Eu sou feio, mas não tem problema

kurt_cobainEu nasci em 1983. Quando era adolescente, via o pessoal mais velho falando de algumas coisas que eu fingia conhecer ou lembrar. Quando começou o revival dos anos 80, me senti em casa. Sempre ouvi que foi a década perdida na música e, principalmente, nas artes. Ou seja, culturalmente falando, o pessoal que nasceu em 60 – 70 não fez nada de bom, segundo esse pensamento. Claro que não consideram a arte de rua, só para mencionar uma, mas enfim. Acontece que depois de 1989 veio 1990 e a nova década chegou.

O aniversário da morte de Kurt Cobain [5 de abril] me fez pensar nisso. Cresci ouvindo meus pais debatarem o Beatle preferido deles. Paul ou John? Ringo ou George? Talvez Kurt Cobain seja o nosso John e o Dave Grohl um Paul mais legal. O mito vai desde a simbologia do vocalista do Nirvana usando All Star, passando pelas calças jeans rasgada e cabelo despenteado, até a gritaria bem feita, com um som melhor ainda. Paul e John estão para os pais da geração 80, assim como o Nirvana está para essa própria geração. Se os Beatles são os divisores de água, Kurt Cobain é a terra prometida.

[Aqui, não cabe a discussão se os Rolling Stones são melhores do que os Beatles, por exemplo. Como grupo, eu acho os Stones melhores, mas a importância dos Beatles no cenário da cultura pop é inegável].

Dos grandes nomes do movimento grunge, destaca-se o Pearl Jam – apesar do Mudhoney ser algo mais underground e, por isso mesmo, defendido pelos ‘puristas’ do grunge como ‘pai’ do movimento. Mas é inegável o apelo que Kurt Cobain, Kris Novoselic e Dave Grohl têm e tiveram junto a nós. Os caras traduziram os sentimentos da molecada, sem cair para o emocore – que nasceria mais de uma década depois – e não seguindo uma linha politizada. Falavam de sexo, drogas e rock n’ roll, como toda molecada quer ouvir, mas falavam de forma verdadeira e sincera.

A trágica ironia do artista perturbado é que ele é amado por ser daquele jeito. A dor, sofrimento, paranóias e misérias próprias são transformadas em acordes, rimas e músicas que arrebatarão milhões. Quanto mais ele se afunda na lama, mais material tem para o repertório, aumentando exponencialmente a fama entre os garotos que se veem refletidos em olhos perdidos. Talvez isso aconteça com o Radiohead, daqui alguns anos. Ainda mais pela bandeira contestadora e anti-cultura que eles levantam, além de também traduzir sentimentos reprimidos da nossa molecada.

Ouso dizer que a minha música preferida do Nirvana é Lithium. Eu gostava dela desde os dez anos de idade, o que pode levar o leitor a acreditar que eu era uma criança perturbada. Era e não era. Ou melhor, era perturbada, mas dentro dos padrões ‘normais, se é que existe algum padrão para isso. Enfim, o que um trecho da letra diz, em tradução livre e adaptada:

“Estou tão feliz, porque hoje encontrei meus amigos. Eles estão na minha cabeça.
E eu sou feio, mas não tem problema. Porque você também é… e nós quebramos todos os espelhos (…)”

Lindo, não? Lembrando que a música chama Lithium. Talvez seja esse o lance com o Nirvana e Kurt Cobain. Já que a década anterior foi a perdida, porque não chutar o balde então na próxima? A atitude que às vezes define Cobain é exatamente essa: chutar o balde. Dane-se. Para o inferno o mundo. Talvez ele estivesse de saco cheio de ouvir que daqueles dez anos anteriores nada de bom havia saído e simplesmente decidiu botar tudo pra fora e ver no que dava. Deu no que deu.

Depois de pensar em tudo isso, acho que Kurt Cobain não é o nosso John ou nosso Paul. Kurt Cobain quis ser apenas ele. Foi acusado de ser egoísta entre tantas outras coisas, principalmente pela viúva Courtney Love. Pode ser que sim. Pode ser que não. Há coisas louváveis e outras condenáveis. O problema é que atualmente não nos sobram mais referências e mitos a serem seguidos. Os nossos ídolos de lutadores e vencedores são os mesmos ainda da ditura. São os mesmos de nossos pais, como poderia dizer Elis Regina. Mas mesmo não sendo um exemplo de vida [inclusive porque determinou sua morte, cometendo suicídio], é inegável o fato de Kurt ser uma referência, mesmo que você apenas o escolha para isso no quesito música e a diferença que fez no rock. Ou que não seja uma referência a ser seguida, mas que, sem sombra de dúvidas, foi a expressão de um sentimento da época. Uma melancolia que não se contenta com a introspecção, mas grita e externaliza seus demônios. Uma revolta que às vezes não tem inimigo a não ser sua própria insegurança. Se Kurt Cobain não servir de exemplo a ser seguido, serve de exemplo a ser compreendido, para entender toda uma cultura de jovens que hoje se torna adulta. Em último caso, serve para entender um pouco mais de mim mesmo e o que vivi naqueles anos.

Que, mesmo morto, o mito viva e continue com aquele sabor de espírito adolescente.

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2 Respostas para “Eu sou feio, mas não tem problema

  1. “Você deveria aprender a ir embora.
    Você deveria aprender a dizer “não”.

    Pode durar apenas um dia, o meu tem durado pra sempre. Bom… Eles conseguem tudo o que querem e então deixam de querer.

    Vá em frente, leve tudo, é o que eu te desafio a fazer.”

    A viúva ainda falava mais minha língua. Não gosto quando fazem de conta que Yoko Onos servem apenas pra quebrar encontros divinos. É quase, de novo, a mulher sendo culpada pela expulsão do paraíso. Todos sabemos q a coisa não é bem assim.

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