Crônico

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I bet you think that’s pretty clever, don’t you boy?*

4 Fevereiro , 2009 · 10 Comentários

Para ler escutando High and Dry – Radiohead.

Era 1994. O Brasil seria ou já havia sido campeão do mundo pela 4ª vez. Não lembro se foi antes ou depois de julho. Na verdade, eu achava que tinha acontecido em 93, mas fui pesquisar e o CD ‘Calango’, do Skank, só saiu um ano depois do que imaginei.

Como foi em 1994, eu estava na 4ª série do primário. Sempre foi fácil lembrar os anos de colégio. E o primeiro fora a gente nunca esquece. Na verdade, acho que não foi o primeiro de todos. Talvez tenha sido o primeiro a me deixar engasgado, até com um pouco de raiva.

Como eu disse, Calango tinha sido lançado e o hit parade pertencia ao Skank. Eu sabia o álbum inteiro de cor. Tirando duas músicas mais chatinhas, ouvia todas. Eu só tinha dois discos: Calango e Nevermind. O clássico do Nirvana foi o primeiro que comprei, antes mesmo de possuir um CD player. E lembro que no dia em que fomos comprar o aparelho, para poder ouvir os cinco ‘disquinhos lasers’ que já tínhamos em casa, meu pai comprou o Calango pra mim. Saímos de Guarulhos e fomos até o SP Market, pra lá de Santo Amaro, porque tinha um CD player mais barato. Hoje em dia eu conseguiria convencer meu pai a não ir, simplesmente mostrando que a quantidade de gasolina gasta daria para comprar um aparelho mais caro, em um lugar mais perto, e ainda sair pra jantar no Outback.

OK, volta. A história não é essa. Enfim, eu gostava da Andréa/Andrea/Andreia/Andréia. Não lembro direito. Digamos que seja Andrea, que fica mais fácil de escrever, eu não entro em confusão com a reforma ortográfica e todo mundo sai feliz. Menos o Gabrielzinho, de 1994.

Eu gostava bastante da guria. Ela foi a primeira Winnie Cooper que apareceu na minha vida. Eu era um eterno Kevin Arnold. Jurava que os caras do programa iam fazer pesquisa de campo lá em casa, perguntando pra minha mãe o que rolava na minha vida. Deve ter sido um deleite quando ouviram a história da Andrea.

Estudávamos na mesma classe. Ela não fazia o tipo da ‘massa’. Poucos garotos reparavam nela, o que a tornava mais interessante ainda. Ou reparavam, mas eram tão cagões quanto eu. Como sempre fui muito ruim em xavecar, sempre usei a tática [falha] de virar amigo antes. Só fui me dar conta do quanto isso me atrapalhou anos depois. Como éramos amigos, constantemente ligava para ela, falando de trivialidades. Lição de casa, provas etc. Decidi que estava cansado daquilo. Não dava mais para ficar enrolando, sem ela saber o que eu sentia. Liguei, oi, tudo bem, o que você está fazendo e já emendei: “Olha essa música que ouvi e fiquei pensando em você…”. Entra o Samuel Rosa cantando: “Te ver e não te querer, é improvável é impossível. Te ter e ter que esquecer, é insuportável é dor incríveeel”. Na verdade, foram 20 segundos de introdução, até ele entrar cantando. Tem todo o “Arrarraum iê… uh uh uh. Arrarraum iê. Noaiuntchu cybers”.

Coloquei o CD no meu mini system, aumentei o volume e colei o bocal do telefone nas caixinhas de som. A sorte à época: era um minis system portátil e o telefone era sem fio. Pude ir para o quarto, fechar a porta e pagar esse mico em paz. Eu deixei o Sr. Rosa cantar o refrão [que abre a música], cantar a primeira estrofe inteira [“É como mergulhar num rio e não se molhar”], o refrão de novo, a segunda estrofe inteira [“É como esperar o prato e não salivar”] e o refrão. São dois minutos cravados. E finalizei com aquela técnica de ir abaixando o som aos poucos para parecer que a música acabou. [Nem eu acredito que fiz isso... Minha cara agora, se você pudesse ver, é de desaprovação com "que dó do Gabrielzinho"]. Fade out na música até ficar silêncio.

