Lá vai ele. Acha que pode

Cansei de ouvir que o trânsito de São Paulo está impossível. Cansei também de reclamar do congestionamento. É senso comum que a solução para esse problema é melhorar o transporte público, entre outros detalhes. Mas até a nova linha do Metrô ficar pronta ou até o trânsito realmente começar a melhorar, eu precisei arranjar uma saída. Não agüentava mais ficar parado no tráfego, mesmo quando o ônibus estava vazio. E estava precisando fazer exercícios. A solução: voltar a pé para casa. É uma caminhada de seis a sete quilômetros. E como São Paulo tem muito morro [embora não pareça, por estarem cobertos de concreto], há uma boa subida de perto da margem do Rio Pinheiros até lá perto da avenida Pompéia. Mas como a caminhada até o pé da montanha é tranqüila, a subida não mata e ainda dá um up no meu coração [espero].

Mas com muita freqüência as pessoas me olham com ar de surpresa. Há alguns que toda vez, ao me verem saindo de bermuda e camiseta do trabalho, dizem “Lá vai ele. Acha que pode”. Como assim? Acha que pode, o quê? É só trazer a roupa extra na mochila! Muitas vezes, os mesmos que admiram e dizem “Ah, queria também poder fazer isso” ficam dando desculpas quando digo que podem fazer o mesmo, desde que tenham idéias de como conseguir executar o plano.

Andar na cidade, em longas distâncias, inicialmente recai sobre o clichê de você reparar em coisas que não via antes, passando rápido dentro de um ônibus ou no carro. Passada essa descoberta, os detalhes começam a aparecer. São eles que sempre me chamam mais a atenção. Um exemplo disso é o cheiro que há nas ruas. Vai além do cheiro da poluição. Em certas regiões, mais residenciais, é possível perceber o perfume do sabonete que estão usando no banho. Ou aquele cheirinho de janta preparada por uma avó. Há diferença no cheiro da comida da avó e da mãe, caso você ainda não tenha reparado. Quando fazia o trajeto da Praça da República, até a Pompéia, subindo pela Consolação, a parte onde diminuía o passo e só não fechava os olhos para não tropeçar, era quando passava pelas bancas de flores da Dr. Arnaldo e podia sentir o perfume das rosas, tulipas, gérberas, margaridas, e girassóis. Ou o cheiro doce da vegetação da Rua Natingui, que automaticamente fecha os meus olhos e transforma em música o som dos tênis pisando a calçada.

Os bairros têm seu cheiro característico também, como o perfume de alguém que é reconhecido por alguma essência, sempre presente. Em Perdizes e em alguns locais do Jardins, há o cheiro de amendoeiras. É um cheiro, que quando está calor, eu me sinto em Salvador das décadas de 80 – 90, pois passava férias em uma rua repleta dessa árvore. Aliás, descobri outro dia que tenho um bom olfato. Não que consiga distingüir uma pitada de noz-moscada em um panelão fervendo molho, mas descobri que minha memória olfativa é extremamente aguçada e sou facilmente levado e conduzido pelos cheiros. Sou muito suscetível a esse tipo de presença e sentir um cheiro conhecido é como estar, de fato, vivendo o momento que está na memória. Talvez por isso seja tão nostálgico, pois não consigo abandonar nunca minhas experiências.

A cidade, com todos os seus cheiros e suas idiossincrasias olfativas, permite que eu conheça outros mundos e viva outras experiência. Um perfume reconhecido na rua pode fazer com que eu preste atenção em quem seja e reencontrar um antigo conhecido. Mesmo cansado e suado da caminhada, o cheiro de banho tomado, vindo de uma casa, reanima o vigor, para que eu termina o trajeto daquele dia. O cheiro da cidade, na verdade, reflete experiências e lembranças muito pessoais. Caso haja poucas relacionadas aos perfumes que conhecemos, a cidade apresenta ali, naquele exato momento, algo para guardar e poder ser lembrado, em um momento olfativo futuro.

Texto publicado na Revista Paradoxo.

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