Arquivos da Categoria: trânsito

Na faixa de pedestre, quem diria?, a preferência é do pedestre

Talvez você não saiba, mas eu já trabalhei para a Prefeitura. Era estagiário na Comunicação, fazendo assessoria para o gabinete do prefeito e escrevendo para o Diário Oficial. Algumas coisas aprendi nessa época. Uma delas foi o conceito da palavra “preferencial”.

Eu sei o que ela significa, mas municipalmente falando, eu não sabia. O Kassab tinha aprovado a faixa preferencial para motos na Rua da Consolação, aquela verde, que eu nem lembro mais se existe. Houve alguma revolta, já que o corredor de ônibus estava em vigor e só sobraria uma faixa para os carros, as motos ficando com a preferencial. Em uma coletiva, o então e ainda prefeito declarou: “A faixa é preferencial. Isso quer dizer que carros podem utilizá-la, mas devem dar preferência às motos”. (Não aconteceu e não deu certo). Aí lembro de terem feito na Avenida Sumaré a faixa exclusiva para motos. Pegou a diferença?

Em 2012 descobrimos que na faixa de pedestre, quem diria?, a preferência é do pedestre. Como o pêndulo da humanidade nunca está em paz, ali no meio, sossegado e equilibrado, da tirania do asfalto, com toneladas de aço se jogando em alta velocidade para cima de 70kg de carne, veias, ossos e sangue, passamos para a tirania dos andantes perniciosos, tomados por um fôlego de coragem em atravessar semáforos vermelhos e fora da faixa.

E esquecemos, ou não sabemos, o significado de “preferencial”. Esses dias, atravessando a faixa sem nenhum carro com intenção de virar, vi uma moto que deu sinal com seta, de longe. Não estava veloz, mas diminuí e parei para o motoqueiro passar. Ele assentiu com a cabeça, agradecendo e depois fez um gesto com a mão, meio que pedindo desculpa. “Está tudo bem!”, tentei fazê-lo ouvir.

A preferencial era (é) minha, mas posso abrir mão. Devemos cobrar que respeitem a preferência, mas não custa nada cedê-la de vez em quando. Posso estar enganado, sendo romântico, mas talvez seja um passo para que o pêndulo se equilibre.

_______

Foto: Daigo Oliva 

Ternura e olhos que sorriem

as a bird

Ele vinha avionado na Marginal Pinheiros, puxando a fila entre os carros. 110km/h em cima de uma moto de 125cc. Na tragada que deu dentro do carro, ela pensou no longo dia que teve e na pequena noite que desfrutaria. Tragou enquanto suspirava, engasgou com a fumaça e o cigarro, aceso, caiu no banco. No desespero de se queimar, abriu a porta no trânsito parado. Ele vinha avionado, a 110km/h, viu a porta se abrir, gritou “NÃO!” e jogou as pernas pra frente. Levou porta e tudo. Voou longe. Da fila que puxava, mais três se acidentaram. Até hoje ele vê o momento do acidente e grita igualzinho, para mostrar o desespero que passou.

Ficou 21 dias desacordado, na UTI da Santa Casa de Misericórdia. Ele pronuncia ‘misericórdia’ de forma mais lenta, como quem sabe o que a palavra significa e como quem entende o que é ser agraciado por ela. “Maluco, faz uma conchinha com a mão e vira pra cima. Isso. Agora imagina um montinho de areia nela. O médico disse que foi essa a quantidade que perdi dos miolos. Coloca a mão aqui na minha cabeça, sente o buraco que ficou… não quer? Tudo bem”. Ele conta que pediu para ‘fazerem’ um acelerador na sua mão. Perdeu o movimento de quase todos os dedos, então pediu para os médicos reconstruírem o formato exato para sua mão encaixar na manopla do acelerador e poder continuar andando de moto. Quando voltou a trabalhar, proibiram-no de usar moto. Deram um carro pra ele. “Mas eu tô montando a minha motoca. Já tenho o motor, as rodas, o corpo… quase tudo. Só falta desentortar a base do guidão e tá pronto. Mas não conta pra ninguém, que minha irmã não sabe e vai ficar maluca se desconfiar”.