Gabrielzinho: E então?
Andrea: Er… ah… o que tem de lição de casa pra amanhã?

Juro. Pensando agora, não foi meu primeiro fora. Mas foi a primeira grande decepção. A expectativa de qualquer comentário sobre aquilo e nada. Simplesmente nada. Nem um “Que bosta, Gabriel”. Talvez tivesse sido melhor. Mas não. Ela preferiu falar da lição de casa. Eu não entendia e não a perdoava. Hoje sei que não poderia cobrar qualquer coisa dela. Eu fiz esperando um retorno. Apresentei algo com o fim de ter outro algo em troca. Uma resposta, que fosse.

Aprendi – não sei quando, não sei como – que a gente deve fazer as coisas pelo prazer de fazê-las. Talvez eu esteja errado ou você talvez discorde de mim. Se escrevo para alguém, não é esperando uma resposta. Se eu te visito, não é para ver o quanto você sorriu na hora em que me viu na porta. É simplesmente porque estou com vontade de fazer aquilo. É para satisfazer a minha vontade – o que estou sentindo – qualquer que seja o resultado. O fim está na própria ação, e não no que ela vai causar.

Fiquei traumatizado, mas ‘perdoei’ a Andrea. Tenho a vaga lembrança de ter falado com ela sobre isso. Não sei se foram dias, meses ou anos depois, mas lembro dela me pedir desculpas. De dizer que, no momento, não sabia o que responder. De nunca ter tido oportunidade de sequer pensar que eu [ou alguém] gostasse dela. Não há como culpá-la. E por muitos anos eu me culpei. Mas aprendi também a relevar meus próprios ‘erros’ e a perdoá-los. Entender que eu nem sempre soube das coisas e que nunca vou saber por completo.

[E que não posso tocar "Te Ver" por 2 minutos para uma guria e no final dar um fade out para parecer que a música terminou.]

*High and Dry – Radiohead

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Quem vê pedigree não vê coração

23 Janeiro , 2009 · 4 Comentários

As coisas nem sempre acontecem do jeito que a gente espera. Clichê e lugar-comum, não? Bem Manuel Bandeira me autorizou a escrever sobre o lugar-comum depois desse ‘flash autobiográfico’ dele [indicação da Dani Arrais].

Voltando. Já aconteceu e vai sempre acontecer. Se planejar e não acontecer como esperado. O que a gente aprende com isso? Se você de fato aprender algo são duas opções: 1) não se planejar mais. Deixar rolar, o que for. Mas se você for como eu e simplesmente não sabe deixar tudo rolar, você continuará se planejando mas 2) na hora em que der errado, não se estressará.

Tudo isso para contar a divertida [para mim] história de uma amiga. Ela tinha uma pitbull de pedigree. Colocou pra cruzar. Cada filhotinho sairia por mil reais, aproximadamente, ou seja, um que nascesse já pagaria a quantia gasta [sim, isso é caro]. Ela cruzou [a cadela]. Tudo lindo e maravilhoso. Colocaram aquela fraldinha pra nenhum outro cachorro tentar algo. O que aconteceu? A fraldinha caiu e o basset da minha amiga, que vivia junto com a pitbull, não pensou em pedigree, nem nada. Foi lá e cruzou por livre e espontâneo instinto com a cadela. Resultado: monstrinhos. A pitbull não ficou prenha do pitbull de pedigree e deu a luz à cachorrinhos esticados, mas com uma cara de pitbull.

FIM

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Pudim rei

6 Janeiro , 2009 · 11 Comentários

Nos últimos anos tenho evitado dizer “a melhor coisa do mundo”. Ainda não experimentei todas para saber a melhor. Outro motivo é que gosto é algo muito relativo. O gostoso para mim pode ser ruim para você e por aí vai. Mas há aquelas coisas que se tornam unânimes.

