A arte de jogar a vida

Nunca fui um grande jogador de futebol, apesar de sempre ter sido grande. Talvez isso atrapalhasse o desenvolvimento da técnica de controle da bola, velocidade, entre tantos outros fundamentos necessários para que um garoto seja considerado “bom”. Por ser muito grande [em altura e largura], não é difícil imaginar que durante anos joguei como goleiro. Segundo meu irmão, único e mais novo, sou “o gordinho mais ágil que ele já conheceu”. Em competições de atletismo, sempre me classificava em corrida.

Lembro-me nitidamente de minha timidez e insegurança durante minha infância. Quando ia a lugares onde havia muitos desconhecidos, grudava nas pernas de meu pai e dentro de mim era medo que sentia. Imagine então a minha adolescência como foi. Época de questionamentos, revoltas, turbulência, hormônios à flor da pele e garotas. Elas não fazem sentido e mesmo assim, às vezes achamos que só fazemos sentido ao lado delas. A minha timidez e insegurança foram controladas, de certa forma, quando descobri que conseguia fazê-las rir. Tenho para mim a teoria de que quando você consegue fazer uma moça sorrir e/ou rir, meio caminho está andado para conquistá-la.

O que é que isso tem a ver com o futebol? No geral, não muito, mas com o meu futebol sim. Quando aprendi, durante a adolescência, a relaxar e descontrair, de certo modo, meu futebol melhorou. Continuo sendo “o gordinho mais ágil” que meu irmão já conheceu. Além disso, minha ginga [se é que é possível chamar esse sacolejar de massa de um lado para o outro de “ginga”] foi aprimorada. Não dou dribles sensacionais, mas também já não sou apenas o jogador de 1,90m que apenas pela altura e agilidade é escalado para o gol. Quando aprendi a viver a vida de um jeito menos tenso, a relevar mais e a curtir mais a vida, meu futebol melhorou. Para que esse esporte único e com tantas idiossincrasias seja jogado, é necessário que a tensão e a dureza da vida sejam lapidadas e as pontas que ferem, arredondadas. Talvez seja por isso que, em um país com tanta decepção, tanta fome, tanta tristeza e com tanta gente desiludida, o futebol seja mais expressivo e amado do que em qualquer outro lugar do mundo. Ele é a expressão de uma vida leve e como a maioria das pessoas não têm a oportunidade de levar uma vida assim, nos contentamos pelos que conseguiram e esses tornam-se heróis.

Meu irmão ensinou-me não apenas a fazer bola de chiclete, mas também a gostar e conhecer mais o único esporte que joga bola com os pés. Me incentivou a discutir táticas, estratégias, saber o nome dos jogadores e a apreciar uma partida entre Barueri x Bragantino, times menos conhecidos, mas não menos respeitados. Ensinamento de um irmão mais novo: não importa seu tamanho, todos têm seu valor.

Obrigado, Gui.
Com seu jeito de jogar a vida, aprendi melhor a viver o futebol.

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2 Respostas para “A arte de jogar a vida

  1. Óóóóónnnnn… sou fã dos irmãos Louback!

  2. Poxa cara, adorei o texto.
    Não sou nenhum gênio da bola também, mas já percebi que jogo melhor quando estou melhor (hã).
    Enfim, futebol é vida! (:
    Parabéns

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