmente não sabe deixar tudo rolar, você continuará se planejando mas 2) na hora em que der errado, não se estressará.

Tudo isso para contar a divertida [para mim] história de uma amiga. Ela tinha uma pitbull de pedigree. Colocou pra cruzar. Cada filhotinho sairia por mil reais, aproximadamente, ou seja, um que nascesse já pagaria a quantia gasta [sim, isso é caro]. Ela cruzou [a cadela]. Tudo lindo e maravilhoso. Colocaram aquela fraldinha pra nenhum outro cachorro tentar algo. O que aconteceu? A fraldinha caiu e o basset da minha amiga, que vivia junto com a pitbull, não pensou em pedigree, nem nada. Foi lá e cruzou por livre e espontâneo instinto com a cadela. Resultado: monstrinhos. A pitbull não ficou prenha do pitbull de pedigree e deu a luz à cachorrinhos esticados, mas com uma cara de pitbull.

FIM

Pudim rei

Nunca fui muito fã de pudim. Ia na casa da avó de minha esposa e diziam “É o melhor pudim que existe”. Comia e achava OK. Não era descaso ou fazendo desfeita, longe disso. O pudim era sim, muito bom. Mas esse doce não é algo que eu aprecie, de forma geral. Chocolate, por exemplo. Até chocolate ruim [para mim] é bom… entende? Mas pudim… OK, pudim adoça a boca. Legal.

Mas, um dia, experimentei o pudim da Real, a padaria que fica ao lado da MTV. Na colherada, já se sabe que coisa boa vem pela frente. O pudim ideal começa pela textura. Quando a colher começa a cortar aquela mini-montanhinha, há uma consistência inegável ali, de um autêntico doce de forno. Você percebe que, de certa forma, ele é mole. Mas ele não cai. Nunca. Até a última colherada, permanece em pé. As vovós diriam: “OK, ele é mole… mas é durinho também. Como?! Ó Senhor, como?!?”.

Feche os olhos e coloque a porção escolhida para pousar em sua língua e se desfazer no céu da boca. A consistência perfeita [nem tão mole, nem tão dura] será ainda mais incrível e extraordinariamente perceptível. A calda de ‘caramelo’ é generosa. Cai por sobre o pudim e ainda tem no prato. O fundo do pudim é propositadamente levemente queimado, para ficar aquela pequena crosta com gosto exótico. Caso não lhe agrade a parte mais queimada, o pudim sai perfeitamente, sem desmanchar sua base.

Ouso dizer que o pudim da Real alcançou a perfeição. Consistência exatamente equilibrada – não é doce ou aguado demais – tem uma generosa calda de caramelo e base levemente queimada [para quem gosta].

Pedro Jansen disse que se eu quisesse experimentar um pudim que me fizesse questionar o da Real, teria que experimentar o da padaria Villa Grano, na esquina da Wizard com a Fradique Coutinho, na Vila Madalena. Fui no mesmo dia. Pedi o pudim e um café espresso, normal [como de costume]. Na colherada, percebi que era mais durinho que o da Real. Achei ele um pouco mais ‘seco’, pegando na boca, sem contar que achei muito doce. Fica até ruim eu dizer 5 imensos parágrafos do pudim da Real e apenas um, meio mixuruco sobre o da Villa Grano, mas é que eu tenho tão em conta o da Real, que fui esperando que minha vida mudasse depois dele [OK, exagerei]. Então, para ser mais justo, desafiei o Jansen a experimentar o da Real e escrever um post com os critérios do que ele considera ‘a perfeição’ [Villa Grano, para ele] e a análise do pudim que considero melhor.

Como disse, é questão de gosto. Pode ser que alguém prefira o pudim mais durinho e com menos calda. São essas pequenas diferenças que fazem a vida ficar mais divertida. Além disso, o dono da Villa Grano não vai à falência com aquela força do Jansen e a Real continua na ativa, comigo indo lá pelo menos uma vez por semana.