Eu nunca fui muito fã de pudim. Ia na casa da avó de minha esposa e diziam “É o melhor pudim que existe”. Comia e achava OK. Não era descaso ou fazendo desfeita, longe disso. O pudim era sim, muito bom. Mas o doce não é algo que eu aprecie, de forma geral. Chocolate, por exemplo. Até chocolate ruim [para mim] é bom… entende? Mas pudim… OK, pudim adoça a boca. Legal. [Como disse, gosto é relativo.]

Mas um dia eu experimentei o pudim da Real, a padaria que fica ao lado da MTV. [Na verdade, o nome é Real Pizzaria e Lanchonete. Tem realmente uma pizzaria ali e lanches. Não é muito padaria, porque não tem pãozinho pra vender (o que define uma padaria, para mim), mas convencionou-se chamar a Real de padaria, pelo clima que oferece.] Na colherada, já se sabe que coisa boa vem pela frente. O pudim ideal começa pela textura. [Lembre-se que essa é a análise de alguém que não gosta de pudins, de forma geral.] Quando a colher começa a cortar aquela mini-montanhinha, há uma consistência inegável ali, de um autêntico doce de forno. Você percebe que, de certa forma, ele é mole. Mas ele não cai. Nunca. Até a última colherada, permanece em pé. As vovós diriam: “OK, ele é mole… mas é durinho também. Como?! Ó Senhor, como?!?”.

Feche os olhos e coloque a porção escolhida para pousar em sua língua e se desfazer no céu da boca. A consistência perfeita [nem tão mole, nem tão dura] será ainda mais incrível e extraordinariamente perceptível. A calda de ‘caramelo’ é generosa. Cai por sobre o pudim e ainda tem no prato. O fundo do pudim é propositadamente levemente queimado, para ficar aquela pequena crosta com gosto exótico. Caso não lhe agrade a parte mais queimada, o pudim sai perfeitamente, sem desmanchar sua base.

Ouso dizer que o pudim da Real alcançou a perfeição. Consistência exatamente equilibrada – não é doce ou aguado demais – tem uma generosa calda de caramelo e base levemente queimada [para quem gosta].

O Pedro Jansen me disse que se eu quisesse experimentar um pudim que me fizesse questionar o da Real, eu teria que experimentar o da padaria Villa Grano, na esquina da Wizard com a Fradique Coutinho. Fui no mesmo dia. Pedi o pudim e um café espresso, normal [como de costume]. Na colherada, percebi que era mais durinho que o da Real. Achei ele um pouco mais ‘seco’, pegando na boca, sem contar que achei muito doce. Fica até ruim eu dizer 5 imensos parágrafos do pudim da Real e apenas um, meio mixuruco sobre o da Villa Grano, mas é que eu tenho tão em conta o da Real, que fui esperando que minha vida mudasse depois dele [OK, exagerei]. Então, para ser mais justo, desafiei o Pedro a experimentar o da Real e escrever um post com os critérios do que ele considera ‘a perfeição’ [Villa Grano, para ele] e a análise do pudim que considero melhor.

Como disse, é questão de gosto. Pode ser que alguém prefira o pudim mais durinho e com menos calda. São essas pequenas diferenças que fazem a vida ficar mais divertida. Além disso, o dono da Villa Grano não vai à falência com aquela força do Pedro e a Real continua na ativa, comigo indo lá pelo menos uma vez por semana.

Real
Av. Profº Alfonso Bovero, 2 – Sumaré
3862-7864

Villa Grano
Rua Wizard, 500 [esquina com a Fradique Coutinho] – V. Madalena
3031-6636

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Cadernos

14 Novembro , 2008 · 2 Comentários

Vou ser honesto.
O texto é longo.
Um tratado, diria Saramago.
Então se prepare…

Para quem escreve, certas coisas são sagradas. E profanas. Cadernos, por exemplo, envolvem esses dois conceitos.

