De prima

*Primeira crônica minha na Revista Paradoxo. Para ler lá, só clicar aqui.

“Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente”.
Rubem Alves

Em São Paulo, quando alguém encontra com você depois de algum tempo sem se falar, após o tradicional “nossa, quanto tempo!”, a pergunta que se segue é: “e aí, o que tem feito? Está trabalhando onde?”. Outro dia, em uma conversa com dois amigos, eles chegaram àquela velha conclusão de que nosso trabalho reflete nossa personalidade e quem somos. Até mesmo se é um trabalho mal feito e preguiçoso. Dessa forma, sou alguém preguiçoso. Então, quem sou eu? O Gabriel? O que pode ser dito de mim a partir do que produzo?

É fácil escrever. São apenas palavras reunidas. É fácil, mas não é simples, entende?. Ainda mais escrever algo que faça sentido, seja agradável de ler e cative o leitor. Esse é o desafio. Ao observar o dia-a-dia das pessoas, coisas simples, detalhes, miudezas, conseguir escrever um texto que vá além do que foi observado… Meu produto são palavras agrupadas. É fácil, mas não é simples.

A grande sacada de Seinfield, que ficou 10 anos como um dos seriados mais vistos nos EUA, é justamente ser sobre o “nada”. Escrever uma crônica é justamente a fórmula de sucesso de Seinfield: escrever sobre o nada de forma que faça sentido e seja interessante. Pois é. Transformar o nada e o trivial em interessante. Pode parecer absurdo, mas se eu conseguir que você veja isso, você terá entendido um pouco de mim através de meu produto.

Fica um pouco mais difícil quando a cidade parece estar silenciando. Repare dentro dos ônibus e do metrô quantas pessoas têm um fone em seus ouvidos, sendo esse fone branco ou não. Um dos locais mais ricos para se ouvir conversas alheias são nos transportes públicos, nos quais as pessoas estão mais à vontade, do que em restaurantes ou ambientes de trabalho.

Hoje, é mais fácil pescar uma boa história de alguém acompanhado. É raro perceber aquela pessoa que tem um “amigo de coletivo” – gente que por pegar tantas vezes o mesmo carro/vagão, acaba desenvolvendo uma amizade que permite conversas menos triviais do que o tempo ou o trânsito impossível da cidade. Essa espécie está em extinção! Salvem os tagarelas de coletivos!

*Gabriel Louback é jornalista, acha que é escritor e olha para os outros pedestres antes de atravessar.

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Uma resposta para “De prima

  1. Olha que legal. Eu também sou jornalista, acho que sou escritora e olho pros pedestres na hora de atravessar (até porque, sabe-se lá, vai que eu esbarro em alguém).

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