Carta ao pai

broken-glasses_menor2Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. E sim, esse é o início da “Carta ao Pai”, do Kafka, que utilizo para minha própria carta. Só o fato de eu ter utilizado um trecho dele já deveria responder à sua pergunta. Ainda mais você ter feito justamente essa pergunta para mim. Não percebe? Somos um conto de Kafka, pai. Você, fazendo as perguntas dele. Eu, respondendo com trechos dele. Isso não te bota medo?

A mim, sim. Seria o suficiente para temê-lo, mas as coisas nunca são tão simples assim. Somos além do que uma imaginação do Kafka. Somos a manifestação de algo que só ele poderia imaginar e, mesmo assim, não conseguiu escrever. O clichê “Eu sou você amanhã” é uma piada para nós. Estamos acima dessa medida linear. Eu sou você hoje e ontem, assim como você é o que serei amanhã e o que sou hoje. Por mais que eu tente fugir, eu sempre te vejo em mim, pai. O pior [ou melhor?] é que muitas dessas coisas são conscientes, porque eu acho que é assim que eu deveria ser mesmo. Que o melhor jeito, muitas vezes, é o seu jeito. Mas em meio a esse medo e desespero, consigo perceber algo tão fascinante quanto ele. Algumas vezes me angustio e me preocupo com as mesmas coisas que você. Porém, a minha decisão é diferente. Eu penso, considero, sofro e dou o passo. Você pensa, considera e sofre as mesmas coisas, mas muitas vezes não damos o mesmo passo.

Tem quem cante para espantar os males e demônios. Para mim, sempre funcionou escrever. Mais uma vez, acho que deu certo. Para mim, e para você, pois aprendemos a respeitar nossas semelhanças e conviver, pacificamente [quase sempre], com nossas diferenças. Somos maiores que o Kafka , pai. Nossos medos às vezes podem ser maiores do que nós, mas somos mais do que o produto de um conto para uma revista mensal. Somos mais do que esse texto, ou qualquer outro que nos defina. Ninguém melhor do que nós para entendermos isso: que a metafísica é coisa da nossa cabeça e que na nossa cabeça quem manda somos nós.

Obrigado. Pelo medo e pelas brigas. Pelo cuidado e preocupação. Pelos exageros de proteção e os exageros de liberdade. Pela alegria e pelo humor ácido. Pela doçura e pela mão firme. Obrigado por que aprendi a agradecer pelos males e pelos bens. Porque só essa união fez de mim o que sou hoje. Você me perguntou porque eu afirmo ter medo de você. Já não sei mais. Vamos mudar a pergunta.

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Esse texto foi originalmente escrito para um concurso literário da revista Piauí. Não foi escolhido e cá está.

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Uma resposta para “Carta ao pai

  1. Vira e mexe caio no seu blog e ele tá cada vez mais legal. Esse texto, em especial, é muito bom. Não vi qual ganhou na Piauí, mas eu publicaria. Vou ler mais por aqui.

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