Um labrador

Para ler ouvindo The Long Day is Over – Norah Jones.

Um labrador. Essa foi a resposta que recebeu de todos com quem conversou. “Queria um cachorro que fosse companheiro, mas ao mesmo tempo tomasse conta de casa. Esperto, brincalhão, mas que possa me proteger. Passei dos 40 e já tenho problemas demais para casar de novo.” Um labrador.

São ótimos nadadores, dizem. Eu mesmo sou fã dos que conheço. Na verdade, eu gosto de cachorros, de forma geral. Domingo mesmo quase fiquei com um filhotinho, que apareceu abandonado no portão de casa. Mas isso é história pra outro texto. Eu me apego fácil e rapidamente a eles. Sei o que é se despedir de um cão querido. Conheço pessoas que ficaram tristes por semanas ao perderem seus companheiros. Por isso não consigo imaginar o que passou pela cabeça da Isa quando o labrador dela a atacou.

Atacou pra valer. No rosto. Tirou um naco da face dela, suficiente para deixá-la desfigurada para o resto da vida. Desfigurada. Sem boca. Nem xingar o labrador ela podia. Chorar era um ato exclusivo de seus olhos. Gritar de raiva, ou soluçar de dor eram luxos que ela não podia se dar. Nem se quisesse.

Acontece que a Isa é influente. Tem contatos. É o tipo de pessoa que conhece a todos, mas que poucos a conhecem. O labrador era um desses poucos e, mesmo assim, atacou nossa amiga. Alguma visitas no hospital e ela já tinha o caminho para o que parecia ser sua salvação: um transplante de rosto. O primeiro registrado.

Um sucesso, disseram os médicos, depois de um ano. “Não sou eu”, declarou Isa. Não sei porque, mas ela achou que ficaria parecida com ela mesma. Ouvi alguns dizerem que era ridículo ela achar isso, já que estava com o rosto de outra na face. Mas até hoje eu me pego pensando e admirando as singularidades dos rostos alheios. A maioria de nós tem dois olhos, um nariz e uma boca. Só a variação de tamanho deles, ou a distância é o suficiente para o Brad Pitt ser daquele jeito e eu desse? É algo muito mais subjetivo, invísivel, arrisco dizer. A fisionomia de alguém é uma coisa que não dá para ser tão matemático, preciso e biológico, a não ser que você seja formado em Matemática, Biologia e Precisão.

Por isso, não culpo a Isa por achar que ela poderia ainda parecer consigo mesma. Vai que essa parte inexplicável está por baixo, na formação do crânio e dos ossos da face? Pô, ela tinha perdido metade do rosto! Menos cobrança, né, gente?

Por conta de sua recuperação, ela não quis falar muito com a gente. Desde novembro que não falo com ela. Abri minha caixa de emails, abri a pasta de idéias para textos, e lembrei que queria contar essa história. Mesmo porque ela conseguiu se encontrar, mesmo que no rosto de outra.

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Esse texto é fictício e foi baseado nessa história real, de Isabelle Dinoire.

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Uma resposta para “Um labrador

  1. O meu é “semi-labrador”. Por isso ele está me boicotando aos poucos. Ele não ataca de uma vez… ¬¬

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