Mesmo que eu não falasse nada

Dizem que quando as caravelas chegaram ao litoral norte-americano, os índios não as viram. Por não conhecerem e não saberem o que era uma caravela, seus olhos não ‘identificavam’ os barcos. Só quando estavam mais próximas, perceberam que em um determinado ponto, as águas moviam-se de forma estranha, quebrando as ondas e tudo mais. E, de repente, puf, os barcos estavam ali.

Ele me olhava assim, como se o ar ao meu redor movesse de forma diferente. O azul nunca foi tão colorido. O sol nunca foi tão quente. O vento nunca foi tão refrescante. Cada som era música. Fazia parte de uma composição que só os que nunca deixaram de ser como ele conseguem ouvir. Acho que os poetas, os pintores, os artistas, os gênios e os fotógrafos também olham como ele me viu. Como ele ouviu e como ele sentiu as coisas ao seu redor.

Não eram necessárias palavras, mesmo que ele as soubesse. Conforme ele falava com os olhos, eu respondia com os meus. Cerrava-os quando queria dizer “Você é mais esperto do que parece”; levantava as sobrancelhas, surpreso, quando dividia com ele a novidade de uma nova experiência; levantava apenas uma, quando achava que ele pularia do colo de sua mãe e sairia andando em minha direção. Aos pulos e grunhidos, ele não tirava os olhos de mim e pareceu querer vir dizer, em meus ouvidos, que ele me entendia, mesmo que eu não falasse nada.

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