Histórias maravilhosas

Se você não ainda não assistiu Big Fish [“Peixe Grande e suas histórias maravilhosas”] você tem duas opções: parar de ler o texto, assistir e depois voltar aqui ou ler o texto mesmo assim, tentando adivinhar sobre o que estou falando. Pronto?

É interessante como o nosso gosto pelas coisas muda. Não vou entrar nem na questão de comida, cerveja, ou roupa. Bora ficar na área das “Artes” mesmo. Músicas, livros e filmes. Já gostei absurdamente de Guns N’ Roses, por exemplo. Hoje em dia ouço mais quando dá saudade da infância. A primeira vez que li “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, achei um porre. Entendiante. Li recentemente e é genial. Quando ganhei “O Mundo de Sofia”, no meu aniversário de 15 anos, achei cansativo demais. Li há uns 2 anos e gostei, porém, mais simples do que imaginava. Poderia ser melhor.

Quando assisti Big Fish a primeira vez, gostei muito, logo de cara. Isso não mudou. Daquela vez, me identifiquei muito com o personagem do filho. Não [apenas] pelo conflito que há entre ele e seu pai, mas porque eu acreditava que as coisas deveriam ser muito reais. Não sei se vou conseguir explicar o sentimento, mas naquela época eu não permitia muitos floreios. Estava saindo do cursinho e entrando na faculdade. Os professores, dos dois lugares, lembravam o tempo todo da manipulação da mídia, do sistema, mega coorporações e a necessidade de abrirmos nossos olhos, e mentes, para a Realidade. Lembro de uma prova de Semiótica em que havia duas perguntas. Uma delas “Explique a hiper-realidade do homem.” Rapaz, como eu adorava aquilo. Ainda gosto muito. Mas algumas coisas mudam. Pequenas mudanças que fazem grande diferença.

Comecei a perceber que uma das coisas que mais gosto nessa vida é de ouvir histórias. Sejam contadas ou lidas. De uns anos para cá, passei a apreciar biografias. O que reparei é que eu gostava de histórias e pronto, fossem Histórias ou Estórias. Passei a entender também que nem tudo é 100% verdadeiro ou 100% falso. O perigo é sermos radicais nisso. Espero que uma notícia que leio no jornal seja 100% verdadeira. Que todos os lados tenham sido ouvidos, que o repórter tenha apurado o máximo de fatos possíveis e não tenha criado nada, para fazer valer um ponto de vista.

Mas qual o problema em ouvir uma história de um amigo em que há um exagero aqui e uma diminuição ali, só para ficar mais divertida? A graça de se contar uma história [e ouvi-la] está nisso: o entretenimento [no sentido mais puro e genuíno da palavra].

Quero sinceridade e transparência no que é estritamente necessário. Quando houver a possibilidade de um floreio, qual o problema? Qual o problema daquelas histórias contadas por Ed Bloom [o pai em Big Fish]? O que importa se as gêmeas siamesas orientais não eram de fato exatamente aquilo? Ou que o gigante estava um pouco exagerado? Will Bloom [o filho] reclama e joga na cara do pai que cresceu acreditando naquelas histórias. Que, de fato, achou que fosse tudo real e quando descobriu “A Verdade”, ficou extremamente decepcionado e sentiu-se traído. Mas ele conheceu lugares, histórias e pessoas que poucos poderiam ter acesso. Experimentou de um mundo que só alguns têm mesmo o privilégio. Na época, entendi exatamente o que ele queria dizer com aquilo e ainda ‘ficava do lado dele’. Achava um absurdo que ele tivesse vivido até uma certa idade achando que tudo aquilo fosse real. Concordava e achava que ele tinha razão. Hoje, ainda entendo a reação dele. Mas não entendo como alguém pode reclamar por ter sua vida inserida em um mundo de tanta coisa mágica. Eu luto diariamente para ‘voltar’ a esse mundo. É um esforço tremendo conseguir perceber ‘coisas a mais’ em uma realidade muitas vezes dura, fria e cinza¹.

Olha a Semiótica de novo, na ‘sincronicidade’ da coisa. Enquanto estou digitando esse texto, um amigo vira e diz: Viu o jogo do São Paulo ontem?
– Não tenho antena de TV ainda.
– Bom, eu fui dormir e o tricolor estava ganhando. O gol que saiu depois, eu não vi, nem ouvi, estava dormindo… então, para mim, o São Paulo ganhou.
– A idéia essa!
– Um amigo meu tem um filho que é palmeirense e doente por futebol. O que ele disse pro garoto? “Filho, todo gol que sai, qualquer gol que haja, não importa quem faça, é do Palmeiras, você sabe, né?” Ou seja, o menino comemora gol do Corinthians, São Paulo, Santo André, XV de Jaú. Ele é muito mais feliz, não? Meu amigo disse que um dia o filho ainda o agradecerá por isso.

Não tenho dúvida que se o menino entender a motivação do pai ele irá ser um grande apreciador do futebol. Não entrará em brigas e discussõezinhas sobre qual é o melhor time. O que importa é fazer gol. O que interessa é comemorar. Quem quer que ganhe o jogo, no final, ele estará sorrindo. Quem pode dizer que isso é ruim ou errado?

¹ Isso me lembra outro filme: “Neverwas” [Em português “O Segredo de Neverwas”]. Fala um pouco sobre fantasia x realidade. Bem bacana, pelo contexto.

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Uma resposta para “Histórias maravilhosas

  1. É a mesma coisa lá na Paradoxo: quanto mais vc viaja, melhor fica o resultado.

    Besos!

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