Ônibus 3

Era viagem de formatura da 8ª série. Isso foi em 98, ou seja, tinha 14 para 15 anos. Ou seja, testosterona à flor da pele no último, embora, às vezes, conseguisse disfarçar aquela ansiedade natural.

O colégio em que estudei contratava sempre a mesma empresa de turismo para esse tipo de viagens. Eu não sei se já conhecia uma das monitoras ou tinha paquerado-a [é bem provável, porque eu nem sempre conseguia disfarçar], mas pareceu que algum contato anterior havia acontecido.

Eram 3 ônibus… os ônibus 1 e 2 eram ‘normais’. O Ônibus 3 era o que os guris chamavam de “Paraíso”. Não sei como conseguiram colocar só mulher no Ônibus 3. Juro. De homem só tinha o motorista. Até as duas únicas monitoras do grupo estavam lá. E, incrivelmente, parecia que havia rolado um processo seletivo, com base na beleza das meninas. As 40 mais bonitas juntas, em um ônibus apenas.

Planos para conseguirmos passar para o Ônibus 3 não faltaram. Em uma das paradas a monitora do segundo parágrafo foi importunada por garotos e garotas, implorando para poderem conseguirem um lugar no Ônibus 3 [sei que fui tomar meu Choco Milk e não importunei ninguém]. As garotas estavam de saco cheio da gente só falando sobre aquilo e queriam mudar. E os meninos… bem, você sabe.

Eis que os monitores mandaram todo mundo voltar para seus respectivos ônibus. Alguns manés tentaram entrar no Ônibus 3, mas era bater o olho e ver o intruso. Sentamos e a monitora do segundo parágrafo, provavelmente paquerada por mim, entra no nosso ônibus. Todos alvoroçados, prevendo que uma mudança ocorreria. Durante a parada, rolou um boato que havia 3 vagas no Ônibus 3. Os números estavam ao nosso favor!

Mas, para mim, era uma batalha vencida. Era muito moleque e testosterona juntos para poder ir para o Ônibus 3. Fiquei na minha, sentado no fundão, olhando o movimento da estrada, esperando o nosso ônibus andar. Eis que ouço a monitora falando “OK, então… quem quer ir pro ônibus 3?” Gritaria, garotos histéricos, um furdúncio. “Calma, só vão 3…” Mais histeria, garoto tentando subornar a monitora e uma ameaça de morte. “Então… vai o Gabriel e quem mais?”. Hein? Gabriel? Como ela sabe meu nome?! “Vai o Gabriel Louback e quem mais? Vamos sortear?” Como?! Sorteio?! Mas eu já estou incluído? Não entendi. Explica de novo? “Gabriel, você está me ouvindo? Você quer ir para o Ônibus 3 ou não?” HA! Não precisa perguntar de novo. “OK, pegue suas coisas e pode ir pra lá que a gente vai sortear os outros 2”.

Peguei minha mochila [já era inseparável na época] e fui para o Ônibus 3. Subindo os degraus da porta, o motorista deu um sorriso de canto, como quem abre o portão do Paraíso e diz “Seja bem-vindo, nobre cavalheiro”. Lembro de ter entrado e visto aquele corredor infinito, abarrotado de garotas adolescentes. [Lembre-se que eu tinha a mesma idade delas. Por favor, não me imagine hoje!]. A que parecia ser a líder chegou para mim e disse “Pode escolher o lugar, “. Eu podia escolher. Dei uma geral e todas sorriam. Nem preciso dizer do aroma doce e suave que reinava dentro daquela carruagem divina. Acomodei-me no fundão. Assim como o processo seletivo do Olimpo pegou só as mais bonitas, elas estavam sentadas em ordem crescente de beleza. Quando os outros dois garotos chegaram, nos olhamos como aqueles que compartilham um privilégio tremendo, mas que sabem que qualquer palavra pode estragar o momento. No fundo, sabíamos que não havia palavras para expressarem o momento. Sentei de lado em um dos bancos, ficando apoiado no colo de uma guria [claro], com as pernas esticadas no colo de outra, enquanto outras 5 ficaram debruçadas ao nosso redor, conversando e rindo das piadas bestas que eu [já] fazia na época.

Sério. Até hoje eu não faço a mínima idéia de como isso aconteceu. Apesar de ter sido amigo de todos os grupinhos e todos me conhecerem, eu nunca fui o tipo popular. Mas certas coisas é melhor a gente só desfrutar, sem nada perguntar.

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4 Respostas para “Ônibus 3

  1. Poxa vida, hein! Você realizou o sonho que quase todo mundo na adolescência já teve um dia… Isso faz lembrar as minhas excursões, mas eu nunca tive tanta sorte, heheh…
    O texto continua ótimo.
    Beijo, moço!

  2. Aparentemente você era exatamente como eu nessa época. A diferença é que NUNCA algo desse tipo aconteceu.

    No máximo as meninas, as mais gostosas, chegavam pra me contar suas primeiras aventuras sexuais. Era horrível ouvir, comentar, dar risada… Mas saber que nunca seria comigo. =D

    Ok, no terceiro colegial QUASE foi… Mas aí já era tarde demais. =D

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