Estação, Presidente Altino

O trem pára quase sempre no mesmo lugar. Das 20 pessoas naquele metro quadrado, apenas duas ou três não se posicionam no local onde as portas se abrem. Não importa se está vazio, ou se ao abrirem as portas as pessoas simplesmente cairão para fora. Pelo menos 15 pessoas vão entrar e fazer com que todos os espaços vazios sejam ocupados. Pego o trem na estação Cidade Jardim e vou em direção a Osasco.

Quando entro, ainda toca Bach e Mozart. Chegando perto da estação final, o que começa a tocar é a primeira parte de Carmina Burana, de Carl Orff. [Sente só o clima. Recomendo continuar a leitura enquanto ouve].

O trem vai ficar pelo menos um minuto parado na estação, mas todos temem não conseguir descer. Vão se apertando e se esmagando para ficar mais próximos da saída. A mochila já está mais colada ao corpo que meia calça molhada. O cotovelo no baço alheio é demonstração de carinho entre os passageiros. Todos se olham com os olhos semi-cerrados. Todos desconfiam que qualquer um ali poderá empacar na porta e fazer com que fiquemos dentro daquele vagão, para sempre! As pernas arqueiam e ficam em posição de ataque. A adrenalina corre pelo corpo e me pergunto se conseguirei chegar intacto ao meu destino. Tenho uma família. Prometi que voltaria. Não posso decepcionar os que me amam. O grito está entalado na garganta. Uma voz doce e suave, quase surrando, corta repentinamente a música e anuncia: “Estação, Presidente Altino. No desembarque cuidado com o espaço entre o trem e a plataforma”. Recuperamos a cara de bobo devido à interrupção e retomamos a posição de ataque. Não sei se é minha imaginação, ou se de fato grito, mas o urro assusta os que estão ao meu redor: THIS IS OSASCO!!!

Anúncios

Uma resposta para “Estação, Presidente Altino

  1. Já foi luxo andar de trem, embarcar ou descer em Presidente Altino, eram verdes, bancos marrons que você podia oscilar e escolher entre viajar em grupo de 4 pessoas, olho no olho, ou em duas para maior privacidade.A necessidade acabou com o romantismo, ficaram as lembranças… até mesmo do apito da fábrica Wilson, que acordava todo o bairro… e da igreja tocando Black Dog dia de domingo, não sei se ainda toca… você sabe?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s