Dos 21 dias em coma, na UTI, ele diz que pulou corda todos os dias, com uma menina que vinha chamá-lo na cama. “Oi, você vem pular corda hoje?” – Mas eu tô quebrado… muito cansado. “Ah, vem… eu sei que você gosta”. – Tá bom. Ele levantava, saía do quarto e chegava no que conta ser o jardim mais bonito que já viu na vida. “Cara, se morrer é ir praquele lugar que eu ia todo o dia com a menininha, me leva agora. Tinha uma flor de cada cor… vermelha, azul, amarela. Tudo enfileirado. Maluco, ia retinho, uma atrás da outra. Que coisa. Eu nunca tinha visto aquela garotinha, nem a mãe dela. Ela amarrava a corda numa árvore bem grande e ficava pulando. Depois a gente trocava e ela que ficava girando aquela corda pra eu pular… vup, vup, vup, fazia aquele barulhão da corda girando. Ia anoitecendo e na hora de ir embora ela sempre reclamava. Mas eu tinha que voltar pro quarto, pra dormir. Pulei corda 21 dias com aquela menina, que nunca mais vi”. No 22º dia, a primeira coisa que fez ao ver os médicos foi: “Cadê a menina?!”. Seus olhos enchem de lágrimas contando sobre a experiência do coma. “Teve um dia que eu disse pra menina que tava cansado, mas não voltei pro quarto. Fui andando lá pra frente, onde tinha um buraco, tipo um túnel, sabe? Fui entrando, precisei agachar, porque ficava menor e era bem escuro lá dentro. Cada vez mais escuro, mais frio e mais estranho. Cheguei num lugar que um maluco me disse ‘Cara, você tá louco?! Teu lugar é aqui não!! Volta lá pra cima e nunca mais volta aqui!’. Eu nunca mais voltei mesmo”.

Ele diz que se você for ao Centro de São Paulo e perguntar pelo motoboy Mumm-Ra [vilão dos Thundercats], todo mundo saberá que é ele. “O de vida eterna, maluco!! Olha só, eu só tenho metade do pulmão direito. Foi um câncer. Tem uma bola aqui no meu pescoço, tá vendo?, que disseram ser um tumor também. Eu quero mais é que venha essa bagaça toda. Tô nem aí. Vem que eu não morro, suas doenças!!”. Ele conta isso enquanto almoçamos. Pega o azeite. “Acho que tenho colesterol alto. Azeite faz mal?” e encharca a comida de azeite. “Minha pressão tá alta… mas eu gosto de sal” e salpica o saleiro em todo o prato. “Sabe essa bolota do pescoço? Os médicos disseram que vinagre não faz bem. Mas eu gosto, então como é que não faz bem? Aceita aí?” ele oferece, enquanto lava o arroz, feijão e bife com vinagre. Na empresa, não tem quem não goste dele. Cumprimenta todo mundo, sempre. Dá bom dia, boa tarde e boa noite. Deseja um bom período de trabalho a todos, não importando se está sol, calor, frio ou chovendo. Se você se der o mínimo trabalho de conversar olhando em seus olhos perceberá, antes de qualquer coisa, ternura. Olhos que acolhem. Olhos que sorriem, que dizem “Fala meu chapa. Qualquer coisa. Eu te ouço”.

A gente levanta e enquanto levo a sacola e lata de refrigerante no lixo, deixo a louça na pia. Ele começa a pegar o prato, talheres e, mesmo eu dizendo “Cara, deixa aí que eu vou lavar”, ele me diz: “Que isso, meu chapa. Tem nada não”.

Tem sim. Ternura e olhos que sorriem.

Ela deve ter me odiado

Estava no ônibus, longo caminho, sem nada para ler ou me distrair. Olhei para o lado e uma garota fazia palavras-cruzadas. Fiquei algum tempo observando os espaços em branco, até que não agüentei. “Olha, acho que aqui, onde está ‘Aplicações de capitais’, com _ N _ ES _ _ M _ N _ OS, é ‘investimentos’. Mesmo porque, ‘Situação de acordo com os padrões’ acaba ficando ‘normalidade’ e a letra ‘e’, no final, cabe em ‘investimentos’ melhor do que se fosse ‘normatizado’, que deixaria ‘invostimentos’.”

