As pernas estão no automóvel

“P’ra ver
Os olhos vão de bicicleta até enxergar
P’ra ouvir
As orelhas dão os talheres de escutar
P’ra dizer
Os lábios são duas almofadas de falar
P’ra sentir
As narinas não viram chaminés sem respirar
P’ra ir
As pernas estão no automóvel sem andar”


O Caroço da Cabeça – Marcelo Fromer, Herbert Vianna e Nando Reis

Já disse que tenho paúra de ficar dentro do ônibus parado, não? Cheguei a ficar encharcado, com a mochila molhada [colocando em risco a vida do meu iPod, celular etc], porque bateu desespero e desci do ônibus, no meio do caminho e aquele toró. Há dias em que a Faria Lima está completamente travada e o fluxo nas calçadas aumenta consideravelmente. No trajeto do trabalho até em casa, já cheguei a levar 2h – 2h30. O normal é 1h, ou seja, com trânsito leve. Opção “sem trânsito” não existe mais, nem de madrugada.

Ir a pé é garantido que chegue em uma hora, cravado. Pode ter explodido um ônibus no cruzamento da Faria Lima com a Rebouças, que eu vou chegar em 60 minutos. Vejo as pessoas com cara de angústia no carro e vou caminhando. Vejo-as se desesperarem, gritarem com o carro do lado, mostrarem o dedo pro motoboy, quase perderem o braço [além da sanidade] e xingarem o motorista do ônibus, mas eu continuo andando. Tem gente fazendo crochê, lendo um livro ou uma revista, chorando, ouvindo rádio, estudando as fitas de inglês e até cochilando. Mas os meus passos vou dando.

No ônibus, quase se estapeiam pelo direito a um assento ou a uma janela aberta, que ventile e circule o ar dos gripados e doentes. Com uma simples baforada, podem contaminar quase 100 pessoas em menos de cinco minutos. Devido ao trânsito, muitos se juntam a mim.Descem fora do ponto, depois de brigarem com o motorista e implorarem ao mediador, o cobrador. E vou caminhando.

Dependo apenas de minhas pernas, meus músculos, meus olhos, meus pés e meu equilíbrio. Um pouco de disposição e determinação e nada pode me impedir. Os motoboys me dão passagem, as calçadas me são livres, os outros pedestres apenas pequenos desvios no percurso. Não há cano da Sabesp que me impeça, greve de ônibus que me aflija ou manifestação que me bloqueie. Sou senhor de mim e vou caminhando.

Peraí. Está chovendo forte lá fora? Estou sem guarda-chuva.
E agora?

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Uma resposta para “As pernas estão no automóvel

  1. Adorei teu blog e o que me chamou a atenção nele de cara foi o título, há de convir que é parecido com o meu Compulsiva Crônica
    Mas também tenho um “Compulsiva” aqui.
    Virei te visitar sempre.

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