I bet you think that’s pretty clever, don’t you boy?*

Para ler escutando High and Dry – Radiohead.

Era 1994. O Brasil seria ou já havia sido campeão do mundo pela 4ª vez. Não lembro se foi antes ou depois de julho. Na verdade, eu achava que tinha acontecido em 93, mas fui pesquisar e o CD ‘Calango’, do Skank, só saiu um ano depois do que imaginei.

Como foi em 1994, eu estava na 4ª série do primário. Sempre foi fácil lembrar os anos de colégio. E o primeiro fora a gente nunca esquece. Na verdade, acho que não foi o primeiro de todos. Talvez tenha sido o primeiro a me deixar engasgado, até com um pouco de raiva.

Como eu disse, Calango tinha sido lançado e o hit parade pertencia ao Skank. Eu sabia o álbum inteiro de cor. Tirando duas músicas mais chatinhas, ouvia todas. Eu só tinha dois discos: Calango e Nevermind. O clássico do Nirvana foi o primeiro que comprei, antes mesmo de possuir um CD player. E lembro que no dia em que fomos comprar o aparelho, para poder ouvir os cinco ‘disquinhos lasers’ que já tínhamos em casa, meu pai comprou o Calango pra mim. Saímos de Guarulhos e fomos até o SP Market, pra lá de Santo Amaro, porque tinha um CD player mais barato. Hoje em dia eu conseguiria convencer meu pai a não ir, simplesmente mostrando que a quantidade de gasolina gasta daria para comprar um aparelho mais caro, em um lugar mais perto, e ainda sair pra jantar no Outback.

OK, volta. A história não é essa. Enfim, eu gostava da Andréa/Andrea/Andreia/Andréia. Não lembro direito. Digamos que seja Andrea, que fica mais fácil de escrever, eu não entro em confusão com a reforma ortográfica e todo mundo sai feliz. Menos o Gabrielzinho, de 1994.

Eu gostava bastante da guria. Ela foi a primeira Winnie Cooper que apareceu na minha vida. Eu era um eterno Kevin Arnold. Jurava que os caras do programa iam fazer pesquisa de campo lá em casa, perguntando pra minha mãe o que rolava na minha vida. Deve ter sido um deleite quando ouviram a história da Andrea.

Estudávamos na mesma classe. Ela não fazia o tipo da ‘massa’. Poucos garotos reparavam nela, o que a tornava mais interessante ainda. Ou reparavam, mas eram tão cagões quanto eu. Como sempre fui muito ruim em xavecar, sempre usei a tática [falha] de virar amigo antes. Só fui me dar conta do quanto isso me atrapalhou anos depois. Como éramos amigos, constantemente ligava para ela, falando de trivialidades. Lição de casa, provas etc. Decidi que estava cansado daquilo. Não dava mais para ficar enrolando, sem ela saber o que eu sentia. Liguei, oi, tudo bem, o que você está fazendo e já emendei: “Olha essa música que ouvi e fiquei pensando em você…”. Entra o Samuel Rosa cantando: “Te ver e não te querer, é improvável é impossível. Te ter e ter que esquecer, é insuportável é dor incríveeel”. Na verdade, foram 20 segundos de introdução, até ele entrar cantando. Tem todo o “Arrarraum iê… uh uh uh. Arrarraum iê. Noaiuntchu cybers”.

Coloquei o CD no meu mini system, aumentei o volume e colei o bocal do telefone nas caixinhas de som. A sorte à época: era um minis system portátil e o telefone era sem fio. Pude ir para o quarto, fechar a porta e pagar esse mico em paz. Eu deixei o Sr. Rosa cantar o refrão [que abre a música], cantar a primeira estrofe inteira [“É como mergulhar num rio e não se molhar”], o refrão de novo, a segunda estrofe inteira [“É como esperar o prato e não salivar”] e o refrão. São dois minutos cravados. E finalizei com aquela técnica de ir abaixando o som aos poucos para parecer que a música acabou. [Nem eu acredito que fiz isso… Minha cara agora, se você pudesse ver, é de desaprovação com “que dó do Gabrielzinho”]. Fade out na música até ficar silêncio.

Gabrielzinho: E então?
Andrea: Er… ah… o que tem de lição de casa pra amanhã?

