The last song

Saí de casa como se fosse meu último dia de vida. Na verdade, isso não aconteceu assim que coloquei o pé para fora do imóvel. Foi gradativo, conforme ia caminhando. Havia decidido ir da minha casa até a casa de meu irmão. Dá uns 10km, com duas subidas de morro que um carro com motor 1.0 precisa engatar a segunda para subir.

Nos primeiros 15 minutos, a sensação era de felicidade, por estar vivo e poder fazer aquilo no meio da semana e no meio do dia. Comecei a caminhar às 15h e fiz um trajeto a pé que antes só havia percorrido de carro ou ônibus. Conhecia cada buraco ou valeta, mas não conhecia o cheiro de flores que tem esse trajeto. Não sabia que, naquela dia da semana, havia tantos carrinhos vendendo caldo de cana. Desconhecia os moradores de rua daquela região, os pequenos bares, os jardins das casas e as árvores que me protegeram da chuva.

Logo no início, quando olhei para o alto e vi o acúmulo de nuvens, pensei: “Será uma leve garoa, poucos pingos, nada com que me preocupar”. Quando percebi que teria que enrolar a carteira e iPod na camiseta reserva e colocá-los no fundo da mochila para molhar a menor quantidade possível, estava parado em um ponto de ônibus e lembrei de meu irmão dizendo na semana anterior: “Queria tomar um banho de chuva”. Na ocasião, estávamos em Florianópolis, de carro, indo para o centro da ilha. Se ele tivesse pedido para encostar o carro e descer para tomar aquela chuva, é bem provável que eu dissesse que não fazia sentido e que, depois, ele molharia todo o carro. Ou seja, eu não iria parar só por causa de um banho de chuva. Protegi bem as coisas dentro da mochila e segui debaixo da chuva que começava a passar de ‘uma leve garoa, com poucos pingos’.

Descobri que as fábricas daquela avenida não estão abandonadas. Vi outras várias pessoas andando na chuva, sem se importar muito por ficarem molhadas. Quando cheguei na avenida principal, a quantidade de água caindo do céu aumentou consideravelmente. Por cinco minutos parei, novamente, em um ponto de ônibus. Havia decidido pegar um até a casa de meu irmão. Já havia andado quase uma hora e o exercício do dia podia ser considerado feito. Acho que foi nessa hora o real começo de viver aquela dia como se fosse o último. Eu realmente acreditei que poderia não estar vivo no dia seguinte. E o que teria valido aquele dia? A chuva só tinha aumentado e mandei às favas minha carteira, meu iPod, meu Bilhete Único e minha mochila. Saí sorrindo.

Atravessei a ponte do Jaguaré e já estava com a camiseta grudando de tão molhada, quando vi que o sol estava saindo. Cheguei seco à Cerro Corá. Em frente a um banco [de dinheiro] havia uma senhora sentada no degrau do jardim. Olhou para mim: “Meu filho, algumas moedinhas…?” A resposta automática foi dizer que não tinha, mas parei, lembrando que havia algumas perdidas na mochila. Não chegava a R$ 0,50. Lembrei dos R$ 10 na carteira e entreguei a ela, depois de pensar que se morresse na próxima esquina, aquele dinheiro também morreria em vão. Ela não soube como agradecer, por isso disse que não precisava. Aquela nota era mais dela do que minha.

Aquele foi o ápice de viver meu último dia de vida, já vivendo 100% como se fosse realmente o último. Logo em seguida, nuvens mais escuras apareceram. Os trovões intensificaram e o vento já tinha cheiro de chuva. Não pensei mais nas coisas da mochila. Meu pensamento estava voltado àqueles que não consigo guardar. Mandei mensagem pedindo desculpa pelo que havia acontecido. A pessoa tinha tempo para perdoar mas eu não tinha muito, para ser perdoado. Liguei para minha esposa dizendo que ela deveria fazer o que quer que a fizesse feliz, sem medo de nada. Nada.

Faltando aproximadamente 15 minutos para chegar na casa de meu irmão, pensei em transformar a experiência em texto. Em seguida lembrei que poderia, de fato, morrer logo mais. Acho que nunca senti tão forte a iminência da morte. A primeira coisa que pensei foi que tudo teria sido em vão. Fiquei triste porque dali a pouco não poderia nem tentar ditar o texto e que ninguém nunca saberia o dia que vivi por último. Mas em seguida percebi que não havia sentido vivê-lo com o objetivo de contar, ou virar um texto. Não poderia ser com objetivo nenhum. Só havia sentido em si mesmo. Apenas viver o último dia por ser o último.

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