Brinquedo de estimação

Comprar um animalzinho de estimação é como comprar um brinquedo. Pelo menos, para uma criança. Seu pai e sua mãe não vão deixar você levá-lo aonde quiser, não poderá brincar com ele a hora que quiser e terá que “guardá-lo” na hora de dormir. Lógico, tem gente que dorme com seu respectivo gato ou cachorro. Mas a história é minha e meus pais nunca deixaram. Eu também nunca fiz questão. Nessa parte, economizo com terapia. Quando se trata de hamsters, não conheço ninguém que tenha o costume de dormir com ele[s]. Mesmo porque o risco de quebrar o seu brinquedinho é altíssimo.

Eu já tive um hamster. Eu e meu irmão compramos juntos. Acho que compramos mesmo, eu e ele, quando crianças. Acho mais fácil pensar que gastamos o nosso dinheiro nisso ao invés de nossos pais terem gasto. Talvez amenize a culpa. Culpa do que?

Fomos ao pet shop [acho essa palavra muito frufru, enfim] mais próximo que havia de casa, na V. Galvão, em Guarulhos. Comprei um e meu irmão outro, lógico. Há brinquedo que não se divide. Pensando agora tínhamos um cachorro também. Como é que ele convivia com os hamsters, isso apaguei da minha mente. Porque lembro claramente de soltarmos os bichinhos no corredor de casa. Animal em gaiola sempre me incomodou. Um de meus sonhos é entrar na Cobasi e sair arrebentando tudo quanto é trava de gaiola de passarinhos.

Compramos dois hamsters machos. Um era o Pinky e o outro o Cérebro. Originalidade, 0%. Criatividade é algo que eu desenvolvi ao longo dos anos. Posso me orgulhar dos meus 2%, atualmente. Era tudo lindo e maravilhoso quando percebemos um dia que nossos bichinhos não estavam sozinhos na gaiola. Havia filhotes! Olhei para o hamster do meu irmão e pensei: “Essa Coca é Fanta”. Como havia filhotinhos pela metade [sim, pela metade, comidos, devorados] e desde pequeno eu era [me achava] o Sr. Discovery Channel, decidimos, por sugestão minha, que deixássemos um pouco cada um dos hamsters sozinho com os filhotes. O que tentasse comer os filhotes, era a fêmea. Infelizmente tanto o[a] Pinky quanto o[a] Cérebro[a] acharam que era um banquete e quando se viram com os filhotes, partiram pra cima. O pior é que colocamos o do meu irmão primeiro. Logo que se viu diante dos filhotes, avançou. Tiramos ele, colocamos o meu e conforme foi demorando e eu já cantava vitória, ele também não resistiu à tentação. Como, inconscientemente, eu não queria admitir a derrota, fiquei perguntando à minha mãe: “É impossível os dois serem fêmeas, né?”.

A decisão foi unânime [foi fácil, só eu e meu irmão para decidir]: deixaríamos os bichos em um terreno baldio que havia na rua de baixo de casa, um barranco. Existem algumas lembranças de infância que eu não sei se são reais ou se é a gente que gosta de pensar nelas daquele jeito para dar mais dramaticidade, ou para ficar mais legal. Só sei que era uma fria e nublada manhã de sábado quando eu e meu irmão fomos ainda de pijama até o terreno deixar nossos hamsters. Ao chegarmos, meu irmão foi pertinho da entrada do barranco, se agachou, e com as costas da mão quase encostadas no chão, abriu a mão e deixou seu[ua] hamster sair. Ele [o hamster, lógico] saiu correndo para dentro do mato. Já eu, estava revoltado pela possibilidade de ter um hamster que além de assassino e genocida, era canibal e havia cometido infanticídio. Mesmo me achando um exímio conhecedor do mundo animal, acredito que humanizei os bichinhos e imaginei meus pais me servindo com uma maçã na boca, no jantar do dia seguinte. O que fiz, me arrependo até hoje, mesmo ainda reprovando o hamster. Arremessei ele em uma trajetória, formando um arco que daria inveja a todos os garotos do bairro que jogavam pedras no barranco, para ver qual delas ia mais longe. Se naquele momento o meu hamster não criou asas, prefiro acreditar que ele tenha caído bem em cima do hamster do meu irmão, amortecendo a queda e sobrevivendo. Quanto ao hamster do meu irmão, nunca saberemos o que aconteceu com ele, não é?

Obrigado, doutor.
Deixo o cheque da consulta com a secretária, na saída, né?

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2 Respostas para “Brinquedo de estimação

  1. Ladrão que mata ladrão tem cem anos de perdão.

    Não é isso que dizem, Mr. Killer?

  2. ahahahahahahahaha
    meureus, Gabriel. aahahahahahahahaha

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