Real
Av. Profº Alfonso Bovero, 2 – Sumaré
3862-7864

Villa Grano
Rua Wizard, 500 [esquina com a Fradique Coutinho] – V. Madalena
3031-6636

Cadernos

Vou ser honesto.
O texto é longo.
Um tratado, diria Saramago.
Então se prepare…

Para quem escreve, certas coisas são sagradas. E profanas. Cadernos, por exemplo, envolvem esses dois conceitos.

Lembro de mim [óóó] na 1ª série e os famigerados ‘diários’. Não, eu não tinha um “Querido diário”. O Mackenzie sempre se orgulhou por ser um Colégio Americano. Algumas [várias] coisas eram baseadas nos valores, princípios e culturas do país que elegeu Barack Obama. Por isso só fui ter futebol na Educação Física lá pro ginásio. Como o futebol [de salão] não é esporte olímpico, o Mackenzie não o incluía em sua grade de esportes. Legal, né?

Enfim, os professores obrigavam-nos a ter nossos diários. Era um caderno de capa dura, com linhas. Só. Lá, tínhamos que anotar as tarefas da próxima aula. No primário, tirando artes e Ed. Física, era a mesma professora para todas as matérias. Então a nossa única ‘diversão’ na hora de escrever no diário era trocá-lo com alguém. Todo mundo queria ter a letra da Isabela grafada em seu diário. Meninos e meninas. Ela era esse tipo de guria. O Gustavo, um dos moleques mais nerds que já conheci na vida, era o maior puxa-saco e mais paga-pau de Isabela. Eu já era meio nerd também, mas eu sempre fui um nerd às avessas. Tocava o terror na sala de aula, brigava pra sair na porrada, sentava no fundão, não estudava e muito menos fazia lição de casa. Como eu me formei [do pré à faculdade] sem nunca pegar recuperação ou DP e consegui entrar em dois mestrados [e depois largá-los], acho que nem meus pais explicam. O caso é que eu não era o Gustavo. Nunca fui e nunca serei [até que ele era um cara bacana]. Mas me irritava o fato dele sempre conseguir trocar diário com a Isabela, sendo bonzinho daquele jeito [será que era isso?]. O fato é que um dia eu consegui. Seria legal ter aqui como é que isso aconteceu, não? Pois é, não lembro. Como eu conheci tanta mulher [e casei com a mais linda delas (óóónnn)] também é um mistério. Nunca tive muita tática. Nem para os estudos, nem para as mulheres.

No fim das contas, acho que as mulheres e os estudos são parecidos. Por mais que inventem fórmulas e tentam decifrá-los, sempre tem um ou outro que obtém sucesso e ninguém explica como. [Prazer, Gabriel].

No colegial começou a tortura: um professor para cada matéria. Como todo pré-adolescente, eu queria aquele cadernão, com as divisórias. Mas umas acabavam muito antes que as outras. Alguma matérias pediam 5 páginas por aula. Outras, 5 páginas por mês. Andar com 2 – 3 cadernões não era a solução mais prática.

Só fui equacionar esse problema na faculdade. Na verdade, acho que foi um pouco antes, pois já cheguei com essa tática sedimentada na universidade. Para variar, não lembro quando e como. A estratégia: um cadernão, mas sem divisórias. Arrancava todas as divisórias e começava a escrever. Primeiro dia de aula, primeira disciplina: Teoria da Comunicação 1. Era na primeira página. Semiótica da Cultura 1, segunda aula. Passava um risco na linha de baixo de onde tinha terminado TC1 e emendava as anotações da aula seguinte. Eu tive um caderno por semestre. Todas as matérias compiladas em um. E uma atrás da outra, divididas apenas por um risco.

