Like an angel from a bedtime story*

Para ler ouvindo Have You Forgotten – Red House Painters.

Dois pequenos acontecimentos da minha infância:
ou
Duas grandes decepções da minha infância:

1 – O dia em que fugi de casa. Eu nunca fui revoltado com minha família. Era rebelde e indignado com a vida, de forma geral. Com professores, guardas de trânsito, juizes de futebol e qualquer autoridade. Mas com meus pais não. Ou seja, não havia muito motivo pra fugir de casa. Simplesmente achei que era uma experiência pela qual todo homem deveria passar, ainda que moleque. E para ser mais autêntico, não fiz trouxa de roupas, não levei dinheiro, nem mantimentos. Saí do jeito que estava. Como morava em um bairro tranqüilo de Guarulhos, passávamos o dia brincando na rua. Ou seja, minha mãe não perceberia até que fosse tarde demais, pensou minha cabeça fugitiva. Joguei bola, andei de bicicleta, fui o mais longe que já havia ido. Sempre tem uma parte do bairro que a gente vai que serve como limite. Mesmo que já tenha passado daquele ponto de carro, sozinho é bem diferente. Fui a lugares que nem imaginava existirem. Fiquei perambulando não sei quanto tempo. Dias, semanas. O suficiente para sentirem falta, pensou minha cabeça fugitiva. Decidi voltar para casa em um dia normal. Na hora da janta, para ser mais emocionante. Entrei em casa com aquele brilho que só os fugitivos e homens pra valer [tipo um Clint Eastwood ou Tommy Lee Jones] têm. Minha mãe me olhou surpresa e exclamou: “Gá! Que bom, chegou bem na hora da janta. Vai tomar um banho pra gente comer”. Eu fugi e voltei no mesmo dia, descobri depois. Ela até hoje não acredita que eu já fugi de casa.

2 – Eu sempre tive muito gibi
. Da Mônica, Super-Homem, X-Men, entre outros [todos, praticamente]. Lembro que certo dia minha mãe se cansou de todas aquelas revistinhas e nos incentivou a vendê-las. A primeira coisa foi reclamar e dizer o quão absurda era a idéia. Ela esperou o esperneio e disse que como a gente vivia reclamando da mesada ser pouca, seria um ‘complemento’ de nossos rendimentos. Ela nem bem terminou a frase e já estávamos, eu e Gui, separando os que seriam vendidos. O mais legal disso tudo era reler todas as historinhas. Não podíamos simplesmente nos desfazer de um gibi, se houvesse uma historinha muito legal dentro dele. Lembro de ter lido uma do Titi, onde ele tinha a idéia de vender seus gibis antigos. Colocou-os à venda no bairro e um garoto veio, deu uma lida e não quis mais comprar, dizendo “Legal! Mas agora que já li, não vou levar”. Achei muito legal o roteiro [identificação com o personagem] e mostrei para o primeiro amigo meu que chegou na nossa garagem, onde havíamos montado nossa ‘barraquinha’ de revistinhas. Ele leu a historinha, deu risada e disse: “Legal. Mas agora que já li, não vou levar”. Juro.
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*Have You Forgotten – Red House Painters

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2 Respostas para “Like an angel from a bedtime story*

  1. Nunca tive coragem de vender meus gibis, agora é que não vendo mesmo!

  2. Sua mente é, sem dúvida alguma, um lugar estranho.

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