Lembro de mim [óóó] na 1ª série e os famigerados ‘diários’. Não, eu não tinha um “Querido diário”. O Mackenzie sempre se orgulhou por ser um Colégio Americano. Algumas [várias] coisas eram baseadas nos valores, princípios e culturas do país que elegeu Barack Obama. Por isso só fui ter futebol na Educação Física lá pro ginásio. Como o futebol [de salão] não é esporte olímpico, o Mackenzie não o incluía em sua grade de esportes. Legal, né?

Enfim, os professores obrigavam-nos a ter nossos diários. Era um caderno de capa dura, com linhas. Só. Lá, tínhamos que anotar as tarefas da próxima aula. No primário, tirando artes e Ed. Física, era a mesma professora para todas as matérias. Então a nossa única ‘diversão’ na hora de escrever no diário era trocá-lo com alguém. Todo mundo queria ter a letra da Isabela grafada em seu diário. Meninos e meninas. Ela era esse tipo de guria. O Gustavo, um dos moleques mais nerds que já conheci na vida, era o maior puxa-saco e mais paga-pau de Isabela. Eu já era meio nerd também, mas eu sempre fui um nerd às avessas. Tocava o terror na sala de aula, brigava pra sair na porrada, sentava no fundão, não estudava e muito menos fazia lição de casa. Como eu me formei [do pré à faculdade] sem nunca pegar recuperação ou DP e consegui entrar em dois mestrados [e depois largá-los], acho que nem meus pais explicam. O caso é que eu não era o Gustavo. Nunca fui e nunca serei [até que ele era um cara bacana]. Mas me irritava o fato dele sempre conseguir trocar diário com a Isabela, sendo bonzinho daquele jeito [será que era isso?]. O fato é que um dia eu consegui. Seria legal ter aqui como é que isso aconteceu, não? Pois é, não lembro. Como eu conheci tanta mulher [e casei com a mais linda delas (óóónnn)] também é um mistério. Nunca tive muita tática. Nem para os estudos, nem para as mulheres.

No fim das contas, acho que as mulheres e os estudos são parecidos. Por mais que inventem fórmulas e tentam decifrá-los, sempre tem um ou outro que obtém sucesso e ninguém explica como. [Prazer, Gabriel].

No colegial começou a tortura: um professor para cada matéria. Como todo pré-adolescente, eu queria aquele cadernão, com as divisórias. Mas umas acabavam muito antes que as outras. Alguma matérias pediam 5 páginas por aula. Outras, 5 páginas por mês. Andar com 2 – 3 cadernões não era a solução mais prática.

Só fui equacionar esse problema na faculdade. Na verdade, acho que foi um pouco antes, pois já cheguei com essa tática sedimentada na universidade. Para variar, não lembro quando e como. A estratégia: um cadernão, mas sem divisórias. Arrancava todas as divisórias e começava a escrever. Primeiro dia de aula, primeira disciplina: Teoria da Comunicação 1. Era na primeira página. Semiótica da Cultura 1, segunda aula. Passava um risco na linha de baixo de onde tinha terminado TC1 e emendava as anotações da aula seguinte. Eu tive um caderno por semestre. Todas as matérias compiladas em um. E uma atrás da outra, divididas apenas por um risco.

Por incrível que pareça, essa foi a solução para meus problemas. O caos dos meus cadernos é que fez eu conseguir estudar. Aquela bagunça foi o quando parei e pensei “Agora sim”. Lógico, meus colegas odiavam isso, quando pediam meu caderno para xerocar e poder estudar com base nele. Mas era um preço a se pagar. Eu não anotava apenas o que os professores falavam. Eu já colocava ali as minhas considerações, já colocava a informação processada… mastigada e digerida. Era a minha interpretação daquelas teorias, no caderno. Em Semiótica a gente aprende que o caos é benéfico ao homem. Uma situação caótica [um problema, uma crise] obriga o homem a se reorganizar, sair da zona de conforto, se esforçar para sair daquilo. Passado o caos, ele ’subiu’ um nível. Se reorganizou de uma forma inédita, cresceu como ser humano. Se acomoda até que um novo caos o tire da zona de conforto.

