É necessário voltar

Estava em frente à igreja que fica no início da rua da Consolação, ali no Centro. Os sinos fizeram aquele barulho de quem vai anunciar as horas e badalaram doze vezes. Nesse instante, eu me dei conta do quanto estive longe dali. Na verdade, descendo a Consolação [ainda no sentido centro], percebi que fazia tempo que não passava em frente ao cemitério, rua Sergipe, Antônio de Queirós, Mackenzie, Caio Prado e igreja. Doze vezes ‘bléim’ e onze anos depois reparei que não existem mais lugares em São Paulo onde você sabe que horas são só de ouvir os sinos. Mas no Centro, sim.

Desci no início da Xavier de Toledo. Fui a um prédio da Quirino de Andrade. Perceber o cheiro de urina em todos os cantos foi quando meus sentidos lembraram-se da região. Alguns postes com brasões da República me fizeram nostálgico, mais do que já sou. Não por aqueles tempos, claro, pois nem meus pais eram nascidos [acho]. Mas pelo tempo em que trabalhei ali. Não deu tempo de passar pelo Viaduto do Chá e dar um alô às ciganas que, diariamente, pediam para ler minha sorte ou simplesmente dinheiro para o leite das crianças.

Foi bom rever as tribos dos punks, dos emos, dos hippies, dos nigerianos, dos homens-placas, dos servidores públicos, do rapa e dos amigos de sempre, claro, os mendigos. Estranho esse sentimento. Nunca havia tido-o. Ficar por muito tempo fora de um bairro faz com que uma parte determinada do seu cérebro fique ‘desligada’ Pelo menos para mim, é como se houvesse um mapa da cidade, uma identidade dela impressa no meu cérebro e que ao acessar determinadas áreas, ele ativasse as partes correspondentes do sistema. Não é como visitar o local onde passou a infância, ou onde seus avós moravam. Você se lembra que esqueceu daquilo. Percebe que, embora pensasse no Centro quando as pessoas o mencionavam, você só se lembrava de onde ele era e dos pontos de referência. Mas o cheiro, os rostos, as curvas, as sombras, os tijolos, os pombos, os choros e os passos não faziam mais parte de você. É necessário voltar.

Estava já dentro do ônibus, no final da avenida Ipiranga. Mais uma vez, os sinos se prepararam com aquela melodia que identifica as horas cheias. Dessa vez, foram duas badaladas. A sensação de cidade do interior mais uma vez veio à tona, em pleno caos da Consolação. Foram apenas duas horas que passaram, mas o sentimento foi o de uma vida.

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Uma resposta para “É necessário voltar

  1. oi Ga, só pra dizer que sempre passo por aqui pra ler a sua literatura. vimos sua senhora ontem, está lindíssima. desculpe não mandar o cd por ela, quando a vimos os cds tinham acabado…

    um beijo

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