Ela deve ter me odiado para o resto da vida. Mas ainda assim consegui me controlar quando ela fechou o jornal com “A da rosa é utilizada em saladas” [P _ T _ L _] em branco.

Os loucos e estranhos me fascinam

De terno, gravata e sapatos lustrados aquele homem só olha para baixo. Parece incomodado com alguma coisa. Vejo sua cabeça chacoalhando veloz, de um lado para o outro, como se dissesse “Nãonãonãonãonãonão!” A partir de então, não consigo mais deixar de observar [os loucos e estranhos me fascinam] e, minutos depois, percebo que o movimento da cabeça do moço é para desarrumar sua franja que cai sobre a testa e olhos, para logo em seguida arrumá-la milimetricamente de acordo com o que acha estar OK. Passa alguns segundos alisando-a, deixando o cabelo entre os nós de seus dedos e utilizando a ponta deles para colocá-la de foma que se sinta satisfeito. Quanto mais em cima dos olhos, melhor. Quanto mais escorrida na testa, melhor. Observo por mais um tempo e nem cinco minutos depois, o processo se repete. Cabeça chacoalhando, dedos ‘desarrumando’ a franja, para ser alisada depois, pelo mesmos dedos do rapaz.

Nos intervalos dos movimentos frenéticos, o garoto de terno e gravata alisa um bigode ralo, quase invisível, que insiste em não crescer.

Carta anônima

Um amigo me enviou sua experiência do dia:

Cena 1
6:30 am, saindo de casa, no mesmo horário que sairia de carro.

Cena 2
No Metrô:
- Moça, onde pego o “papelzinho” para a Ponte Orca?
- Passe pelo controle e pegue com aquela moça…

Cena 3
No Metrô Barra Funda
- Por favor, por onde que entro com este papel da Orca?
- Pelo trem, no final do corredor.
- Mas depois, como faço?!
- O que o sr. quer fazer? (mais sério do que o necessário!)
- Quero pegar o Metrô! (rindo um pouco…)
- O sr. entra, vai até o final do corredor, etc…

Cena 4
- “Próxima estação Carrão”
Esta é a minha!
Desço, passo pelo controle, vou até o final do corredor à direita [no chute, pois nunca sei para onde é minha direção] e não encontro o estacionamento com o carro, ou algo parecido com o que seria o meu estacionamento.
Desesperado vou em busca de um funcionário (levaram o meu estacionamento!) e na direção do outro extremo da plataforma (na esperança de encontrar o estacionamento do outro lado), quando cai a ficha que a minha estação é a PENHA e não Carrão.
Saco mais um bilhete de R$ 2,40 (chuif…) e volto a pegar o Metrô em direção ao meu destino: PENHA!

Cena 5
Na estação Penha
Feliz por encontrar o meu estacionamento, o meu carro, dou os R$ 5,00 e espero o controle abrir.
- Sr., são R$ 10,00!
- Não “era” (ontem) R$ 5,00?!
- Sim, mas para 12 horas….

Cena 6
Na empresa, 8:10 am, 1 hora e 40 minutos após sair de casa.

Reflexões:
1) a ida para São Paulo (estacionamento-Metrô Penha-Facu) é mais rápida. [ele trabalha em uma cidade vizinha]
2) a vinda de carro também é mais rápida, mas um pouco mais estressante por causa do trânsito.
3) as pernas doem, indicando que estou fora de forma e que fiz um pouco de exercício (pelo menos!).
4) a classe média americana deixa o carro no estacionamento para trabalhar no centro. Eu deixo o carro no estacionamento para ir dormir no centro.
5) de qualquer forma farei isto uma vez por semana.
5) estou ficando um pouco velho para isto!

Um bom dia e abraços,
amigo do Gabriel

Coisas que não entendo

* Aquele trânsito, todo mundo avançando nos mínimos espaços para poder andar um pouco que seja e o ‘marronzinho’ [tiozinho da CET] apitando e agitando o braço, mandando a negada andar. Sério, para que? Eles pensam que o pessoal nos carros está afim de parar o carro ali no meio e começar o happy hour?