Por incrível que pareça, essa foi a solução para meus problemas. O caos dos meus cadernos é que fez eu conseguir estudar. Aquela bagunça foi o quando parei e pensei “Agora sim”. Lógico, meus colegas odiavam isso, quando pediam meu caderno para xerocar e poder estudar com base nele. Mas era um preço a se pagar. Eu não anotava apenas o que os professores falavam. Eu já colocava ali as minhas considerações, já colocava a informação processada… mastigada e digerida. Era a minha interpretação daquelas teorias, no caderno. Em Semiótica a gente aprende que o caos é benéfico ao homem. Uma situação caótica [um problema, uma crise] obriga o homem a se reorganizar, sair da zona de conforto, se esforçar para sair daquilo. Passado o caos, ele ‘subiu’ um nível. Se reorganizou de uma forma inédita, cresceu como ser humano. Se acomoda até que um novo caos o tire da zona de conforto.

Acho que o caos em meus cadernos era o que me fazia ter paz nos estudos. Eu não funciono separado, em divisões. Não sou linear. Leio algo aqui e pulo 2 – 3 páginas até encontrar novamente meu assunto. E meus assuntos se misturam. Tudo acontece ao mesmo tempo agora. Não dá para separar algo tão mesclado. Talvez, por isso, gostasse de ter meus cadernos assim e só dessa forma consegui me organizar para estudar… no caos.

Update: atualmente, ando com um caderninho na mochila, inseparável. Para anotar idéias e coisas que ouço e acho interessante. No esquema tudo-junto-agora. Sem divisórias. E tenho um pseudo-Moleskine, do Batman, onde tenho anotado frases que penso [e considero bacanas], lista de DVDs e livros emprestados aos amigos e nas últimas páginas, contatos importantes.

Eles dormem onde eu piso

Eles não têm assento reservado ou fila preferencial. Não têm direito à meia-entrada, nem contam com uma passeata ou Parada reivindicando seus direitos. Não são mencionados em nenhuma campanha eleitoral, na pregação dominical ou na prece matinal. Não entram no censo do IBGE, pois são recenseados apenas os moradores em domicílios particulares e coletivos. Domicílio? Eles dormem no chão, na calçada e na rua. Eles dormem onde a gente pisa, cospe, joga o resto de guaraná fora e vomita quando está de ressaca.

Fotos deles fazem sucesso. São expostas em salões inaugurados com pomposos vernissages. Do lado de dentro brindam com champagne, discutem o problema dos sem-teto, depois dormem embriagados com vinhos caros e cheirando a charuto cubano. Ele, o retratado, espera o último convidado sair para conseguir um pequeno espaço embaixo da marquise e não molhar a caixa de uma televisão de plasma de 42″, seu colchão.

Eu estava na cozinha do escritório…

…olhando para o horizonte inexistente e a mulher parada à minha frente jurava que eu estava reparando nela. Balançou o cabelo com as mãos, disse “Gostou? Pode elogiar!” e ficou chacoalhando a cabeça ao vento também inexistente. Eu dei um sorriso, como quem entende o que está acontecendo e ela virou para a amiga “É que ele estava olhando para mim assim, tão fixamente, que eu tive que dar um incentivo, para ele comentar sobre o meu novo cabelo”. Hein? Ela trocou de cabelo? “Ai amiga, realmente… esse novo corte ficou lindo”. Ah… novo corte. Mas, hein? O cabelo dela já não era curto assim? “Mas foi difícil tomar coragem e cortar aquilo tudo. Estava no meio das costas já!”

E eu só queria tomar o meu café em paz, olhando para o horizonte… inexistente.

Ensaio sobre a [minha] cegueira

- Carol, você viu meus óculos?
- Gá… chegamos os dois agora em casa. Você não levou-os hoje?
- Levei… mas acho que deixei no ônibus. Na correria, na hora de descer, acho que ficaram fora da mochila, dentro da capinha. Só queria confirmar se por algum milagre eles não teriam achado o caminho de casa sozinhos.
- É, acho que dessa vez não.