Acho que o caos em meus cadernos era o que me fazia ter paz nos estudos. Eu não funciono separado, em divisões. Não sou linear. Leio algo aqui e pulo 2 – 3 páginas até encontrar novamente meu assunto. E meus assuntos se misturam. Tudo acontece ao mesmo tempo agora. Não dá para separar algo tão mesclado. Talvez, por isso, gostasse de ter meus cadernos assim e só dessa forma consegui me organizar para estudar… no caos.

Update: atualmente, ando com um caderninho na mochila, inseparável. Para anotar idéias e coisas que ouço e acho interessante. No esquema tudo-junto-agora. Sem divisórias. E tenho um pseudo-Moleskine, do Batman, onde tenho anotado frases que penso [e considero bacanas], lista de DVDs e livros emprestados aos amigos e nas últimas páginas, contatos importantes.

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Eles dormem onde eu piso

22 Outubro , 2008 · 2 Comentários

Eles não têm assento reservado ou fila preferencial. Não têm direito à meia-entrada, nem contam com uma passeata ou Parada reivindicando seus direitos. Não são mencionados em nenhuma campanha eleitoral, na pregação dominical ou na prece matinal. Não entram no censo do IBGE, pois são recenseados apenas os moradores em domicílios particulares e coletivos. Domicílio? Eles dormem no chão, na calçada e na rua. Eles dormem onde a gente pisa, cospe, joga o resto de guaraná fora e vomita quando está de ressaca.

Fotos deles fazem sucesso. São expostas em salões inaugurados com pomposos vernissages. Do lado de dentro brindam com champagne, discutem o problema dos sem-teto, depois dormem embriagados com vinhos caros e cheirando a charuto cubano. Ele, o retratado, espera o último convidado sair para conseguir um pequeno espaço embaixo da marquise e não molhar a caixa de uma televisão de plasma de 42″, seu colchão.

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Eu estava na cozinha do escritório…

7 Outubro , 2008 · Deixe um comentário

…olhando para o horizonte inexistente e a mulher parada à minha frente jurava que eu estava reparando nela. Balançou o cabelo com as mãos, disse “Gostou? Pode elogiar!” e ficou chacoalhando a cabeça ao vento também inexistente. Eu dei um sorriso, como quem entende o que está acontecendo e ela virou para a amiga “É que ele estava olhando para mim assim, tão fixamente, que eu tive que dar um incentivo, para ele comentar sobre o meu novo cabelo”. Hein? Ela trocou de cabelo? “Ai amiga, realmente… esse novo corte ficou lindo”. Ah… novo corte. Mas, hein? O cabelo dela já não era curto assim? “Mas foi difícil tomar coragem e cortar aquilo tudo. Estava no meio das costas já!”

E eu só queria tomar o meu café em paz, olhando para o horizonte… inexistente.

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Ensaio sobre a [minha] cegueira

7 Outubro , 2008 · 1 Comentário

- Carol, você viu meus óculos?
- Gá… chegamos os dois agora em casa. Você não levou-os hoje?
- Levei… mas acho que deixei no ônibus. Na correria, na hora de descer, acho que ficaram fora da mochila, dentro da capinha. Só queria confirmar se por algum milagre eles não teriam achado o caminho de casa sozinhos.
- É, acho que dessa vez não.

Ainda bem que durmo de olhos fechados e, nos meus sonhos, eu enxergo bem. Mas desde ontem estava angustiado por tê-los perdido. E utilizo o plural não apenas para escrever de fomar correta. Ontem acabei colocando o que uso e o reserva juntos, na mesma caixinha. [Sem xingar, por favor.]