* Conversa de elevador. Entra um grupo de advogados. “… e ele ainda queria ser [fazer] revisional de juros de uma factory!” Gargalhadas. Ser revisional de juros ou fazer revisional de juros para mim teria a mesma graça: nenhuma.

* Por que as pessoas mudam de faixa? Elas sabem o que vai acontecer e mesmo assim, depois de passar para a outra, dizem “Eu sabia! É eu mudar de faixa, que a anterior anda!” Então não mude, né? [Explicação científica (minha, claro) para isso: Você está na faixa 2 e a faixa 1 começa a andar. Mas ela não está andando só no ponto onde você se encontra. É em toda sua extensão. Ou seja, centenas de pessoas fazem o mesmo que você: mudam de pista. Quando isso acontece, o espaço que centenas de carros ocupavam está vazio. Logo... a pista andará.]

* A cidade de São Paulo é uma das mais poluídas do mundo. Fumaça a dar com pau. E o adolescentão olha para aquele palito de papel soltando fumaça e pensa: “Hum, deve ser interessante inalar isso, né?” OK, reconheço que o vício é absurdamente difícil de se largar, isso não discuto. Mas o que leva um pós-pirralho considerar jogar mais fumaça pra dentro do pulmão? Mande o moleque [ou a guria] andar 2km na Marginal Pinheiros, às 18h e pronto. Vontade saciada.

* Nunca fui assaltado. OK, eu sou grande e tudo mais, mas mesmo assim. Eu não fico com muita frescura de tirar o iPod do bolso, de atender celular, ou algo assim. Mas nunca fui assaltado. Gostaria que continuasse assim. Mesmo porque, não tenho back up das músicas do iPod e se perdê-las todas, vou chorar igual a uma criança. Se ainda fosse possível virar pro assaltante e dizer: “Ô grande, quebra essa e deixa as músicas. Pode levar o aparelho”. [Idéia genial: iPod com memória removível. Tipo um cartucho de vídeo game. Ou um CD. OK, não tão genial assim].

* Pessoas formadas em Comunicação [RP ou Jornalismo] e que dizem “asterístico”. Sério, como alguém que freqüentou um troço chamado “Curso Superior” me fala “asterístico”?! Não entendo. Me dá raiva. [Não acho que alguém que tenha faculdade seja mais inteligente do que alguém que não completou o ensino primário, por exemplo. O fato é o vocabulário, nada a ver com inteligência].

Vai, rapaz. Atrevesse!

Ele está sempre no ponto em que pego o ônibus para ir ao trabalho. Como eu, pela manhã, parece estar meio zonzo de sono ainda. Ontem cedo, ao tentar atravessar a rua, quase foi atropelado. Baixinho, dei um daqueles assobios característicos para chamá-lo e ele voltou, sem ainda perceber de onde assobiavam. Quando percebi que ia tentar novamente, com a avenida ainda cheia de carros, assobiei mais alto e ele veio para perto de mim. Ficou me olhando, como esperando um sinal. Ao perceber que o semáforo de baixo havia fechado, disse em um tom no qual os seres humanos não podiam ouvir, mas alto o suficiente para que ele me obedecesse: “Vai, rapaz. Atravesse!”. Prontamente ele deu as costas para mim e, trotando, atravessou as duas partes da avenida, são e salvo.

Não acredito que eles saibam o que falamos, mas que entendem… ah sim, eles entendem.

A chuva silencia, mesmo quando o medo domina

Vejo os cachorros latindo, as pessoas apressadas e os carros desesperados. Parece que algo inevitável acontecerá. O céu está escuro e, com aviso, a chuva começa a cair. Mais correria, mais agitação, mais caos. Passados os primeiros cinco minutos, a cidade silencia. Os cachorros se acalmam, as pessoas se protegem e, como parte integrante e já indissociável da natureza de São Paulo, o trânsito também pára.

A água que cai do céu parece silenciar os ânimos. Algumas pessoas contemplam o acontecimento, outras apenas têm o olhar perdido, imaginando a que horas chegarão em casa. Apesar disso, não se desesperam. Apenas esperam.

