10h23

Naquele dia ele acordou cinco minutos atrasado. Apenas cinco minutinhos e imaginou que perderia o ônibus, que era tão chato e pontual quanto ele. Naquele dia escovou os dentes, mas sem passar o fio dental. Tomou seu café, mas sem repetir o copo de leite. Passou seu perfume, mas sem dar a última borrifada.

Enquanto isso a Duda decidiu passar o fio dental em todos os dentes. Não repetiu o copo de leite apenas uma vez, mas duas. Demorou alguns segundos a mais para escolher qual perfume usaria. Por isso, saiu de casa sete minutos mais tarde do que o costume.

Ele pegou o ônibus às 10h23 e ela às 10h32. Como ele morava antes, era o mesmo ônibus. Naquele dia, ele estava mais cheio do que o costume. Não chegava a estar apertado, mas Duda queria ir sentada. Como já estava atrasada mesmo, esperou o próximo.

Ela casou [não com ele], teve três filhos [duas meninas e um menino] e nunca conheceu a pessoa que teria sua vida mudada caso a conhecesse. Assistindo Benjamin Button, ele procurou-a em todos os minutos e segundos que achou serem especiais, por pequenos atrasos ou adiantamentos, sem nunca saber o que é ser arrebatado pela coincidência de pequenos incidentes da vida.

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4 Respostas para “10h23

  1. A minha história de amor é bem essa…bem obra do acaso… de um atraso e de uma decepção. Fantástico!

  2. que ótimo.

    arrepiei.

  3. texto ótimo, me lembrou um livrinho que li no ensino médio “5 minutos” do josé de alencar.

    =)

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