Hoje vim para o trabalho já ligando para meu irmão e pedindo o telefone da nossa oftalmologista de Hogwarts. Sério, a mulher é mágica. Ela sentada na cadeira dela, atrás da mesa e você em seu lugar, a um metro e pouco de distância, ela olha fundo nos seus olhos e diz “Você é O+, né? Coma menos pães, massas, batata… evite leite e pode comer carne vermelha. Agora vamos ver esse olho”. Nessa hora ela é tradicional e te coloca naquela cadeira com aquele troço enorme, cheio de lentes. “Como fica melhor? Assim… ou assim?” Assim, doutora… e ela sabe exatamente de qual estou falando. Depois, volta o esquema cadeira-mesa-cadeira e ela pergunta como você está emocionalmente, fala sobre seus pais, você chora e sai de lá com uma receita de óculos e mais leve.
[Fim da digressão]

Cheguei no escritório e liguei no famigerado [adoro essa palavra] 156, da Prefeitura. Como era cedo [pouco mais de 9h], não demoraram para atender. Expliquei meu problema, a Sheila pediu para eu aguardar um instante e quando retornou, me passou o 0800 da SPTrans. Agradeci, liguei para o número e após contar meu problema, a Gabriela me passou o 0800 do consórcio na qual a empresa da linha do ônibus que peguei fazia parte. Liguei no consórcio, expliquei meu problema e a Cristina me passou o número da companhia da linha, pois cada empresa possui seu próprio ‘Achados e Perdidos’.

- Bom dia, em que possos ajudá-lo…? Possos? Hihihi… desculpe, já falei no plural.
- Sem problema Dª… qual a o nome da senhora?
- Helenir.
- Então Dª Helenir, eu acho que esqueci meus óculos ontem, em um ôni
- Opa! Recebi agora cedo dois óculos, dentro de uma mesma capinha…
- Não brinca comigo, Dª Helenir…
- É sério. Como eles são? Um é mais…
- Grosso.
- Grosso.
- Isso!!
- Da Christian Dior, né?
- Isso… [comprei usado e antes pertencia à Dª Asnif, segundo a receita que veio junto com ele] e outro é mais
- Fininho.
- Fininho!! Isso Dª Helenir, a senhora os achou!
- Peraí que vou pegar para checarmos direitinho.
- É isso mesmo! Uma capinha preta e
- Eu disse que vou pegar para checarmos.
- OK.
.
.
.
- Então, está aqui… Uma capinha preta. Parece que tem uma… pimenta, é isso?
- Isso mesmo. Muito obrigado, viu Dª Helenir?
- Sem problema. Só me passe seu nome completo para eu poder deixar aqui no documento, quando você vier retirar.
- É Gabriel…
- Hum, começou bem. Lindo nome.
- Sério? Algum conhecido querido com esse nome?
- Sim, uma das pessoas que mais amo na vida… meu sobrinho.
- Gabriel…? Aposto que ele é arteiro e bonzinho.
- Arteiro, bonzinho, muito querido e inteligente…
- Somos assim, Dª Helenir.

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Do Limão para Milão

1 Outubro , 2008 · 1 Comentário

Lia o horóscopo todo dia, antes de almoçar. Não importava se o jornal era pequeno, diário, semanal. Podia ser da revista, da Palavras-Cruzadas ou do panfleto distribuído na rua. Era a primeira vez que sairia do Limão… direto para Milão. Assobiou na rua, como há anos ninguém mais assobia.

[Eu tinha essas três idéias anotadas há meses (talvez já faça um ano) sobre um texto, cada. Nunca consegui desenvolver nada. Juntei, ficou bem pequeno, meio dadaísta. Gostei.]

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Camarada nos olhos dos outros…

25 Setembro , 2008 · 4 Comentários

- Cara, entra no site tal e vota em mim! Quem tiver mais votos, ganha um picolé de limão!
- Hum, mas o que é o concurso?
- Ah, a gente tinha que fazer um vídeo nosso, dizendo porque merecemos um picolé de limão e não de jiló…
- Saquei. E teu vídeo, qual é?
- Esse aqui, ó!! Vota lá em mim!! Prometo te dar um teco do sorvete!!!
- Não, obrigado… deixa eu ver.