Juro. Pensando agora, não foi meu primeiro fora. Mas foi a primeira grande decepção. A expectativa de qualquer comentário sobre aquilo e nada. Simplesmente nada. Nem um “Que bosta, Gabriel”. Talvez tivesse sido melhor. Mas não. Ela preferiu falar da lição de casa. Eu não entendia e não a perdoava. Hoje sei que não poderia cobrar qualquer coisa dela. Eu fiz esperando um retorno. Apresentei algo com o fim de ter outro algo em troca. Uma resposta, que fosse.

Aprendi – não sei quando, não sei como – que a gente deve fazer as coisas pelo prazer de fazê-las. Talvez eu esteja errado ou você talvez discorde de mim. Se escrevo para alguém, não é esperando uma resposta. Se eu te visito, não é para ver o quanto você sorriu na hora em que me viu na porta. É simplesmente porque estou com vontade de fazer aquilo. É para satisfazer a minha vontade – o que estou sentindo – qualquer que seja o resultado. O fim está na própria ação, e não no que ela vai causar.

Fiquei traumatizado, mas ‘perdoei’ a Andrea. Tenho a vaga lembrança de ter falado com ela sobre isso. Não sei se foram dias, meses ou anos depois, mas lembro dela me pedir desculpas. De dizer que, no momento, não sabia o que responder. De nunca ter tido oportunidade de sequer pensar que eu [ou alguém] gostasse dela. Não há como culpá-la. E por muitos anos eu me culpei. Mas aprendi também a relevar meus próprios ‘erros’ e a perdoá-los. Entender que eu nem sempre soube das coisas e que nunca vou saber por completo.

[E que não posso tocar “Te Ver” por 2 minutos para uma guria e no final dar um fade out para parecer que a música terminou.]

*High and Dry – Radiohead

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14 Respostas para “I bet you think that’s pretty clever, don’t you boy?*

  1. Isso é não criar expectativas a respeito do outro. E foi muito boa de que o fim está na prórpia ação. É bom viver assim porque tudo vira uma surpresa. Abraços!

  2. “O fim está na própria ação, e não no que ela vai causar.”

    Lembrei da frase do Little Joy que bloguei essa semana: “Saiba, o caminho é o fim, mais que chegar.”

    Resolvi assumir essa ‘verdade’ como incontestável recentemente. Tem rendido bons frutos.

    E eu teria dito que minha mãe estava me chamando e desligaria. Garoto chato, tocando música no telefone. Eu hein..

  3. Lito, te garanto que muitas ouviram certas coisas e depois pensaram “deveria ter dito isso”.

    Agora… fazer um fade out fake é foda, hein?! ¬¬

    Brincadeira!!!!!

  4. meu velho…
    gostei tanto de ler esse teu texto que postei um post inspirado nele, lá no FFB.
    depois vai lá

    abração!

  5. Que bom que você aprendeu a não esperar em troca, porque eu ainda me declaro na esperança de ouvir um “eu também”…seu post foi a coisa mais propícia da minha noite hahahahah

    Um beijo.

  6. Olá.

    Sou nova por aqui e seu post me conquistou. Virei fã.

    Um abraço

  7. Pingback: na sublime arte de me autoboicotar at a pleasure delayer

  8. gabrielzinho!

  9. Er… ah… o que tem de lição de casa pra amanhã?

  10. gabrielzino, de 1994.

    você aprendeu a ser xavequeiro depois de uns anos. pelo que você me contou pelo menos.
    hahá

  11. Em 1994, o meu maior sonho de momento romântico era que algum garoto cantasse “Te ver” pra mim.
    Achei mto lindo.

  12. Heheh, devia ter colocado o Nirvana, né?

    Bonito!

  13. Ah, Gabrielzinho. O menino do Disk MTV.
    Eu acho que sempre que a gente se culpa, pelo motivo que for, a gente acaba aprendendo alguma coisa; mesmo que as vezes demore um pouquinho.
    Coincidentemente, essa noite sonhei com o primeiro menino que gostei, minha primeira grande decepção. Ele, é claro, gostava da minha melhor amiga. E eu, é claro, virei melhor amiga dele alguns anos depois (e, estranhamente, não nos falamos hoje em dia).
    O que eu quero dizer com isso tudo é que a expectativa é a mãe de estragar as coisas, e que fazer as coisas por fazer é a melhor maneira de viver até os 80 anos.

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