Estrelas de fevereiro

Para ler ouvindo February Stars – Foo Fighters.

O trânsito. Eu sabia que o maldito trânsito de São Paulo acabaria me matando.

Sempre achei que quinta-feira é o dia mais triste da semana. Chover em uma quinta-feira chega a ser redundante. Sei que é o final da semana, é o dia em que a gente pensa “Legal, amanhã é sexta”, mas a quinta-feira tem algo de triste que não sei explicar. É claro que isso só podia acontecer em uma quinta.

Tenho a mania de ouvir de olhos fechados uma música que gosto muito. Era February Stars, do Foo Fighters. Algumas coisas colaboraram para que isso acontecesse. 1) Dave Grohl disputa o título de “O” cara com o Eddie Vedder. 2) Era fevereiro e, mesmo que não estivesse de noite, não daria para ver as estrelas em São Paulo. Mas as gotas caindo faziam as vezes de estrelas. 3) Meu irmão está fora, viajando. É o amigo que todo irmão queria ter e a letra bate com isso.

Eu sempre subo a rua de casa de olhos fechados. Com ou sem música. Tentando ouvir o dia amanhecer e o vento me acordando de verdade. Mas ela é tranquila, quase não passa carro nesse horário. Sei que atravessar a Vital Brasil de olho fechado não foi uma boa idéia. Agora eu sei, né? Na hora foi intuitivo, não foi planejado. Mr. Grohl começava a cantar “February Stars, floating in the dark… temporary scars”. Eu sabia que as cicatrizes não seriam temporárias. Não essas.

Não sei quanto tempo fiquei deitado. Como tinha colocado a música no repeat, quando acordei, estavam pedindo “just hang it on”. Meus olhos encheram de lágrimas. Eu não queria partir. Não assim. Há algum tempo já havia aceitado que nossa vida é mesmo um instante. Mas eu queria ter tempo de dizer adeus. Eu nunca consegui deixar essas coisas em aberto, sabe? Simplesmente dar as costas e sair andando. Eu precisava dizer a todos que amo o quanto os amava. Queria vê-los sorrindo mais uma vez, por alguma piada besta que fizesse, mesmo que com lágrimas nos olhos. Queria eu dizer para eles “just hang it on”, não pela minha perda, mas por tudo nessa vida.

Quando voltou na parte mais pesada da música, parece que entrou em loop mesmo. Não sei mais se era da minha cabeça ou a música. Acredito que de alguma forma ela tenha ficado dentro da cabeça, pois eu já não estava mais com os fones no ouvido. Eles voaram longe quando o Vectra me acertou.

Eu só sei que, assim como a letra, eu parecia flutuar na escuridão. Mesmo ouvindo a música, conseguia perceber por trás o barulho da ambulância. O estranho é que ela nunca se aproximava. Aquele ‘ión-ión-ión-ión’ estático. Sempre me deu desespero quando esse som não vinha ou não ia. Sempre no mesmo lugar. Parado na Alvarenga com a Vital Brasil. Um ônibus avançou mesmo estando tudo parado e travou o cruzamento.

O trânsito. Eu sabia que o maldito trânsito de São Paulo acabaria me matando.

Anúncios

2 Respostas para “Estrelas de fevereiro

  1. belo, casual e tranquilo. apesar de e mesmo por toda a morte.

  2. Pingback: Se música fosse literatura, que história contaria? « Acompanhe novidades de O Livreiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s