.
.
.
.

- Olha, desculpe, mas não votei em você. Votei naquele tal de B. Gates, com um vídeo sensacional…
- P***a!!! Como assim?!?! Por que não votou em mim?! Sou teu amigo, caramba.
- O dele tava bem melhor.
- Mas cara… desse jeito eu não vou ganhar! Era na camaradagem!!
- OK, como seu camarada então te digo: esforçe-se mais que talvez um dia você ganhe o concurso. Quem sabe, até o meu voto.

FIM [da amizade, às vezes]

Eu sou chato [óóó... agora diga algo novo]. E sei que, durante muito tempo, fui um cara intransigente. Ou, pelo menos, cobrava isso das pessoas. Quando a gente cobra muito dos outros, a gente acaba se cobrando também, perdendo aquela flexibilidade indispensável para viver. Sim, para viver, temos que ser flexíveis. Caso contrário, você não viverá. Será apenas uma luta, já perdida, contra o mundo e contra si mesmo.

Enfim, sei que já fui muito [e ainda sou] radical e inflexível. Mas diversas coisas me ensinaram a relaxar um pouco mais, não levar tudo tão a sério. Eu ainda sofro com isso, pois ainda estou aprendendo a ser rígido na hora certa e deixar pra lá na melhor hora. Mas com certas coisas, eu não consigo.

Uma delas é o exemplo da pequena conversa fictícia que abre o texto. É fictícia pois essa exata nunca occoreu. Mas troque o prêmio, a participação e o vencedor, e isso torna-se uma fórmula. Quantas e quantas vezes amigos vieram pedir para que eu votasse neles, para que pudessem ganhar algo. Até mesmo o “Pô, cara… fala bem de mim pra ela” e o mané é um dos amigos mais cachorros e cafajestes que tinha. Pô, como amigo, sensacional. Como alguém que eu digo pra guria “Esse eu recomendo”, esquece.

Só que muita gente não entende isso. As pessoas ficam revoltadas, acham que você não está sendo truta, está de má vontade e chegam a brigar com você e a te xingar. No fundo, não percebem que eu apenas estou fazendo um bem pra elas. Cresceram achando que a vida era isso: um concurso de quem faz melhor, mas que o que vai te levar a ser reconhecido como tal não é o produto que você tem para dizer “Eu acho que sou melhor por isso”, mas apenas um Orkut inflado, com 897 amigos, que você mal conhece.

Caramba, se o concurso fosse “O que tiver mais amigos, tias, primos, etc, para votar nele quando ele implorar”, OK. Mas a idéia é outra. Ouso dizer que uma das razões para o Brasil ser o que é, é exatamente essa prática. E não falo da corrupção graúda, mas nas pequenas coisas mesmo. Aquilo que a gente chama de ‘cultura brasileira’. É o jeitinho de se dar bem, mesmo que você não seja o melhor ou mais apto para aquilo. Mas como tem muitos conhecidos, acaba levando, na camaradagem.

Por isso, se eu recomendo algo, é porque acredito e gosto daquilo. Os blogs que indico, podem até ser de amigos, mas eu indicaria de qualquer maneira. Se te indico para algum trabalho, é porque eu te contrataria.

Ou seja, se algum dia você ficou chateado[a] comigo por causa disso, não fique. Saiba que você tem um amigo que é extremamente fiel aos seus princípios. Quem não quer ser amigo de um cara assim? [ o/ eeeuuu ].

Agora, se você quiser ficar magoado por causa desse meu jeito e deixar de falar comigo por causa disso, OK. Só que aí eu não vou apenas não-votar em você. Vou fazer campanha para que ninguém vote em você.

Eu mudei. Mas não tanto. [uuuuaaaaahahahahaha </risada maquiavélica>]

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me diz 5…

25 Setembro , 2008 · 2 Comentários

…blogs que mais mexeram com você nos últimos tempos.