Alguém comenta que o prenúncio de uma chuva ou tempestade sempre aflige seu coração, pois um sentimento de apocalipse inunda seus pensamentos. Mesmo assim, fala em um tom mais baixo que o de costume, quase respeitoso. A chuva silencia, mesmo quando o medo domina.

Nenhum carro buzina mais alto do que o trovão, nenhuma antena ilumina mais do que o relâmpago. A chuva lava a alma da cidade, limpa os poros das ruas e obriga “A Cidade que Não Pára” a abrir um parentêses para apenas ver água caindo do céu.

Nada mais simples, nada mais grandioso.

Ah, o doce som do progresso

O barulho nas ruas é ensurdecedor. Os motores dos ônibus ficam na altura de nossos ouvidos, barracas de camelôs colocam suas músicas no volume máximo e, para completar, há os inconvenientes que apenas por diversão [própria] grudam suas mãos nas buzinas.

Chegar em casa traz aquela sensação de paz e tranqüilidade não apenas por ser o nosso lar. O barulho diminui consideravelmente. Como é que a Engenharia consegue levar seres-humanos à Lua, trazê-los vivos de volta, mas não constrói furadeiras silenciosas, freios que não gritem e motores que não agridam nossa sanidade?

Desconfio que no imaginário coletivo dos construtores de automóveis, máquinas e afins, a doce música do progresso seja justamente o barulhinho do maquinário funcionando.

Os passáros cantam? Façam esses pistões movimentarem mais barulho! As pessoas conversam? Coloquem essa britadeira para funcionar! As crianças cantam? Buzinem, buzinem!

As pernas estão no automóvel

“P’ra ver
Os olhos vão de bicicleta até enxergar
P’ra ouvir
As orelhas dão os talheres de escutar
P’ra dizer
Os lábios são duas almofadas de falar
P’ra sentir
As narinas não viram chaminés sem respirar
P’ra ir
As pernas estão no automóvel sem andar”


O Caroço da Cabeça – Marcelo Fromer, Herbert Vianna e Nando Reis

Já disse que tenho paúra de ficar dentro do ônibus parado, não? Cheguei a ficar encharcado, com a mochila molhada [colocando em risco a vida do meu iPod, celular etc], porque bateu desespero e desci do ônibus, no meio do caminho e aquele toró. Há dias em que a Faria Lima está completamente travada e o fluxo nas calçadas aumenta consideravelmente. No trajeto do trabalho até em casa, já cheguei a levar 2h – 2h30. O normal é 1h, ou seja, com trânsito leve. Opção “sem trânsito” não existe mais, nem de madrugada.

Ir a pé é garantido que chegue em uma hora, cravado. Pode ter explodido um ônibus no cruzamento da Faria Lima com a Rebouças, que eu vou chegar em 60 minutos. Vejo as pessoas com cara de angústia no carro e vou caminhando. Vejo-as se desesperarem, gritarem com o carro do lado, mostrarem o dedo pro motoboy, quase perderem o braço [além da sanidade] e xingarem o motorista do ônibus, mas eu continuo andando. Tem gente fazendo crochê, lendo um livro ou uma revista, chorando, ouvindo rádio, estudando as fitas de inglês e até cochilando. Mas os meus passos vou dando.

No ônibus, quase se estapeiam pelo direito a um assento ou a uma janela aberta, que ventile e circule o ar dos gripados e doentes. Com uma simples baforada, podem contaminar quase 100 pessoas em menos de cinco minutos. Devido ao trânsito, muitos se juntam a mim.Descem fora do ponto, depois de brigarem com o motorista e implorarem ao mediador, o cobrador. E vou caminhando.

Dependo apenas de minhas pernas, meus músculos, meus olhos, meus pés e meu equilíbrio. Um pouco de disposição e determinação e nada pode me impedir. Os motoboys me dão passagem, as calçadas me são livres, os outros pedestres apenas pequenos desvios no percurso. Não há cano da Sabesp que me impeça, greve de ônibus que me aflija ou manifestação que me bloqueie. Sou senhor de mim e vou caminhando.

Peraí. Está chovendo forte lá fora? Estou sem guarda-chuva.
E agora?