Ainda bem que durmo de olhos fechados e, nos meus sonhos, eu enxergo bem. Mas desde ontem estava angustiado por tê-los perdido. E utilizo o plural não apenas para escrever de fomar correta. Ontem acabei colocando o que uso e o reserva juntos, na mesma caixinha. [Sem xingar, por favor.]

Hoje vim para o trabalho já ligando para meu irmão e pedindo o telefone da nossa oftalmologista de Hogwarts. Sério, a mulher é mágica. Ela sentada na cadeira dela, atrás da mesa e você em seu lugar, a um metro e pouco de distância, ela olha fundo nos seus olhos e diz “Você é O+, né? Coma menos pães, massas, batata… evite leite e pode comer carne vermelha. Agora vamos ver esse olho”. Nessa hora ela é tradicional e te coloca naquela cadeira com aquele troço enorme, cheio de lentes. “Como fica melhor? Assim… ou assim?” Assim, doutora… e ela sabe exatamente de qual estou falando. Depois, volta o esquema cadeira-mesa-cadeira e ela pergunta como você está emocionalmente, fala sobre seus pais, você chora e sai de lá com uma receita de óculos e mais leve.
[Fim da digressão]

Cheguei no escritório e liguei no famigerado [adoro essa palavra] 156, da Prefeitura. Como era cedo [pouco mais de 9h], não demoraram para atender. Expliquei meu problema, a Sheila pediu para eu aguardar um instante e quando retornou, me passou o 0800 da SPTrans. Agradeci, liguei para o número e após contar meu problema, a Gabriela me passou o 0800 do consórcio na qual a empresa da linha do ônibus que peguei fazia parte. Liguei no consórcio, expliquei meu problema e a Cristina me passou o número da companhia da linha, pois cada empresa possui seu próprio ‘Achados e Perdidos’.

- Bom dia, em que possos ajudá-lo…? Possos? Hihihi… desculpe, já falei no plural.
- Sem problema Dª… qual a o nome da senhora?
- Helenir.
- Então Dª Helenir, eu acho que esqueci meus óculos ontem, em um ôni
- Opa! Recebi agora cedo dois óculos, dentro de uma mesma capinha…
- Não brinca comigo, Dª Helenir…
- É sério. Como eles são? Um é mais…
- Grosso.
- Grosso.
- Isso!!
- Da Christian Dior, né?
- Isso… [comprei usado e antes pertencia à Dª Asnif, segundo a receita que veio junto com ele] e outro é mais
- Fininho.
- Fininho!! Isso Dª Helenir, a senhora os achou!
- Peraí que vou pegar para checarmos direitinho.
- É isso mesmo! Uma capinha preta e
- Eu disse que vou pegar para checarmos.
- OK.
.
.
.
- Então, está aqui… Uma capinha preta. Parece que tem uma… pimenta, é isso?
- Isso mesmo. Muito obrigado, viu Dª Helenir?
- Sem problema. Só me passe seu nome completo para eu poder deixar aqui no documento, quando você vier retirar.
- É Gabriel…
- Hum, começou bem. Lindo nome.
- Sério? Algum conhecido querido com esse nome?
- Sim, uma das pessoas que mais amo na vida… meu sobrinho.
- Gabriel…? Aposto que ele é arteiro e bonzinho.
- Arteiro, bonzinho, muito querido e inteligente…
- Somos assim, Dª Helenir.

Do Limão para Milão

Lia o horóscopo todo dia, antes de almoçar. Não importava se o jornal era pequeno, diário, semanal. Podia ser da revista, da Palavras-Cruzadas ou do panfleto distribuído na rua. Era a primeira vez que sairia do Limão… direto para Milão. Assobiou na rua, como há anos ninguém mais assobia.

[Eu tinha essas três idéias anotadas há meses (talvez já faça um ano) sobre um texto, cada. Nunca consegui desenvolver nada. Juntei, ficou bem pequeno, meio dadaísta. Gostei.]