Não tenho mais idade para isso

Na verdade, eu não tenho mais idade pra muita coisa. Não posso mais, por exemplo, me perder no supermercado e pedir para a moça do alto-falante avisar que estou esperando minha mãe no balcão de informações. Agora é a Carol que tem que ir me encontrar.

Final de ano, 2006. Carol tinha conseguido, de última hora, uns dias de folga. Aquele ínterim de Natal e Ano Novo. De ‘presente’, acabei comprando uma passagem para podermos ir antes de meus pais. Se fossemos com eles, ela ficaria apenas 2 dias em Florianópolis. Fui na rodoviária do Tietê e na hora em que cheguei, tinham acabado de abrir um ônibus extra. “Que sorte”, foi o que eu, ingenuamente, pensei. Era de ônibus comum.

Pausa. A primeira vez que viajei de ônibus sem minha mãe foi para o Rio de Janeiro, com a avó de meu primo [a que não é também minha avó] e, de tão pequeno que era [OK, pequeno eu nunca fui], de tão menor que eu era, achei aquilo extremamente espaçoso. Um Cometão, comum. Banco de couro, vinho. Lindo. Volta.

Hoje tenho 1,90m. Faz uns anos já, ou seja, estava ciente do risco e decidi encarar aquilo juntando alguns fatores. 1) Eu me acho [achava] novo. Pô, baita aventura para contar aos netos. “Sabe, eu e sua avó [dá um tapinha na bunda da vovó deles] fizemos uma loucura uma vez. Fomos de ônibus comum para Florianópolis.” 2) Era o único jeito de conseguir que Carol aproveitasse mais tempo em Florianópolis.

A minha sorte é que ela é pequena. Durante a viagem, eu pude jogar minhas pernas para o lado dela e ela jogou as dela no meu colo. Ela dormiu meio torta. Eu fiquei meio torto, porque dormir é qualquer outra coisa diferente daquilo que fiz. Chegamos e eu desci do ônibus pensando na tortura que seria a volta.

“Que sorte”, foi o que ingenuamente pensei quando meu pai disse que, por dó, pagaria minha passagem de volta… de leito. Lindo, não? Lembre-se que eu disse “ingenuamente”. Entrei todo serelepe no ônibus. Achei que seria melhor do que dormir na minha cama. Deitei na poltrona, me esparramei, peguei o cobertor [ar-condicionado no talo, aquela delícia] e depois de demorar bastante pra pegar no sono [uns 15 minutos] começou a passar um filme tão tosco, mas tão tosco, que eu ainda acho que foi fruto da minha imaginação.

Roteiro: um cara era assaltante e usava uma máscara de palhaço para isso. Um trauma o tirou de cena. Por algum motivo [acho que a filha dele estava em perigo] foi obrigado a voltar. Detalhe: usando a mesma máscara. Além disso, o som estava mais alto do que em sala de cinema. Durante o tempo do filme, dei umas cochiladas, mas sem conseguir cair no sono. Achei que fosse por causa do som e do filme. “Que sorte”, foi o que ingenuamente pensei quando o filme acabou.

Me acomodei na poltrona novamente e tentei dormir. Não conseguia. Por nada. Revirava, me esticava e nada. Não encontrava “A” posição sabe? Em um determinado ponto comecei sentir aquela angústia nas pernas, de quem está em fase de crescimento, conhece? Cara, eu já tinha 1,90m e 23 anos! Mas com o perrengue da ida, comprei Dramin pra volta, por precaução. “Que sorte”, foi o que… você já sabe. Tomei um Dramin. Nunca tinha tomado antes, então não sabia quanto tempo esperar para o efeito. Esperei 1h.

A angústia e o “eu não consigo dormir” só tinham aumentado. Tomei mais um. Fez efeito. Mas meu corpo se rejeitava a dormir junto com o cérebro. Ou seja, fiquei meio zumbi. Meu cérebro nocauteado, mas meu corpo aceleradíssimo. E com as pernas doendo. Eu literalmente dava murros nelas de agonia, para ver se paravam com aquela palhaçada, mas nada. Resultado: cheguei em São Paulo sem saber direito quem eu era, de onde vinha e pra onde estava indo. Mancando.

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2 Respostas para “Não tenho mais idade para isso

  1. MEU! No avião, principalmente na volta, EU fiquei desconfortada, sem espaço para esticar as pernas… por 11 horas! EU! Imagina uma pessoa “pequena” como vc!

  2. 2006: Fui ver Rolling Stones, feliz da vida em Copacabana. Na volta, aquele aperto esperando ônibus extras. E tava rolando uma areia, aquele calor carioquês básico e o que tinha era um busa comum. E sentou um cara bem gordo do meu lado. E eu tenho 1,93m. E tava muito calor. E eu não tinha dormido, passei a noite bebendo na praia. E ai, comofas?

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