Traído pela própria nerdice

Sempre fui um tanto quanto nerd. Daqueles que lêem todos os livros que a professora manda. Quando não os comprava, ia à biblioteca do colégio pegá-los. Quando percebemos que ela era incompleta, minha mãe abriu um cadastro, para mim e meu irmão, em uma biblioteca municipal. Como na época ela fazia Pedagogia, muitos estágios aconteciam em lugares assim.

Hoje ela é professora, inclusive de uma matéria de pós-graduação. Assim como meu pai, grande incentivador da carreira acadêmica lá em casa. Mas para eles darem aula no Ensino Superior, a faculdade os obriga a terem, no mínimo, o mestrado. Lembra quando no colégio você tinha que negociar certas coisas com o professor? A moeda de troca sempre foi: notas e faltas. Pois se, aos 50 anos, você encarar um mestrado, não será diferente. Não importa a idade, não importa a graduação: alunos sempre agem como alunos.

Ter pais professores é uma dádiva e uma maldição. Quando mais novos, passamos vergonha por eles estarem à frente da nossa sala de aula, e principalmente porque sabemos como nossos amigos, do fundão, tratam os professores. Inclusive nós. Só melhora quando crescemos, aprendemos a lidar com essas questões e percebemos que, no fundo, é uma boa carta na manga eles serem professores. Eles nos ensinam que nem tudo o que dizem, de fato vão fazer. Eles sabem que a matéria deles não é a única e que outros professores cobram na mesma intensidade.

O mais divertido é vê-los no papel de alunos. Quando o professor passa trabalho e eles não fazem, na hora de apresentá-lo, não se manifestam. Ficam sentados em um ponto cego, para o professor não percebê-los, como se isso fosse possível. Se não poderão ir a aula, pedem para não terem falta e dizem que entregam um ‘trabalhinho’, para compensar. Sem contar o acordo tácito entre todos: faltando 30 minutos para a aula terminar, ninguém mais faz perguntas. E isso em uma classe em que a média de idade gira em torno dos 35 anos. Se revoltam com a carga de exigências e vociferam: “Pô, o professor acha que a matéria dele é a única do mestrado? Também temos uma vida!”.

Um amigo que está na pós, recentemente contou sobre o professor dele. O mestre disse: “Pessoal, nós pedimos para vocês lerem artigos e apostilas, mas sabemos que vocês não vão dar conta. Por exemplo, um artigo. Você nunca vai ler inteiro! Leia a introdução, onde há a apresentação dos principais pontos abordados, dê uma folheada no desenvolvimento, só para não ficar por fora e leia a conclusão. Você acha que a gente dá conta como?”

Ou seja, quando meus amigos liam os famosos resumos prontos, ou apenas página sim, página não e tiravam uma nota levemente inferior à minha, de fato funcionava! Fiquei me sentindo ‘traído’ pela minha própria nerdice. Porém, lembrei também do quanto gostava daqueles livros e de descobrir tanta coisa, apenas pelas palavras. Não me arrependo em nada e o quanto puder, continuarei incentivando outras pessoas a lerem os livros por inteiro. No caso de artigos e teses, depois da confissão do professor de meu amigo, a gente faz o que for possível, sem estressar ou sofrer. Afinal, nossa vida não se resume a isso, embora a maioria dos professores nos force a pensar que sim.

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Uma resposta para “Traído pela própria nerdice

  1. Oi, Gabriel!
    Jamais se arrependa de ter lido um livro inteiro… Imagina….
    Obrigado ou não, um livro é sempre, no mínimo, uma oportunidade de aprimorar o que vc gosta de fazer: escrever.
    E podemos ver o resultado bem aqui, nesse blog.
    bjs,
    Simone

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