Não conseguia parar de pensar nisso

Gêmeos. Ela estava grávida de gêmeos. Na verdade, gêmeas. Seu sonho sempre foi ter menina e gêmeos, mas não sabe porque nunca havia imaginado a união de duas coisas tão lindas. Meninas e gêmeas.

Inglês e espanhol, a gente arranha. Italiano, francês e outras línguas com origem no latim é só questão de tempo. Mas há uma categoria das línguas indecifráveis: russo, chinês, tcheco e alemão. A tortura dela pousava nessa última língua. Sofria para aprendê-la. Por isso, na Suíça, andava sempre com o celular, para na hora do desespero poder ligar para a irmã, que havia ficado no Brasil. Era o momento que podia dar risada em português e chorar em sua língua nativa.

Gêmeas. Não conseguia parar de pensar nisso. Era justamente sobre elas que falava quando foi abordada. Sempre dizem que o tempo é relativo. Se você está viajando de carro de São Paulo para o Rio, dez minutos de viagem não é nada. Se alguém disser “Daqui a 10 minutos a gente chega”, pode considerar como terminada a viagem. Mas em um jogo de basquete, ou de futebol americano, 10 minutos são uma eternidade.

Os dez minutos dela não foram uma eternidade, foram sua vida. Ela já tinha ouvido falar sobre a discriminação suíça com relação a estrangeiros. Mas falar ao telefone em sua língua mãe não deveria ser motivo para ser espancada e torturada. O corpo do ser humano é algo sagrado. Só cabe à própria pessoa decidir o que fazer nele e com ele. Em certos lugares, é crime grave encostar em uma mulher sem autorização. O que aqueles neonazistas fizeram é imperdoável.

“Por quê?”, era a única coisa que passava pela cabeça daquela advogada. Cada vez que tentava pensar nas gêmeas, era chutada aonde as meninas estavam tentando se proteger. Não satisfeitos, os neonazistas escreveram com estiletes nas pernas e na barriga daquela mulher. SVP [Partido do Povo Suíço] foi o que escreveram.

O “por quê?” havia tomado o lugar de qualquer outro pensamento bom que ela tentasse ter. A gota d’água de seu choro foi quando prestou queixa e os polícias perguntaram se ela não havia tentado a auto-mutilação. Juro.

Ela perdeu as gêmeas. Naquele dia, aqueles extremistas conseguiram matar três vidas de uma só vez.

Por quê?

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Baseado nessa história real, da advogada brasileira que passou por isso na Suíça, país de ‘primeiro’ mundo e ‘civilizado’.

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2 Respostas para “Não conseguia parar de pensar nisso

  1. O texto me deu nó na garganta…
    A intolerância (de qualquer tipo) ainda me deixa chocada e triste. Torço apenas para que esse caso não seja esquecido ou negligenciado como tantos outros…

    Belo texto, Gabriel.

  2. era tudo mentira !!! você não viu na tv ?

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