Eu avisei a Vivs que subiria esse texto.
Eu simplesmente preciso postá-lo.

Eneaotil

Quem escreve é uma garota subversiva. Os assuntos são variados… não há um tema específico. Mas ultimamente ela tem escrito sobre o Lucas. Recentemente, o guri teve alguns problemas de saúde, ficou internado, etc. No momento, ela está entre a parte 1 e 2 do acontecimento. Mas ainda bem que ele é forte e os posts são, em sua maioria, sobre as frases de Luquinhas, pensamentos e filosofia de vida. Entre e fique à vontade… Lelê [Leonor] te dá as boas-vindas.

Para Francisco

Um homem tem morte súbita, dois meses antes do nascimento do seu único filho. Assim nasce este blog. Tentando entender e explicar dois sentimentos opostos e simultâneos vividos pela viúva e mãe que, no caso, sou eu. Muitos questionamentos. Muitos raciocínios. Muito aprendizado. E uma pressa em falar para o Francisco sobre seu pai, sobre o mundo e sobre mim mesma (só por garantia).

Quando fui escrever um email para a Cris Guerra, falando do blog, demorei um tanto. Toda vez que meus dedos digitavam “muito legal” ou “muito bacana o blog”, eu não conseguia aceitar. Legal? Ela escreve para que Francisco conheça mais da família dele. E o motivo é algo muito intenso, forte e pesado para estar no mesmo contexto do que eu gostaria de dizer a ela.

O que saiu:
Descobri seu blog hoje, pela indicação via Greader, de um contato que tenho no Gtalk.
Coisas dessa vida.
Mas coisas boas.
Dessas de ao mesmo tempo pensar “que barra” ao ler o ‘motivo’ do blog e sorrir a cada post.
Indiquei para meu irmão. E estou indicando aos conhecidos, que gostam de ler.

Não consigo explicar os sentimentos de ler os textos da Cris. Ainda não consigo dizer “Olha esse blog que legal”. Não dá. Mas também não consigo não ler e não indicar. Experimente.

Matt, Liz and Madeline

Não sei se Matt escreve pelos mesmos motivos que a Cris. Mas algo parecido aconteceu com ele. Horas depois de dar a luz à Madeline, Liz faleceu. Matt decidiu fazer o blog para a família. Está em inglês, mas nada muito complicado. Também não consigo parar de ler.


Cerumano

Felippe lutava contra um câncer… leucemia. Narrava suas batalhas no blog. O herói partiu, mas o registro ficou. Barra pesadíssima. Mas como diz um trecho do último post [de um amigo] “(…) ninguém pode afirmar que a luta do Felippe foi em vão. Não foi e não é em vão.” Se não acredita, te convido a ler.

PostSecret

Segredos. Todo mundo tem. O PostSecret é um blog que agrega vários deles. Você manda um cartão-postal, anônimo, com um segredo, e o ‘dono’ sobe os segredos. Todo domingo tem um post novo. Alguns são belos… a maioria, coisas intensas, que as pessoas não têm coragem de dizer aos seus amigos, pais e parceiros. Como tudo começou, você encontra aqui. Eu gosto de acreditar que o blog acaba ajudando as pessoas, que exorcizam seus demônios. Se não chegam a ser exorcizados, podem compartilhar com uma comunidade que se sente da mesma maneira.

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A lista contempla os blogs que mais mexeram comigo. Mas poderia ser a lista dos que mais tenho gostado de ler. Mais do que crônicas, mais do que novidades sobre gadgets e tecnologia, mais do que contos, mais do que quadrinhos, mais do que análises de como o Barack Obama utiliza a mídia, mais do que qualquer outro que eu leia ultimamente. Essa é a lista dos “blogs que mais tenho gostado de ler”. Não sei se é a idade [OK, 25 é pouco], mas tenho estado muito mais apaixonado pelo “ser-humano”. Suas lutas, suas vitórias, suas histórias. “The little things… there’s nothing bigger, is there?

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